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“Bolsonaro blefa com as Forças Armadas”, diz general Bolívar Meirelles

Nesta entrevista ao QTMD?, o general Bolívar diz não encontrar nenhuma possibilidade de comparação entre a conjuntura de hoje e a da década de 60. Para ele, “as Forças Armadas não acompanharão Bolsonaro num golpe”.

General Bolívar

Por Ana Helena Tavares, jornalista, editora do QTMD?

Hoje general reformado, Bolívar Marinho Soares de Meirelles é um dos remanescentes entre os militares que foram cassados pela defesa da legalidade e pela oposição ao golpe de 64. Além disso, é mestre em administração pública com a dissertação “Conflitos políticos e ideológicos nas Forças Armadas Brasileiras” (disponível neste link). Nesta entrevista ao QTMD?, o general Bolívar diz não encontrar nenhuma possibilidade de comparação entre a conjuntura de hoje e a da década de 60.

Para ele, “as Forças Armadas não acompanharão Bolsonaro num golpe”. Mesmo porque, garante, “golpe de Estado não é dado somente por militar”. Bolívar acredita que a classe dominante, nesse momento, “não está bolsonarista” e percebe que o presidente vem perdendo apoio entre seus antigos apoiadores. “Bolsonaro vai entrar 2022 de perna quebrada”, vaticina.

A seguir, a entrevista em detalhes:

Ana Helena Tavares: O senhor vê algum paralelo entre o que vivemos hoje no Brasil e o que o senhor viveu na sua juventude na década de 60?

Bolívar Meirelles: Não há nenhuma possibilidade de comparação da conjuntura política atual com a conjuntura dos anos 60. Começa logo pelo fato de que nós não vivemos uma situação de guerra fria. São vários polos que se colocam hoje no tabuleiro.

Houve essa tentativa de golpe do Bolsonaro (no 7 de setembro) que já era para ter resultado no Impeachment dele. O poder judiciário e o poder legislativo já deveriam ter afastado esse cidadão do poder.

Foi abortada. Ele poderia querer. Tinha um grupo de rua mais organizado do que nós que somos contra o governo dele. Somos quantitativamente maiores, porém com menos organização. O jargão ele vai buscar em Plínio Salgado nos anos 30: Deus, Pátria e Família. Isso é integralismo, extrema direita.

Digo sempre que os golpistas têm duas mensagens: uma é o “mar de lama”, como se eles não fossem corruptos. Está aí a prova desse governo desse capitão corrupto, família corrupta. Eles não iam fazer nada de corrupção e eles estão fazendo. Por outro lado, os golpistas agem a partir de uma posição visceralmente anticomunista, que no Brasil costumo denominar de anticomunismo larvar, porque é um anticomunismo tão imbecil que não vê que o Brasil não tem as menores condições sequer de fazer uma revolução socialista. Não há condições, mas eles insistem nisso tentando descobrir anticomunismo até no Lula.

Sempre votei no Lula no segundo turno, porque votava no Brizola no primeiro e Lula era o “menos pior” diante das ameaças neoliberais. Mas aí ele toma posse e foi o que mais beneficiou banqueiros e usineiros. Então, não tem nada de comunismo na cabeça do Lula. No livro “O que fazer?”, Lenin aponta justamente a diferença entre uma posição revolucionária e uma posição sindicalista. Esse livro é fundamental para entender que o Lula não tem nada de comunista. E o PT é um social-democrata devagar.

Como também social-democracia no Brasil é uma brincadeira de mau gosto. O chamado “Partido da Social-Democracia”, o PSDB do Fernando Henrique, foi o que entregou os minérios de ferro e abriu a Petrobrás. O que motivou à época o capitão Bolsonaro, em seu falso nacionalismo, a dizer que queria o FHC morto, porque ele abriu as comportas para o capital estrangeiro. Mas o que faz hoje o governo do capitão Bolsonaro com esse Paulo Guedes? Estão tentando vender todo o patrimônio do povo brasileiro!

AHT: Há alguma chance de Bolsonaro ter sucesso numa nova tentativa de golpe?

BM: Acho que não há chance. E se ele desse esse golpe ele não teria sustentabilidade para permanecer numa situação de golpe. Por quê? Porque golpe de Estado não é dado somente por militar. Ele é demandado, fundamentalmente, pelas classes dominantes. A classe dominante está dividida. Não está bolsonarista.

Nós temos visto esses manifestos saindo recentemente… Então, a classe dominante não está com ele. As camadas médias altas, tradicionalmente golpistas quando se unem, não estão com ele. Ele está se esvaindo. As Forças Armadas estão divididas. A Igreja está dividida. Quem está com ele são essas igrejas neopentecostais, mas a Igreja Católica não está com ele, os espíritas não estão, os evangélicos de igrejas tradicionais não estão. Então, há uma divisão.

E não é o foco hoje do império norte americano ter um governo ditatorial do capitão Bolsonaro no Brasil. Seria até um problema a mais para o império norte americano. E ele não tendo essas forças coesas não há como se manter no poder, ainda mais numa situação de crise. Crise da pandemia, crise da economia.

Nós vivenciamos um momento hoje de perda substantiva (do poder aquisitivo), um desemprego muito grande. O esvaziamento do valor da moeda. Isso aí é impressionante. E qual é a segurança para os investidores virem para o Brasil nesse governo bolsonarista? Eu moro aqui em Ipanema, saio e vejo uma miséria absoluta. Mendigos… Três pedintes por quarteirão buscando esmola. Por que a ditadura, iniciada no golpe de 64, acabou? Porque o Brasil entrou numa crise econômica profunda.

Hoje, eu vejo um quadro quebrado. Tem muito mais gente do povo pedindo o Impeachment do que a permanência do Bolsonaro ou querendo ele como ditador. Não vejo condições concretas nem ao nível objetivo nem subjetivo, porque ele não tem organização suficiente para desencadear o golpe.

Ele blefa com as Forças Armadas. As Forças Armadas, no meu sentido, não acompanharão o capitão Bolsonaro num golpe. Não acredito que o Exército do qual fiz parte seja tão venal a ponto de ser todo comprado em troca de migalhas. Acho que a maioria está preocupada com as instruções e trabalhos internos.

AHT: E as polícias militares não lhe preocupam? O que acha de algumas análises que têm sido feitas apontando risco de insubordinação nas polícias?

BM: Com relação aos policiais militares, também acho que a maioria procura trabalhar. Além disso, tem as milícias bandidas. Veja que eles conseguiram queimar até o nome milícia, porque você sabe que na Espanha houve uma milícia revolucionária anti-franquista. E as milícias da Venezuela têm uma característica completamente diferente desses milicianos daqui. Lá, elas são complementares às Forças Armadas.

Eu não acredito que as polícias tenham força para um golpe, porque acho que o Exército está dividido, não acompanha esse capitão. E eu discordo de um termo que tem sido usado muito pelo coronel Pimentel (oficial da reserva que têm dado muitas entrevistas). Ele fala em “partido militar”. Ele criou essa hipótese de um partido militar que vai jogando para se manter. Eu discordo. Não existe essa coisa. Partido ou é de classe social, ou é burguês, ou é revolucionário ou, ainda, envolve jogos de interesses monetários. Mas não um partido de uma categoria. Se ele vê um partido militar, daqui a pouco vai ter partido dos juízes, dos médicos, etc… Acho que não existe essa coisa.

O Pimentel é bom porque ele vem denunciando muitas coisas. E ele ficou muitos anos no quartel. Já eu sempre digo que sou um general de peito liso e mangas lisas. Ou seja, não tenho medalhas nem cursos. Não fiquei recebendo essa ideologização reacionária. Eu só recebi uma medalha na minha vida que foi a do Pacificador, mas não fui buscá-la. Até porque essa medalha faz referência a Duque de Caxias e acho meio estranho chamá-lo de Pacificador. Ora, ele foi colocando cobertor em tudo o que era corpo… A quem nunca viu, sugiro que assista ao filme “O Grande Ditador”, no qual o Charlie Chaplin faz uma crítica, recheada de ironia, aos generais medalhados.

AHT: 2022 está logo aí. Quais suas perspectivas?

BM: Bolsonaro vai entrar em 2022 de perna quebrada. Ele saiu muito mal dessa tentativa frustrada de golpe, porque, dentro da própria direita que o acompanhava, já tem gente na cadeia e tem um exilado no México (o Zé Trovão, falso líder dos caminhoneiros). Ele (Bolsonaro) vai cada vez mais se desprestigiar e perder essência em meio ao próprio grupo que o apoiava.

Bolsonaro entrou num processo meio esquizofrênico. Foi apelar para um missivista do golpe, o Michel Temer, que deu o golpe na Dilma. E o Temer já havia se movimentado para salvar Bolsonaro na época em que era presidente da Câmara e Bolsonaro subiu no palanque para dizer que queria matar FHC. Ali, Bolsonaro poderia ter sofrido um processo interno de cassação por ter ameaçado de morte o então presidente.

Bolsonaro é um absurdo. Sei que pode parecer discriminatório o que vou dizer, mas ele merece termos fortes: Bolsonaro é um aborto da natureza.

AHT: O senhor chamou Temer de “missivista do golpe”. Então, o que aconteceu em 2016 foi um golpe, general?

BM: Dilma sofreu um “golpe branco”. Branco que eu digo é porque não era vermelho do sangue. Nem foi revolução nem quartelada. Foi uma articulação entre a classe dominante, grande parcela das camadas médias, uma mobilização de rua permanente, que já vinha de 2013, dentro do processo, e o parlamento também contra ela, porque ela não tinha jogo de negociação, como o Lula ou o Temer têm. Ela teve toda a dignidade, mas já estava fraquejando, compondo com o neoliberalismo, com um ministro da Fazenda neoliberal. Ela devia ter ido para a rua defender o governo dela, mas se acuou.

AHT: O general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, revelou em livro ter planejado com o Alto Comando um tuíte, disparado em 2018 e lido no Jornal Nacional, que, na época, influenciou os juízes do STF a não soltarem Lula. Como o senhor avalia isso?

BM: Olha, Marx diz que a história não se repete, quando se repete é como farsa. Nós temos o Tiradentes como símbolo da nossa independência, um mártir. Antes nós tivéssemos tido no Brasil um Simon Bolívar, um nome mais forte, que tinha projeto. Porque Tiradentes não era um homem de grandes projetos nem grande formação como era Bolívar, mas Tiradentes é o nosso mártir. Simbolicamente, ele não entregou os envolvidos e foi martirizado. O Villas Boas não levou nem um empurrãozinho e já entregou o alto comando todo!? O comando do Exército é que decidiu fazer essa pressão. Então, ele vai entrar para a história não como o Tiradentes, mas como Joaquim Silvério dos Reis. Cada um entra para a história pela porta que deseja. Me desculpe o Villas Boas, mas ele não tinha que ter pressionado o poder judiciário. Isso não é função de militar. Ele poderia até achar que o Supremo às vezes vacila. Eu também às vezes acho. Mas o que ele fez não é função de militar. O que é um militar? Nada mais é do que um funcionário público fardado submetido à hierarquia. Tem que prestar continência, tem que se ater às ordens, tem que ter disciplina, essas coisas…

Nós vivemos numa democracia burguesa. Essa palavra (democracia) até poderia ser colocada entre aspas, porque o poder fundamental é da classe dominante. Ruy Barbosa dizia: “maldito o país que tem uma ditadura do judiciário”. Porque, nesse caso, o povo não tem mais a quem recorrer. Sabemos que o judiciário também escorregou. Agora ficou muito claro que aquele juizeco de Curitiba (Sérgio  Moro) e aquele representante do Ministério Público, o Dallagnol, armaram um jogo para prenderem o Lula, para ele não ser candidato e para efetivarem esta mixórdia. E o Moro é tão descarado que aceita ser ministro da Justiça do sujeito que ele beneficiou. Agora o Moro levou um pé do Bolsonaro. O quadro é esse aí.

AHT: Por fim, gostaria de lhe pedir que comentasse uma frase que o senhor sempre gosta de dizer: “Se quiser ter um bom Exército, prepare uma boa sociedade”.

BM: José Saramago dizia: “eu não sou pessimista, a sociedade é que é péssima”. Como é que você vai querer ter um Estado bom, as Forças Armadas bem politizadas no bom sentido no quadro da nossa sociedade? O militar sofre lavagem cerebral na sua formação. Mas e os médicos reacionários que nós temos no Brasil sofrem lavagem cerebral onde? É a própria realidade da sociedade que faz eles serem assim. Então, é nesse sentido que eu afirmo: se você quiser preparar um bom governo e um bom Exército, prepare uma boa sociedade. Eu já disse em outra entrevista que o fã clube do Ustra está no governo. Mas está também na sociedade. Quantas pessoas estão ainda por aí batendo palmas para o governo e pedindo AI-5? O Ustra cometeu absurdos como torturar mãe na frente dos filhos ainda crianças. E por que nunca foi punido? Porque a sociedade civil é fraca.

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Eduardo Azeredo Costa: “O coronavírus está se lixando para o Bolsonaro”

Por Ana Helena Tavares, jornalista, editora do QTMD?

Em março de 2020, o médico sanitarista, doutor em epidemiologia, Eduardo Azeredo Costa concedeu entrevista para o QTMD? e disse enfaticamente: “O desastre Bolsonaro é muito maior do que o coronavírus”. No último dia 09 de setembro, um ano e meio depois, em nova entrevista a este site, ele analisa que ter Bolsonaro na presidência “é um contrabônus extra”, que favorece a disseminação do vírus, porém afirma que, refletindo sobre o assunto ao longo deste tempo, chegou à conclusão de que “o coronavírus está se lixando para Bolsonaro”. Assim como está se lixando para você que lê este texto, para quem o escreve e para o próprio entrevistado.

Arrogância da humanidade

“Acho importante dizer o seguinte: nós estamos numa posição arrogante enquanto humanidade, eu diria, nesta pandemia. Como se fosse o nosso direito de sobreviver e que não importasse o resto. Arrogante acharmos que podemos fazer isso, quando, na verdade, estamos sendo derrotados por uma estrutura biológica mais simples do que a nossa e, por isso mesmo, mais plástica. Ela consegue se flexibilizar e encontrar respostas. Esse bichinho é muito malandro. Está nos dando um banho”, sintetiza Azeredo Costa. Assista a este trecho da entrevista no vídeo a seguir:

Máquina de propaganda

Com a experiência de quem trabalhou na Organização Mundial de Saúde na época da erradicação da varíola e por 30 anos na Fiocruz, tendo sido diretor de Farmanguinhos, Costa critica severamente a “máquina de propaganda da indústria farmacêutica”, que, para ele, tem favorecido a Pfizer e desacreditado outras vacinas, como a CoronaVac. Ele sustenta que a vacina oriunda da China e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan “é boa, com uma estrutura antiga, muito mais segura”. O problema, ele brinca, é que a CoronaVac “dá tão pouca reação que há quem a tenha apelidado de água benta. Talvez com água benta Deus ajude mais”.

Mistura de vacinas: uma má prática de saúde pública

Nesta entrevista, Costa fala ainda sobre a terceira dose da vacina, comentando a crítica feita pela Organização Mundial de Saúde que apontou questões éticas porque muita gente no mundo ainda não tomou nem a primeira dose, especialmente nos países mais pobres. O epidemiologista concorda avaliando que, nesse cenário, “do ponto de vista da equidade, é uma injustiça que se esteja aumentando mais a proteção de quem já tomou duas doses”. Porém, ele vê base científica para esta dose de reforço: “como há evidências de que vai caindo a imunidade, a dose de reforço é importante para mantê-la alta. É importante não haver mais gente transmitindo”, defende.

No entanto, ele se diz contrário à mistura de vacinas. “Essa coisa da ‘misturança’ é o seguinte: importaram 200 milhões de doses da Pfizer e querem de todo jeito fazer alguma coisa para usá-la. (…) A maioria da população brasileira mais velha tomou CoronaVac, porque no começo só tinha ela. Então, tomá-la como reforço, já tendo funcionado, é bom, dá segurança. Misturar não é tão grave numa situação em que não haja outra opção, ou numa situação particular ligada a reações adversas, mas não é uma boa prática de saúde pública planejá-la fora destas situações especiais”, assegura o sanitarista. Sobre a variante Delta, que se espalhou inicialmente pelo Rio de Janeiro, ele alerta que as crianças têm maior potencial de transmiti-la e que precisam ser vacinadas. “A única vacina que dá para vacinar crianças é a CoronaVac. Outras vacinas provocariam muitas reações em crianças sem o mesmo benefício individual”, garante.

Medidas futuras: não dá para imitar o Ibrahim Sued

Falando sobre as medidas de saúde pública que possivelmente precisarão permanecer mesmo após a pandemia, Costa recorreu a uma frase de um famoso colunista social para apontar o que não deve ser feito: “No caso do coronavírus, que em pouco tempo pegou tanta gente, é preciso manter a vigilância epidemiológica e a informação para ação imediata. Não é como o Ibrahim Sued dizia: ‘agora que vocês estão bem informadinhas, a demain’. Não, é informação para a ação. Não é só comunicar. É comunicar para poder implementar medidas”, conclui.

A seguir, as palavras do entrevistado em detalhes:

Ana Helena Tavares: Conversamos no início da pandemia e você via o Bolsonaro como pior do que o Coronavírus. Como vê isso hoje?

Eduardo Azeredo Costa: Esse páreo ficou complicado. Porque cada um com suas particularidades. Nós temos esse marco de ter conversado sobre a pandemia lá no começo. No início, eu achava que não ia durar tanto tempo o caos. Achava que ia ter uma resolução em tempo mais curto. Temos um belo exército de agentes de saúde no Brasil inteiro que poderiam ter informado e ajudado a população. Mas o Bolsonaro, pior do que o vírus, assumiu o lugar do desastre. Mandou através do Mandetta, que a atenção primária ficasse em casa. No ano passado, quase tudo foi muito mal conduzido. Até que veio a vacina e ajudou a colocar um norte mais visível, atropelando até a ira de bolsonarista contra medidas de combate à pandemia.

Bolsonaro fez tudo ao contrário do que deveria ter sido feito e nós todos vimos o resultado. O famoso bate-cabeça dos estados, desarticulando todo um sistema que é um pouco complexo de se mexer. É preciso ter uma autoridade coordenando centralmente as várias partes. Ela não existindo, o que a gente viu foi isso: os estados tentando resolver, descoordenados. Conseguiram alguns se articular e até tentar fazer aquisição direta de vacinas, que a ANVISA não aceitou, porque está bolsonarista na essência.

Então, o que nós vimos foram esforços não frutificarem (por parte dos estados), inclusive em relação à ativação de uma vigilância epidemiológica, porque vários municípios não os acompanhavam. Porque foi cada um por si, trabalhando na ausência de uma liderança nacional, dependendo do projeto eleitoral e crenças sanitárias de cada governador e de cada um dos prefeitos. Enfim, cada um tomou as medidas que tomou de acordo com seu entendimento das necessidades políticas e sanitárias locais.

O coronavírus está se lixando para o Bolsonaro. Ele se aproveita do Bolsonaro. Está se lixando para mim e para todo mundo. Ele tem a sua estratégia de sobrevivência. A cada passo que a gente dá, ele procura outro para sobreviver. Venho fazendo essa reflexão e acho importante dizer o seguinte: nós estamos numa posição arrogante enquanto humanidade, eu diria, nesta pandemia. Como se fosse o nosso direito de sobreviver e que não importasse o resto. Arrogante acharmos que podemos fazer isso, quando, na verdade, estamos sendo derrotados por uma estrutura biológica mais simples do que a nossa e, por isso mesmo, mais plástica. Ela consegue se flexibilizar e encontrar respostas. Esse bichinho é muito malandro. Está nos dando um banho.

É verdade que Bolsonaro atrapalha, mas também não podemos ser cegos. Na maioria dos países, com outros líderes, alguns deles muito mais positivos do que aqui, também as coisas estavam acontecendo mal. Isso é uma coisa que não dá para esconder. Nós tínhamos o problema do nosso enfrentamento, mas outros países que não tinham os mesmos problemas também sofreram bastante. Então, nós tínhamos que ver que não adiantava só focar na questão da gestão Bolsonaro. Tínhamos que mobilizar o maior número de secretarias e de pessoas para o combate. Porque, quando a gente acha que só a gente por direito vai sobreviver e outras não, eu chamei de arrogância, mas é também uma negação da realidade. O cara pensa: sou muito poderoso! E nega a realidade.

Olha o banho que ele (o coronavírus) está dando agora, por exemplo, naquela “super” vacina da Pfizer. Vemos os EUA bombando com a doença. Israel, que foi o campo de prova da Pfizer, fez tudo direitinho, tem todos os recursos, sem nada que atrapalhe, está lá às voltas com o vírus. As vitórias são fugazes, aí começa-se a achar que as vacinas dão uma imunidade de curta duração, etc. Então, você vê que os problemas estão em todos os cantos e temos que aprender com eles. Agora, claro que é um contra bônus extra ter um Bolsonaro na presidência.

AHT: Você tem muita experiência com vacinas. Como tem visto o tratamento dado às diferentes vacinas? Pode-se dizer que alguma é melhor ou pior do que a outra?

Eduardo Azeredo Costa: A questão é a seguinte: nós temos uma máquina de propaganda da indústria farmacêutica que detém a propriedade da Pfizer, que desenvolveu o produto (vacina) e trabalhou para vende-lo. A vacina da Pfizer é uma vacina que todos tinham que ter muita precaução por usar uma tecnologia muito nova, sobre a qual não se tinha muita segurança. Eu sou uma pessoa de mais precaução quando se trata de uso em larga escala na população. Mas ela passou (nos testes).

E temos agora uma discussão, talvez de pouca relevância, que mostra os interesses do Bolsonaro contra a  CoronaVac. Por quê? Porque o governo comprou 200 milhões de doses da Pfizer e não têm como em dizer que isso é não bom. Ótimo para a Pfizer que tem muito poder, vive munindo os jornais e toda a imprensa para dar boas notícias. Já a CoronaVac só tem o poder do estado de São Paulo, porque os chineses não têm possibilidades de defendê-la aqui. Mas é uma vacina boa, com uma estrutura antiga de produzir vacinas, muito mais segura. É uma vacina que pode ser aplicada em crianças, claramente, pelos estudos que já estão feitos.

Então, sou uma pessoa que, do ponto de vista técnico, diria que a CoronaVac responde mais às necessidades do Brasil do que a Pfizer. Mas a vacina da CoronaVac dá tão pouca reação que há quem a tenha apelidado de água benta. Talvez com água benta Deus ajude mais, não sei.

AHT: A OMS fez duras críticas ao uso de uma terceira dose ou dose de reforço, levantando questões éticas. Como você vê isso do ponto de vista ético e científico?

Eduardo Azeredo Costa: Nós temos dois problemas diferentes. Do ponto de vista mundial, é verdade que muita gente não tomou dose nenhuma. E usar uma terceira dose consome, porque a produção, embora já seja muito grande, ainda não dá para todo mundo. Então, do ponto de vista da equidade é uma injustiça que se esteja aumentando mais a proteção de quem já tomou duas doses. Estes estão sendo protegidos, mas não está protegendo todo mundo. Seria um problema ético nesse sentido. Agora, do ponto de vista científico, é interessante citar que essa decisão começou em Israel porque começaram a observar que, possivelmente, a imunidade estava caindo com o tempo.

E, num país de população grande (como no Brasil), mesmo uma vacina que tenha 99% de eficácia não vai proteger uma parcela grande da população. 1% de 200 milhões é 2 milhões. Então, é muita gente adoecendo e, como há evidências de que vai caindo a imunidade, a dose de reforço é importante para manter. É importante até para o mundo inteiro para não haver mais gente transmitindo. Aqui, há um fenômeno meio surpreendente. O Rio de Janeiro foi onde teve essa invasão e disseminação da (variante) Delta. Nós estamos acompanhando um pouco isso aqui e talvez possa lembrar um pouco o começo da pandemia, que no começa (a doença) pega nas classes médias, porque são os que viajam para o exterior. Mas nos outros estados não está acontecendo assim.

AHT: O que você acha da recomendação de misturar vacinas na terceira dose? Há quem diga que a CoronaVac não poderia ser usada nesse reforço. É verdade?

Eduardo Azeredo Costa: Essa história de que a Coronavac não pode ser usada como dose de reforço é bobagem. A Coronavac é muito boa para reforço. Achei muito boa a decisão de São Paulo de usar, especialmente nos mais velhos. Primeiro porque eles não costumam ter muitas reações adversas, mas as poucas que têm costumam ser mais graves neles. A maioria da população brasileira mais velha tomou CoronaVac, porque no começo só tinha CoronaVac. Então, tomar ela como reforço, já tendo funcionado, é bom porque dá segurança.

Misturar não é tão grave numa situação em que não haja outra opção, ou que uma reação adversa anterior acautele justificando o uso de uma diferente, mas não é uma boa prática de saúde pública. Essa coisa da “misturança” é o seguinte: importaram 200 milhões de doses da Pfizer e querem de todo jeito fazer alguma coisa para usar a Pfizer. É uma má prática, porque é fazer algo com um risco invisível sem necessidade. Pode até ser que não exista o risco, mas se há chance de existir, para que fazer? Quem já passou pela experiência com uma vacina deveria voltar a tomá-la.  Eu tenderia a manter a mesma vacina tomada em todos os grupos de idade. Isso depende da disponibilidade. Mas essa é uma boa prática de saúde pública. Misturar vacinas é uma má prática de saúde pública e digo isso com uma segurança absoluta, porque dilui responsabilidades dos produtores, aliás o que a big pharma quis desde o início da pandemia e está impondo.

Agora, há um grupo que a gente tem que olhar. São as crianças. Essa Delta tem uma particularidade, não de tornar-se grave nas crianças, mas fazer-se mais aberta e transmissível nessa faixa etária. Todos os estudos estão mostrando isso: as crianças têm um papel na transmissão (da Delta) que era praticamente nulo antes (nas outras variantes). Ou seja, nós temos que vacinar as crianças. E a única vacina que dá para vacinar crianças é a CoronaVac. Outras vacinas provocariam muitas reações em crianças, com baixíssimo risco de adoecer gravemente individual. Não é legal.

AHT: Pensando num cenário futuro de pós-pandemia, quais seriam as medidas necessárias de serem mantidas?

Eduardo Azeredo Costa: A última coisa é o lockdown. Eu nem sei direito o que nós chamamos no Brasil de lockdown. Chega a ser engraçado isso. Decretam o lockdown para tudo e todos. Para tudo. Fecha as portas, todo mundo se tranca em casa, coisas desse tipo. Eu sempre digo que se não houvesse gente que nunca parou, como quem produz comida, nós estávamos todos mortos de fome a essa altura. Então, não pode ser algo indiscriminado, mas seletivo segundo os riscos e de acordo com os serviços que cada um presta. Profissionais de saúde, por exemplo, nunca puderam parar, mas continuaram tendo riscos. Não pode ser uma coisa assim: chega o lockdown, todo mundo para e cada estado e município interpreta de um jeito. Isso não tem o mínimo de racionalidade. Em vez de um isolamento geral, tem que focar no local onde a situação está ocorrendo.

Agora, as outras coisas a gente sabe como é, porque temos essa experiência. Quase todas as doenças pandêmicas ficam circulando em baixos níveis. É difícil o desaparecimento total. Mesmo no caso da varíola, foi preciso ficar alguns anos vacinando, depois parou. No caso do coronavírus, que em pouco tempo pegou tanta gente, é preciso manter a vigilância epidemiológica e a informação para ação imediata. Não é como o Ibrahim Sued dizia: ‘agora que vocês estão bem informadinhas, a demain’. Não, é uma informação para a ação. Não é só comunicar. É comunicar para poder implementar medidas. As duas pernas têm que andar juntas. Uma equipe preparada para agir assim que haja a informação de um caso suspeito.  E vai lá, vacina todos ao redor, faz testagem e tal. Porque, o que vai acontecer? Daqui a dois ou três anos vamos estar com a população adulta vacinada e vão nascer crianças que não estão vacinadas. Nós vamos ter que manter uma vacinação infantil o quanto antes. Para adultos, tem certas doenças, como a da gripe, que necessitam de uma vacinação anual. Pode ser que a Covid também. Precisa mais tempo para analisar isso.

AHT: A pandemia envolve também questões psicológicas graves. Como sanitarista, qual sua avaliação disso?

Eduardo Azeredo Costa: Acho que tem gente que exagera e é ruim para a cabeça. As pessoas não estão bem por diversas razões, inclusive pela questão econômica, mas também porque estão com pouca conexão umas com as outras. Isso é fundamental para a humanidade. A gente não se dá bem sozinho, em qualquer coisa.

