Seu Mathias

Por Ana Helena Tavares

A entrevista foi realizada em Abril de 2008 e, na época, foi publicada numa reportagem que escrevi pro jornal de bairro “Correio Carioca”, onde eu fazia estágio (clique aqui para ler a reportagem), mas esses trechos que seguem abaixo não chegaram a ser publicados. São duas histórias de uma época que não foi nem melhor nem pior que a nossa, mas com certeza de costumes bem diferentes.

Parte 1: Um tempo de alfaiates e carpinteiros… A história de como o Dr. Menezes, dono da Fábrica Confiança, onde Seu Mathias trabalhou por 15 anos, de 1930 a 1945, teve atuação decisiva para o seu casamento.

“Quando Dr. Menezes foi pra França levou daqui uma garota com 5 anos e quando ela veio tinha 18 anos, mas ela falava muito mal o português. Naquele tempo eu era novo, né… Ele trouxe um automóvel… No automóvel de lá a direção era na direita… Ele ficava todo atrapalhado e eu fui, entrei no carro e acertei… Acertei… E a moça sempre me olhando, me olhando… E ela foi trocando uma idéia comigo e coisa e tal… Nesse dia também tinham voltado com ela uns parentes. Quando mataram João Pessoa na Paraíba, houve greve, grandes rebeliões e eles tinham tido que fugir pra França, porque queriam matar eles também. Eu era novo, andava bem vestido… Depois começaram a perguntar: ‘o que tanto fala com aquela menina? Vi falando ontem, hoje de novo…’ E eu dizia: eu gostei da pessoa dela e ela parece que gostou da minha… Um dia o filho do Dr. Menezes me falou: ‘essa é uma menina que meu pai praticamente criou, assim como ele meu deu de tudo, inclusive, tudo pro meu casamento, é isso que vai acontecer com você…’ E ele disse: ‘topa?’ E eu disse: topo! E ele: ‘então hoje você não trabalha mais, vamos pra alfaiataria mandar fazer roupa pra você.’ E eu disse: e quanto custa isso? E ele: ‘pra você nada. Vamos mandar fazer um terno de casimira e outro de linho branco. Depois vamos pra sapataria, temos que ver par de sapatos. Pelo menos um par preto e outro branco. E da alfaiataria você já vai sair também com colete, tudo preparado.’ Perguntei lá pros alfaiates: quantos dias leva pra aprontar tudo isso aí? Responderam: ‘aqui tem 6 alfaiates, só vai levar uns 4 ou 5 dias.’ Tudo rápido, né… Nesses dias não trabalhei mais. Dr. Menezes satisfeito dizia: ‘a menina gostou de você e você também caiu no gosto dela. E outra… Vou mandar preparar melhor sua casa. Dei de tudo pra você, né… Fomos a alfaiataria, agora vamos a carpintaria.’ Chegando lá ele disse: ‘quero móveis completos pra uma casa.’ E o carpinteiro: ‘Ih, em dois dias já tá, a gente aqui tem tudo pronto’. Só não tinha nesse tempo fogão de gás, botijão, não tinha não… Tinha fogão de lenha e por carvão. E o que era a minha geladeira? Geladeira era um caixote de gelo com serragem… Mas tava tudo bem… E eu perguntava: nessa casa bonita vou morar só eu e minha mulher? E me respondiam: ‘vocês só, vocês só’. E a festa de casamento teve tudo! Aquela mesa grande, tábua comprida, comida de toda qualidade, não faltou nada ali. O casamento foi rápido. Foi num sábado, às 18hs. Era gente que dava pra perder de vista. E muita comida pra aquele pessoal todo. Logo em seguida, me entregaram as chaves da casa. Dr. Menezes disse: ‘vamos lá pra vocês verem como ficou com tudo que eu encomendei.’ E eu, espantado: já chegou tudo? E ele: ‘Tudo!’ Depois de 18 anos de casado a minha mulher faleceu.” (Seu Mathias)

Parte 2: Um tempo de militares com outro estilo… A história de como o General Zenóbio da Costa, já falecido e que hoje dá nome ao Quartel do Exército localizado na Rua Barão de Mesquita, deu ao então cabo Mathias Costa um Cadilac faltando uma roda.

“Eu trabalhava com ferro-velho e até hoje trabalho… Engraçado que uma vez o Zenóbio da Costa, o general, me deu um carro, faltando uma roda. Um Cadilac. Mas eu não podia mandar consertar carro nenhum… Pensei: eu tenho que ‘cortar’ esse carro… Peguei um machado e comecei a ‘cortar’ o carro, quando vieram dois policiais e disseram: ‘cadê os documentos desse carro?’ E eu disse: esse carro quem me deu foi o general Zenóbio da Costa. Falei: qualquer coisa é com ele! E eles: ‘então vamos na casa do general. Se acaso ele não deu-lhe o carro você ta preso.’ Certo… Entrei no carro deles, fomos lá… O general tava dormindo. Tinham 3 homens de prontidão na frente da casa e me disseram: ‘o que é que há, cabo?’ E eu disse: ah, esses dois soldados da PM querem os documentos do carro que o general me deu. Disseram que se ele não tiver dado eu vou preso. Pedi pra acordarem o general. E os que tavam de prontidão disseram pros PMs: ‘é melhor não acordar o general não. Olha que esse Seu Mathias aí toda a semana ele vem aqui. O general tem ele como um grande homem. Acordando o general vai dar aborrecimento pra vocês. É capaz de serem vocês a ir presos.’ Os PMs se olharam e disseram: ‘é, vamos botar ele lá onde tava’. Me levaram de volta e ainda disseram: ‘mete o machado, ‘corta’ aí’. Quando o general acordou, os homens de prontidão contaram a história e o general: ‘mas vocês por que não me acordaram? Iam os PMs presos e o cabo cortava o carro.’” (Seu Mathias)

Sabedoria centenária (mais trechos de nossa conversa informal):

Durante a entrevista, Seu Mathias disse várias vezes acreditar que o vício pela bebida, quando fora de controle, tem o poder de desgraçar um lar. Sobre esse tema falou uns versos que diz não saber de quem são, mas que gosta muito e os quais eu, com muita honra, reproduzo agora aqui:

O homem que se embebeda

A mulher fica sem jeito

O artista esquece a arte

O branco perde o respeito

Ele se entorta e se enverga

Da família furta e nega

Só faz pintura do Diabo

O homem que se embebeda

No vídeo abaixo, confira o Seu Mathias declamando os versos acima:

Num determinado momento, eu ainda pedi para que Seu Mathias tentasse se definir e ele preferiu fazê-lo através dos seguintes versos, dessa vez de sua autoria:

Sou Mathias João da Costa

Homem da palavra séria

Digo uma coisa por graça

E depois sustento por vera

Quem me dever uma dívida

Paga em cima da fivela.

No vídeo abaixo, Seu Mathias declama a poesia acima:

Esse é o meu vizinho Seu Mathias Costa, 100 anos. E que até os 97 andava de bicicleta pelas ruas do Andaraí.

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