Infelizmente, o Brasil não trabalhou com vigilância epidemiológica, não trabalhou com inteligência e faz esses lockdown indiscriminados. Aí fica todo mundo apavorado sem saber o que fazer. Não saiam de casa! Não saiam de casa! Um absurdo. Uma caminhada num ambiente aberto, como a Lagoa aqui no Rio, só faz bem. O sol ajuda muito.

Os ambientes confinados é que são perigosos. Todo mundo juntinho à noite numa boate é problema. Igrejas, que são ambientes fechados, também. Ou ficar muito perto de pessoas que você não conhece. O que é preciso é que as informações sejam mais dirigidas (localizadas) e não ficar assustando todo mundo, como se ninguém pudesse relaxar nunca. Não dá. Vamos, pelo menos, relaxar por partes.

Eu acho que lidamos muito mal com tudo isso. Porque parte da mídia, que depende de propaganda e do poder econômico, para chamar atenção, precisa criar o pavor. Isso é exagero e o pior é que não é eficiente.

AHT/EAC

Destaque

Vacinas para que te quero!

Por Eduardo de Azeredo Costa*

É possível que as pessoas estejam preocupadas e mesmo confusas com o noticiário
sobre vacinas contra o novo coronavirus pandêmico (SARS-Cov-2) nesse contexto de
uma corrida onde a colaboração e a disputa andam juntas e marcam a linha de uma ética que precisa, no mínimo, realçar as diferenças onde se escondem a competição ideológica e a escaramuça comercial global.


Esse momento ímpar na história, em que vários produtos em teste estão em fases muito semelhantes de desenvolvimento, favorece comparações tanto tecnológicas como mercadológicas. Um dos alvos dessa corrida é a validação da OMS, a qual precisa se equilibrar para prestigiar a todas que ofereçam a expectativa de eficácia e segurança razoáveis, pressionada constantemente por interesses estratégicos e comerciais de empresas, governos e blocos econômicos, inclusive por meio de cientistas, de técnicos e da mídia mundial dos mesmos.


Assim, num esforço de neutralidade ou imparcialidade, propomos esclarecer aspectos
de vacinas em fase mais desenvolvida de estudos clínico-epidemiológicos (fase 3) que
podem ser divididas em quatro grupos, segundo características de produção do
antígeno, isto é, a fração imunogênica que identifica o SARS-Cov-2 como agente
etiológico da COVID-19.


1 – Vacina de virus inativado: O virus é cultivado em células de laboratório há muito
estudadas (que já servem de cultivo para outros virus vacinais) sofrem o tratamento
para inativação, isto é não se replicarão mais. Esse tipo de vacina tem sido muito
seguro, não há possibilidade de produzir uma infecção, podendo ser aplicada em
gestantes e mesmo em pessoas imunodeprimidas. A vacina contra a raiva é a mais


antiga desse tipo (inicialmente cultivada em cérebro de carneiros e depois em
camundongos, foi descontinuada quase cem anos depois por efeitos adversos de
resíduos de tecido nervoso). No caso de vacinas bacterianas se utiliza um adjuvante
para aumentar a resposta imunitária e se usa mais de uma dose (difteria, tétano,
coqueluche) como reforço. Pode ser repetida muitas vezes e em espaços de tempo
variáveis. As reações adversas costumam ser locais ou alérgicas.


A primeira vacina contra a Covid-19 a completar as fases 1 e 2 e publicar seus
resultados foi a da Sinovac (empresa chinesa), que usa como adjuvante o alumen. Os
resultados preliminares do teste de fase 3, que se realiza no Brasil, em acordo com o
Instituto Butantã de São Paulo, foram muto bons em relação à segurança inclusive em
idosos. Ela está sendo testada com duas doses e intervalo curto, exatamente por sua
segurança e para maior e mais duradoura resposta imunogênica.


O Instituto Butantã anunciou de início que não haverá royalties a pagar para que receba a tecnologia de produção. Espera poder entregar para o Ministério da Saúde 60 milhões de doses, a partir de dezembro.


2 – Vacina que utiliza um outro microorganismo (vetor) para “expressar” o antígeno
vacinal: – são vacinas que por engenharia genética modifica um agente que produzirá o antígeno. São conhecidas como recombinantes sendo a mais usada hoje a da hepatite B. (Uma bactéria ou um fungo/levedura é modificado para tanto.)
Em princípio precisam de mais de uma dose para reforçar a imunidade também.
Recentemente, a partir de esforços para produzir uma vacina contra o virus Ebola e
outra para a MERS (sindrome respiratória do oriente médio), foram usados virus
respiratórios humanos benignos (adenovirus do resfriado comum) para expressar os
antígenos virais. A mesma tecnologia foi aplicada, agora ao SARS-Cov-2. Os virus que
foram bem sucedisos para a produção dessas vacinas foram os conhecidos como Ad5 e
Ad26. O adenovirus usado é inativado, tornando-se não replicante. Há algumas vacinas
em fase 3 de estudos com essa tecnologia:


A – A vacina da CanSino (estatal chinesa), utiliza o Ad5 como vetor. Resultados das fases
1 e 2 já publicados, estando em desenvolvimento a fase 3 em vários países. Resultados
preliminares mostram ser segura e de imunogenicidade alta. Utilizará também duas
doses. A empresa patenteou o processo.
B – As vacinas da Jonhson&Jonhson e da Pfizer utilizam o Ad26 como vetor. Ainda não
conhecemos resultados preliminares de fase 3 que estão sendo realizados em vários
países.
C – A chamada vacina russa, é do Instituto Gamaleya. Utiliza na primeira dose o antígeno obtido com o Ad5 ou Ad26 de vetor e na segunda dose com o Ad que não foi aplicado na inoculação inicial, o que produziria uma imunidade maior e mais duradoura. Uma das vantagens seria a primeira injeção produzir alguma imunidade relacionada aonvetor que neutralizaria parte do efeito da segunda. Os resultados da fase 1 e 2, agora já publicados, segundo comentaristas da John Hopkins, publicados na Lancet, coloca desafios a outras vacinas. Um deles é que a vacina foi produzida não só na forma líquida, como liofilizada, que permite utilização em condições de conservação mais precárias dos países tropicais mais pobres (Aliás os cientistas soviéticos produziram a primeira vacina liofilizada da história, contra a variola que permitiu sua erradicação no mundo na década de 1970). Estudos de fase 3 em processo.
Apenas por recordação histórica importante a vacina da varíola foi obtida usando um
outro virus, o da doença de gado bovino, chamado de vacínia, a partir da observação de que ordenhadores de vaca que pegavam a enfermidade não adoeciam de varíola. A
imunidade é portanto cruzada. Era transferida braço a braço inicialmente e depois
produzida a partir de escarificações com o virus em bezerros, com susequente
tratamento. Hoje é produzida em ovos.


3 – A vacina em desenvolvimento mais conhecida no Brasil e possivelmente na Europa
pelo apoio que teve, usa um adenovirus não replicante também, porém, não humano, de chimpanzé (ChAdOx1). É a dita de Oxford, cujo processo produtivo foi desenvolvido em parceria com a biofarmacêutica britânica AstraZeneca (essa tecnologia ainda não teve nenhuma vacina aprovada comercialmente). O Governo brasileiro, tomando por base a capacidade produtiva de Biomanguinhos/Fiocruz, adquiriu antecipadamente (antes do início da fase 3) 30 milhões de doses e a tecnologia de produção por 128 milhões de euros, que estariam disponíveis para aplicação em janeiro e dezembro. Outros 70 milhões de doses seriam adquiridos ao longo de 2021 por mais 180 milhões de euros.
Recentemente o estudo de fase 3 dessa vacina foi interrompido por precaução pelo
surgimento de um caso grave neurológico em uma das pessoas na qual foi aplicada. Essa vacina anteriormente já teve seu estudo suspenso por problemas de efeitos adversos. (Há outra possibilidade para a produção da vacina com outros vetores virais: usar o virus vivo, isto é, replicante, o que significaria que infectaria a pessoa inoculada e no seu organismo produziria o antígeno viral da COVID-19. Os riscos a desaconselham).


4 – O último grupo se refere às que modificam a estrutura do virus reforçando sua
capacidade de produzir os anticorpos específicos. São obtidos por ‘espelhamento’ da
estrutura do virus que é RNA para que se comportasse como um virus de DNA. A partir daí são transferidos para um vetor cellular para aprodução dos antígenos capsulares.
Seriam vacinas do tipo mDNA ou mRNA, “m” representando mensageiro. Esse tipo de
vacina que a Moderna amercana propõe para a Covid-19 ainda não foi aprovada por
entidades reguladoras de qualquer país. Porém já cumpriu a fase1 e 2 de testes clínicos.
Há ainda outras vacinas adiantadas menos comentadas no Brasil, inclusive mais duas
chinesas. Desconhecemos se alguma usa o SARS-Cov-2 atenuado, método de vacinas
virais como da febre amarela e do sarampo que dão longa imunidade com dose única.
Outras vacinas em pesquisa são as chamadas ocas, isto é utilizam apenas a capa do virus ou peptídeos da mesma (VLP). Mesmo com a expectativa de sucesso de mais de uma vacina, será pouco rovável que produzam imunidade duradoura e, também que sejam igualmente eficiente em todos os grupos de idade. Isso significa que será muito
importante implementar uma vigilância epidemiológica rápida e eficiente.
Portanto, cremos que nenhuma delas, a não ser que uma mutação viral atenue de
maneira importante o SARS-Cov-2 circulante no Brasil, eliminará isoladamente a Covid19 do Brasil de imediato. Primeiro porque as quantidades necessárias farão estender o período a mais de uma ano para imunizar a todos os grupos de idade e, segundo, porque a vigilância epidemiológica e uso da vacina na contenção de surtos a cargo do SUS precisará ser eficiente.


**Eduardo de Azeredo Costa, PhD em Epidemiologia, é professor titular de Epidemiologia da ESNP/Fiocruz aposentado, ex-Secretário de Saúde do ERJ e ex-Secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do MS. Atualmente é Assessor de Cooperação Internacional da ENSP/Fiocruz.

11 de setembro de 2020.


Referências:
Bonorino, C – Vacinas contra o SARS-Cov-2: Onde estamos, onde precisamos chegar, e
como fazer isso. Blog da Comunicação da SBI. http://www.sbi.org.br 24 de junho de 2020.
Costa, E A – Vacina à vista! Observatório da Medicina Costa, E A – A vacina russa. HP,
Gao,Q et al – Development of an inactivated vaccine candidate for SARS-CoV-2.

Science
80 2020. https://doi:101126/science.abc1932.
Folegatti, PM, Ewer, KJ, Aley, PK, et al, on behalf of the Oxford COVID Vaccine Trial Group.-
Safety and immunogenicity of the ChAdOx1 nCoV-19 vaccine against SARS-CoV-2: a
preliminary report of a phase 1/2, single-blind, randomised controlled trial. Lancet
2020; 396: 467–78 (Published Online July 20, 2020) https://doi.org/10.1016/S0140-
6736(20)31604-4 . (This online publication has been corrected. The corrected version
first appeared at thelancet.com on August 13, 2020.)
Zhu, F-C, Guan, X-H, Li, Y-H, et al – Immunogenicity and safety of a recombinant
adenovirus type-5-vectored COVID-19 vaccine in healthy adults aged 18 years or older:
a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 2 trial. – Lancet 2020; 396: 479–

  1. Published Online July 20, 2020 https://doi.org/10.1016/ S0140-6736(20)31605-6.
    Logunov, DY, Dolzhikova, IV, Zubkova, DV, et al – Safety and immunogenicity of an rAd26
    and rAd5 vector-based heterologous prime-boost vaccine in two formulations: two
    open-label, non-randomised phase 1/2 studies from Russia. Lancet 2020; published
    online Sept 4. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20) 31866-3.
    Lambert P-H, Ambrosino DM, Andersen SR, et al – Consensus summary report for
    CEPI/BC March 12–13, 2020 meeting: assessment of risk of disease enhancement with
    COVID-19 vaccines. Vaccine. 2020; 38: 4783-4791
    Krause P, Fleming TR, Longini I, et al – COVID-19 vaccine trials should seek worthwhile
    efficacy. – Lancet 2020; (published online Aug 27.)
    https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31821-3
    Valle, S. (Org.) Bibliografia sobre Biossegurança Hospitalar na Pandemia da Covid-19.
  2. Disponível em:
    https://observatoriohospitalar.fiocruz.br/conteudo-interno/biblioteca-sobrebiosseguranca-hospitalar-na-pandemia-de-covid-19-2652020
    Esse artigo de divulgação foi lido e comentado por Silvio Valle, especialista em
    biossegurança, pesquisador da Fiocruz e por Jorge Kalil, especialista em imunologia,
    professor da USP.
    PS – A literatura pode ser estendida e suprimida para divulgação.
    RevfinalEAC.
Destaque

O estúpido congelamento de salários pelos governadores

Por J. Carlos de Assis               

Os governadores aceitaram a imposição de Guedes e de Bolsonaro para congelar salários. Pobres governadores, não sabem o que fazem. Muito provavelmente têm uma assessoria política totalmente ignorante de economia. Cortar salário significa cortar demanda. Cortar demanda significa cortar investimento. Cortar investimento significa derrubar a arrecadação de impostos. Derrubar a arrecadação de impostos significa…cortar salários.

                Mas a tragédia nacional conduzida pela estupidez de Paulo Guedes não para aí. Pequenos empresários estão praticamente privados dos benefícios prometidos pelo Governo, seja porque a Economia prende o dinheiro, seja porque estimula bancos públicos e privados a exigirem uma burocracia intolerável que os impede de recebê-lo. Mais uma vez é a circulação do dinheiro que é bloqueada, junto com o drama humanitário dos que não o recebem.

                Programa de crédito para empresários pequenos e médios em tempo de pandemia é um contrasenso absoluto. Tinha que ser benefício. E não crédito. Quando se pede ou se obriga alguém a ficar em casa confinado é óbvio que se tem que garantir o dinheiro para sua sobrevivência. Entretanto, a primeira parcela dos 600 reais em benefícios para os pobres só saiu com dois meses de atraso, a segunda não saiu e a terceira pode não sair.

                Tudo isso por causa de uma imbecilidade básica: a submissão aos conceitos neoliberais, que dizem que o governo só pode gastar o que recebe. Guedes deveria aprender com Lula, que não é economista, mas que aplicou o caminho correto como presidente. Em 2009, gastou acima da receita, imprimindo dinheiro, com créditos de 200 bilhões de reais ao BNDES, e permitiu que o país saísse de uma depressão para um crescimento espetacular de 7,5% em 2010.

                Numa situação de pandemia gastar mais do que arrecada é a única opção à mão do governo. Com a dramática queda dos negócios, a demanda privada cai, assim como o investimento e a receita pública. A retomada deve se dar pelo aumento do investimento público deficitário até, no mínimo, o esgotamento da capacidade ociosa da economia. E como a demanda está baixa, não há risco de inflação. Esta é a lição do metalúrgico Lula.

                Guedes está sendo obrigado a gastar mais do que arrecada para pagar despesas correntes, pois do contrário o Estado quebraria. Mas não está gastando em investimentos públicos, que é por onde a capacidade produtiva da economia pode ser ocupada e ampliada. Assim, pagamos o preço de ter um presidente imbecil e, junto com ele, um ministro da Economia também imbecil. É dose forte demais para um país de 210 milhões de habitantes.

                E tudo isso considerando o fato de que, pelos meus cálculos, pelos cálculos da Auditoria Cidadã da Dívida e pelos cálculos da Febrafite (Federação Brasileira de Fiscais de Tributos Estaduais), em seu conjunto, os Estados tem um crédito da ordem de 1 trilhão 380 bilhões de reais contra o Governo federal, que vem roubando, sistematicamente, recursos de seus magros orçamentos para fazer superávit primário na União. Até quando, governadores?

*José Carlos de Assis é doutor em economia.

Destaque

Para epidemiologista proposta de lockdown atesta falta de inteligência epidemiológica

O médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa é um crítico da proposta de lockdown feita pela Fiocruz. Costa, que foi diretor de Farmanguinhos, acredita que “lockdown é mais do mesmo”. Para ele, “o momento é de vigilância e controle epidemiológico”. O médico lamenta ainda a falta de um plano de ação para o período pós-isolamento social. E questiona: “46 milhões de testes para quê?”

O médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa é um crítico da proposta de lockdown feita pela Fiocruz. Costa, que foi diretor de Farmanguinhos, acredita que “lockdown é mais do mesmo”. Para ele, “o momento é de vigilância e controle epidemiológico”. O médico lamenta ainda a falta de um plano de ação para o período pós-isolamento social. E questiona: “46 milhões de testes para quê?” Leiam a seguir o artigo que ele enviou para o QTMD?.

ALERTA RENOVADO!* Acerca da situação atual (07/05/2020) da pandemia da COVID-19 no Brasil.

EDUARDO de Azeredo COSTA**

INTRODUÇÃO:

Noticiário de fora do Brasil desses primeiros dias de maio dá conta de que o país se tornará provavelmente o país do mundo com maior incidência e mortalidade pela  COVID-19. E alguns creem que já poderia ser se não fosse a enorme subnotificação de casos e óbitos, inclusive pela falta de meios diagnósticos. Oficialmente temos, já atualizado em 09/05, pouco mais de 10.000 óbitos e 155.000 casos confirmados.

ANÁLISE INSTITUCIONAL SUMÁRIA

O conjunto de razões para o agravamento epidêmico da COVID-19 no Brasil inclui um primeiro fator político, em particular a intervenção negacionista do presidente da república e de seu governo, que levou até à demissão de seu ministro da saúde que pregava o isolamento social e estimulava a abertura de novos hospitais e leitos. No entanto, desconhecemos uma plano de ação que tenha sido deixado para orientar o uso e expansão dos leitos hospitalares públicos e privados, dentro da visão de uma rede assistencial qualificada, ao qual nessa crise deviam estar todos os prestadores diretamente subordinados. De outro lado, o novo ministro assumiu sem condições políticas de atuar e sem equipe própria.

O segundo fator é o inadequado desenvolvimento tecnológico e industrial do Brasil. A importação domina os suprimentos da saúde. Medicamentos, vacinas e testes diagnósticos quando produzidos no país têm princípios ativos ou componentes importados. A falta de inovação em nossos insumos estratégicos levou à importação de tecnologias antes dominadas. O balanço de pagamentos do setor saúde apresentou um défict da ordem de 10 bilhões de dólares anuais em 2015. A economia exportadora de commodities do setor primário, ao revés de estimular indústria complementar, como foi incentivado com a área de petróleo, no agronegócio não existiu e, criando superávit comercial, desestimulou a indústria nacional mesmo de produtos de baixa tecnologia, além de promover estragos ambientais e sociais de longo prazo. Enfim, não temos um projeto nacional-desenvolvimentista há muito tempo. Assim, não somos capazes de, mesmo na situação da pandemia, intervir mais diretamente em decisões produtivas para atender necessidades emergentes de modo planificado.

No entanto, esses não são os únicos fatores para termos agravado os problemas no campo da saúde. As fragilidades de nosso sistema de saúde ficaram expostas. E não se limitou à carência de recursos, como poderiam alguns simplificar. No nível da União não há estrutura federal capaz de unificar as ações de saúde no país e nem mesmo coordená-las. De fato, essa falta de direção e coordenação efetiva, vem mais facilmente à tona na área de saúde pública voltada para a prevenção de doenças, do que na assistencial. Não tendo instrumentos administrativos ágeis, o Ministério da Saúde precisa recorrer à rede de televisão para divulgar normas, sem espaço real de debate interno técnico.

O nível central não desenvolveu um núcleo técnico denso, pois como não existe ação direta substantiva a postura é de gestão, isto é, de negociar tudo para que seja executado com a rede de operação, cujas unidades não estão administrativamente subordinadas. E o MS nem mesmo dispõe de um planejamento orientado para a equidade para indução de ações, fundamental em um país com tantas desigualdades injustas e muita diversidade.

O conjunto de unidades de saúde que prestam serviços é fragmentado e concentrado nos grandes centros, onde se situam seus hospitais de maior densidade tecnológica. Sendo um sistema de saúde híbrido, público e privado, tem focos de interesse e atuação diversos.

A base municipal é absolutamente desigual variando de cidades com uma heterogeneidade que vai de poucos milhares a milhões de habitantes. E ainda não existe uma carreira e quadro nacional de saúde, como preconizado desde a Lei 8142/90, que permita capacitação e treinamento continuado do pessoal da saúde, como já comentamos em artigo recente.1

E o quarto fator e mais grave é a escandalosa concentração de renda e desigualdade social entre os brasileiros, levando à experiência cotidiana negativa para os milhões das periferias e favelas em termos de habitação, saneamento, transporte e emprego. E também de acesso aos serviços de saúde públicos.

COMO SE FAZEM VISÍVEIS ESSES FATORES?

1 – Presidente incentiva a resistência ao isolamento social, inclusive em manifestações públicas. Governadores passam a ter protagonismo, mas têm problemas políticos com alguns municípios e empresários.

2 – Falta de máscaras, reagentes e equipamentos. Esforços desencontrados face a obstáculos à importação num mundo com alta demanda dos mesmos. Iniciativas isoladas próprias de um sistema de saúde com direção pulverizada. Iniciativa de compra absurda de reagente para diagnóstico: testes para 22% da população (46 milhões), sem explicar para o quê. Enquanto isso, em notícia recente, de 06/04, o Secretário Nacional de Vigilância em Saúde declara que existem 100 mil testes aplicados ainda sem resultado. De modo pouco qualificado, alertam-se nas redes para a falta de TESTES EM MASSA.

3 – Ausência de informações padronizadas confiáveis sobre número de casos e óbitos. Todos estão mostrando sua contabilidade ou curvas e histórias de casos pela imprensa. Nenhum tratamento epidemiológico razoável dessa contabilidade foi mostrada até hoje.

4 – Preparo da atenção hospitalar inadequado. Falta um plano nacional georreferenciado dos leitos de UTI e intermediários. A distribuição dos leitos hospitalares já era precária e insuficiente. Quem deveria ter recursos e projetos prontos agora seria o nível federal para a localização e execução visando equidade e risco. Leitos já implantados em alguns locais sem pessoal. Não há notícias sobre a distribuição das ambulâncias ‘avançadas’ (com respiração assistida) do SAMU. Não há registro de uma atividade de integração entre a rede de atenção primária à saúde à rede hospitalar, cuja entrada continua a ser baseada na emergência.

5 – Ausência de articulação efetiva do nível de atenção primária para vigilância e controle epidemiológico. Até hoje não se definiu como tratar a questão da quarentena em casas de pobres, nas vilas das periferias ou favelas. Nenhum projeto foi mencionado visando o  isolamento institucional para casos e não casos infectados e em observação, quando as condições de habitação não permitem a quarentena.

6  – Pessoal da saúde super-exposto ao risco com treinamento e equipamento de proteção inadequado ou ausente resultando em altas taxas de adoecimento e mortes. Estudo de entidade de enfermagem mostra que 65% não tiveram treinamento e 33% trabalham sem material de proteção para lidar com a COVID-19.2  Vários trabalham em mais de um local, como plantonistas! Um escândalo.  

7 – Advoga-se o “lockdown”, como se fosse a mesma atividade de isolamento social com compulsoriedade e regras mais restritivas, lembrando tempos de Oswaldo Cruz com a vacina obrigatória.  Esse assunto merece uma observação adiante por estar absolutamente fora de pauta a vigilância epidemiológica como instrumento importante e complementar do isolamento social. 

BREVE AVALIAÇÃO DO QUADRO ATUAL

Depois de dois meses de isolamento social e parada de muitas atividades obtivemos a mitigação da epidemia no Brasil+. Ou seja, achatamos e alongamos a curva de incidência acumulada de casos e óbitos. Ganhamos, pois, tempo. Mas, a possibilidade de deslocamento para as classes populares, estava prevista. Usamos bem esse tempo? Cremos que sim no aparelhamento hospitalar e manejo clínico-hospitalar dos casos, ainda que não possamos avaliar tecnicamente.

 A análise por município com maiores ou menores taxas não significa que assim permanecerão, se tornando um desafio aos estados. O acompanhamento e articulação eficiente precisam da vigilância (Informação para a Ação), braço da inteligência epidemiológica.

Isso quer dizer que para vários estados do Brasil a hora seria da vigilância epidemiológica e controle. Todavia se, ocupados com o atendimento hospitalar, não aproveitamos pelo menos três meses que tivemos para prepará-las, devemos fazer o quê?

Não temos como evitar fazer outras perguntas: – O que vão fazer com os trabalhadores da saúde do front? Qual o plano para que sejam treinados adequadamente? Os EPIs estão já disponíveis?

Sem essas questões resolvidas devemos impor lockdown (fechar o comércio e outras atividades coercitivamente)? Aí meus compatriotas as perguntas são outras:

Como vai acontecer nas comunidades pobres? Com o apoio das milícias? Violência policial? Amontoar o dia inteiro por semanas em precárias moradias? E depois do lockdown? Tudo estará resolvido? Teremos vigilância efetiva para evitar outras ondas de transmissão?

Não há respostas seguras, empurramos para a frente as respostas. Contamos, no entanto, com a incrível solidariedade dentro de comunidades, como a divulgada pelo The Intercept em Paraisópolis (SP), como estratégia de sobrevivência vigorosa.5

Muitos de nós, lamentamos, até nos sentimos frustrados, como epidemiologistas, de não estarmos em condição de contribuir de modo efetivo na maior epidemia de nossa história recente. Pessoalmente, hesitei muito em escrever dando opiniões tipo “receita”. Em 22 de março, numa entrevista para a jornalista Ana Helena Tavares6, ponderamos algumas questões, na linha de unidade e responsabilidade social.Para o bom controle, mesmo divergindo, preconizei a disciplina social na hora das decisões de uma autoridade nacional de saúde (de fato agora inexistente). A Unidade de Ação é fundamental para o controle.

Enfim, nosso compromisso ético-profissional de sanitaristas e epidemiologistas pede, não futurologia, mas uma sugestão de ação.

UM ESBOÇO DE PLANO DE AÇÃO VOLTADO AO CONTROLE EPIDEMIOLÓGICO

Numa abordagem simplificada a campanha para a eliminação (supressão) de uma doença transmissível tem duas fases.

A primeira é a fase de ataque. Nela de modo indiscriminado se usa uma vacina ou outro meio de controle, como o isolamento social, que impede o adoecimento e a transmissão para parcelas expressivas da população à risco. Assim se diminui a taxa de transmissão a níveis que se pode complementar na segunda fase de modo mais inteligente, de vigilância e controle.

Nessa, a partir de casos suspeitos notificados pelos serviços de atenção  primária que são encaminhados para diagnóstico e tratamento, é feita a pesquisa com o teste diagnóstico PCR para verificar se entre seus contatos há pessoas contaminados e transmitindo a doença, apesar de não terem sintomas, como bem sugeriu Bittencourt7. Toda a família, vizinhos próximos e seus companheiros de trabalho serão também testados e postos em observação. Os positivos aos testes serão isolados e se promove a continuidade da observação por visitas sanitárias, administrando a quarentena, das pessoas e da comunidade contaminada. Outros locais de concentração de pessoas ou de migrantes devem ser visitados para busca ativa de casos suspeitos e infectantes. Assim vai sendo feito o apaga fogo da transmissão nas comunidades. (Na Campanha de Erradicação da Varíola dizia-se, em inglês, ‘mopping up’, que era a ‘secagem das poças’ de suscetíveis remanescentes.) Esse trabalho deve ter o acompanhamento da rede de assistência social no caso da COVID-19 para viabilizar a quarentena ou isolamento.

Essa atividade para ser bem feita deve ter pessoal treinado e boa articulação nas comunidades como os agentes de saúde. Ela depende das UAPS, UBS, Clínicas e Policlínicas de família. Ou no, caso de alguns estados, também das UPAS, que não devem só encaminhar para hospitais, mas notificar o caso e encaminhar para as unidades de atenção à família. Certamente, no Brasil, para as comunidades pobres podemos precisar de casas de (hospedagem) de isolamento para muitos casos.

Essa prática é que foi utilizada na Coréia do Sul, adicionando alguns pontos de vigilância fora do ambiente da saúde como aeroportos e fábricas com muitos trabalhadores, como fazíamos no nordeste usando as feiras para buscar casos e vacinar contra a varíola nos anos 1960.  É importante registrar que na Coréia da Sul foram utilizados apenas 258 mil testes PCR  conforme amplamente divulgado pela Ministra de Relações Exteriores daquele país.9 Sua população é de cerca de 50 milhões de habitantes (0,5% da população foi testada com eficiência).

Já para o acompanhamento da situação imunitária devemos fazer amostragem seriada ou por painéis representativos de áreas ou comunidades, municípios ou estados e repeti-los.

O estudo mais importante para pensar em como acompanhar a evolução da COVID-19 está sendo realizado no Rio Grande do Sul pela Universidade Federal de Pelotas. Foi lá que se pode com 4.500 testes usados em amostra com representatividade para o estado, dizer que o número de casos pode ser até 10 vezes maior do que o diagnosticado.10

Aplicado ao Brasil poderia significar que já temos mais de 1,5 milhões de casos. Esse tipo de procedimento deveria estar sendo feito para o Brasil inteiro, acionando um grupo técnico coordenador. O acompanhamento por amostragem da proporção de já infectados em intervalos periódicos para verificar a evolução não necessitaria, até o final do ano mais do que 400 exames de IGG por estrato geográfico de interesse, como municípios, micro-regiões homogêneas ou estados. Penando em 2.000 desses estudos repetidos 3 vezes temos 2.400.000 testes. Podemos garantir que no total do país para diagnóstico e rastreamento epidemiológico (busca ativa) não precisaríamos mais do que 2 milhões de testes de PCR e 500 mil para IGM (de maior importância para diagnóstico quando o PCR for negativo).  Veja-se que assim podemos falar em 5 milhões de testes ao longo de seis meses. Esse número relativamente alto, decorre do atraso dessas operações de vigilância ativa em relação ao momento que a Coréia do as Sul aplicou.

Não podemos deixar de reforçar que um grupo para exame periódico e freqüente por PCR  são os trabalhadores do ‘front’ da saúde. Esse estudo-procedimento deve ser organizado nacionalmente, a par de providência sérias de treinamento e estudo de fluxo de trabalho e proteção pelo uso de EPIs (equipamentos de proteção individual). (Não podemos deixar de registrar que em Wuhan, a taxa de incidência dos casos em trabalhadores da saúde, desde os motoristas de ambulância, acompanhou o da população geral. Isto é, dada a organização do trabalho e equipamentos, não tiveram sobre-risco.10)

Nossa infra-estrutura nos leva de todas as formas a evitar o uso mais intensivo de laboratórios com equipamentos e por isso mais aquisição de testes de pouca ou duvidosa sensibilidade ou especificidade fragilizam resultados levando a teorias simplistas de não resposta imunitária à infecção. (Enquanto fala-se sobre testes para uso planejado, a ANVISA concede registro para venda em farmácias dos testes. Qual uso?)

CONCLUSÃO:

O enfoque predominante técnico, não pode descartar o compromisso social e político do autor com os trabalhadores e a nação brasileira. Para muitos, o lockdown está soando não como uma panacéia, que não é, mas como uma ameaça.

Por isso, nosso desafio é fazer a nossa parte na saúde o melhor possível para que os que vivem em condições precárias não sejam, de novo, os que mais sofram com o remédio (lockdown) fruto do descaso continuado, agravado pelo coronavirus no Brasil. A hora é a da vigilância epidemiológica e controle organizado em base comunitária.

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* Artigo condensado de ALERTA RENOVADO encaminhado em 09/05/2020 para o Observatório da Medicina no site da ENSP/Fiocruz.  **Epidemiologista.

______________________________

REFERÊNCIAS:

1 – Costa, E. Fortalecer o SUS, Tarefa Nacional. Editorial Comun. Cien. Saúde, v. 31 n. Suppl 1 (2020): Suplemento especial sobre a COVID-19

https://www.escs.edu.br/revistaccs/index.php/comunicacaoemcienciasdasaude/article/view/66

2 – Denise Motta Dau (diretora ISP) – Dados de levantamento realizado pela SEESP e ISP. em debate público com Solange Caetano ( presidente SEESP) e Hermano Castro (Diretor ENSP/Fiocruz). Transmitido pelo facebook.com/solande.caetano.5621.

3 –  Ferguson, MN et al. Impact of Non-pharmaceutical interventons (NPIs)to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand. Report 9. Imperial College Response Team.2020.

4  – Rose, G. The Strategy of Preventive Medicine. Oxford University Press, 1992.

5 – The Intercept: https://www.youtube.com/watch?v=XYllWZHOs5U

6 – Tavares, AH. – QTMD? https://quemtemmedodademocracia.com/2020/03/28/epidemiologista-considera-surpreendente-evolucao-rapida-da-pandemia-e-defende-isolamento-horizontal/

7 – Bittencourt, RJ. Testagem de rastreio e busca ativa de infectados assintomáticos pelo SARS-

COV-2: a visão do planejamento em saúde pública. v. 31 n. Suppl 1 (2020): Suplemento especial sobre a COVID-19. https://www.escs.edu.br/revistaccs/index.php/comunicacaoemcienciasdasaude/article/view/19

8 – Vídeo da Ministra que está no You Tube. https://www.youtube.com/watch?v=8Dq3Yl_fWwU

9 – Estudo da Universidade Federal de Pelotas sobre COVID-19. https://estado.rs.gov.br/upl

10 – CDC China. The Epidemiological Characteristics of an Outbreak of 2019 Novel Coronavirus Diseases (COVID-19) – China, 2020. (http://weekly.chinesecdc:80/).


+ Usamos aqui a palavra mitigação no sentido habitual, um artigo de cientistas de dados do Imperial College de Londres elevou o sentido dessa palavra a uma estratégia de controle misto parcial3. Já o neologismo de isolamento vertical corresponde à estratégia de controle do alto-risco, já mostrada nos anos 1980 por Geoffrey Rose4 como inadequada para controle a nível populacional.

Destaque

Deputado federal Rubens Otoni aciona MPF para garantir EPIs ao SUS

Faltam EPIs para os profissionais de medicina no combate à pandemia de coronavírus.

Por Renato Dias, de Brasília

Sem isolamento social horizontal, longe da universalização de medidas protetivas, com os exemplos negativos do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, o deputado federal Rubens Otoni Gomide [PT] informa, com exclusividade, ter protocolado representação no Ministério Público Federal [MPF]. Motivo: assegurar o fornecimento de equipamentos de proteção individual [EPIs] aos profissionais do SUS. O Sistema Único de Saúde. Ele foi criado com a promulgação da Constituição Federal. Em 5 de outubro de 1988. A Carta Magna Cidadã.

_ O Brasil já ultrapassou a China. No número de mortos. Pelo Coronavirus Covid 19.

Prevenção e combate

Os trabalhadores da área de saúde estão, hoje, na linha de frente da prevenção, tratamento e combate ao vírus, informa o parlamentar. Pesquisas apontariam uma suposta subnotificação. Os casos poderiam já ter ultrapassado a marca de um milhão. Nas 27 unidades da Federação. No Brasil. Uma tragédia de saúde pública, sanitária, social e humanitária, lamenta o líder petista. A União e o Estado devem prover os profissionais com EPIs, dispara. O Ministério Público Federal poderá oferecer denúncia contra o Governo Federal. Não há prazo definido.

Destaque

Jardel Sebba: ‘Eleitor não votou em Moro’

O ex-presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, Jardel Sebba

Por Renato Dias

O eleitor não votou em Sérgio Moro para a presidência da República, dispara o ex-presidente da Assembleia Legislativa Jardel Sebba [PSDB]. Quem deve mandar é Jair Messias Bolsonaro, insiste. O ex – magistrado saiu com um comportamento não republicano do Ministério da Justiça e Segurança Pública, acredita. Mensagens de celular não constituem provas robustas, fuzila. Apenas o tempo irá dizer com quem está o monopólio da verdade, da razão, afirma ele. O poder de nomeação é privativo de Jair Bolsonaro, avalia. “O ex-juiz extrapolou a sua função.”

_ O estabelecimento de uma crise política e institucional sob a Pandemia do Coronavírus Covid 19 é contraproducente. Ao Brasil. Com milhares de contaminados, infectados, mortos.

Jair Bolsonaro erra ao não usar máscaras, anunciar uma suposta ‘gripezinha’, estimular flexi­bili­­za­­ção, sair às ruas, cumprimentar eleitores, fazer ‘selfies’, pontua o médico e ex-secretário de Es­tado. O impeachment de Dilma Rousseff teve motivação política, diz. O ex-prefeito de Ca­ta­lão rejeita a proposta de impedimento do inquilino do Palácio do Planalto. A Pandemia, a re­cessão global, a crise econômica que grassa os setores primário, secundário e terciário, mos­tram que nada será como antes, atira. A flexibilização da Economia agrava o cenário de saúde.

– A abertura do transporte coletivo transformou-se em um caos. A explosão da curva de contaminação pode ocorrer em 15 dias. A crise afetará a sociedade brasileira.

Destaque

“Governo Bolsonaro acabou”, diz deputado federal de Goiás

O deputado federal Rubens Otoni Gomide (PT-GO).

Por Renato Dias, especial – De Brasília

A saída de Sérgio Moro, do Ministério da Justiça e Segurança  Pública, é ‘oportunista’, dispara o deputado federal Rubens Otoni [PT-GO]. Servil a Jair Bolsonaro, desde a condenação de Luiz Inácio Lula da Silva, sem provas, com base em ilações, que permitiu a eleição do ex – capitão do Exército Brasileiro [EB], em 2018, fundadas em ‘tusunami de Fake News’, diz  o parlamentar.

– Sérgio Moro não investigou o caso Queiróz, o assassinato de Mariele Franco, vereadora do Psol, Rio de Janeiro, muito menos os casos das ‘Fake News’.

Economia e Covid 19

Paulo Guedes, ministro da Economia, um adepto das ideias da Escola de Chicago, dos EUA, insiste no ajuste fiscal, traz o desmonte do Estado, com índices elevados de desemprego e desalento, alto número de homens, mulheres e crianças em grave situação de vulnerabilidade social, além de um enorme contingente de brasileiros no mercado de trabalho informal, reclama.

– O governo de Jair Messias Bolsonaro acabou!

Sem planejamento, a União não enfrenta com políticas públicas de saúde e sanitárias a Pandemia do Coronavírus Covid 19, que iniciou-se na China, instalou-se na Europa, chegou aos Estados Unidos das Américas e somente depois ao Brasil, lamenta Rubens Otoni. O líder petista alerta para o crescimento das curvas de contaminados e de mortes, no País. “Absurdo.”

– Jair Messias Bolsonaro viola a recomendação de isolamento social horizontal da Organização Mundial de Saúde,faz pronunciamento, desestimula uso de máscaras e presta desserviço

Ditadura, não!

O Brasil deveria realizar investimentos públicos, suspender o programa de redução do Estado, gastar na área de saúde, cuidar das pessoas, metralha. Primeiro, o ser humano, depois a economia, frisa. “Jair Bolsonaro participa de atos que rasgam a Constituição Federal, como as manifestações que pedem o fechamento do Congresso Nacional, do STF e a censura à imprensa”.

– Como a volta da ditadura civil e militar. Uma noite que durou 21 anos. Tempos sombrios.

Destaque

“Caminhamos para um colapso e o grande responsável é o presidente”, diz ex-ministro da Saúde

O médico sanitarista José Gomes Temporão na época em que era ministro da Saúde. Foto: EBC

Por Ana Helena Tavares, jornalista

“Nós poderíamos estar conversando lado a lado, aqueles beijinhos iniciais, um abraço, um cumprimento, mas estamos aqui (cada um em sua casa numa conversa por vídeo). Claro que isso mexe com todos nós, uma situação nova. Experimentam-se, ao mesmo tempo, evidências políticas, científicas, de saúde pública, antropológicas, sociológicas e culturais. Mas espero que a gente saia dessa situação também com o olhar diferente para algumas dimensões”.

Com essas palavras, o médico sanitarista e ex-ministro José Gomes Temporão, que comandou a pasta da Saúde durante todo o segundo mandato de Lula e enfrentou a epidemia de H1N1, concluiu nossa conversa que durou cerca de meia hora, cuja gravação está disponível na íntegra ao final deste texto.

As dimensões a que ele se refere são basicamente três: a importância do Estado, o respeito à ciência e o fortalecimento do SUS. Ao longo da entrevista, ele comentou cada uma delas. Falou também sobre como a atual crise política brasileira prejudica no combate à pandemia de Covid-19.

Temos o pior dos cenários: crise econômica, crise política e crise sanitária. As condições políticas que o Brasil vive estão comprometendo drasticamente a capacidade de o país responder com qualidade a esse desafio de saúde pública. Caminhamos para um colapso da saúde pública e o grande responsável por essa questão, em última análise, é o presidente da República, que vem se portando de maneira irresponsável, colocando em risco a saúde da população brasileira.

Eu diria que o que vamos assistir nas próximas semanas serão milhares de brasileiros morrendo por conta da irresponsabilidade de nossos governantes. Porque o que está levando grande parte das pessoas a romperem com o isolamento social é a impossibilidade de sobreviverem em casa. 40 milhões de trabalhadores que trabalham por conta própria. 11 milhões de desempregados. E as medidas econômicas que o governo anunciou até agora são risíveis. Os 600 reais que não estão nem chegando às pessoas adequadamente.

Quando nós precisaríamos nesse momento de uma política anticíclica, totalmente heterodoxa, com uma renda universal, com investimentos maciços na área de saúde, com uma reconversão da nossa indústria para a produção de equipamentos e insumos para o SUS. Nada disso você vê o governo discutir. Então, é pouco sério nesse momento defender retorno ou flexibilização do isolamento social. O fluxo de veículos nas cidades aumentou, as pessoas estão saindo de casa, e isso aponta para um cenário muito dramático nas próximas semanas.”, avalia.

Sobre o papel do Estado, Temporão acredita que tudo o que estamos vivendo serve para desnudar “a falácia de que o mercado tudo resolve e que o Estado é a grande causa de todos os problemas do Brasil”. Ele acredita que “a situação econômica vai ficar no chão e sem o Estado forte que lidere o processo de reerguimento da economia nós não vamos avançar”. Sobre a questão da ciência, o sanitarista considera “inadmissível que a gente consiga viver num país como o Brasil com um governo que nega e despreza a ciência, e ainda ataca os cientistas”. Já sobre o SUS, o ex-ministro aponta a necessidade de se repensá-lo e fortalecê-lo, garantindo sua sustentabilidade econômica.

“Existem muitos Brasis e muitos SUS”

As diferenças regionais brasileiras se refletem em diferenças na qualidade de atendimento e na oferta de leitos do SUS em cada região, analisa Temporão, o que se agrava pela desigualdade social do país e pelo pouco investimento público:

“Hoje, não temos uma estrutura de financiamento que dê sustentabilidade ao SUS. E temos que lembrar que no governo Temer, em 2016, foi aprovada a famigerada emenda constitucional 95 que congelou os gastos em políticas sociais por 20 anos. Isso significa que, de 2016 para cá, o orçamento do Ministério da Saúde, perdeu, pelo menos, 20 bilhões de reais. Isso foi um crime contra a saúde pública e contra as políticas sociais. E o Congresso Nacional aprovou, sob o aplauso de grande parte da sociedade brasileira.

Então, nesse momento em que as pessoas precisam tanto do SUS, perguntam: ‘bom, onde é que nós erramos? Por que não temos leitos? Por que não temos respiradores? Profissionais? Por que os profissionais não são bem remunerados? O que está acontecendo? Por que nós não produzimos aqui? Dependemos de tudo ser produzido e importado de fora?’ Ora, é um conjunto de fatores, é um somatório, de fragilização econômica, financeira, tecnológica.

Existem muitos Brasis e muitos SUS. Uma coisa é o SUS da região amazônica. Outra coisa é o SUS do Sul e Sudeste. Outra é o SUS do Nordeste. E isso agravado pela brutal desigualdade socioeconômica, que é uma singularidade brasileira e um agravante do quadro que está se desenhando aqui. Então, eu afirmaria o seguinte: sim, o SUS vai salvar muitas vidas. O SUS vai ser absolutamente imprescindível e espero que a sociedade brasileira aprenda com isso e reflita sobre a importância de termos um sistema universal que seja sustentado politicamente por todos os brasileiros. Para nós e para as próximas gerações. Mas, ao mesmo tempo, nós vamos ver o SUS mostrar fragilidades, as quais são estruturais, não apenas conjunturais, e precisamos refletir sobre isso”, alerta o médico.

As características específicas da Covid-19 já levaram ao colapso de sistemas de saúde em vários países.

“É importante dizer que nenhum sistema de saúde do mundo está preparado para enfrentar uma situação como essa. Qual é a questão central, para as pessoas entenderem? Nós estamos falando de uma doença que cerca de 80% das pessoas que entrarem em contato com o vírus não vão sequer apresentar sintomas ou vão apresentar sintomas muito leves. 15% vão apresentar sintomas que eventualmente necessitarão de algum tipo de assistência.5% vão desenvolver casos mais graves.

O problema é que esses 5% vão necessitar de atenção muito especializada em hospitais, usando medicação, fazendo diálise, porque existe uma falência renal em muitos pacientes, necessidade de ventilação, cuidados intensivos. Isso sobrecarrega o sistema de saúde de qualquer país, basta ver o que aconteceu na Itália, na Espanha, e está acontecendo nos EUA. A rigor, nenhum país está totalmente preparado.

Dizendo isso, temos que pensar que SUS nós temos. Um SUS que nas últimas 3 décadas foi atacado pela sociedade, pela grande mídia, e deixado ao relento pelos governantes de vários matizes políticos e ideológicos”, dispara o ex-ministro.

Influência da crise política no enfrentamento à pandemia

No momento em que se dá a pandemia do novo coronavírus, o Brasil é governado pela extrema-direita e, além da crise sanitária, o país convive com uma crise política. Como um problema influencia o outro?

“Influencia muito. De modo muito negativo. Por quê? Trata-se de uma doença nova. Podemos dizer que estamos vivendo um experimento singular na história da humanidade. Um dos princípios para se enfrentar uma situação desconhecida, em qualquer país ou governo, deve ser o respeito à ciência. E olhar o que está acontecendo nos outros lugares do mundo. Nos falta exatamente isso. Essa coerência, essa coesão.

Nesse momento, a liderança máxima de um país tem o papel intransferível de passar para a sociedade tranquilidade, firmeza e transparência. Liderar o processo de enfrentamento à pandemia. E o que nós estamos vendo desde o início é a negação de todos esses princípios. O presidente, claramente, nega a ciência. Virou garoto-propaganda de um medicamento, quando, na verdade, acabou de sair um artigo publicado* mostrando que há evidência de que a hidroxicloroquina faz mais mal do que bem.

Brigou o tempo todo com o seu ministro e o demitiu. Nomeou um novo ministro que ainda não disse a que veio. Insiste na dicotomia entre economia e saúde, que é uma falsa questão. Na verdade, nesse momento, a economia tem que estar a serviço da saúde”.

Um general no Ministério da Saúde

O atual ministro da saúde Nelson Teich nomeou o general Eduardo Panzuello para a secretaria executiva, com a tarefa de agilizar as medidas em relação a insumos, remédios e equipamentos. Temporão vê com extrema preocupação a nomeação de militares para funções estratégicas no combate à pandemia.

“Se alguém escolhesse um sanitarista para ser o segundo homem do ministério da Defesa, soaria exótico. Então, acho que essa nomeação é descabida. Não faltam técnicos de qualidade e competentes para assumir esse cargo. Não sei até que ponto isso foi imposto para o novo ministro, a quem eu não conheço. Mas pode ter certeza de que é uma pessoa que não conhece nada de saúde. Pode conhecer muito de logística, mas pelo fato de não conhecer do setor de saúde, num momento de pandemia, acho uma medida altamente questionável”.

H1N1 X COVID-19

Em 2009, o mundo enfrentou outra crise sanitária com o vírus H1N1, que começou no México e teve a capacidade de passar de suínos para humanos. Não era um coronavírus, mas sim da família influenza. Temporão, que era ministro da Saúde, comenta as semelhanças e, principalmente, as diferenças, e explica por que, naquela época, não houve necessidade de isolamento social global como vemos hoje:

“Eu estava outro dia revendo notícias de abril e maio de 2009 e a sensação de impotência, de medo, de insegurança, era tudo muito parecido com o que se viu no Brasil dois meses atrás. Mas as diferenças são muito expressivas. Primeiro, naquela época nós tínhamos medicamento. No caso do coronavírus, não temos.

Segundo, tivemos condições de num tempo muito curto haver vacina. Isso porque o vírus H1N1 é da família influenza, para a qual já havia vacina. Essa que se toma regularmente. E o Instituto Butantã, em São Paulo, é dos maiores produtores de vacinas no mundo. Então, em janeiro de 2010, o Brasil já teve condições de vacinar 100 milhões de pessoas. Metade da população. Foi o país que mais vacinou no mundo.

E terceiro, percebeu-se rapidamente que a letalidade do H1N1 era muito semelhante à letalidade dos outros vírus influenza. Vários estudos já apontam que a letalidade do coronavírus é muito maior. E as pessoas com coronavírus (em estado grave) necessitam ficar internadas por mais de 15 dias. São diferenças muito importantes que levaram a que naquele momento não fosse necessário uma estratégia de contenção, de isolamento, como hoje. Ou seja, este vírus é muito mais agressivo, é muito mais grave, tem uma capacidade de disseminação muito grande. Infelizmente, nós ainda não temos ciência para ter uma medicação e a vacina ainda está distante”.

“Fiquem em casa”

O ex-ministro alerta que “a única resposta que a ciência pode nos dar nesse momento é: fiquem em casa”.

“Isso pode parecer dramático, mas é a verdade. Nós não temos até o momento nenhum medicamento que atue diretamente sobre o vírus, que pudesse ser usado no início dos primeiros sintomas, reduzindo o grau de gravidade. É o que gostaríamos de ter: uma droga que aos primeiros sintomas a pessoa pudesse tomar e impedisse a evolução para casos mais graves. Infelizmente, não temos. A primeira vacina começa a ser testada agora na Alemanha. Teremos os primeiros resultados preliminares em junho ou julho. Se funcionar, é possível que no primeiro semestre do ano que vem tenhamos uma vacina. Aí o cenário muda. Tendo essa vacina, poderemos utilizá-la e proteger as pessoas”.

“Informação com transparência é tão importante quanto ter leitos”

Onze anos atrás, época do H1N1, o whatsapp estava sendo criado e as redes sociais ainda estavam engatinhando. Não se via todo mundo com celular como hoje. Essa explosão tecnológica também exerce influência positiva e negativa sobre o combate à pandemia, como explana Temporão:

“Por um lado, isso é bom porque você tem uma possibilidade muito grande de disseminar informação de qualidade. Por outro lado, você tem uma fábrica incrível de notícias falsas. Inclusive, já existe uma discussão na sociedade brasileira quanto à punição para quem produz e dissemina as chamadas fake news. Porque (no caso da pandemia) é um crime contra a saúde pública.

Por outro lado, há uma possibilidade maior de redes de colaboração de pesquisadores, discutindo, apresentando evidências, avançando em termos de conhecimento. Eu diria que a informação com transparência numa situação como essa é tão importante quanto ter leitos, respiradores, médicos e enfermeiros.

E o Brasil está mostrando isso: como o ruído na comunicação, como a falta de transparência, como a irresponsabilidade de governantes, a falta de coesão e de uma condução homogênea e harmônica do enfrentamento dessa situação, pode causar problemas. Então, quanto mais clara, transparente e objetiva a comunicação, orientando a população, transmitindo segurança, mas mostrando a realidade, tem um valor inestimável para resultados positivos”.

O exemplo português

Portugal tem sido um dos países mais elogiados quanto à eficiência no combate à pandemia. Para Temporão, que é português de nascimento, vários fatores explicam esse sucesso, mas o primeiro deles foi a adesão da sociedade portuguesa ao isolamento e o outro a seriedade dos governantes:

“Deu certo, primeiro, porque a sociedade portuguesa aderiu massivamente ao isolamento social. Aliás, a sociedade fez isso antes do governo. O governo correu atrás da sociedade. Segundo, o sistema de saúde português é como o nosso SUS. Eles têm um sistema universal também. E, claro, é um país com 10 milhões de habitantes em uma situação de um sistema muito mais sólido, de muito mais qualidade que o nosso, com muito mais recursos. Quando você olha para a Europa como um todo, Portugal não é um país rico, mas, comparado com a situação brasileira, é muito mais homogêneo.

E, o mais importante, lá nós não temos um primeiro ministro que vai para a televisão, com frequência, falar sandices. Ou criar inquietação na sociedade ou dizer que as pessoas têm que sair de casa para trabalhar. Ou que não escute o que o ministro da saúde está dizendo. Isso lá não acontece. Tudo isso explica: coesão, liderança, qualidade do sistema de saúde, menor desigualdade social e um primeiro-ministro sério que preza a ciência e defende a vida dos seus concidadãos acima de qualquer coisa.”

“Como será o amanhã?”

Um samba enredo de 1978, da União da Ilha, composto por João Sérgio, perguntava “como será o amanhã?” E completava: “Responda quem puder”. Segundo Temporão, nesse momento ninguém pode.

“O grau de incerteza é enorme. O novo ministro (Nelson Teich) fala em testar mais para ter mais conhecimento da realidade e a partir daí iniciar um processo de flexibilização do isolamento social. Ora, primeiro, não se sabe até que ponto esses testes rápidos, que usam uma gota de sangue para fazer o diagnóstico, são eficazes, qual a qualidade deles.

Segundo, não existe pesquisas ainda que assegurem se o grau de imunidade das pessoas que entraram em contato com o vírus é permanente ou não. Terceiro, não se sabe se esse grau de imunidade é alto ou baixo. Ou seja, sabe-se muito pouco. Qualquer afirmação nesse sentido é chute, na verdade. Qualquer epidemiologista, ou pesquisador, sério teria nesse momento sérias precauções de defender qualquer tipo de flexibilização do isolamento social“.

“Nova normalidade”

“Não há nenhuma previsão” de volta à chamada “normalidade” e possivelmente teremos que nos adaptar a uma “nova normalidade”. É o diagnóstico do médico sanitarista:

“Eu diria que grandes eventos com multidões aglomeradas, esqueça. Probabilidade de daqui a alguns meses, eu não saberia dizer quantos, talvez dois ou três, você iniciar um processo de volta a essa nova normalidade, que não será uma normalidade normal, será uma normalidade nova que a gente não sabe ainda qual é, por etapas, por setores, é o mais provável. Aliás, isso começa a acontecer agora na Alemanha. Também na França. Eles estão alguns meses na nossa frente e vamos poder aprender com eles.

Então, nós temos que aguardar ainda um pouco mais. A ciência mundial está fazendo um gigantesco esforço. É impressionante como nós avançamos de 2009 para cá, pensando na minha época de H1N1, em termos de redes de pesquisadores, recursos para pesquisas, novas investigações… Nós vamos ver muitas coisas interessantes e novas nas próximas semanas, nos próximos meses, mas nesse momento em que conversamos o grau de incerteza é muito grande”.

O medo maior é pela situação do Brasil

É natural que situações de incerteza gerem medo. Temporão diz que gostaria de dar “uma contribuição maior” nesse momento e assegura que não teme tanto por si, mas muito mais pelo país:

“Tenho 68 anos, vivo com minha mulher que tem quase 65 anos, com minha sogra que tem quase 90, e com um filho. Evidente que todos nós ficamos preocupados. No meu caso, como sou médico e estou acompanhando de perto toda a situação, sei de muitas informações e claro que tenho preocupação. Mas minha grande angústia nesse momento é estar observando sem poder dar uma contribuição maior.

Tenho trabalhado muito, tenho dado dezenas de entrevistas, tenho escrito artigos, tenho feito o que eu posso. Participo de muitas redes, muitos grupos que trocam informações, que conversam, que mobilizam pessoas, acho que isso é fundamental. Mas hoje eu te diria que estou mais angustiado pelo que vai acontecer com o nosso país, pelas dificuldades que vamos atravessar nos próximos meses, do que pela minha situação individual”.

*Para ler (em inglês) o artigo citado sobre a hidroxocloroquina, acesse os links:

https://drive.google.com/file/d/1wHB5IQcuPH8MsN0Qa2kZTQIvySYEKTGm/view?usp=sharing

https://drive.google.com/file/d/1CDUftrxEiYHzhFT5f8odYHgU7xD7KebJ/view?usp=sharing

Destaque

Advogados do DF impetram mandado de segurança no STF contra Bolsonaro

Na noite deste domingo (19), foi impetrado um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de limitar as atribuições do presidente da República, suspendo parte de suas funções.

Bolsonaro tosse ao participar de ato que pedia a volta do AI-5 neste domingo, 19/04.

Ana Helena Tavares

Na noite deste domingo (19), foi impetrado um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de limitar as atribuições do presidente da República, suspendendo parte de suas funções.

O documento, assinado pelos advogados José Rossini Campos do Couto Correa e Thiago Santos Aguiar de Pádua, inscritos na OAB-DF, alega que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, vem sendo omisso em dar prosseguimento ao processo no qual Bolsonaro é acusado de crime de responsabilidade por não ter apresentado o resultado de seus testes de Covid-19.

A petição também aponta omissão do Congresso diante das várias liminares e cautelares feitas em razão da atuação indevida do presidente da Republica, que vem pondo em risco as instituições, ao participar de atos que pedem a volta da ditadura, e a saúde da população, ao minimizar e ridicularizar a pandemia do novo coronavírus.

Os advogados apresentam como precedentes os afastamentos do então deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara, e do então senador Aécio Neves de sua cadeira no parlamento, ambos realizados pelo STF por crimes de responsabilidade.

Constitucionalistas já consultados sobre o tema não acreditam que o STF repita com Bolsonaro o que foi aplicado nos casos citados. Seja como for, a ação da dupla de advogados é uma demonstração efetiva da insatisfação de boa parte da sociedade com o ocupante do cargo mais alto da República.

Para acessar o documento do mandado de segurança, clique aqui.

Destaque

FORTALECER O SUS – TAREFA NACIONAL. A propósito da epidemia do CoVID -19 no Brasil

Por Eduardo Azeredo Costa Vai passar? Sim, vai passar. E ninguém tem dúvida de que a humanidade sobreviverá e continuará sua história na Terra. Cremos que deixará legados. Bons e maus. Quais serão, para além de uma tênue memória do episódio, 100 anos depois, como a da pandemia da gripe espanhola de 1918/19?

Eduardo de Azeredo Costa*

            Vai passar? Sim, vai passar. E ninguém tem dúvida de que a humanidade sobreviverá e continuará sua história na Terra. Cremos que deixará legados. Bons e maus. Quais serão, para além de uma tênue memória do episódio, 100 anos depois, como a da pandemia da gripe espanhola de 1918/19?

Pacientes durante a gripe espanhola. Foto: Biblioteca Nacional Digital/Agência Senado

Algumas publicações científicas e de imprensa jornalística relembraram que a espanhola foi provavelmente americana, disseminada no mundo pela participação de soldados na Guerra de 1914, e do impacto que teve, em grande parte pela negação de que havia um novo virus circulando. Ao lado dessas informações, pouco valorizadas, quase lúdicas na abordagem da imprensa brasileira, aproveitamos agora a necessidade de usar o isolamento social e a quarentena para combater o Coronavírus, graças, em particular, a efeitos positivos demonstrados nos Estados Unidos.           

A economia agro-exportadora continuou no Brasil, apesar dos episódios nefastos, como o de navios não poderem atracar por epidemias a bordo (menos significativos do que à época da epidemia de Febre Amarela no Rio de Janeiro – poucos anos antes). Afinal, o modelo tinha sobrevivido também à Greve Geral de 1917.

A explosão de alegria no Carnaval seguinte precisou ser lembrada por pesquisa aos periódicos de então. Mas, houve hipótese também de dano mais prolongado do que as milhares de mortes daqueles meses. Suspeita-se que a epidemia de infartos e doença coronariana, das décadas 1940-50, possa ter sido um legado tardio.

Antes, perdido na rememoração do final de 1918 no Brasil, veio à tona que o quinino foi usado para tratar pacientes, o antimalárico usado à época. Não surpreende, pois, que agora, por analogia, a cloroquina venha à cena.

Não veio, no entanto, uma ação do Governo na área de saúde que dá frutos até hoje, em que pesem problemas variados ao longo da história das instituições nacionais de saúde.

A criação do “Serviço de Produção de Medicamentos Officiaes” (SPMO) data de 1o. de maio de 1918, por Decreto Presidencial no. 13.000, que definia que se localizaria no Instituto Oswaldo Cruz; seu objetivo era produzir quinino e outros medicamentos. A epidemia no Brasil aparentemente começou em setembro daquele ano, a ação foi preparatória e de longo alcance. E o presidente atento à saúde e higiene, que antes nomeara Oswaldo Cruz, e agora depositava a confiança em Carlos Chagas, faleceria vítima da espanhola. Passada a epidemia, o medicamento ainda interessava, foi construída a pioneira fábrica de quinino na fazenda de Manguinhos, logo atrás do Castelo de Oswaldo Cruz. Farmanguinhos/Fiocruz é sua sucessora.

Em 2008, descortinado esse fato, descerramos uma placa comemorativa no Complexo Tecnológico de Produção de Medicamentos em Jacarepaguá, com a presença da Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff e do Ministro José Temporão. Mais tarde, ainda entregamos a primeira partida de Efavirenz (medicamento crítico para a AIDS), totalmente produzido no Brasil e sob controle direto de Farmanguinhos em ação inovadora. Essa ação estatal, ao contrário de prejudicar iniciativas produtivas farmoquímicas privadas nacionais, iniciou o processo de salvá-las e desencadeou outras ações de governo coerentes.

Paulo Buss, então presidente da Fiocruz, Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, José Gomes Temporão (encoberto), ministro da Saúde, Eduardo Costa, diretor de Farmanguinhos, descerram a placa comemorativa dos 90 anos da criação do SPMO em 2008.

Talvez, possamos estar errados quanto à opinião de que a criação do SPMO foi o maior benefício para o Brasil trazido pela gripe espanhola há cem anos.

Diferente da pandemia de gripe espanhola o surto inicial dessa coronavirose, com manifestação clínica classificada como Síndrome Respiratória Aguda Severa – SARS, logo que identificado, foi notificado ao mundo inteiro. E o material genético do mesmo foi enviado para os principais laboratórios do mundo, permitindo avanços diagnósticos e pesquisas descentralizadas, antes que muitos países fossem acometidos. Uma nova ética para um mundo em conflitos permanentes. 

Mas a tradição bélica norte-americana prosseguiu com difamação e atos de gangsterismo internacional, confiscando materiais necessários a outros países, inclusive materiais brasileiros, que passassem pelo seu território.

E agora? Além de importar equipamentos, como respiradores e produtos, como testes diagnósticos, o que faremos? A produção nacional diz da soberania, mas principalmente de não ficar inertes frente à escassez mundial, deixando de servir ao povo brasileiro. Temos capacidade tecnológica para tanto, mas as armadilhas da tradição exportadora de produtos primários nos fez refém de importações que destruíram nossas indústrias privadas.

E quem trabalhou em laboratórios como o Instituto de Pesquisas Biológicas de Porto Alegre, Instituto Adolfo Lutz, Instituto Oswaldo Cruz, Instituto Evandro Chagas, Instituto Vital Brazil e outros, sabe da capacidade que é atropelada pela importação, mas também pela falta de planejamento na saúde, que depende da definição de programas de grupos técnicos ad hoc, e, antes de nos preparamos para supri-los, deslancham-se programas de compras por importação.

Assim, somos levados a pensar no tipo de legado para o SUS, agora. A defesa da indústria nacional é crítica para os sistemas de saúde, especialmente nos momentos de crise. Enquanto a criação do Serviço Nacional de Saúde inglês alavancou a indústria britânica de medicamentos que, de importadora, passou a exportadora, não criamos as bases para isso na farmoquímica brasileira. Na área de imunobiológicos, liquidamos com nossos produtos pioneiros por falta de inovação e passamos a importar tecnologia das multinacionais.

Esse fato demonstra que o projeto nacional de desenvolvimento é condição necessária para o fortalecimento do SUS. E para ele estabelecer um planejamento do Ministério da Saúde que o respeite e para ele contribua – uma interação necessária.

Ilustração: Iraní Alireza Pakdel, artista iraniano

FORTALECER O SUS é também liberá-lo de riscos do trabalho e do ambiente, através de todo o sistema produtivo e ambiental, bem como do efeito danoso do abandono social da população, da cruel desigualdade social.

FORTALECER O SUS é propiciar educação para todo o povo brasileiro para que possa se proteger e cuidar dos seus familiares. Assim o SUS poderia dedicar-se ao que é central na sua missão.

Dito isto, há também de FORTALECER O SUS por dentro ou em si. O que precisa ser o SUS renovado? Um sistema de saúde universal que garanta a prestação de serviços de saúde adequados à população brasileira com equidade.

O SUS, no entanto,  não é o único prestador de serviços de saúde no Brasil. Aliás, como sistema, ele não é um ente, não presta qualquer serviço. As entidades de saúde, públicas e privadas, filantrópicas ou lucrativas, é que prestam os serviços. E o SUS os financia. Paralelamente ao SUS, há outros prestadores de saúde privados do sistema de saúde dos planos privados ou autônomos (muito marginalmente) hoje, que não são financiados diretamente pelo SUS, mas sim diretamente por usuários, ainda que recebam indiretamente benefícios do Estado (inclusive como abatimento de imposto de renda dos que ganham mais). Para regulamentar o segmento de prestação de serviços privados de saúde, foi criada a Agência Nacional da Saúde Suplementar. Como também foi criada a ANVISA para cuidar dos padrões de qualidade de produtos sanitários.

Das características do SUS, enquanto tal, e não de todo o setor saúde brasileiro, resultam alguns problemas que precisam ser sanados para que seja fortalecido internamente. Vamos focar em apenas dois deles.

A fragmentação dos prestadores por entidades com abordagens e interesses diferentes, reduz a capacidade de planejar nacionalmente e mesmo localmente, resultando daí a má distribuição dos recursos, provocando inequidade no acesso e na qualidade dos serviços. Isso, no caso brasileiro, fica mais sério ainda, dada a urbanização descontrolada na falta de políticas habitacionais, de saneamento, de transportes, educacionais, enfim, econômicas e sociais agravadas durante a ditadura militar e não respondidas a contento nesses 30 anos, pós CF88 e Lei 8080/1990.

A crise atual agrava-se na distribuição dos leitos de UTI que seguem padrões mercadológicos, como já mostrou a tese de doutorado de De Negri Fo. de 2016, ficando distantes do densos núcleos urbanos de mais baixa renda e da população do interior que os têm com baixa tecnologia, ainda que o legado que deixamos no Rio de Janeiro, em 1985, tenha se consolidado no Brasil com o SAMU.

Ilustração: Iraní Alireza Pakdel, artista iraniano

A outra questão se refere aos recursos humanos para a saúde. Essa mesma característica do SUS não permitiu a criação nacional de uma carreira de servidores do SUS. Ora, há prestação por entidades públicas de saúde federais, estaduais e municipais e privadas. E mesmo na área pública, inclusive com políticas neoliberais de precarização de contratos trabalhistas e de legislação de controle fiscal, grande parte dos trabalhadores da saúde são terceirizados, ou seja, não têm a característica de estabilidade para o treinamento continuado e o convívio prolongado com as comunidades, que são a melhor característica da atenção primária de qualidade.

Os servidores do front sanitário, particularmente nos hospitais, nessa epidemia, como soe acontecer, são os mais expostos ao risco de adoecer e morrer. Pela natureza da exposição ser íntima, como especialmente com o pessoal de enfermagem e serviços de limpeza, prolongada e submetida a altas cargas virais. 

Nessa pandemia, a sociedade tem manifestado seu reconhecimento pela dedicação e tem valorizado os trabalhadores da saúde, em todo o mundo. Na Espanha, criou-se um ritual matinal de aplaudir das janelas os trabalhadores da saúde que vão assumir seus postos. E mais aplaudidos deveriam ser aqui no Brasil, onde suas condições de contrato e trabalho são precários. Não é incomum que um técnico de enfermagem trabalhe em até três hospitais diferentes, no regime de plantão, com contratos diferentes, para poder ganhar o suficiente para manter sua família. Com isso, também são vetores de transmissão da doença para suas famílias e comunidades, e vários mandaram seus filhos para casa de outros parentes nesse momento.

No entanto, isso não acontece só agora, a incidência mais elevada de várias doenças está entre o pessoal da saúde todo o tempo. Um dos exemplos críticos é com a hepatite C.

Ilustração: Iraní Alireza Pakdel, artista iraniano

Por tudo isso, está na hora da Carreira da Saúde. Preferentemente, em tempo integral. É tão estratégico quanto a das Forças Armadas para a segurança nacional. E nos deixa um legado indelével do enfrentamento ao Coronavírus, que vai nos servir por mais 100 anos. Será sempre lembrado que a outorga foi por sua dedicação ética, seu destemor e sua disciplina profissional.

Claro que, para isso, precisamos fazer do SUS um Serviço Universal da Saúde, o fortalecendo. Planejamento central, que não seja apenas o orçamentário, mas o estratégico, voltado para a equidade. E preparo de unidades flexíveis de saúde para movimentação tática.

De início criar os SES – Serviços Estaduais de Saúde, públicos, universais a nível estadual. Os serviços municipais deverão ser diretamente coordenados por cada estado.

Outro arranjo poderia ser a criação de um Instituto Nacional de Saúde Pública.

Não propomos, portanto, Mais SUS, ou Defender o SUS, a proposta é a união nacional para FORTALECER O SUS, como Objetivo Nacional permanente, com a criação do Quadro Nacional de Servidores Públicos da Saúde.

*Eduardo Costa é médico-sanitarista, PhD em epidemiologia. Atualmente é assessor de Cooperação Internacional da Escola Nacional de Saúde Pública ENSP/Fiocruz, onde foi professor titular de epidemiologia e diretor de Farmanguinhos. Foi ainda diretor do CENEPI/FNS e Secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, além de ter sido Secretário Estadual Saúde do Governo Leonel Brizola no Rio de Janeiro.

Observação: este artigo foi redigido em 5 de abril, revisto em 6 de abril, para publicar no dia 7 de abril de 2020, celebrando o dia mundial da saúde.

ANEXOS:

1) Sugestão de Campanha:

#FORTALECER O SUS É CRIAR A CARREIRA NACIONAL DA SAÚDE!

2) REFERÊNCIAS DO AUTOR SOBRE O TEMA:

–  SUS – Uma visão crítica de sua definição constitucional – Questão democrática sem projeto nacional?

http://www.escs.edu.br/revistaccs/index.php/comunicacaoemcienciasdasaude/article/view/521

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Ao pedir jejum no Domingo de Ramos, Bolsonaro ofende o estado laico e o catolicismo que diz seguir

Não é papel do mandatário de um país pluricultural, com uma Constituição laica e cujo povo forma um mosaico de crenças propor à população práticas relativas a uma determinada religião, no caso o cristianismo. Isso, por si só, já torna errado o chamado de Bolsonaro por um jejum. Mas a situação se agrava pelo fato de que ele se apresenta como católico

Jesus entrando em Jerusalém montando num jumento. É o Domingo de Ramos.

Por Ana Helena Tavares*

Não é papel do mandatário de um país pluricultural, com uma Constituição laica e cujo povo forma um mosaico de crenças propor à população práticas relativas a uma determinada religião, no caso o cristianismo. Isso, por si só, já torna errado o chamado de Bolsonaro por um jejum. Mas a situação se agrava pelo fato de que ele se apresenta como católico, embora já tenha sido rebatizado por pastores neopentecostais. E foi justamente um grupo de pastores que deu ao presidente a “brilhante” ideia de conclamar os brasileiros ao jejum neste domingo, 05 de abril.

Pela tradição católica, amparada na Bíblia, domingo é “o dia do Senhor”. Porque foi num domingo que Jesus Cristo ressuscitou. É, portanto, uma Páscoa semanal. Não por acaso, Santo Agostinho, doutor da Igreja, escreveu que “jejuar em dia de domingo é grande escândalo”. Além disso, se observarmos o Código de Direito Canônico da Igreja Católica, veremos que no cân. 1247, por exemplo, diz o seguinte:

“No domingo e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participar na missa, abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que impeçam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor (laetitiam diei Domini propriam), ou o devido repouso do espírito e do corpo.”

As missas têm sido transmitidas por TV e internet. Neste dia 05 de abril em especial, teremos missas festivas em virtude da celebração do Domingo de Ramos. Se católico fosse, como apregoa ser, Bolsonaro estaria envolvido nesta festa móvel que comemora a chegada triunfal de Jesus a Jerusalém, uma semana antes da Páscoa, conforme registrado nos quatro evangelhos. E é importante que se diga: ele estaria mais preocupado em viver isso do que em fazer proselitismo.

A Bíblia nos mostra que Jesus fez jejum, mas não se importava em exigir que os outros o fizessem. Tanto é que os hipócritas apontaram o dedo para Jesus acusando-o de não jejuar e de não ensinar a prática. Jesus vivia o jejum, mas não alardeava. Conforme alerta Mateus (6-16):

“Quando jejuardes, não vos mostreis com aspecto sombrio como os hipócritas; pois desfiguram o rosto com a intenção de mostrar às pessoas que estão jejuando.”

Vamos frisar, então: o importante não é mostrar, mas, sim, fazer, esperando que os outros também o façam por convicção. Vai daí que o que deve levar alguém à prática do jejum é sua própria fé e não as ordens de um presidente. A este caberia garantir que nenhuma família passasse fome e fosse, assim, obrigada a fazer jejum de qualquer jeito. A este caberia ordenar o pagamento imediato do valor já liberado pelo Congresso para que todos os cidadãos brasileiros tenham direito a proteger sua saúde em casa nestes tempos de coronavírus.

A quem quiser fazer um “jejum” neste domingo para pedir o fim da pandemia, há uma dica no livro do profeta Isaías (58-6).

“A espécie de jejum que eu quero é esta: libertem os que foram presos injustamente e também o jugo que transportam; libertem os oprimidos e quebrem toda a espécie de opressão. Quero que partilhem a vossa comida com os que têm fome e que sejam hospitaleiros para com os que vivem desprotegidos, pobres e desamparados. Que deem roupa aos que têm frio e que não se escondam daqueles que, sendo até vossos familiares, precisam da vossa ajuda. Se fizerem estas coisas, Deus fará brilhar sobre vocês a luz da sua própria glória! Dar-vos-á saúde”.

*Ana Helena Tavares é jornalista, editora do site “Quem tem medo da democracia? É autora, entre outros, do livro “Um bispo contra todas as cercas – A vida e as causas de Pedro Casaldáliga” (Ed. Vozes).

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Cônsul da China no Rio escreve carta aberta a Eduardo Bolsonaro

Li Yang e Eduardo Bolsonaro. Fotos: reprodução/CEBC e Lula Marques.

Valorize as Relações China-Brasil, Deputado Eduardo

Deputado Eduardo, no tuíte que você postou no dia 1 de abril,  chamou o Covid-19 de “vírus chinês”, o que se trata de mais um insulto à China que você fez depois de ter postado tuítes em 18 de março para atacar maliciosamente a China.

Você é realmente tão ingênuo e ignorante? Como deputado federal da República Federativa do Brasil que possui alguma experiência em tratar dos assuntos internacionais, você deveria saber que os vírus que causam pandemia são inimigos comuns do ser humano, e a comunidade internacional nunca chama os vírus pelo nome de um país ou região para evitar a estigmatização e a discriminação contra qualquer grupo étnico específico. A Organização Mundial da Saúde seguiu esta regra do direito internacional para chamar o novo coronavírus de “Covid-19”. Além disso, ainda está por confirmar a origem deste vírus. O surto de Covid-19 em Wuhan não significa necessariamente que Wuhan foi a fonte inquestionável do novo coronavírus. O diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos já reconheceu que, durante a chamada “epidemia de gripe” nos Estados Unidos, no ano passado, algumas pessoas teriam morrido por Covid-19. Isso justifica que, muito provavelmente, os Estados Unidos foram a fonte de Covid-19. Mas podemos batizar o Covid-19 como “vírus norte-americano”? Não! Do mesmo modo, ninguém no mundo pode chamar o Zika como “vírus brasileiro”, apesar do fato da epidemia de Zika ter acontecido e ainda acontecer casos frequentemente no Brasil.

É por causa do seu ódio à China que ataca frequentemente à China? Mas de onde vem esse ódio? A aproximação entre a China e o Brasil é resultado de um desenvolvimento histórico com alicerce natural. Tanto a China como o Brasil são grandes países emergentes com território e população gigantes, com culturas ricas e coloridas e povos simpáticos e amigos. Ambos os países possuem planos grandiosos para promover a prosperidade e riqueza nacionais, bem como ambição para salvaguardar a paz e justiça internacionais. É ainda mais importante o fato de que não há divergências históricas nem conflitos atuais entre os dois países que já se tornaram parceiros estratégicos globais. O povo chinês sempre abraça o povo brasileiro com sincera amizade, tratando o Brasil como nosso país irmão e parceiro. O respeito recíproco e a cooperação de ganhos mútuos de longo prazo entre os dois países trazem benefícios pragmáticos para os dois povos. Por dois anos consecutivos, dois terços do superávit do comércio exterior do Brasil vieram da China, o seu maior parceiro comercial! É por isso que tanto a geração do seu pai como a da sua idade estão todos se dedicando a promover a cooperação amigável sino-brasileira. Em resumo, os seus comportamentos remam contra a maré e não só colocam você no lugar adverso do povo chinês de 1,4 bilhões, mas também deixam a maioria absoluta dos brasileiros com vergonha, bem como criam transtornos ao seu pai, que é o Presidente da República. É realmente uma prova de ignorância a respeito do tempo atual!

Será que você recebeu uma lavagem cerebral dos Estados Unidos e quer ir firmemente na esteira deles contra a China? Os Estados Unidos eram realmente um país grande e glorioso. No entanto, neste ponto crítico do avanço da civilização humana, os EUA perderam sua posição histórica e o sentido de desenvolvimento, tornando-se quase totalmente causadores de problemas nos assuntos internacionais, e uma fonte de ameaça à paz e segurança mundiais. Os líderes atuais norte-americanos já se esqueceram dos ideais dos fundadores do país de assegurar a justiça. Ademais, tornaram-se monstros políticos cheios de preconceitos ideológicos contra os outros países e sem capacidade de governar, o que pode ser justificado pelo desempenho horrível no combate à pandemia de Covid-19 nos EUA. Por outro lado, sendo uma potência cheia de vitalidade e em ascensão, o Brasil deve e é capaz de fazer contribuições importantes para o progresso da civilização humana, desde que tenha sua própria visão estratégica, possua sua perspectiva correta sobre os assuntos internacionais e desempenhe seu próprio papel construtivo. O Brasil não deve tornar-se um vassalo ou uma peça de xadrez de um outro país, senão o resultado seria uma derrota total num jogo com boas cartas, como diz um provérbio chinês.

Deputado Eduardo, há pelo menos uma semelhança entre a cultura confucionista chinesa e a cultura cristã brasileira que é a crença em que sempre existe a causalidade em tudo, razão pela qual a gente tem que pensar nas consequências antes de fazer qualquer coisa. Como não é uma pessoa comum, você deveria entender melhor essa razão. O que é o mais importante para o Brasil agora? Sem dúvida, é salvaguardar a vida e a saúde de centenas de milhões de pessoas, e reduzir ao mínimo o impacto da pandemia na economia do Brasil, da China e do mundo, através da cooperação China-Brasil no combate ao Covid-19. A China nunca quis e nem quer criar inimizades com nenhum país. No entanto, se algum país insistir em ser inimigo da China, nós seremos o seu inimigo mais qualificado! Felizmente, mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil. Porém, como é um deputado federal, as suas palavras inevitavelmente causarão impactos negativos nas relações bilaterais. Isso seria uma grande pena! Contaminaria e poluiria totalmente o ambiente saudável que China e Brasil conquistaram até aqui.

Portanto, é melhor ser mais sábio e racional. Você pode não pensar na China, mas não pode deixar de pensar no Brasil. O demônio do Covid-19 chegou finalmente à maravilhosa terra brasileira. Neste momento crucial da cooperação bilateral no combate à pandemia de Covid-19, seria mais prudente não criar mais confusões. Ainda mais importante, seja um verdadeiro brasileiro responsável, ao invés de ser usado como arma pelos outros!

                              Li Yang

                Cônsul-Geral da República Popular da China

                          no Rio de Janeiro

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Sobre militares ordeiros e desordeiros

Estamos presenciando no Brasil, além da pandemia, um trabalho de negação da História que parte dos ocupantes dos mais altos postos do Estado. É muito preocupante imaginar o efeito disso para as próximas gerações.

Henrique Teixeira Lott e Rui Moreira Lima

Por Ana Helena Tavares*, em homenagem aos militares ordeiros, legalistas e patriotas do Brasil

O ministério da Defesa emitiu um documento infame e aviltante de “ordem do dia” para este 31 de março, dizendo que o “movimento de 64” foi um marco para a democracia brasileira. O general Hamilton Mourão, vice-presidente da República e aspirante à presidência, fez um post no Twitter exaltando a data, dizendo que as Forças Armadas enfrentaram a “desordem e a subversão”.

Estamos presenciando no Brasil, além da pandemia, um trabalho de negação da História que parte dos ocupantes dos mais altos postos do Estado. É muito preocupante imaginar o efeito disso para as próximas gerações.

Se as forças armadas estivessem mesmo preocupadas com “desordeiros” e “subversivos” jamais teriam permitido a chegada à presidência de Jair Messias Bolsonaro. Um militar altamente indisciplinado que foi preso na década de 80 por desordem e subversão. Um capitão desprezado por generais como Ernesto Geisel, que chamou Bolsonaro de “mau militar”.

A ditadura instalada em 64 elevou ao posto de “herói” torturadores sanguinários como Brilhante Ustra e arrancou a farda de militares ordeiros e dignos, como foi o caso do brigadeiro Rui Moreira Lima.

Na madrugada do dia 1º de abril, verdadeiro dia do golpe, Rui, que era coronel-aviador e comandante da base aérea de Santa Cruz, recebeu um telefonema de um ministro militar, muito exaltado, que gritou: “Passa logo o comando desta merda”.

Moreira Lima respondeu calmamente: “O Senhor pode achar que esta Base Aérea é uma merda, mas para mim não é. Agora, se o senhor disser que eu sou, aí eu fico à vontade e digo que o senhor é outra. O senhor venha aqui amanhã de manhã e faça aquele discurso bonito onde tinha dito que eu era o oficial padrão da FAB”.

Em seguida, Moreira Lima, herói da 2ª guerra mundial, que era tido pelos próprios golpistas como “oficial padrão da FAB”, foi preso. Com ele, toda uma geração de militares legalistas, ou seja, respeitadores das leis e defensores da Constituição, foi cassada, presa e perseguida por se opor ao golpe.

O marechal Henrique Teixeira Lott, por exemplo, que no Brasil é sinônimo de legalidade por ter garantido a posse de JK, morreu escanteado, em 1984, e não teve direito a honras militares em seu enterro. Vejam bem: um marechal.

Será que o capitão desordeiro e subversivo, alçado à presidência do Brasil usando a mentira como método, terá tais honras em seu enterro? O que é, então, honra? Fica a pergunta que o general Mourão não será capaz de responder.

*Ana Helena Tavares é jornalista, editora do site “Quem tem medo da democracia? É autora, entre outros, do livro “O problema é ter medo do medo – O que o medo da ditadura tem a dizer à democracia” (Revan, 2016), fruto de cinco anos de trabalho e no qual reúne 26 entrevistas com pessoas, das mais diversas áreas, inclusive cinco militares, que viveram a ditadura e foram atingidos por ela.

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A mão invisível do mercado estava segurando o volante nas carreatas contra o isolamento, diz professor de economia

Para o professor de economia Eduardo Amazonas, a chamada “mão invisível” do mercado não é tão invisível assim. Ela estava segurando o volante nas carreatas contra o isolamento social, realizadas na última sexta, 27 de março:

Carros caríssimos foram às ruas. Foto: EDUARDO MATYSIAK/FUTURA PRESS

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Para o professor de economia Eduardo Amazonas, a chamada “mão invisível” do mercado não é tão invisível assim. Ela estava dirigindo os carros que desfilaram contra as medidas de saúde pública na última sexta-feira, 27 de março:

“Essa mão invisível é aquela que determina que só quem tem dinheiro vai sobreviver. É uma coisa complicada isso. O mercado não vai resolver essa crise. E o que é o mercado? São essas carreatas. É aquele cara da hamburgueria, o Madero. É o ‘Véio da Havan’ (como ficou conhecido o empresário Luciano Hang). É o marketing dos empresários. São pessoas que manipulam o mercado para se beneficiar. As pessoas mais pobres não têm instrumentos para essa manipulação. Nós vivemos num mundo de exclusão. Numa globalização de exclusão. Então, o Estado tem que fazer sua parte”, determina.

Isso dito por um liberal, como é o caso do entrevistado, pode soar estranho, mas ele garante que não é, pois, nesse momento, se vê na obrigação de ser keynesiano.

“O que Keynes disse? Que quando a iniciativa privada está em crise o Estado entra para injetar dinheiro e estimular a economia. É um socorro. Então, você tem que saber em que momento você vai ser monetarista e em que momento você vai ser desenvolvimentista”, explica.

Amazonas que, além de mestre em economia, é psicanalista, compara essa necessidade de variação no pensamento econômico para se adequar às circunstâncias da realidade com as mudanças necessárias no tratamento de um paciente ou de outro: “às vezes, precisamos usar Freud, outras vezes precisaremos de Winnicott, porque o paciente vai requerer mais atenção”.

O ministro da economia no Brasil, Paulo Guedes, é um ultraliberal, adepto da escola de Chicago. Se estivesse sentado na cadeira dele, Amazonas pediria um estudo sobre as reservas cambiais e usaria tudo o que fosse necessário.

“Nós temos cerca de 380 bilhões em reservas cambiais. Com o dólar a 5 reais, 30 bilhões são 150 bilhões de reais que você pode colocar na economia. E, num momento em que o dólar está subindo muito, você pode jogar dólar no mercado para diminuir a cotação. Nós estamos numa guerra. E numa guerra usamos o que temos. Para salvar vidas, eu não posso pensar em economizar. Tenho que gastar. Eu faria isso. Pensaria de onde posso tirar dinheiro.”

No entanto, o professor não vê no governo uma grande disposição para gastar:

“Qual o discurso hoje do governo? Ah, vamos gastar, mas não vamos gastar como o PT. Ficam insistindo na crítica ao PT. Porque os petistas gastaram mais com a crise de 2008, mas nós sofremos menos. Teve até aquela frase do Lula, em 2009, dizendo que era uma “marolinha”. E de fato foi, justamente porque o PT gastou muito. O grande erro do PT, a meu ver, é que, depois disso, eles continuaram gastando demais, principalmente no governo Dilma. Acho que isso poderia ter sido revisto, mas essa é outra discussão.

Então, o Paulo Guedes está dizendo: ‘eu vou gastar, mas vou gastar com parcimônia’. Eu não sei se este dinheiro que ele está gastando vai ser o suficiente. Porque, veja, grande parte do que ele está gastando não é dinheiro novo. O que significa isso? Ele está, por exemplo, antecipando o décimo-terceiro dos aposentados (é um dinheiro que seria gasto lá na frente). Tudo bem. É uma coisa emergencial. Acho ótimo. Mas, por exemplo, tem o fundo de garantia. Vou dar um exemplo do que poderia ser feito: quem tem até 3 mil reais poderia sacar, quem tem mais de 50 mil poderia sacar 10% . Alguma coisa tem que ser feita, porque vai faltar dinheiro. E isso vai gerar um efeito multiplicador muito grande.

Acabei de ver que foi liberada a lei de responsabilidade fiscal para se gastar mais. O quanto esse endividamento lá na frente será complicado? Nós não podemos pensar nisso agora. Nós temos que salvar as pessoas, não podemos deixar que elas morram de doença nem de fome.”

Ele acredita que dá para fazer as duas coisas e discorda daqueles que alimentam uma dicotomia entre vidas e economia, o que chama de visão “utilitarista”.

“Dependendo da posição em que você esteja, você vai escolher aquilo que te beneficia. Vou dar um exemplo utilitarista: você acha que hoje não tem governantes querendo que velhos morram para que eles possam pagar menos aposentadorias? Então, o utilitarismo é assim: deixa morrer os velhos que eu me benefício da dívida das aposentadorias.”

É preciso jogar dinheiro do helicóptero

O professor observa que muita gente não está percebendo que isso é uma crise de saúde pública mundial. Não foi uma crise que começou no mercado financeiro, mas na vida real. Ele alerta que o desespero tem levado pessoas comuns a cometerem equívocos financeiros.

“Como a taxa de juros caiu muito, muita gente jogou sua poupança para a bolsa e ficou sem dinheiro. Porque veja: a bolsa caiu de 117 mil pontos (em janeiro) para 77 mil agora em março. As pessoas perderam muito dinheiro. Elas não têm ideia de que para você aplicar na bolsa de valores você precisa ter 1 milhão. Porque, assim, eu posso aplicar 200 mil e, se eu perder, me recupero daqui a 5 ou 6 anos porque tenho 800 mil de reserva. Um exemplo. Aí a pessoa pega sua poupança de 30, 40 ou 50 mil e vai querer colocar na bolsa de valores? É outro problema. Isso traz uma insegurança paras as pessoas que vão precisar de dinheiro.

Não adianta: o governo tem que injetar dinheiro. Como o Trump está fazendo. O Trump está lá dando dinheiro, entregando nas casas. O Milton Friedman (economista norte-americano) fala em ‘jogar dinheiro do helicóptero’. É isso que tem que ser feito. Assim, é possível ter uma recuperação da economia em ‘V’. Ou seja, cai e se recupera. Do jeito que as coisas estão (no Brasil) a gente vai ter uma recuperação em ‘L’. Cai bruscamente e fica lá embaixo durante bastante tempo. Uma recuperação longa.

Estou extremamente pessimista com o que vem por aí. Estou vendo muita miséria e muita doença. Essa doença já chegou às comunidades. Isso é muito complicado. Se as pessoas não ficarem em casa, a gente não sabe quantos podem se contaminar.

As pessoas não estão entendendo que precisam ficar em casa para a economia se recuperar rápido. Essa loucura de fazerem carreata para irem para a rua traz um risco muito grande. É o risco de ficar ainda mais tempo em quarentena prejudicando ainda mais a economia”, avalia.

E prejudicando também a saúde mental da população. Como psicanalista, o entrevistado lembra que o número de suicídios poderá explodir:

“São dramas muito grandes. Então, a economia, neste momento, tem que ajudar as pessoas. Não importa quanto você vai gastar. Você vai gastar dinheiro para ajudar as pessoas. Depois a gente resolve”.    

Dependendo da demora de recuperação da economia, Amazonas teme ainda uma convulsão social:

“Daqui a pouco vou ter que descer para o supermercado armado, porque vão começar a ocorrer saques. Eu estou preocupado. E digo: os 600 reais (que o Senado aprovou nesta segunda-feira, 30 de março) é muito pouco. O governo tem que se endividar! Precisa dar, pelo menos, 1 salário mínimo para as pessoas. Iriam ser 200 reais. Como é que o Paulo Guedes quer dar 200 reais para as pessoas sobreviverem, meu Deus do Céu?! É uma maldade muito grande”, comenta.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, o Congresso aprovou o maior pacote de estímulo econômico da história. Mas o economista italiano, professor de Chicago, Luigi Zingales, levantou dúvidas sobre os rumos do dinheiro. Em entrevista à BBC, ele disse: “me parece que eles (referindo-se aos americanos) estão mais garantindo subsídios a empresas do que realmente distribuindo para as famílias mais jovens e mais pobres.” Amazonas diz que, se olharmos para o passado, veremos que Zingales tem razão na crítica e que essa diferença de tratamento entre pessoas e empresas de fato poderá ocorrer.

“Se voltarmos à crise de 2008, vamos ver que havia uma maior preocupação em salvar os bancos. O que deveria ter sido feito naquela época? Ajudar as pessoas a pagarem suas prestações de casa. Se você fizesse isso, a crise teria sido muito menor. Não foi feito. Foram bilhões de dólares para bancos.

Na crise atual, aqui no Brasil, o Banco Central já liberou 1 trilhão e 200 milhões para bancos. Esse mesmo governo queria dar 200 reais para as pessoas na informalidade que são 40 milhões de brasileiros. Isso está errado. Quando você dá dinheiro para banco, será que esse dinheiro vai chegar às pessoas? Porque isso é crédito. As pessoas não têm dinheiro e ainda vão se endividar? Tem que haver uma outra proposta”, recomenda.

“Parece o Titanic”

“Na verdade, parece o Titanic. A terceira classe você mata para salvar a primeira classe. O mundo funciona assim, infelizmente. A gente precisa começar a ter uma sociedade melhor”. É o que deseja o professor sem, porém, acreditar no seu desejo.

“Nós deveríamos ser mais humanistas, mas o ser humano está muito ruim para sair melhor. A solidariedade está muito pequena. E vou dizer mais: as pessoas não estão se dando conta do que é essa pandemia. Na verdade, as pessoas não sabem nem o que significa pandemia.

Aí eu vou fazer uma crítica ao presidente. Não vou dizer ‘nosso’, porque não gosto dele. O presidente da República está sendo muito infantil. Ele pode até sofrer processos internacionais porque está cometendo crimes. A revista The Economist diz que ele é o ‘BolsoNero’.

A imagem do Brasil fica muito ruim para investimento internacional, que nós já não estávamos tendo. Todo investimento internacional fica em cima de privatizações. Então, nós estamos perdendo mercado internacional. Ano passado, perdemos 20% das nossas exportações. São problemas muito sérios que estão sendo criados. É assustador.

Por exemplo, o governo liberou 497 agrotóxicos. Destes, vários geram câncer. Outros geram problemas na córnea e as pessoas podem ficar cegas. Ninguém ligou para isso! As maldades estão sendo feitas de uma forma assustadora muito antes da pandemia. E agora vem a pandemia. Parece que nós temos assassinos no poder. O que é que é isso? O mercado internacional está nos vendo. Nossa imagem está muito ruim”, conclui.

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Epidemiologista considera “surpreendente” evolução rápida da pandemia e defende isolamento horizontal

As estratégias de enfrentamento a pandemias são dinâmicas, alteráveis dependendo da experiência do momento. Mesmo no meio científico, há ainda muitas dúvidas sobre o novo coronavírus (Covid-19). E, dependendo das respostas que possam ser encontradas, a evolução pode surpreender e as estratégias podem mudar, exigindo, por exemplo, um maior ou menor grau de isolamento. Essa incerteza ocorre por vários fatores. Um deles é a característica mutável dos vírus em geral, como explica o médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa, que concedeu entrevista ao QTMD? em 22 de março.

Mapa mostra os países atingidos pela pandemia até 18 de março. Fonte: Tecnologia/IG.

Por Ana Helena Tavares, jornalista

As estratégias de enfrentamento a pandemias são dinâmicas, alteráveis dependendo da experiência do momento. Mesmo no meio científico, há ainda muitas dúvidas sobre o novo coronavírus (Covid-19). E, dependendo das respostas que possam ser encontradas, a evolução pode surpreender e as estratégias podem mudar, exigindo, por exemplo, um maior ou menor grau de isolamento. Essa incerteza ocorre por vários fatores. Um deles é a característica mutável dos vírus em geral, como explica o médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa.

“Os vírus, como são estruturas simples e precisam de um hospedeiro para serem replicados, têm uma capacidade,) grande de sofrer alterações menores e mutações (alguns mais estáveis, outros menos. Neste caso podem passar a atacar diferentemente, com menor ou maior agressividade (virulência). É como se o vírus ao entrar na membrana desse uma mensagem química para o núcleo da célula hospedeira e dissesse assim: ‘faça outro igual a mim’. Ela vai buscar o material que tem e faz. Uma linhagem do vírus ao passar por células de populações diferentes, provoca um processo de resultado pouco previsível, que vai marcá-lo em termos de estrutura.

Esse fato permite, por exemplo, dizer empiricamente de onde veio um vírus, ele fica marcado pelo tipo de população pela qual ele está circulando. Permite comparativamente ver se o que circula no Brasil por exemplo teve origem na Itália ou nos Estados Unidos, mesmo sem saber onde a pessoa se infectou. Isso quer dizer que temos de acompanhá-lo para não sermos surpreendidos por mudanças mais significativas que possam aumentar ou diminuir a virulência. E, nosso tempo epidêmico atual, representa um período muito curto, podemos ter surpresas.

O fato de o problema ter começado no final de dezembro e já estar nessa dimensão foi surpreendente, mas comparável com a pandemia de gripe espanhola de 1918. Muito do que se antecipa hoje se baseia na experiência de então, inclusive na repercussão econômica. E também, as estratégias vão acompanhando esse legado. Nós temos muitas medidas de controle. Desejamos muito uma vacina, mas ela leva tempo para ser feita, dependendo de diversos fatores. Em menos de um ano, não vai ter (vacina)”, antecipa o médico.

A duração da imunidade de quem já pegou uma doença é fator importante para a produção de vacinas. É longa, dura muitos anos? Apesar de já terem surgido algumas notícias dando conta de que uma mesma pessoa contraiu a Covid-19 duas vezes em curto espaço de tempo, ainda não há consenso sobre se o tipo de vírus foi o mesmo.

“A maioria das doenças virais têm imunidade duradoura. Dengue não. Por isso, até hoje não se consegue vacina. Não é para qualquer coisa que você pode ter vacina. A imunidade duradoura é um elemento importante numa estratégia de longo prazo. No curto prazo, é menos importante, porque o que se busca é conter a epidemia. A gente sempre diz o seguinte: há uma fase de ataque. E o que é isso? É quando você concentra todos os esforços, fazendo uma varredura para controlar a situação. Depois tem a fase de consolidação. Depois tem a vigilância. Nessa etapa, as operações de contenção e bloqueio, associadas, à investigação epidemiológica dos casos, contribuem fortemente para a consolidação do controle efetivo. São mais ou menos essas as fases dentro de uma programação”, enumera o epidemiologista.

E se não tiver vacina, mas tiver medicamento? Nesse caso, o médico elucida que o fato de haver remédio “não diminui a transmissão”.

“E nós ainda vamos ter um complicador: as pessoas vão ficar mais tempo no hospital sob tratamento. Por isso, o medicamento, mesmo eficiente individualmente, é paliativo no controle da situação epidêmica”, esclarece.

O problema começou no final de dezembro na China. Por conta disso, muitas pessoas, incluindo o presidente dos EUA, Donald Trump, chamam o novo coronavírus de “vírus chinês”, nomenclatura considerada preconceituosa. Azeredo Costa lembra que países como o Brasil também têm o potencial de iniciar uma pandemia e que a China não forneceu ao mundo somente um vírus.

“O Brasil tem, na Amazônia, a maior riqueza de vírus desconhecidos do mundo. De vírus conhecidos, catalogados, são centenas. De repente, daqui a pouco pode saltar um vírus da Amazônia e atingir o mundo todo. A pandemia de gripe ‘espanhola’, por exemplo, parece ter se originado no Kansas, sul dos Estados Unidos, em 1918.

Uma coisa que a China fez, fantástica no meu ponto de vista, foi imediatamente identificar e decodificar o vírus. Chegar ao RNA dele, que é encapsulado e mostrar fornecer para todo o mundo com todas as suas características. Eles são altamente tecnológicos e rápidos, ao ponto de, ainda na primeira quinzena de janeiro, terem distribuído todos os dados, em vez de segurarem para depois ficarem donos de alguma coisa como arma ou como uma maneira de ganhar dinheiro.

A China mostrou que lá existe um pensamento de solidariedade diferente. O que eles estão dando para a gente não é só um vírus, mas os métodos diagnósticos, material para desenvolvimento e modos diferentes de fazer as coisas que nos levam a refletir perante os nossos”, assegura.

Na etapa atual, o Brasil está na chamada “fase de ataque” contra o novo coronavírus. Costa avalia que o isolamento horizontal, que abrange toda a população, é o melhor método para ser aplicado no momento.

“O isolamento e a quarentena são das coisas mais antigas que existem no controle de saúde pública. São instrumentos importantes. Na época da gripe espanhola, era a rigor a única medida disponível. Em cerca de dois anos, ela desapareceu. Era outro mundo. Mas ela também se alastrou por vários países, houve aqui também. Alastrou-se rapidamente, porque a transmissão era grande. E queimou como fogo de palha, porque ninguém tinha imunidade alguma. Essa também é uma questão que envolve a Covid-19. Nossa população não havia tido ainda contato com esse vírus ou qualquer outro  imunologicamente cruzado com ele, então se espalha muito rápido.”

Além do isolamento horizontal ou populacional, existe o isolamento vertical ou parcial, que engloba apenas casos de alto risco. Este se baseia na premissa de que a Covid-19 atinge fatalmente mais aos velhos. No entanto, na cidade do Rio de Janeiro, o maior número de infectados são jovens entre 30 e 40 anos.

“A estratégia populacional é sempre melhor, que é essa que está sendo feita (de isolamento horizontal). A de alto risco (vertical) é mais complexa e de efeito limitado. Há uma grande contribuição de um epidemiologista inglês, com quem estudei – Geoffrey Rose – demonstrando as grandes vantagens da estratégia populacional sobre as estratégias de risco. Com essa epidemia vemos, por exemplo, que a separação dos velhinhos, além de ser ineficaz para conter  a transmissão, pelos laços familiares, ofende a própria cultura. Assim, acho que nós estamos no caminho certo”, conclui, advertindo:

“Como a epidemia é dinâmica precisamos, três coisas mais: uma que já abordamos, é a disciplina social frente a situação – é melhor errarmos juntos do que nos separar (mesmo que possamos ter outras ideias, o que não é proibido e pode até ser o próximo passo coletivo), que fará todas as alternativas ineficazes. A segunda é a inteligência central ter um sistema de informações rápido e confiável, como vimos antes, a distribuição dos leitos de UTI está dissociada da distribuição da grande maioria da população, pela enorme concentração de renda do Brasil, e isso é um complicador operacional importante E a terceira, é assistência econômica e social na crise econômica que acompanha essa epidemia.”

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA EDUARDO AZEREDO COSTA E PARTE DE UMA SÉRIE DE MATÉRIAS QUE ESTÃO SENDO PUBLICADAS AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS. 

Destaque

Para médico sanitarista, Mandetta fez o certo ao alertar sobre colapso do SUS

No último dia 20 de março, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que já tem o seu lugar reservado nos livros de história simplesmente por ser o ministro da Saúde no Brasil durante a pandemia de coronavírus, declarou que, se nada for feito, o SUS entrará em colapso em abril, quando se prevê o pico da doença no país. Embora Mandetta tenha mudado de discurso depois, a sua previsão, que num primeiro momento poderia soar apocalíptica, tem base na realidade, segundo o experiente médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa.

O ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Foto: Isaac Nóbrega/PR

Por Ana Helena Tavares, jornalista

No último dia 20 de março, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que já tem o seu lugar reservado nos livros de história simplesmente por ser o ministro da Saúde no Brasil durante a pandemia de coronavírus, declarou que, se nada for feito, o SUS entrará em colapso em abril, quando se prevê o pico da doença no país. Embora Mandetta tenha mudado de discurso depois, a sua previsão, que num primeiro momento poderia soar apocalíptica, tem base na realidade, segundo o experiente médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa.

“Acho correto que o Mandetta tenha alertado a população sobre as consequências assistenciais de uma epidemia como a do coronavirus, por seu caráter explosivo dada sua alta infectividade. É uma realidade. Não mentiu nisso. Ele mostrou que tem senso de responsabilidade. Em primeiro lugar, o Ministro tem que mostrar porque se não o fizer não consegue aportar recursos desse governo para o SUS.

Em segundo lugar, porque a situação prevista com as experiências já vividas por China, Itália, Espanha e outros países mostram que é necessário mobilizar a população para que a curva epidêmica se alongue, dando oportunidade para o desenvolvimento e aquisição de testes diagnósticos e outros insumos estratégicos, além de não sobrecarregar hospitais.

Mas a voz dele é insuficiente no inacreditável quadro brasileiro. Nesse sentido, ele precisa que a população o acompanhe para ter alguma influência dentro do governo, para não ficar isolado. E essa não foi ação de caráter político menor, não é uma ameaça. A verdade, como ela é, ajuda até para traçar estratégias corretas.”, analisa.

O epidemiologista torce para que a evolução da pandemia no Brasil não seja tão crítica como nos países europeus, levando em conta que lá o problema começou em clima frio, o que favorece a sobrevivência do vírus por mais tempo no ambiente, e aqui é o contrário. Apesar dessa esperança baseada num dado ambiental, ele não descarta o agravamento da crise e consequente colapso do sistema de saúde por razões sociais e econômicas.num dado ambiental, ele não descarta o agravamento da crise e consequente colapso do sistema de saúde por razões sociais e econômicas.

“Eu não acredito nessas frases que dizem: ‘Graças a Deus que nós temos o SUS’. São frases soltas que não significam nada. Nós temos qualidades na nossa saúde do país, que são antigas, e de boa tradição. Algumas continuam bem, e outras não. Mas temos muitos problemas com assistência médica, onde há uma disputa do setor privado que planeja com base em premissas de mercado. E a saúde precisa ser pensada em termos de necessidades.

Achei interessante uma declaração do Presidente Macron da França dizendo que certos setores como a saúde não devem seguir as regras de Mercado. É uma coisa óbvia na Europa, onde os serviços de saúde são públicos, mas os Estados Unidos e seus seguidores mais próximos não querem aceitar.

Nós temos um modelo, digamos, dual, com atenção  privada e pública, cujo comando precisa ser unitário, em especial em situações de crise.

Para quem pensa que tudo vai bem com o SUS, diria que temos menos leitos per capita hoje do que na época de Getúlio Vargas, segundo levantamento feito em 1941 (2,75 leitos por mil habitantes) desprezados os hospitais de menos de 25 leitos (ver tabela *1). Em 2014, sem excluir os com menos de 25 leitos (e há muitos, especialmente municipais), temos 2,19 por mil! E desses, 1,56 por mil atendem ao SUS e 0,63 por mil atendem apenas pacientes privados. Se excluirmos os que têm menos de 20 leitos em 2014, para tornar mais comparável com os dados de 1941, a taxa total cai para 2,04 por 1000 habitantes, sendo 1,45 para hospitais de financiamento pelo SUS e 2,51 de financiamento privado. Só para registro, dos leitos que atendem ao SUS 50,6% são públicos e 49,4,5% são privados lucrativos ou não (filantrópicos) (ver quadro *2).

O mesmo estudo que usa dados de 2014, cujo autor é Armando De Negri (tese de doutorado da USP de 2016) mostra a precariedade de distribuição de leitos no Brasil, com concentração de leitos em grandes cidades e escassez no interior, onde faltam principalmente leitos tecnológicos, aqueles que têm respirador e outros equipamentos que fazem parte de uma UTI (unidade de tratamento intensivo) necessária no caso das complicações respiratórias do coronavirus. O SUS, apesar de sua proposta, manteve  a desigualdade social no acesso a serviços de maior custo.”

O estudo recente citado por Azeredo Costa com dados de 2014 aponta a disponibilidade em todo território nacional de 12.860 leitos SUS de UTI para adultos, o que equivale a cerca de  0,063 para mil habitantes ou 6,3 para 100 mil habitantes. 46,5% estão em hospitais públicos. 53,5% em hospitais privados conveniados ou contratados. De outro lado, o mesmo número aproximado de leitos de UTI de adultos está em leitos hospitalares exclusivamente privados.

“Mesmo países desenvolvidos com excelentes serviços de saúde essencialmente públicos (podemos citar Itália e Espanha) não estão dando conta dessa situação epidêmica. Que dirá  aqui com as deficiências já apontadas. Nossa maior riqueza, no entanto, é o pessoal da saúde que no espirito de seu compromisso ético-profissional está todo dedicado a se preparar para o que pode vir.”

Azeredo Costa acredita que o gabinete de enfrentamento da epidemia do Ministério da Saúde tenha condições de acionar os instrumentos necessários agora, mas seria importante deixar um legado para os tempos que logo virão.

“Precisamos de um bom planejamento. Mas tem um grande problema: o SUS não tem planejamento voltado para equidade, para a adequada distribuição dos recursos. Tem um planejamento orçamentário, apenas, com muita interferência política indesejável em relação a contratos na sua execução. Não foi instituído um planejamento de saúde adequado no Brasil. E essa questão é central agora para essa emergência ser melhor atendida. Como é que nós vamos pensar, em cima do mapa, onde estão os leitos, onde está a população, onde é preciso requisitar leitos ou desapropriar temporariamente imóveis para montar hospitais?”

Alguns estádios de futebol, como o Pacaembu e o Mané Garrincha, e até um campo localizado dentro da Fiocruz, já estão se transformando em hospitais de campanha. Isso, porém, não é suficiente de acordo com a avaliação do médico sanitarista.

“O problema dos estádios é que ficam nos grandes centros. Todo mundo que adoecer vai ser trazido pros grandes centros? Não. Tem que ter estrutura acompanhando a distribuição da população. Como falta planejamento, o que vão fazer? Reforçar tudo o que já existe? Aí é uma política contraproducente destinada a fracassar.”, opina.

Uma das principais preocupações do especialista é a chegada da pandemia nas favelas brasileiras.

“À medida que (a pandemia) chega nas classes populares, a transmissão será mais explosiva, porque ali é todo mundo muito aglomerado, junto. Isso é o que mais tememos. Nossa concentração de riqueza é escandalosa. Então, nós vamos ter incapacidade de atender adequadamente a todos os que precisarem usar o SUS medico-assistencial. Incapacidade esta que já acontece hoje.”, pontua Costa.

Ele comenta que as pessoas das classes médias preferem resolver seu problemas com plano de saúde privado, mas usufruem das vacinas do SUS, por exemplo.

“Um trabalho que no Brasil sempre foi bom. É uma tradição que vem de longe, com Oswaldo Cruz, na época do controle da febre amarela, da peste, da varíola, no começo do século passado.

Temos uma história rica no desenvolvimento da saúde pública no Brasil, que não parou em nenhum tipo de governo. É verdade que na ditadura militar houve a desenfreada privatização da assistência médica da previdência social, um péssimo legado, mas a área de saúde pública mesmo com recursos limitados avançou. Ela tomou suas características, em cada momento, mas sempre foi para frente, tendo tido grande impulso na época do governo Vargas.

As pessoas não olham muito para trás, mas foi fantástico o desenvolvimento da saúde publica no Brasil. Mas precisamos avançar muito ainda na estrutura organizacional do SUS”, conclui.

*1 Censo Hospitalar do Brasil de 1941-42**.

Tipo de HospitalNo. de EntidadesNo. de LeitosLeitos /1000 hab.
Especializados (1)18348.2281,16
Gerais (2)105168.4411,59
Total (3)1234116.6692,75

 ** – Fonte: De Negri (2016).

(1) – Doenças Mentais, Tuberculose e Lepra (internações de longa duração).

(2)  – Não estão incluídos clínicas e enfermarias isoladas com menos de 25 leitos.

(3) – A quase totalidade dos hospitais era público ou sem finalidade lucrativa.

*2  Leitos Hospitalares no Brasil, por tipo de entidade, 2014.**

Tipo de Hospital   Financiam   No. de Leitos (%)  Taxa Geral (1)  Taxa de Acesso (2)

A – Público              SUS             149.403 (35,9)      0,734                1,45 (A+B)

B – Priv. Conv.       SUS              145.775 (35,1)      0,716

C – Privado             Privado       120.455 (29,0)        2,510                 3,96 (C)

      Total Geral       SUS+Priv     415.633 (100,)       2,042***          2,105****

* Elaborada pelo autor com dados do trabalho de De Negri (2016)

** Não inclui dados de hospitais com menos de 20 leitos.

*** Taxa bruta.

**** Taxa ponderada.

(1) Taxas de leitos por 1000 hab. considerando a população total em dezembro de 2014.

(2) Taxas considerando a população que tem direito a acesso. No caso do C – Privado quase 100% são planos de saúde que financiam e a população que tem acesso (que era pois a cerca de 24% da população em 2014). No entanto, especialmente nos leitos de alta tecnologia os usuários de planos de saúde também usam o SUS. A taxa para esse grupo poderia ser acrescentada por mais 1,45 por mil, chegando a 3,96 por mil pessoas.

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA EDUARDO AZEREDO COSTA E PARTE DE UMA SÉRIE DE MATÉRIAS QUE ESTÃO SENDO PUBLICADAS AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS. 

Destaque

"O desastre Bolsonaro é muito maior do que o do coronavírus", diz sanitarista

O médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa, que foi diretor de Farmanguinhos e trabalhou cerca de 30 anos na Fiocruz, é enfático ao afirmar que “disciplina social é central para controlar doenças”. Mas como exigir do povo essa disciplina se o principal mandatário da República, o presidente do país, debocha da situação e não passa confiança?

Foto: reprodução/youtube.

Por Ana Helena Tavares, jornalista

O médico sanitarista e epidemiologista Eduardo de Azeredo Costa, que trabalhou na Organização Mundial de Saúde (OMS) na erradicação da Varíola e por 30 anos na Fiocruz, onde foi diretor de Farmanguinhos, é enfático ao afirmar que “disciplina social é central para controlar doenças”. Mas como exigir do povo essa disciplina se o principal mandatário da República debocha da situação e não passa confiança? A irresponsabilidade do presidente chegou ao ponto de ele ir ao encontro de pessoas nas ruas, nas manifestações de 15 de março, num momento em que a OMS já havia decretado pandemia.

“A disciplina social se ocasiona quando uma autoridade que seja institucional e acreditada pela população se posiciona. Quer dizer, a autoridade vem dessas duas coisas. Do papel formal que ele exerce e de que as pessoas reconheçam que ele faz isso seriamente. Quando não tem, cada um faz o que acha melhor. E não pode. Fica um tumulto”, avalia o médico.

Sabe-se que o tumulto está instalado quando, por exemplo, observamos a queda de braço entre o presidente e governadores. Enquanto estes tomam medidas como o fechamento de estradas, Bolsonaro vai lá e os desautoriza.

“Acho que falta a ele (Bolsonaro) sentimento de seu dever social. Falta a ele entender que, por mais que seja difícil esse momento, nós temos que tentar convergir para a mesma posição. Porque o país precisa hoje é que todos trabalhemos juntos para o controle do coronavírus.

Eu quero dizer o seguinte: é preciso um mínimo de harmonia (entre poderes e instâncias). Você não consegue convencer as pessoas com argumentos dissonantes.

A verdade é que o Bolsonaro, pelo despreparo dele, pelo grau de incapacidade social ser muito grande, por ele ser um cara que pensa em termos de clã, nos está fazendo perder nesse momento a capacidade de coordenação nacional do combate à pandemia.”

O epidemiologista não hesita ao definir o atual governo federal como “um vírus maior do que o coronavírus”:

“O importante é pensar numa estratégia de mudança de governo – e talvez esse vírus até acelere isso. Porque o mal que estava sendo feito, desde antes dessa pandemia, para a economia, para a vida das pessoas, é terrível. Como a precarização das leis trabalhistas, as pessoas sem seguridade social. Ou seja, o desastre Bolsonaro é muito maior do que o do coronavírus. O desastre Bolsonaro vai durar muito tempo. O coronavírus vai levar de quatro a cinco meses e depois as coisas se acomodam. O Bolsonaro ainda tem mais 3 anos e, mesmo depois disso (ou mesmo que ele caia antes), vai nos deixar muitas dificuldades para retornarmos a um país fraterno, para retornar a um país conciliado consigo mesmo, com um bom projeto de desenvolvimento, com justiça social. É chato a gente ter certeza de que há um vírus maior do que o coronavírus aqui entre nós.”

Além de médico, Eduardo Azeredo Costa é político. Foi secretário de saúde de um dos governos de Leonel Brizola no Rio de Janeiro. Foi secretário de ciência, tecnologia e insumos estratégicos do Ministério da Saúde, durante o governo de Dilma Rousseff. Ele tem como lema uma frase do patologista alemão Rudolf Karl Virchow: “A medicina é uma ciência social e a política nada mais é do que a medicina escrita por extenso”

“Eu sempre digo que a minha especificidade é a união da saúde e da política. Não é política de saúde. É política e saúde. São coisas que se falam, e são paralelas, uma não larga a mão da outra. Ao mesmo tempo, nenhuma deve ocupar o lugar da outra. Como a dupla hélice do DNA!” comenta.

Com a experiência de quem transitou tanto por laboratórios de pesquisa científica como pelos corredores do poder, Costa lamenta que o governo federal represente um ataque à saúde e não ao vírus, como deveria ser:

“Como eu já trabalhei em controle de doenças, tenho a opinião de um sanitarista. Claro que com seus conflitos, entre a sua profissão e suas crenças. Nesse sentido, eu diria que questões específicas de saúde têm uma predominância tal que não devem entrar em intrigas políticas, na luta política partidária, por exemplo.

No caso da união estratégica de um povo, quando entra numa guerra, não dá para ficar pensando quem era ou não contra a guerra, não adianta ficar querendo mudar uma história que já aconteceu. Se está declarada a guerra, eu vou fazer o quê? É preciso tomar resoluções.

No momento atual, o que vejo é que temos uma política negativa com relação à saúde por parte do governo federal. O ataque desse governo é à saúde e não ao vírus. Este será controlado mais rapidamente.”

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA EDUARDO AZEREDO COSTA E PARTE DE UMA SÉRIE DE MATÉRIAS QUE ESTÃO SENDO PUBLICADAS AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS. 

Destaque

O humano, o social, o epidemiológico. É preciso conciliar, alerta médico

o médico sanitarista Pedro Reginaldo Prata chama atenção para a importância de se levar em conta as consequências sociais e humanas, além dos aspectos epidemiológicos, quando se trata da imposição de quarentena para o enfrentamento de uma pandemia, como a de coronavírus (COVID-19).

Foto: REUTERS/Borut Zivulovic

Por Ana Helena Tavares, jornalista

“Uma coisa que eu tenho ouvido que eu discordo é, por exemplo, recentemente o ministro da saúde orientando a não deixar os filhos com os avós. Como não deixar com os avós? Quer dizer, ele está pensando, corretamente, que o idoso é mais vulnerável para ter o quadro grave. Entretanto, muitas famílias não têm onde deixar os filhos. Vão deixá-los sozinhos?” Com esse questionamento, o médico sanitarista Pedro Reginaldo Prata chama atenção para a importância de se levar em conta as consequências sociais e humanas, além dos aspectos epidemiológicos, quando se trata da imposição de quarentena para o enfrentamento de uma pandemia, como a de coronavírus (COVID-19).

“Se as crianças têm sintomas, sabendo que é coronavírus ou não, aí evita contato com o idoso, claro. Mas não é no genérico, todas as crianças. Não. O idoso vai ajudar a cuidar. Se não pode ir para a escola ou para a creche, as crianças têm que ficar em algum lugar. Ou os pais passam a ser liberados do trabalho, em turnos. Ou algum familiar vai ajudar, ou um vizinho. Até porque o idoso ficar isolado é muito deprimente para o idoso também. É preciso um balanço entre o humanamente possível, o socialmente possível, e o epidemiologicamente recomendável, que é dinâmico, porque depende do grau de evolução da doença.”

Quando o sanitarista chama de “dinâmico”, ele se refere ao fato de que as ações, a intervenção e a orientação no que diz respeito a uma pandemia podem mudar de acordo com os acontecimentos. Como consequência humana e social, essa característica instável gera o ambiente ideal para a proliferação do pânico. Mas esse cenário pode ser amenizado com a circulação de informações corretas.

“A única maneira de controlar uma epidemia propriamente dita é quando existe uma vacina. Não existindo vacina – acho que em breve vamos ter uma – a solução é tentar de fato bloquear os casos, ou seja, os contatos. E como fazer isso sem que as pessoas se assustem? Eu não tenho a fórmula.

Depende muito da repercussão, da velocidade da expansão. E nós estamos num mundo hoje de muita comunicação, de muita divulgação. É claro que imagens de pessoas com uniformes de proteção para casos mais graves (como a que ilustra esta matéria), sem dúvida nenhuma, aumentam o medo das pessoas e a insegurança.

É muito difícil a gente julgar sob o ponto de vista da reação das pessoas. A tendência das pessoas é ficarem alertas em situações de medo e insegurança. O papel da gente, da área de saúde pública, é observar o que está se passando e ver como agir, como controlar. O esclarecimento ajuda muito, sem dúvida.”, pontua Prata.

O SUS e a necessidade da colaboração de todos

“É extremamente desumano, triste, difícil, quando você não tem como atender”, salienta o médico, referindo-se, ao mesmo tempo, à incapacidade do sistema de saúde de dar conta da demanda e à responsabilidade que a sociedade tem de colaborar nestes momentos.

“Na realidade nossa, penso que a gente tem um sistema público deficiente na questão da facilidade do acesso, quantidade de profissionais… Tem uma precarização muito grande dessa mão de obra hoje em dia com a terceirização… E não existe uma uniformidade na padronização da atenção por causa dessa pulverização da municipalização com níveis diferentes de complexidade, de formação das pessoas. A gente tem um sistema muito menos integrado, tanto que o Ministério (da Saúde) acaba tendo uma função muito mais de orientação do que de determinação de ação. Isso pode fragilizar situações como essa (de pandemia).  

Acho que a gente não tem estrutura para dar conta de uma explosão expansiva de casos. Então, uma das alternativas que estamos tendo de testar para uma certa contenção – isso de evitar aglomerações, escolas, etc. – tem a possibilidade de reduzir a velocidade de expansão. Em todas as questões, nós temos que pensar em como se minimiza a possibilidade (de transmissão). Com o isolamento entre aspas – quando falo entre aspas é porque não se trata de um isolamento absoluto, mas de evitar multidões e de ficar mais em casa –  você libera as unidades de saúde, não sobrecarrega o sistema, e consegue tratar os casos graves quando surgirem, mesmo porque assim teremos menos casos graves. E as pessoas poderão ser atendidas”, avalia.

“A escolha de Sofia” e o “tratamento humano”

“Na profissão médica, uma das coisas que a gente é treinado, aprende e é muito duro, mas faz parte, é a definir prioridades. Se você tem 10 leitos e 15 pacientes, o que é mais grave, o que não é? E o que é grave mas você já sabe que não há possibilidade de cura? Nesse caso, você tem que fazer um tratamento humano, que alivie a pessoa, mas deixar seguir seu curso. Agora, se existe uma gravidade, que você sabe que tem possibilidade de cura, aquilo deve ter prioridade, para um tratamento intensivo, etc…

O médico é preparado para a atenção individual. Para tratar doentes e identificar a doença. Eu acho até que a qualidade da formação vem caindo. Ele deve estar preparado para identificar sinais e sintomas, principalmente – e esse é o desafio numa pandemia – identificar o que é grave. Na grande maioria dos casos, inclusive no caso desta (COVID-19), as pessoas vão ter o que seria um quadro gripal entre aspas e vão ficar boas. A questão é como identificar o que é grave ou está se agravando.

Isso exige conhecimento, experiência e uma capacidade de empatia humana muito grande. Ter que lidar com sentimentos, com famílias, com pessoas… A pior de todas as situações é as pessoas se sentirem desamparadas, abandonadas… Então, existe um caráter individual de atenção médica e um caráter coletivo, que é o que lida com os números. Todas as ações da epidemiologia, na verdade, são ações de saúde pública. Aí estamos tratando de como minimizar o impacto” conclui.

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA PEDRO REGINALDO PRATA E A TERCEIRA PARTE DE UMA TRILOGIA PUBLICADA AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS.

CLIQUE AQUI para assistir ao vídeo com a entrevista completa:

Primeira parte, sobre a responsabilidade social em tempos de pandemia: https://quemtemmedodademocracia.com/2020/03/16/medico-sanitarista-fala-sobre-a-responsabilidade-social-em-tempos-de-pandemia/

Segunda parte: “Governos do Brasil e dos EUA vivem da notícia mentirosa”: https://quemtemmedodademocracia.com/2020/03/17/governos-do-brasil-e-dos-eua-vivem-da-noticia-mentirosa-diz-sanitarista/

Destaque

"Governos do Brasil e dos EUA vivem da notícia mentirosa", diz sanitarista

Ao ser questionado sobre se poderia esclarecer algumas dúvidas que pairam na cabeça da população nestes tempos de pandemia do coronavírus (COVID-19), o médico sanitarista, PhD em epidemiologia, Pedro Reginaldo Prata, não hesitou em acusar os governos do Brasil e dos EUA de serem, propositalmente, disseminadores de desinformação.

Charge: Laerte

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Ao ser questionado sobre se poderia esclarecer algumas dúvidas que pairam na cabeça da população nestes tempos de pandemia do coronavírus (COVID-19), o médico sanitarista, PhD em epidemiologia, Pedro Reginaldo Prata, não hesitou em acusar os governos do Brasil e dos EUA de serem, propositalmente, disseminadores de desinformação.

“A gente tem governos, como acontece no caso do Brasil e dos Estados Unidos, que vivem da notícia mentirosa. Quer dizer, a mentira ou a distorção não é vista como valor imoral. Não! Ela passa a ser um instrumento de ação, de cooptação de pessoas, de divulgação de ideias. A valorização da verdade, da origem da informação, como uma coisa em si boa, independentemente da maneira mais conservadora ou mais progressista que cada um tenha como visão do mundo, é um valor que está se perdendo”, lamenta o médico.

Bolsonaro já chegou a definir o coronavírus como “invenção do jornalismo catastrófico”. A doença, porém, não só existe como não é uma novidade.

“Ela é de uma família de vírus que já provocaram várias outras situações. Como que esses vírus se comportam? Eles são vírus instáveis, têm mutações leves e, quando passam para as pessoas, não se sabe como vão se comportar com clareza sob o ponto de vista de gravidade e da velocidade de expansão.

Não se trata de uma gripe tradicional. Muitas vezes usa-se esse termo para facilitar o entendimento. Mas nesse caso (no COVID-19) o próprio vírus ataca o pulmão e isso o diferencia de uma gripe viral normal. Por isso, ele dá falta de ar, especialmente nos casos graves.”, esclarece.

O médico acredita que teremos o pico da doença no Brasil em abril e maio, começando a cair em junho e julho.

“Na China, o surto durou cerca de 3 meses e está em queda agora. A tendência desses surtos é em torno de 4 meses. A certeza absoluta a gente não tem para o coronavirus. Porque até que ponto as medidas que a China adotou colaboraram para reduzir a intensidade e duração do ciclo? O mais provável é que tenham colaborado.”, comenta.

A seguir, um ping pong com algumas perguntas respondidas por Prata:

  • O que significa “transmissão comunitária”?

Pedro Reginaldo Prata: Esse termo tem sido usado pelo governo, mas é questionável. Eles não conseguem definir o que querem dizer com isso, porque seria uma transmissão quando você não identifica a fonte. Ora, aquela pessoa não adoeceu do nada. Ela teve contato com alguém infectado. Então, o conceito mais interessante seria chamar de transmissão interna, que não é importada do exterior. E isso é o que começa a preocupar, porque significa que o vírus já começou a circular aqui dentro.

  • É verdade que o vírus sobrevive mesmo em ambientes quentes e abertos? As pessoas devem ou não ir à praia?

PRP: É ótimo ir à praia. Porque, quanto mais aberto o ambiente, melhor. A questão da transmissão é em ambientes fechados, como cinemas, teatros, onde a proximidade é muito grande, como também num estádio de futebol. Agora, é claro que tem uma outra questão problemática: se você for chegar à praia num ônibus lotado… Mas a praia em si não há problema.

Aliás, o calor é um bom detector de transmissão dos vírus gripais em geral. Não é à toa que as vacinas são feitas para inverno. Na Europa, a vacina gripal é feita antes do inverno de lá. E aqui é feita em abril normalmente. Por que isso? Primeiro que o frio favorece o fechamento das pessoas em ambientes fechados. Segundo que o frio em si não adoece, mas ele torna nossa mucosa mais vulnerável, mais sensível à penetração de vírus. O calor tem o efeito contrário.

Até por isso uma das preocupações que eu tenho nesse caso é que a Europa está na primavera e vai entrar no verão, já conosco será o contrário. O surto está começando aqui e nós vamos entrar no inverno. O inverno aqui não é tão intenso, daqui (Rio de Janeiro) para o norte, mas daqui pro sul é parecido com o europeu.

  • Há quem diga que crianças são totalmente imunes e não têm chance de pegar o coronavírus. É verdade?

PRP: Bobagem pura. Apenas a probabilidade de desenvolver um quadro grave é mínima. É muito pequena. Diferente do sarampo. E elas transmitem da mesma maneira.

  • A vacina que já existe contra a influenza pode ajudar?

PRP: Não. De maneira nenhuma. Primeiro que é uma faca de dois gumes antecipar vacina. Sob o ponto de vista do serviço de saúde, é bom, porque reduz os quadros gripais tradicionais, digamos assim. Então, haverá menos pessoas com medo de estar com o coronavírus. Mas, por um lado, a vacina é voltada para profissionais, crianças e idosos. A não ser que fosse vacinar todo mundo…Os jovens e o pessoal que está no intervalo estão suscetíveis da mesma maneira. Então, a capacidade que ela vai ter de reduzir impacto no serviço de saúde é relativo, porque depende do grupo etário que ela está voltada. Para ter efeito, seria preciso vacinar todo mundo.

Outra preocupação que eu tenho (nesse caso de antecipação de vacinas) é as pessoas pensarem: “Poxa, eu tomei vacina e peguei o coronavirus”. Ou seja, as pessoas confundirem o coronavirus com a gripe normal e acabarem desacreditando da vacina. Não só dessa como das outras. E, hoje no mundo das fake news e da manipulação da verdade em prol de agendas próprias, como o governo faz no sentido político, vai ter o pessoal anti-vacina dizendo: “Tá vendo? Não adiantou nada!”

  • Álcool gel é eficiente mesmo? Pode ser substituído por água e sabão com o mesmo efeito?

PRP: É eficiente. A água e o sabão bem usados, aquele papo que a televisão já mostrou de lavar direitinho, entre os dedos, e com frequência, resolve. O álcool gel tem a praticidade. Principalmente, em situações como no restaurante, no serviço de saúde, em escolas, no transporte público… Quer dizer, as pessoas não vão ter acesso fácil a uma pia com bastante sabão toda hora. Então, você passa um álcool. Mas tem que ser o 70%. O álcool gel é sempre 70%, mas tem um álcool mais líquido que é 30%. E tem um outro mais barato que você olha lá e tem 40% ou 45%.

  • A máscara é eficiente tanto para quem usa quanto para os outros?

Não. Ela reduz a probabilidade de transmissão. Existem dois tipos de máscara. Uma mais simples, que é mais fácil de encontrar. E a máscara propriamente cirúrgica, médica, que é uma máscara que realmente contém e é importante para o profissional de saúde.

Se houvesse possibilidade de ter máscara para todo mundo, embora seja uma coisa bem assustadora, seria ótimo. Mas provavelmente não haverá produção industrial que dê conta disso. Então, qual é a questão? É reduzir o dano, reduzir a possibilidade de transmissão. Quem tem sintoma usa a máscara. Quem não tem não usa.

Aí alguém pode perguntar: ‘mas a pessoa pode não ter sintomas e já ter o vírus’. É verdade, pode ser assintomático. Ou seja, não existe proteção perfeita. Porém o assintomático transmite com menos intensidade. Porque quem tem sintoma tosse, espirra, está jogando as gotículas para fora. Quem não tem não tosse nem espirra, aí só vai transmitir se houver um contato muito, muito próximo.

  • Quando deve ser feito o teste do coronavírus?

PRP: Tendo sintomas deve ser feito. Na medida em que houver uma expansão muito intensa, caso ocorra, é inviável. O ideal é todo mundo testar? É. Mas, na medida em que não haja a capacidade de ter testes disponíveis suficientes, seja por questões econômicas ou de produção, isso gera nas pessoas medo. Vão pensar: “Ah, eu não fui testado ainda”. Então, se puder tranquilizar a pessoa, humanamente é melhor.

Existem doenças como essa (covid-19) que só fazendo o teste é possível ter certeza. (…) Por que quem tem sintomas é importante testar? Porque se o quadro agravar e precisar de internação, se o teste for positivo, ele precisa ter graus maiores de isolamento. E não é em qualquer UTI. Quem conhece UTIs, sabe que tem algumas que são conjuntas, vários leitos separados por uma cortininha. Essa não serve para o coronavírus. Tem que ser num quarto isolado. O ideal seria com pressão negativa, mas isso é muito difícil.

Reflexões complementares (em 21 de março, a pedido do entrevistado):

[10:35, 21/03/2020] Pedro Reginaldo Prata: Quanto ao pico da transmissão não vai se dar em 2 dias. Estamos em ascensão. Com a reclusão. A curva vai subindo nas próximas 4 semanas. Minha preocupação é que ainda predomina na classe media. Chegando as favelas não há reclusão que dê jeito naqueles cubículos, vielas… por isso na minha entrevista “liberei” a praia. Pra estas pessoas as áreas livres pode ser melhor. Por outro lado o isolamento social da classe média pode ajudar em retardar a transmissão para as áreas mais vulneráveis
Claro que há controvérsias em relação aos lugares públicos. Estamos vivendo um “experimento” natural epidemiológico. Muito a aprender com o que se passa.
Como estamos vivendo um “experimento” natural epidemiológico e há muito a aprender com o que se passa, poderiam aproveitar que nosso país é um continente e desenhar estratégias de controle diferenciadas de acordo com o numero de casos e as portas de entrada do vírus para avaliar o melhor resultado estarmos preparados para novas epidemias no futuro. A trajetória de entrada do vírus pode ser avaliada pelo histórico “semiológico” dos contatos e também pelo mapeamento do padrão genético do virus em cada lugar
Cabe ao ministro discutir internamente as medidas para evitar o colapso. E dizer que com a colaboração de todos como vem ocorrendo vai se evitar o pior. Tranquilizar e orientar e não desabafar publicamente.

Observação sobre contraindicação: o médico alerta que quem tem suspeita de coronavírus não deve tomar o medicamento Ibuprofeno.

Assista a seguir a dois vídeos:

Sobre os governos e suas notícias mentirosas:

Sobre as perguntas e respostas objetivas a respeito do coronavírus:

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA PEDRO REGINALDO PRATA E A SEGUNDA PARTE DE UMA SÉRIE DE MATÉRIAS QUE SERÃO PUBLICADAS AQUI NO QTMD? AO LONGO DOS PRÓXIMOS DIAS SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS. EM BREVE, O VÍDEO COMPLETO, COM CERCA DE 1 HORA DE DURAÇÃO, SERÁ DISPONIBILIZADO NO YOUTUBE.

Primeira parte, sobre a responsabilidade social em tempos de pandemia: https://quemtemmedodademocracia.com/2020/03/16/medico-sanitarista-fala-sobre-a-responsabilidade-social-em-tempos-de-pandemia/

Destaque

Médico sanitarista fala sobre a responsabilidade social em tempos de pandemia

Uma sociedade mais solidária pode surgir a partir da experiência com pandemias, como a do novo coronavírus (COVID-19). Essa é a avaliação do médico sanitarista, PhD em epidemiologia, com décadas de experiência na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Pedro Reginaldo Prata. Mas, para que essa esperança se concretize, é preciso que todos enxerguem sua responsabilidade social.

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Uma sociedade mais solidária pode surgir a partir da experiência com pandemias, como a do novo coronavírus (COVID-19). Essa é a avaliação do médico sanitarista, PhD em epidemiologia, com décadas de experiência em saúde pública, no ensino/pesquisa, e em cargos de gestão governamental, Pedro Reginaldo Prata. Mas, para que essa esperança se concretize, é preciso que todos enxerguem sua responsabilidade social.

“Se as pessoas conseguirem se dar conta de que todo mundo é responsável pelo bem estar do outro, aí as pessoas vão querer se vacinar… Não é uma opção individual. Vacina é uma obrigação, que está te protegendo e protegendo os demais… Então, se eu estou doente, de uma doença que não tem vacina, e ela é transmissível, eu vou ficar quieto no meu canto para evitar que outras pessoas adoeçam, além da minha família”

Ele lembra que, numa sociedade desigual, é bom que ninguém esqueça dos que vivem em situação de pobreza, pois minimizar o sofrimento destes acaba minimizando o sofrimento de todos, até mesmo para que o sistema de saúde não entre em colapso.

“Aí a pessoa não quer pagar imposto. Mas esse imposto é para beneficiar a sociedade como um todo, inclusive aqueles que não têm condições”, pondera o médico.

Embora não concorde com a proposta de internação compulsória em hospitais já aventada por alguns governos para casos graves de COVID-19, Prata acentua que deve haver uma quarentena compulsória autoimposta pelo bom senso da população.

“Não deixa de ser uma atitude irresponsável, se o cara está com caso confirmado (de COVID-19), e, que se dane, acha que pode sair por aí. Não pode sair por aí.”, conclui.

Assista ao vídeo:

Este vídeo é um trecho de uma longa entrevista feita pela jornalista ana helena tavares com o sanitarista Pedro Reginaldo Prata e a primeira parte de uma série de matérias que serão publicadas aqui no QTMD? ao longo dos próximos dias sobre a pandemia de coronavírus. Em breve, o vídeo completo, com cerca de 1 hora de duração, será disponibilizado no Youtube.

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O torturador Ostrovski e o passado que assusta a neta, por Marcelo Auler

Marcelo Auler

A defesa da honra é um direto constitucional de todos os cidadãos. Recorrer à Justiça contra aqueles que lhe destratam, além de ser legal, é compreensível. O inusitado, porém, é se deixar passar três décadas – na realidade, 34 anos – para se discutir na Justiça uma acusação que se considera injusta. Desonrosa. Tal e qual acontece agora com o advogado paranaense Mario Espedito Ostrovski, que desde 1985 é apontado, em documentos oficiais, como “torturador” na ditadura civil-militar que se impôs ao país entre 1964-1985.

No último dia 25 de setembro, Ostrovski ingressou no 2º Juizado Especial Cível de Foz de Iguaçu (PR) – Processo 0028970-35.2019.8.16.0030 – com uma ação de indenização por danos morais, contra o jornalista Aluízio Palmar e o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu. Cobra uma indenização no valor máximo permitido em Juizados Especiais, R$ 39.920,00.

Foi à Justiça por conta de uma publicação no Facebook da entidade de defesa dos direitos humanos, em junho passado (reprodução ao lado), relatando um fato ocorrido seis anos antes: o chamado escracho promovido por militantes do CDHMP na frente do prédio onde o torturador no passado e hoje advogado trabalha. Na inicial da ação judicial, seu advogado, Ary de Souza Oliveira Jr, alega:

Pois bem, em data de 29 de junho de 2019, o requerente recebeu uma ligação de sua neta (adolescente de 15 anos, estudante na cidade de Foz do Iguaçu, e como todo adolescente, conectada às redes sociais) informando que na rede social FACEBOOK havia uma publicação com palavras ofensivas e que a mesma estava muito assustada e com medo diante do que estava vendo perante a rede social, inclusive porque seus amigos de escola estavam perguntado e questionando se tal pessoa MARIO ESPEDITO OSTROVSKI era seu parente, em razão do sobrenome e por óbvio não ser um sobrenome comum”. E continua: “Ainda ao longo deste dia, vários clientes lhe telefonaram, bem como amigos informando a situação que havia sido exposto e ainda querendo explicações se havia o autor sido condenado criminalmente por essas barbáries relatadas no post.”

Será que a neta conhecia o passado do avô?

Mario Espedito Ostrovski. Foto: secretaria Justiça Trabalho e DH PR

Um argumento surreal. Até porque, como se constata da simples leitura, a publicação do Facebook não apresenta nenhuma “palavra ofensiva” que justificasse uma jovem de 15 anos ficar “assustada e com medo diante do que estava vendo”. Não há ofensa, mas relato de fatos.

Relatos que se encaixam perfeitamente bem dentro do direito constitucional de todos à Liberdade de Expressão. Uma velha discussão entre o direito coletivo e o direito individual à preservação de uma imagem. Imagem, no caso, suja por atos criminosos de um passado que o próprio escolheu abraçar. Não por outro motivo, a Associação Brasileira de Imprensa – ABI já se solidarizou com Palmar.

Pela versão do advogado e do “requerente” é possível deduzir, a ser verdadeiro o argumento, que a suposta neta de Ostrovski deve ter se assustado não com o relato do “escracho”, ocorrido quando ela tinha apenas 9 anos. Muito provavelmente horrorizou-se com o passado do avô. Será que ela o desconhecia?

CONTINUE LENDO EM MARCELO AULER – REPÓRTER.

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Um homem chamado rabino. Um cordel para Henry Sobel.

Cordel da Ordem dos Direitos Humanos
Para dizer ao Presidente Miliciano que o Cordel não só conhece História como é a própria História

Cordel da Ordem dos Direitos Humanos
Para dizer ao Presidente Miliciano que o Cordel não só conhece História como é a própria História

Henry Sobel

Um Homem Chamado Rabino
Que denunciou a morte, sob tortura, de Vladimir Herzog, o saudoso Vlado

Henry Sobel, de estola branca, no enterro de Vladimir Herzog.

Na segunda ditadura
O Brasil vivenciou
Estatito da Tortura
Linha dura imperou
Muita gente exilada
Perseguida, assassinada
Um judeu se levantou

O judeu dos mais valentes
Do Direito um defensor
Totalmente diferente
De quem propaga horror
Henry Sobel era Rabino
Que ao povo Palestino
Sempre foi respeitador

Quando o jornalista Vlado
Teve preso no porão
De tanto ser torturado
Na Cadeira do Dragão
Amarrado, encapuzado
Molhado, eletrocutado
Veio a óbito, então

O Estado bandoleiro
Disse que Vlado judeu
Na ala dos prisioneiros
O suicídio cometeu
Mas no corpo do ativista
Marcas que davam na vista
Diziam o que ocorreu

Rabino Israelita
Profeta do Deus Eu Sou
Disse com sua voz bendita:
Vlado não se suicidou
Ao contrário, foi matado
Cruelmente torturado
Tanta dor não suportou

No velório, tal Rabino
Sim, fez dura acusação
Contra regime cretino
Tomou firme posição
Fez denuncia ao mundo inteiro
Do Estado Brasileiro
Que matava cidadão

Junto com Dom Evaristo
O Profeta Cardeal
Em nome do próprio Cristo
Fez Culto na Catedral
Em memória do ativista
Suicidado por fascista
Regime policial

Quem peitou a ditadura
Denunciando o terror
Soube honrar a Escritura
E seu Deus Libertador
Como profeta ousado
Recusou-se ser calado
Diante do opressor

Em tempos milicianos
Este ardente defensor
Dos Direitos Humanos
Contra o ódio de impostor
Fará falta na trincheira
Onde gente brasileira
Não dá trégua a ditador

Fará falta este Rabino
Nas trincheiras do atuar
Contra um Coiso assassino
Que satã fez levantar
Este satanista coiso
Com grupo religioso
Faz arminha pra matar

Quem peitou a ditadura
Assassina contumaz
Por seus atos de bravura
Na coragem tão audaz
Henry Sobel merecia
Pra alegria da Poesia
O Prêmio Nobel da Paz

Henry Sobel vai simbora
Pros rumos dos imortais
Lá pra donde hoje mora
Vlado dos memoriais
Foi simbora o Rabino
Com seu gesto tão divino
De lampejos pastorais

Jetro Cabano Fagundes
Farinheiro do Marajó e de Ananin

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Patricia Arce e Dom Adriano Hypólito: as tintas da intolerância e do fascismo

De todas as violências praticadas por grupos da extrema-direita na Bolívia, no atual processo golpista, o episódio mais chocante talvez tenha sido o sequestro de Patricia Arce, prefeita de Vinto, cidade de 60 mil habitantes na região de Cochabamba.

Rogério Marques

Por Rogério Marques, jornalista

De todas as violências praticadas por grupos da extrema-direita na Bolívia, no atual processo golpista, o episódio mais chocante talvez tenha sido o sequestro de Patricia Arce, prefeita de Vinto, cidade de 60 mil habitantes na região de Cochabamba.

Foto: STR/AFP

Patrícia teve os cabelos cortados por homens e foi pintada com uma tinta avermelhada, certamente por ser filiada ao Movimento ao Socialismo, mesmo partido do ex-presidente Evo Morales. Tudo foi filmado, fotografado e mostrado ao mundo através de redes sociais.

O episódio fez lembrar um outro ocorrido no Brasil em 1976, durante a ditadura militar, governo Geisel. O bispo de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, Dom Adriano Hypólito (1918 – 1996), também foi sequestrado e pintado de vermelho, além de sofrer espancamento e ter sido deixado nu.

Foto: acervo O Globo

Dom Adriano fazia um importante trabalho social na Baixada Fluminense e era um crítico da ditadura militar. O bastante para ser apontado como comunista por militares da extrema-direita, que na época praticavam atentados e assassinavam, na tortura, militantes como o operário Manuel Fiel Filho, em São Paulo.

No caso da prefeita Patricia Arce, o ato de cortar os cabelos tem também um simbolismo machista, como em guerras e conflitos étnicos no passado. A agressão não parou por aí: Patricia foi obrigada a caminhar suja, descalça, cabelos cortados em meio ao bando que a xingava.

Depois de resgatada pela polícia, ainda atônita, muito abalada, a prefeita declarou aos jornalistas: “”Sou livre e não vou me calar. Se querem me matar, que me matem. Como eu disse um dia, darei a minha vida por esse processo de mudança”.

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E o golpe também pegou a Igreja

Os dirigentes da Igreja Católica na Bolívia se declaram favoráveis ao golpe.

Por Marcelo Barros, monge beneditino

Marcelo Barros

As mais recentes notícias sobre a Bolívia nos entristecem, por causa do terrível golpe de Estado e da realidade triste que ele significa de racismo e de fechamento das elites com relação a qualquer governo que tente administrar o país para a maioria do povo. Por outro lado, o mais triste é constatar que os dirigentes da Igreja Católica na Bolívia se declaram favoráveis ao golpe.


Em sua declaração, os bispos negam que tenha havido golpe, mas não explicam como se derruba um presidente constitucionalmente eleito sem golpe. Deixam claro que a primeira preocupação é a defesa da propriedade e só depois falam na vida das pessoas. Convocam as forças armadas para cumprir essa função constitucional, sem nada dizer do fato de que se elas tivessem cumprido sua função nesses dias, não teria acontecido o que aconteceu. Nenhuma palavra sobre a violência e os crimes cometidos pela oposição que provocou o golpe. Nenhuma alusão à realidade dos povos indígenas, maioria da população boliviana que o presidente Evo Morales representava. E aludem claramente à possiblidade de novas eleições.


Qualquer pessoa de bom senso que leia a declaração da Conferência dos Bispos Bolivianos diante do atual Golpe de Estado poderá se fazer várias perguntas. A primeira é a que Igreja esses bispos pertencem: a do papa Francisco ou a que insiste em se manter no modelo de Cristandade, graças aos núncios de cada país que garantem a nomeação de bispos, à imagem e semelhança de um Vaticano que boicota o papa? Os mesmos bispos que nunca se pronunciaram contra as ditaduras militares do passado e os governos corruptos que tomaram conta do país até o século XXI, de repente, sempre que podem mostram sua inaceitação de um governo que não prestigiou mais o poder eclesiástico dos bispos e se declarava sempre pela valorização das espiritualidades dos povos originários. Provavelmente esses bispos não quiseram ler o Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia, nem prestaram atenção às palavras do papa Francisco colocando a valorização das culturas originárias como missão da Igreja. Será que não percebem que, por trás da rejeição a Evo Morales (com todos os defeitos e limitações que seu governo possa ter) o que está por trás é o racismo e o ódio contra o processo que na Bolívia, desde o primeiro governo do MAS, tem se chamado de Revolução Indígena? Por acaso, algum desses bispos pode afirmar que algum dos líderes da oposição ao governo agora derrubado tem a mesma preocupação ética e a mesma solidariedade ao povo pobre que o governo de Evo Morales, com todos os seus defeitos, demonstrou?


Outra questão é se esses bispos representam de fato a Igreja Católica da Bolívia ou sinalizam um fosso entre a cúpula e as bases?


De um lado, é triste constatar que dificilmente os bispos se pronunciariam de forma tão clara pelo golpe e contra o processo constitucional da Revolução Indígena se a maioria dos padres e diáconos das dioceses tivessem posição contrária. Sabemos que a Pastoral das Culturas que corresponde ao que aqui no Brasil seria o CIMI e a CPT juntos e os/as companheiros/as da Pastoral Bíblica das diversas regiões da Bolívia sempre têm apoiado as iniciativas do governo e quando podiam colaboravam com ele. No entanto, a declaração dos bispos revela um fosso entre os bispos e muitas bases das comunidades e mesmo entre os bispos e os/as responsáveis leigos ou padres das pastorais sociais.


Provavelmente o que está por trás dessa declaração é o velho instinto eclesiástico de se posicionar sempre pela elite e à direita. É o mesmo tom e conteúdo das declarações dos bispos da Venezuela e também do Equador quando este ainda se movia nos caminhos da Revolução Cidadã.


Essa declaração revela que nenhum desses bispos, alguns dos quais têm suas Igrejas na região panamazônica, devem ter assinado o Pacto de compromisso com os pobres renovado pelos bispos e missionários nas Catcumbas de Domitila em 20 de outubro de 2019.

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A sina da América católica

Católico fervoroso, Camacho faz América Latina retomar a tradição de golpes de Estado violentos.

Luiz Fernando Camacho, no púlpito, de bíblia na mão, ao lado de imagem de Nossa Senhora.

Por Ana Helena Tavares, jornalista

A América já não é tão católica se compararmos com a época em que Caetano Veloso tinha longos cachos e lamentava a nossa “incompetência” e consequente necessidade de “rídiculos tiranos”. Porém, a parcela reacionária do catolicismo permanece decisiva nos rumos políticos desse pedaço de terra abaixo da linha do Equador.

Basta observar que, apesar de estar sendo chamado genericamente de “fundamentalista religioso”, o líder golpista boliviano, Luiz Fernando Camacho, é católico fervoroso, devoto de Nossa Senhora. Basta observar ainda que, no Brasil, o voto católico foi decisivo para eleger Bolsonaro.

Como já tem sido muito estudado, os católicos chamados “carismáticos” (mas não só estes) se aproximam dos neopentecostais “evangélicos”. Ambos são faces de um “cristianismo” sem Cristo, calcado no velho testamento. Um “cristianismo” que acredita num Deus opressor, mau e punitivo, negando tudo o que o homem de Nazaré fez em vida.

Há os que lideram golpes e tomam a linha de frente, de bíblia e cruz na mão, mas há muitos que seriam mais honestos se dissessem que seguem o “pilatismo”, pois simplesmente lavam as mãos diante de qualquer injustiça.

No caso dos católicos, são surdos ao atual líder da Igreja. Lamentam que hoje o trono de Pedro não seja ocupado por um ridículo tirano.

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Paulo Guedes: o Kamikaze do deus mercado

Paulo Guedes: o kamikaze do deus mercado, por Ana Helena Tavares

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Há quem divida os ministros do Bolsonaro em: técnicos, ideológicos e fanáticos religiosos. Hoje, um deles, o ministro da economia Paulo Guedes, resolveu unir as três características, desfilando sua “técnica”, sua ideologia e seu fanatismo.

Guedes anunciou em Brasília novas medidas. Entre estas medidas, uma flagrantemente inconstitucional. A proposta de que servidores públicos filiados a partidos políticos percam, por isso, a estabilidade no emprego.

Anunciou isso portando uma pulseira com um versículo bíblico: Apocalipse 12:11. Lá, se lê:

“E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte”.

É um trecho bíblico que sustenta, por exemplo, a crença de um Kamikase que aceita ir para o sacrifício em nome de Deus.

Como se sabe, o deus em questão é o mercado e Guedes parece estar disposto a sacrificar um país por ele.

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Assista Marighella

Como parte das rememorações pelos 50 anos do assassinato de Carlos Marighella, o cineasta independente Carlos Pronzato resolveu disponibilizar na rede gratuitamente o documentário que fez sobre o ex-guerrilheiro. Assista.

Como parte das rememorações pelos 50 anos do assassinato de Carlos Marighella, o cineasta independente Carlos Pronzato resolveu disponibilizar na rede gratuitamente o documentário que fez sobre o ex-guerrilheiro. Assista: https://bombozila.com/carlos-marighella-brasil/?fbclid=IwAR2Yvkl52RCd0HOaJ0Ce7yE03-0ezUtRDryEwelkpb6F58sDzNmoofjOUqo

CARLOS MARIGHELLA. QUEM SAMBA FICA, QUEM NÃO SAMBA VAI EMBORA (Documentário/ 90 min./ 2011/ Brasil/ direção: Carlos Pronzato)
O documentário – que foca principalmente o período da luta armada de resistência à Ditadura Militar, de 1964 até a morte de Marighella, em dezembro de 69 – é um resguardo e instrumento de difusão da memória do deputado comunista e guerrilheiro da ALN – Ação Libertadora Nacional – Carlos Marighella (1911 – 1969).
O testemunho de militantes políticos que acompanharam a trajetória de Carlos Marighella, estudiosos do tema e pesquisadores dão o tom no documentário. O seu filho, Carlinhos Marighella; o último comandante do GTA da ALN, Carlos Eugênio Clemente; os militantes da ALN, Manoel Cyrillo, Guiomar Lopes, Takao Amano, Carlos Fayal, José Luiz Del Roio, Antonio Carlos Fon, Rafhael Martinelli, Rose Nogueira; os historiadores Muniz Ferreira, Edileuza Pimenta; os jornalistas e escritores Emiliano José e Alípio Freire, entre outros, são alguns dos entrevistados.
Selecionado para o 3° Festival Internacional de Cine Político/Argentina-FICIP 2013
Lançado durante as comemorações do centenário de nascimento de Carlos Marighella em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 2011 e e

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Filho de brigadeiro herói de guerra lamenta destruição do vínculo entre militares e o país

“Vai ser um caminho difícil, duro, sofrido até que as novas gerações de militares, de oficiais e subalternos consigam se reencontrar com seu POVO e seu PAÍS. Isso se realmente desejarem tal reencontro e o encontro novamente da razão de sua existência.”

Pedro e seu pai, o brigadeiro Rui.

Por Pedro Luiz Moreira Lima*

Tenho maior respeito e carinho pela carreira militar. Afinal, meu pai e dois tios foram militares da Força Aérea Brasileira (FAB). Assim, não poderia ser diferente.
Aprendi com eles a repudiar por completo o militarismo e suas ditaduras.
Em nossas Forças Armadas (FAs) sempre houve divisões: Golpistas x Legalistas, Nacionalistas x Entreguistas e mesmo Esquerda x Direita.
O Golpe de 64 foi a vitória dos golpistas e o afastamento pela força e violência dos Legalistas. Havia divisões entre eles, Golpistas Entreguistas x Golpistas Nacionalistas e, graças a essa divisão entre os militares, o Estado Brasileiro não foi destruído, apesar das corrupções e violências cometidas.
Hoje, nossas FAs estão com seríssimos problemas em todos os sentidos: pessoal, treinamento, material. Em suma, TUDO! O pior dos piores foi a completa destruição de valores que marcam a vida militar – a Defesa das Instituições e da Soberania do Brasil.
Os atuais militares podem ter o que há de melhor em tecnologia, equipamentos e etc etc. No entanto, continuarão desarmados e inúteis, pois foi destruído o vínculo entre eles e o nosso país.
São hoje FAs sem compromisso com seu juramento perante ao Povo Brasileiro, sem Defesa das Instituições e da Soberania.
Nossas FAs não existem mais, se transformaram num bando de carreiristas e, pior, até alguns ligados à criminalidade.
Muito triste, tragicamente triste – um silêncio completo para a entrega do pré- sal, da Amazônia, da Base de Lançamento de Alcântara, da Embraer, da Tecnologia, da Ciência enfim de TUDO, TUDO!!!
Vai ser um caminho difícil, duro, sofrido até que as novas gerações de militares, de oficiais e subalternos consigam se reencontrar com seu POVO e seu PAÍS. Isso se realmente desejarem tal reencontro e o encontro novamente da razão de sua existência.

*Pedro Luiz Moreira Lima é filho do brigadeiro Rui Moreira Lima, herói da segunda guerra mundial, militar nacionalista e legalista cassado por se opor ao golpe de 1964. Em breve, será lançada uma biografia de Rui.

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Sobre os surtos neofascistas e a covardia

Foto: Martin Acosta/Reuters

A ex-presidenta Dilma Rousseff recebeu do jornal Estado de S. Paulo uma pergunta sobre o que ela pensa da defesa que
Eduardo Bolsonaro fez do AI-5, ao dizer que eventuais protestos contra o governo poderiam tornar necessário um ato de força semelhante.

Eis a resposta, em nota enviada ao jornal:

*SOBRE OS SURTOS NEOFASCISTAS E A COVARDIA*

_Dilma Rousseff_

Ninguém, dos órgãos de imprensa, pode se declarar surpreendido pela manifestação do deputado Eduardo Bolsonaro a favor do AI-5. Na verdade, ninguém pode se surpreender porque já houve seguidas manifestações contra a democracia por parte da família Bolsonaro. Defenderam a ditadura militar e, portanto, o AI-5; reverenciaram regimes totalitários e ditadores; homenagearam o torturador e a tortura; confraternizaram com milicianos. Desde sempre pensaram e agiram a favor do retrocesso. Antes das eleições não havia duvidas a respeito. Durante as eleições e depois dela, muito menos, pois têm se expressado contra a democracia e os princípios civilizatórios em todas as oportunidades que tiveram.

O grave é que nunca receberam da imprensa a oposição enérgica que mereciam. Ao contrário, acredito que a imprensa fez vista grossa ao crescimento do neofascismo bolsonarista, porque este adotara a agenda neoliberal. É que, além das pautas neofascistas, a extrema direita defende a retirada de direitos e de garantias ao trabalho e à aposentadoria; as privatizações desnacionalizantes das empresas públicas e da educação universitária e a suspensão da fiscalização e da proteção ambiental à Amazônia e às populações indígenas. Não é possível alegar surpresa ou se estarrecer diante da defesa do AI-5. Na verdade, em prol da realização da agenda neoliberal, na melhor hipótese se auto iludiram, acreditando que poderiam cooptar ou moderar Bolsonaro.

Mas a defesa do AI-5 e da ditadura sempre esteve lá.

Vamos novamente lembrar, o chamado filho 03, que agora diz que considera o AI-5 necessário, é o mesmo que, há algum tempo, disse que “um soldado e um cabo” bastavam para fechar o STF. Óbvio que sem o poder coercitivo de um AI-5, isto nunca seria possível.

O presidente, então ainda deputado, proferiu no plenário da Câmara um voto em que homenageou um dos mais notórios e sanguinários torturadores do regime militar. Aquele coronel só agiu com tal brutalidade contra os opositores do regime militar porque estava protegido pelo AI-5.

Jair Bolsonaro afirmou em entrevista que a ditadura militar cometeu poucos assassinatos de opositores políticos. E que os militares deviam ter matado “pelo menos uns 30 mil”. Também afirmou, na campanha do ano passado, que, se vencesse a eleição, só restariam dois caminhos aos petistas – o exílio ou a prisão – e de que maneira isto seria possível sem a força brutal de um ato institucional como o AI-5?

É estranho que me perguntem o que eu acho da última declaração sobre o AI-5, pois a minha vida toda lutei, e continuo lutando, contra o AI-5, seus assemelhados e seus defensores. O Estadão, que me faz esta pergunta, também deve e precisa responder, pois sua posição editorial tem sido, diga-se com muita gentileza, no mínimo ambígua diante da ascensão da extrema direita no País.

Quem nunca questionou as ameaças da família Bolsonaro com a firmeza necessária e que, em nome de uma oposição cega, covarde e irracional ao PT, se omitiu diante do crescimento do ódio e da extrema-direita, tornou-se cúmplice da defesa canhestra do autoritarismo neofascista.

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Sínodo para a Amazônia e Crise Civilizatória

Por Dom Mauro Morelli*

Sendo a Fé em Cristo a mesma em Osaka, New York, Roma ou no Rio de Janeiro, é a realidade que determina e diferencia o jeito de ser Igreja e configura caminhos e prioridades da evangelização. Na realidade local, regional e planetária, a Igreja deve estar inserida como testemunha e servidora da Vida em Comunhão.

Vivemos, em verdade, uma crise civilizatória. Esta é a Hora da Graça da Libertação! Escolhamos a vida como pessoa, família, nação e povos. A Igreja, como pitada de sal e fermento, participa com a família humana e com toda a criação da busca de um tempo novo ou de um novo ciclo em que tudo se revista da sabedoria e da beleza de Cristo, que segundo Isaías 40, caminha conosco como “pastor apascentando o rebanho, reunindo as ovelhas dispersas e carregando no colo as feridas”.

Desde a primeira hora, na manhã de Pentecostes, e por dois séculos, a Igreja viveu a unidade no pluralismo cultural, eclesiológico, litúrgico e ministerial. O serviço do Evangelho foi confiado ao Colégio Apostólico e à Igreja; sendo o pastoreio exercido sem feudos, com participação da Comunidade através escuta da Palavra, do discernimento orante e do processo decisório.

Consciente das heranças históricas decorrentes do abraço de Constantino, o Papa Francisco, na esteira de João XXIII e de Paulo VI, conclama a Igreja a cultivar a colegialidade e a sinodalidade, em todos os seus níveis e dimensões, desde a comunidade local até a dimensão católica ou universal.

Vida em Comunhão, segundo a ecologia integral, abrange todas as dimensões das relações do ser humano na Casa Comum, ou seja, ambientais, sociais, econômicas, culturais e políticas no dia a dia de nossa existência.

Assim, pois, a própria Igreja, à luz da ecologia integral, deve passar por profundo questionamento e conversão sobre o modo de viver, testemunhar, celebrar, anunciar e servir o Evangelho da Vida em Comunhão. Com uma nova ecoclesiologia, todas as relações na Igreja, congeladas ou/e bloqueadas por leis e rubricas, devem ser avaliadas e transformadas para que, em todos os níveis, sem subserviência ou independência, a Igreja seja regida pelo princípio da autonomia em comunhão, inserida na rede de solidariedade da Casa Comum. 

Em Cristo não há mais sagrado e profano, judeu ou pagão, grego ou romano, homem e mulher; sendo Deus louvado não somente em Sião ou no Monte Garizim, segundo nossas tradições e reduções, mas no Espirito que sopra em todo lugar, superando dicotomias, barreiras, preconceitos e esquizofrenias.

Belo exemplo, o processo de convocação do Sínodo para a Amazônia. As tensões do processo sempre inevitáveis, sejam superadas com paciência e mansidão, desde a Cúria Romana até a Paróquia de São Roque de Minas, na Serra da Canastra, onde vivo a solicitude pela Igreja, como Bispo emérito, em comunhão com o pároco e com o bispo desta Diocese de Luz, no Estado de Minas Gerais.

Não fechemos o coração, pois a crise é tempo da graça que nos liberta do clericalismo, ou seja, do ministério transformado em poder e até em tirania sobre o Povo de Deus submetido aos nossos humores e caprichos. O pastoreio da Igreja deve ser confiado a pessoas comprovadamente eminentes na Fé e excelentes na Caridade. Da mesma forma, chega de procurar uma paróquia para um padre e uma Diocese para um Bispo, deixando nas mãos solitárias e diplomáticas do Núncio Apostólico a coordenação do processo de formação de Dioceses e de eleição/transferência de bispos.  

Sejamos de fato Igreja em saída, como na manhã de Pentecostes, rumo aos porões e às periferias existenciais ou geográficas, onde o ser humano subsistindo aviltado e esmagado, a Mãe Terra chora e geme pela degradação ecocídia.

Honremos a memória e o legado de mulheres e homens eminentes na Fé que deram suas vidas para resgatar e promover a dignidade humana, a justiça e a paz, como Dom Hélder Câmara, fundador da CNBB com Monsenhor Giovanni Baptista Montini, Dom Antônio Batista Fragoso, Zilda Arns, Padre Penido Burnier, Irmã Dulce e Madre Tereza.   

No contexto atual, em que a Nação Brasileira se encontra dominada pelo ódio e pelo atraso (cf.Jeremias14,18; Amós 6.1-7; 8,4-8.11-13), como não recordar o franciscano Paulo Evaristo Arns, saudoso Arcebispo Profeta de São Paulo e mártir da Cúria Romana, baluarte da democracia brasileira e promotor da colegialidade e da sinodalidade na vida e na missão da Igreja. Incentivado pelo Papa Paulo VI, sonhou e abriu caminhos para a presença e a missão da Igreja na megalópole sem esquartejá-la, dividindo-a por ruas e riachos, mas articulada em regime de Autonomia em Comunhão, priorizando a cidadania do povo das periferias geográficas e existenciais. Sonho, convertido em anos de trabalho sério, ignorado e descartado pela Cúria Romana. Até a sua morte, como Maria, em silêncio guardava tudo no coração. Não apenas para a Amazônia, urgente um Sínodo para as metrópoles e as megalópoles.

Ouso afirmar que, mais do que nunca, urge separar definitivamente Igreja e Estado, confiando às Comissões de Justiça e Paz, em âmbito nacional e internacional, o diálogo com Governos, Agências Internacionais e Organismos da ONU. Uma nova Constituição ou “Motu Proprio” pode confiar à Comissão Internacional de Justiça e Paz as entidades internacionais denominadas Santa Sé e Cidade do Vaticano. A Cúria Romana e Conferências Episcopais, livres da diplomacia, possam efetivamente promover a colegialidade de cada Bispo na solicitude pela Igreja e a sinodalidade, ou seja, a participação efetiva de cada batizado na vida e na missão da Igreja a serviço do Reino de Deus.

Ao amanhecer do novo, vislumbro a CNBB, livre do poder e de ânsia de conquistas e privilégios, reintegrando em seus quadros os Bispos eméritos, como animadora da Igreja profética e pastora, comprometida com a preservação das fontes da vida e com os povos originários, com os desvalidos e discriminados das periferias e grotões desse país continental, quer agrade ou desagrade a governantes e poderosos.

Em sintonia com o Sínodo para a Amazônia, no cuidado com a Casa Comum, sejamos atentos à exortação do Papa Francisco: “a extinção de uma cultura é tão ou mais grave do que a extinção de uma espécie” (LS 145).

Caminhemos de esperança em esperança, em comunhão com tudo o que existe e vive nesta Casa Comum, de forma solidária e participativa, como pitada de sal e fermento na massa, pois “ tudo o que é bom é nosso, nós somos de Cristo, Cristo é de Deus e Deus será tudo em todos” (cfr.1 Coríntios 3,22- 23; 15, 20-29). Vem, Senhor Jesus! Ap 22,20 .

*Dom Mauro Morelli é bispo emérito e fundador da Diocese de Duque de Caxias.

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Em sintonia com o Sínodo: Por que não um novo pacto?

Por Jorge Alexandre Alves*, no portal das CEBs

Em 16 de Novembro de 1965, nos dias finais do Concílio Vaticano II, um grupo de 40 bispos se reuniu nas catacumbas de Domitila, nos subterrâneos da Cidade Eterna. Naquele espaço simbolicamente importante, relacionado aos primeiros cristãos que foram perseguidos até morte dentro do Império Romano, os padres conciliares firmaram um compromisso que mudaria suas vidas e a vida da Igreja, especialmente na América Latina e no Brasil. Proposto por homens da estatura de um Dom Hélder Câmara, o “Pacto das Catacumbas” foi assinado por figuras que marcaram época no episcopado brasileiro, como Dom Antônio Fragoso; ou por prelados que pagaram esse compromisso com o próprio sangue, como o argentino Enrique Angelleli, assassinado pela ditadura em seu país.

Assinar tamanho voto naquelas catacumbas significou, nas palavras de José Oscar Beozzo, evocar “o testemunho corajoso dos mártires das primeiras comunidades e selava, por parte daquelas quatro dezenas de bispos, o compromisso com uma Igreja servidora dos pobres e empenhada em suas lutas por justiça, dignidade, igualdade e solidariedade”. O texto-compromisso possuía 13 itens. Francisco, em seu estilo, parece que fez deste pacto programa de seu ministério episcopal e pontifício. Destacamos aqui alguns destes princípios, numerados conforme o texto original:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

A ideia de uma Igreja dos pobres (ou pobre para os pobres como disse Francisco) já era discutida durante o próprio Concílio. Essa era a ideia de João XXIII, foi defendida pelo Cardeal Lercaro (arcebispo de Bolonha) numa das sessões conciliares. Dom Hélder foi um dos principais articuladores dessa ideia. Infelizmente, a questão dos pobres ficou para segundo plano no Concílio.

Porém, as inspirações presentes naquela missa nos subterrâneos de Roma influenciaram profundamente a Igreja latino-americana. Isso foi decisivo para a atualização do Concílio em nosso continente. A conferência episcopal de Medelín, em 1968, e a Teologia da Libertação beberam generosamente das proposições assumidas pelos signatários do pacto das catacumbas. Hoje, esse documento certamente inspira o pontificado de Francisco.

Pouco mais de meio século depois, a sua atualidade impressiona. Seu cumprimento pelo colégio universal dos bispos teria levado a Igreja para outro patamar. Será que alguns bispos e cardeais da Igreja teriam a coragem de assumir tal compromisso?

Ao longo do tempo, outros bispos aqui no Brasil tomaram o Pacto das Catacumbas para si, fazendo dele a base do exercício de seus respectivos episcopados. Verdadeiros homens de Igreja, figuras que marcaram o catolicismo brasileiro, a começar por Hélder Câmara, passando por figuras de inegável estatura moral como José Maria Pires, Adriano Hypolito, Waldyr Calheiros, Paulo Evaristo Arns, Luciano Mendes de Almeida, Fernando Gomes, Angélico Bernardino, Tomás Balduino, Erwin Krautler e, sobretudo, Pedro Casaldáliga. Como seria diferente se hoje tivéssemos um episcopado brasileiro que, em seu conjunto, tivessem essas figuras como referência e o “pacto” farol de sua pastoral…

É sinal de esperança para a Igreja ter um papa tão identificado com esses princípios. Sua defesa intransigente dos mais pobres, seu projeto de Igreja, a forma como se relaciona com as pessoas e sua simplicidade fazem de Francisco um bispo (sim, o papa é, antes de mais nada, o Bispo de Roma) profundamente semelhante com os signatários do “Pacto das Catacumbas”. É fácil mirar em Bergoglio e se lembrar daqueles bispos tão corajosos.

Para que sejamos uma Igreja em saída, como propõe o Papa Francisco, é necessário que nossos pastores sejam, de fato, autênticos mestres da fé. Que eduquem o Povo de Deus pelo exemplo, pela profecia e pelo desprendimento. Uma Igreja servidora passa pela simplicidade no vestir-se e no trato por parte daqueles chamados ao episcopado.

Hoje, nesse verdadeiro kairós que vivemos por causa do Sínodo para a Amazônia, não há como deixar de se remeter ao “Pacto das Catacumbas”. A defesa do bioma, da floresta e das populações amazônicas convergem indiscutivelmente para uma Igreja dos pobres. Consequentemente, são necessários bispos tão corajosos quanto aqueles 40 prelados em 1965.

As causas ambientais, a questão climática, a defesa dos direitos dos povos originários são todas questões que apontam para a necessidade de uma Igreja pobre para os pobres. Por isso, os elementos de ostentação do poder clerical deveriam ser revistos. Hoje a Igreja precisa, mais do que nunca, de bispos servidores, desprovidos de ambições de dominação, e solidários aos apelos dos homens e mulheres de boa vontade deste mundo.

Tais apelos, verdadeiras inspirações do Espírito Santo, emergiram do instrumento de trabalho que antecedeu o Sínodo. Ratificar essas intuições em nome da fé, do Reino de Deus e do Evangelho deveria ser compromisso de todo padre sinodal. A questão dos “viri probati” (ordenação de homens casados), a presença da mulher na Igreja (por que não um diaconato feminino?) e os ministérios leigos são elementos urgentes para a vida eclesial. A Igreja não pode se omitir nessas temáticas em nome de uma falsa tradição que imobiliza e aprisiona a vontade divina.

Essas mudanças são fundamentais para que não se cale a voz profética daqueles que denunciam as ambições do capital e dos governantes. Estes, acólitos do deus Mercado, entendem a Amazônia como produto a ser comercializado, mesmo que isso represente a morte, a degradação e a destruição. A Igreja, sob pena de cair na hipocrisia, não pode pretender guardar o vinho novo do profetismo e da conversão eco ambiental nos velhos odres do clericalismo e das instituições tridentinas.

Seria muito significativo que os padres sinodais, abertos ao Espírito de Deus, nesse momento primaveril do Sínodo, resgatassem os princípios daquele compromisso firmado por quatro dezenas de prelados em 1965. Em nome de uma Igreja pobre e servidora, ouçam o apelo do Povo de Deus. Nesse momento propício de conversão pastoral, por que não, nas mesmas catacumbas de 54 anos atrás, um novo pacto?

Padres sinodais, o tempo urge, e é tempo para mudar! Nesse espírito franciscano e, certamente com o apoio do Bispo de Roma, não seria a hora de um Pacto pela Amazônia? Hoje, mais do que em outras épocas, ecologia integral, libertação dos oprimidos e uma Igreja pobre e em saída não podem estar dissociadas.

Vivemos um momento de tantas resistências, de tanto ódio, de tanta mentira no seio da Igreja. A melhor resposta dos padres sinodais seria uma releitura das inspirações e propostas pelo Concílio e por aqueles que os precederam na sucessão apostólica. Os senhores bispos, inspirados pelo que fizerem seus antecessores e nas mesmas catacumbas de Domitila, bem que poderiam firmar um novo pacto. Que o Espírito os ilumine.

Referência:

BEOZZO. José Oscar. Pacto das catacumbas: por uma igreja servidora e pobre. São Paulo: Paulinas, 2015.

*Jorge Alexandre Alves é Sociólogo e Professor do IFRJ. Possui mestrado em Educação pela UFRJ. Foi catequista do Crisma e da Pastoral da Juventude e hoje atua no Movimento Fé e Política.

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SíNODO DA AMAZôNIA: UM MARCO ECUMÊNICO

Por Marcos Habib*, texto dedicado a Vanessa Vasconcellos de Teresópolis/RJ

O Papa Francisco como bom profeta e visionário conclamou o sínodo da Amazônia. Sua preocupação com meio ambiente e as mudanças climáticas é digna de apreço, bem como sua forma de respeitar a biodiversidade e tudo que nela há.  Ele soube acolher todas as visões a respeito desse tema maravilhoso.

Para compor a delegação a Roma, ele não apenas convidou bispos católicos mas também religiosos protestantes que têm trabalhado com a Amazônia.  Lá, estão o pastor Nicolau Paiva, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), o Moab Carvalho, da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) e até o clérigo Cláudio Miranda, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).

O Sínodo tem sido um marco para o ecumenismo. Nunca um papa chamou lideranças de outras religiões para ajudar a formular documentos religiosos.  O Papa Francisco no Sínodo da Amazônia mostra que a visão da Amazônia não pode ser uma visão única e vertical, mas plural e horizontal. Sua escuta e sua atenção para palavras de religiosos não católicos têm sido importante.

Cabe a nós ouvir a voz desses profetas que clamam por justiça e por direitos, como clamaram Isaías, Ezequiel e Amós no texto sagrado da Bíblia.  Que o legado ecumênico do Papa Francisco possa ecoar nas várias dioceses do Brasil, mesmo porque está chegando a Campanha da Fraternidade Ecumênica do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

*Marcos Vinicius Habib Moreira é professor de teologia latino-americana, Pastor Batista, membro da Aliança de Batistas do Brasil, Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, e Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito

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Dom Claudio Hummes coloca padres casados e mulheres em pauta no Sínodo

Foto: Andreas Solaro/AFP

Sem perder tempo, o relator geral do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, convocado pelo Papa Francisco, deu o pontapé inicial do evento nessa segunda-feira de manhã, colocando as questões dos padres casados e do papel da mulher, muito disputadas, diretamente sobre a mesa da assembleia.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 07-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Outra questão é a carência de presbíteros a serviço das comunidades locais no território, com a consequente falta da Eucaristia ao menos dominical e de outros sacramentos”, disse o cardeal brasileiro Claudio Hummes, nomeado por Francisco para atuar como relator do encontro de 6 a 27 de outubro.

Isso “resulta numa pastoral de visitas esporádicas e não de uma adequada pastoral de presença quotidiana”, disse Hummes.

Embora norte-americanos e europeus costumem reclamar da falta de padres, as estatísticas da Igreja sugerem que há um padre para 1.300 católicos batizados em ambas as regiões. Na América Latina em geral, essa proporção é de um padre para 7.800 católicos e, em algumas partes da Amazônia, pode subir para um padre para 15.000 católicos ou mais.

“A participação na celebração da Eucaristia, ao menos aos domingos, é decisiva para o desenvolvimento progressivo e pleno das comunidades cristãs e para a vivência concreta da Palavra de Deus na vida das pessoas”, disse Hummes. “Será necessário definir novos caminhos para o futuro.”

Hummes, depois, entrou em questões mais concreta sobre quais seriam esses “novos caminhos”.

“Na fase da escuta, as comunidades locais, missionários e comunidades indígenas pediram que, reafirmando o grande valor do carisma do celibato na Igreja, contudo, diante da gritante necessidade da imensa maioria das comunidades católicas na Amazônia, ali se abra caminho para ordenação presbiteral de homens casados, que residam nas comunidades”, disse ele.

Hummes, então, indicou que essa reflexão não parará nos homens casados.

“Diante do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia, se reconheça este serviço e se procure consolidá-lo com um ministério adequado de mulheres dirigentes de comunidade”, disse ele, sem especificar qual poderia ser esse “ministério adequado”.

A referência às mulheres atraiu aplausos no Sínodo.

Em 2016, Francisco estabeleceu uma comissão para examinar a possibilidade de as mulheres serem diáconas. Essa comissão apresentou um relatório sem aparentemente chegar a um consenso, e, em maio, Francisco disse: “Eu não tenho medo do estudo, mas, até este momento, isso não procede”.

No período que antecedeu o Sínodo sobre a Amazônia, a questão dos padres casados – os chamados viri probati – esteve entre os pontos mais debatidos. Os críticos veem essas propostas como um cavalo de Troia que pode levar à abolição do celibato clerical em todos os lugares, enquanto os defensores tendem a considerá-las como uma resposta realista às exigências pastorais da região.

Em uma entrevista de 2017, Francisco disse que está aberto à ideia de ordenar viri probati para servirem em comunidades rurais isoladas e também mencionou o seu possível uso não apenas na Amazônia, mas também nas ilhas do Pacífico.

Recebendo o aplauso da Sala do Sínodo, Hummes começou anunciando que falaria em português, a língua do Brasil. Em termos gerais, ele exortou os participantes no Sínodo da Amazônia a não se deixarem atolar pelo “tradicionalismo”.

“Uma coisa é o tradicionalismo que fica preso no passado, outra é a verdadeira tradição que é a história viva da Igreja”, disse ele, argumentando que cada geração na Igreja “enriquece esta tradição com sua própria vivência e compreensão desta mesma fé em Jesus Cristo no tempo atual”.

“Deus traz sempre novidade e pede para confiar nele”, afirmou, citando uma homilia de Francisco.

Hummes também pediu que o Sínodo faça uma forte defesa das cerca de 400 comunidades nativas e indígenas da Amazônia.

“É preciso que aos povos indígenas seja devolvido e garantido o direito de serem sujeitos de sua história, protagonistas e não objetos do espírito e prática de colonialismo de quem quer que seja”, afirmou.

De acordo com o ethos “verde” do SínodoHummes insistiu em uma forte tomada de posição ecológica.

“Igreja e ecologia integral no território estão interligados. Trata-se de uma Igreja consciente de que sua missão religiosa, em coerência com sua fé em Jesus Cristo, inclui necessariamente ‘o cuidado da casa comum’”, disse. “Tal interligação demonstra também que o grito da terra e o grito dos pobres na região é o mesmo grito.”

“O sínodo se realiza num contexto de uma grave e urgente crise climática e ecológica que atinge todo o nosso planeta”, disse Hummes. “Ao mesmo tempo, ocorre no planeta uma devastação, depredação e degradação galopante dos recursos da terra, promovidas por um paradigma tecnocrático globalizado.”

“A terra não aguenta mais”, disse Hummes.

O cardeal brasileiro, que estava sentado ao lado de Jorge Mario Bergoglio, da Argentina, durante o conclave de 2013 e sugeriu que ele tomasse o nome de “Francisco”, listou várias ameaças específicas que a Amazônia enfrenta hoje, as quais ele sugeriu que o Sínodo terá que levar em consideração:

– criminalização e assassinato de líderes e defensores do território;
– apropriação e privatização de bens da natureza, como a própria água;
– concessões madeireiras legais e pela entrada de madeireiras ilegais;
– caça e pesca predatórias, principalmente nos rios;
– megaprojetos: hidrelétricas, concessões florestais, desmatamento para produzir monoculturas, estradas e ferrovias, projetos mineiros e petroleiros;
– contaminação ocasionada por todas as indústrias extrativistas que causam problemas e enfermidades, principalmente para crianças e jovens;
– narcotráfico;
– consequentes problemas sociais associados a tais ameaças, como alcoolismo, violência contra a mulher, prostituição de menores, tráfico de pessoas, perda de sua cultura originária e de sua identidade e todas as condições de pobreza.

À luz de tudo isso, Hummes terminou mencionando vários “núcleos generativos” para o encontro:

– a Igreja em saída na Amazônia e seus novos caminhos;
– o rosto amazônico da Igreja: inculturação e interculturalidade em âmbito missionário-eclesial;
– a ministerialidade da Igreja na Amazônia: presbiterado, diaconato, ministérios, o papel da mulher;
– a ação da Igreja no cuidado com a Casa Comum: a escuta da Terra e dos pobres; ecologia integral ambiental, econômica, social e cultural;
– a Igreja amazônica na realidade urbana;
– a questão da água;
– outros.

Antes de Hummes, o cardeal italiano Lorenzo Baldisseri, secretário do Sínodo dos Bispos, fez uma longa visão geral da história e dos procedimentos do encontro. Baldisseri disse que o objetivo final do encontro é focar “aquele jardim de imensas riquezas e recursos naturais, terra mãe de povos indígenas com uma história e um rosto inconfundíveis, território muito ameaçado pela ambição desmedida do homem, em vez de ser cuidado”.

Como Baldisseri apresentou, o Sínodo alternará entre sessões gerais em que os participantes podem falar para toda a assembleia e grupos de trabalho menores, organizados por idioma, que permitam discussões mais livres. A primeira reunião desses pequenos grupos está marcada para quarta-feira.

Em um aceno ao século XXI, Baldisseri também disse aos participantes que, embora eles sejam livres para dar entrevistas e discutir o Sínodo publicamente durante seu tempo livre, ele lhes pedia para não usar as mídias sociais para compartilhar impressões durante o trabalho real das sessões.

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SÍNODO DA AMAZÔNIA: COLOCAR A PERIFERIA NO CENTRO

Por José Oscar Beozzo*, direto de Roma, em 05 de outubro de 2019

A chamada para a prece ao 37º. dos 40 dias dia de “navegação” rumo ao Sínodo da Amazônia, recorda um fio que percorre toda a experiência bíblica: Deus se revela nos pequenos e nos humildes, provocando espanto e a incredulidade ou perguntas aparentemente sem resposta:

“De Nazaré, pode sair alguma coisa que preste?” (Jo 2, 46)

“Esse não é o carpinteiro, o filho de Maria…?” (Mc 6, 3)

Provoca também o louvor agradecido de quem, como a jovem Maria, reconhece os inusitados caminhos escolhidos por Deus:

“Glorifica minha alma o Senhor…, porque olhou a pequenez de sua serva” (Lc 1, 47-48).

Também percebemos que o Sínodo Amazônico é um pequeno afluente de água viva que deseja servir a esse propósito maior. Mesmo em sua pequenez em relação à visão eclesial tradicional, onde o centro prevalece, e talvez justamente por isso, essa periferia (que também é imensa e majestosa como um território que expressa o mistério de Deus) quer servir como um sinal que oferece luzes ao centro.

A Amazônia é, e quer ser, um rosto periférico que ajuda o centro a concretizar seu processo de transformação, seu retorno à origem no Cristo vivo que encarna e transcende estruturas, temporalidades e características culturais. Uma expressão do Deus que habita a Igreja e a abre à novidade“.

Nada mais eloquente do que o cortejo que no meio da manhã deste 04 de outubro, festa de São Francisco de Assis, padroeiro da Itália, atravessava alegre e orgulhosamente a Via della Conciliazione rumo à Praça São Pedro.

A Conciliazione (Reconciliação) é grande avenida que liga as margens do Rio Tibre, na altura da ponte do Castelo Sant’Angelo até a praça de São Pedro. Foi construída por Mussolini para celebrar o Tratado de Latrão de 1929 que selou a reconciliação do Reino da Itália e o Vaticano, depois da ferida aberta pela tomada dos estados pontifícios e da cidade de Roma pelas tropas de Garibaldi em 20 de setembro de 1870, pela “brecha” da Porta Pia. Para tanto, foram varridos os velhos quarteirões do Borgo Santo Spirito dando lugar a edifícios ocupados hoje por diferentes organismos da Santa Sé, livrarias, cafés, lanchonetes, embaixadas e algumas igrejas.

Os  turistas que se apinhavam na avenida, primeiro paravam para se perguntar o que estava acontecendo, enquanto outros já corriam com seus celulares para bater uma foto do estranho grupo que avançava a passo firme, indiferente ao que se passava ao seu redor. 

Eram indígenas vindos de vários rios, rincões e países da bacia amazônica, em sua maioria mulheres, enfeitadas com os adereços de seus povos. Não era um cortejo de cardeais ou de grandes dignatários do mundo, mas sim de gente humilde, de rosto curtido pelo sol e com as marcas de muitos trabalhos, enfermidades e sofrimentos, sobreviventes da grande e secular tribulação de seus povos na Amazônia.

Ostentavam seus crachás de convidados do Papa Francisco para plantarem juntos uma árvore nos Jardins do Vaticano, para celebrar a realização do Sínodo, sua consagração a São Francisco de Assis e apontar os novos caminhos para uma Igreja com rosto amazônico e para uma ecologia integral.

Pela tarde, conversei com um dos indígenas vindos da Amazônia brasileira, Francisco, do povo Apurinã, no rio Purus, todo feliz com seu modesto cocar de penas coloridas.

O Purus é um rio de águas claras que nasce no Peru e atravessa os estados do Acre e do Amazonas, o último grande afluente da margem direita do Rio Solimões, com seus imponentes três mil quilômetros de extensão. Sua língua pertence ao tronco linguístico Maipure-Aruak. São hoje perto de cerca de 4.000 pessoas. Foram fortemente marcados pela violência dos dois ciclos da borracha na Amazônia, o primeiro das últimas décadas do século XIX e começos do século XX e o segundo, com a invasão (1943-1945) dos “soldados da borracha”, durante a II Guerra Mundial, depois do acordo entre os presidentes Getúlio Vargas e Roosevelt para suprir com borracha o esforço de guerra norte-americano, quando as grandes plantações de seringueiras da Malásia, do Vietnã e de todo o sudeste asiático haviam sido tomadas pelos exércitos do Japão.

Hoje os Apurinã lutam pela demarcação de suas terras ainda não reconhecidas e seguidamente invadidas por madeireiros.

Francisco não cabia em si por estar ali representando seu povo, por ser xará do Papa e trazer para a escuta do Sínodo, a voz e o clamor do seu povo.

Tiramos uma foto juntos, tendo como pano de fundo o entardecer por sobre a cúpula da Basílica de São Pedro, uma das obras primas do gênio de Michelangelo.

Na entrevista na Sala de Imprensa da Santa Sé, naquela mesma tarde, o bispo português, auxiliar de Lisboa, Tolentino Mendonça, poeta e literato, nomeado responsável pela Biblioteca do Vaticano e elevado nesses dias ao cardinalato, respondeu direta e certeiramente a uma pergunta dos jornalistas sobre o significado do Sínodo:

“O Papa Francisco com o Sínodo da Amazônia quis colocar a periferia no centro da Igreja”.

*José Oscar Beozzo é teólogo, historiador da Igreja.

Crônica No. 2 enviada para o Boletim Rede dos Cristãos

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Por que não proponho rezarmos pela proteção da natureza

 Marcelo Barros.

Nesse domingo (29), passei em Veneza, convidado por um grupo cristão que prega a defesa da terra e da natureza, através de mudança no nosso estilo de vida. Pediram-me para falar da Amazônia e falei. À tarde, me levaram de barco a uma ilha belíssima da lagoa de Veneza: São Francisco do Deserto. Conforme a tradição, ali há exatos 800 anos (1319), São Francisco de Assis voltava do Egito e do encontro com o sultão e, cansado, desembarcou em Veneza. Ali viu aquela ilha deserta, mas cheia de pássaros. Esses faziam uma imensa orquestra de sons. São Francisco disse aos irmãos que os pássaros louvavam a Deus e quis participar do louvor deles.

Falou aos pássaros e estes fizeram silêncio para escutá-lo. Hoje nessa ilha há um convento e é um lugar de natureza belíssima. Nos jardins do convento embaixo a uma árvore imensa, se colocaram cadeiras e fui convidado para participar de uma oração ecumênica pela Criação.

Coordenavam essa oração o arcebispo (patriarca de Veneza) e um pastor adventista. Eu não queria falar mas os organizadores insistiram e eu disse o seguinte:

O que significa orar pela terra e pela natureza?
Que sentido tem viver em uma sociedade organizada de forma que sistematicamente a natureza é explorada e destruída e depois rezar a Deus para refazer aquilo que a gente destrói? Deus poderia pensar que o fazemos de bobo. Pedimos para que ele proteja a natureza de nós próprios?

Para a tradição judaico-cristã, a oração começa por escutar a Deus. Mas, será que queremos verdadeiramente escutá-lo? O que adianta rezar por uma coisa diante da qual Deus parece impotente e incapaz de ajudar?

Na parábola do evangelho que se lê hoje nas Igrejas católicas, anglicanas e luteranas, um homem rico pede ao pai Abraão que ele trata como sendo Deus que mande o pobre aliviar a sua sede. Com palavras de hoje, Deus nos responde:
– Meu filho (minha filha), nem eu posso ajuda-lo/a. Entre nós e vocês aí, nesse inferno do lucro e do aquecimento global que faz da terra um inferno existe um abismo (Não fui eu que criei abismo ou inferno. Foram vocês mesmos) e nem eu posso anulá-lo.
– Vocês acham que eu posso convencer à Vale do Rio Doce a ganhar menos lucro e não destruir a Amazônia e as regiões de Minas que seus proprietários já destruíram? Os rios que eles já mataram?
– Acham que eu consigo que eu vou conseguir convencer Bolsonaro e os empresários brasileiros a respeitar a vida dos povos indígenas e o direitos dos pobres?
– Acham que algum dia vou conseguir convencer as comunidades de Igreja e seus pastores que eu quero justiça e não culto? Eles continuam achando que sou extremamente narcisista e que gosto mesmo de ser adorado e bajulado. Eles criaram um deus à imagem e semelhança de sua ambição de poder e de vaidade e dizem que sou Eu. De tudo isso sou tanto vítima como vocês e a terra. Se vocês quiserem libertar a Terra e aos pobres, pode ser que ajude também a proposta de vocês pensarem em libertar a mim mesmo Deus da religião narcisista e hipócrita que adora o poder travestido de Deus e os que a exploram para a sua vaidade e o seu lucro.

Desculpem vocês que estão aqui para orar pela criação. Não quero que pensem que estou dizendo que é inútil. Estou apenas sublinhando as premissas e condições de uma oração bíblica hoje. Vocês têm razão: podemos sim orar pela criação. Deus está triste e está meio deprimido. Que nossa oração tenha duas dimensões:
1 – a de consolar Deus do fato de ter fracassado em seu intento de nos empolgar pelo seu reino, projeto de um mundo feito de amor, justiça e comunhão cósmica.
2 – a de lhe prometer que vamos libertá-lo da prisão em que as religiões e mesmo a nossa Igreja o mantêm prisioneiro e vamos com ele reiniciar o caminho da redenção de nós mesmos e do mundo. Amém.

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Morre Mello Bastos, piloto que salvou Jango

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Faleceu na última quinta-feira, 30 de maio, aos 101 anos, Paulo de Mello Bastos, conhecido como comandante Mello Bastos. Sindicalista destacado nas décadas de 1950 e 60, piloto habilidoso e militar legalista, estão, entre seus principais livros, “A caixa preta do golpe de 64” (Ed. Família Bastos) e “Salvo conduto – Um voo na história” (Ed. Garamond).

Mello Bastos será cremado no Memorial do Carmo. Era viúvo de Edelena Bastos. Deixa as filhas Tânia Bastos, advogada, e Solange Bastos, jornalista. Já havia falecido, em 2018, o seu filho Pablo Bastos, conhecido como João Nery, ativista dos direitos LGBT.

Símbolo da legalidade, herói em um país que não cultua a memória, Paulo Mello Bastos esteve com Getúlio Vargas, batendo um papo, na intimidade de sua fazenda em São Borja. Foi lá, com uma comitiva, para convencer Getúlio a se candidatar em 1950 e sugerir a ele que fundasse a Petrobras. Sugestão que viria a ser aceita.

Mais tarde, em 1961, já como tenente-coronel-aviador reformado e piloto da então glamourosa Varig, foi Mello Bastos quem conseguiu fazer com que, após a renúncia de Jânio Quadros, o então vice-presidente João Goulart (que voltava da China) pousasse em segurança em Porto Alegre para assumir a presidência. O avião estava ameaçado de ser abatido por caças militares que queriam dar o golpe já naquele ano – era a “Operação Mosquito”. Como Mello Bastos se livrou disso e salvou Jango? 

“Eu era comandante de avião a jato. Então, fiz um plano. Em vez de vir a 40 mil pés, 13 mil metros, eu vim a 300 pés, infringindo. Porque, como o avião de caça ataca, com metralhadora, de baixo para cima, eu vindo baixinho ele não tem espaço para me atacar, senão ele bate”. 

“Voeei baixinho”, contou Mello Bastos. Foto: Ana Helena Tavares

Além de piloto genial, Mello Bastos foi também um líder sindical respeitado, tendo estado à frente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). No ano em que foi demitido da Varig, em 1963, rodoviários, aeronautas e navios petroleiros, deflagraram, em solidariedade, uma das maiores greves dos transportes que esse país já viu. Batizada de greve Mello Bastos. 

Inquéritos que Mello Bastos sofreu mostram que ele era acusado de “comunista” simplesmente por fazer greve.

Em 1964, era uma das lideranças mais visadas pelos golpistas. Preso, foi obrigado a se exilar.

Mello Bastos partindo para o exílio. Debaixo do braço, o livro “O crime do século”.

Estava longe de ser comunista. Na entrevista ao meu primeiro livro (“O problema é ter medo do medo – O que o medo da ditadura tem a dizer à democracia”), brincou,. “Na Varig, cheguei a ganhar mais de 10 mil dólares por mês, você acha que eu lutava pra diminuir meu salário?” 

Com sua esposa, Edelena, em frente à sede da Varig nos anos 90.

O tenente-coronel Mello Bastos nunca compactuou com a ditadura implantada por 21 anos por alguns de seus colegas de farda. Ditadura que exilou mentes brilhantes, como ele, destruiu sonhos, censurou, torturou e desapareceu com corpos. Por ter a farda limpa, não se pode, ainda mais no Brasil de hoje, esperar que tenha honras militares sobre seu caixão. Mas ele está bem acompanhado, pois o Marechal Henrique Teixeira Lott também não as teve.

Voe em paz, Comandante!

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Biografia de Pedro Casaldáliga – Lançamento

A obra “Um bispo contra todas as cercas – A vida e as causas de Pedro Casaldáliga”, de autoria da jornalista carioca Ana Helena Tavares, será lançada pela editora Gramma, em abril de 2019, após ter sido feito um financiamento coletivo para viabilizar a publicação. Neste financiamento, 930 exemplares foram vendidos antecipadamente.

A partir do dia 15 de abril de 2019, quando o livro deverá estar impresso, será disponibilizado em livrarias e serão enviados e/ou entregues os exemplares de quem participou da campanha de financiamento coletivo e comprou antecipadamente pelo site Kickante, no final de 2018. No momento, quem ainda não comprou já pode comprar diretamente pelo site da editora Gramma: https://www.gramma.com.br/produto/um-bispo-contra-todas-as-cercas-as-causas-de-pedro-casaldaliga/

A autora passará parte da semana santa com o biografado e o primeiro evento de lançamento ocorrerá no dia 21 de abril, domingo de Páscoa, na catedral de São Félix do Araguaia.

Em seguida, o primeiro lançamento em uma capital ocorrerá no dia 24 de abril, quarta-feira, a partir das 19h, em Goiânia, no Centro Cultural Cara Vídeo. O endereço é: rua 83, nº 361, setor sul. Haverá debate com a autora, o poeta Pedro Tierra e Antonio Canuto. Parte do valor arrecadado com as vendas será doada para a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Através de uma vasta pesquisa, na qual, ao longo de 4 anos, foram colhidos testemunhos e reunidos documentos, o livro conta a história de Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia. O religioso catalão, alinhado com a Teologia da Libertação, chegou ao Brasil, em 1968, aos 40 anos, e nunca mais voltou à Espanha.

A obra traça sua trajetória com foco nas causas que abraçou, tais como: educação laica, mista e libertadora; Reforma Agrária; erradicação do trabalho escravo; reconhecimento dos direitos dos povos indígenas.

Foram muitas as cercas contra as quais o bispo lutou, notadamente na ditadura militar, quando sofreu repressão, censura e foi quase expulso do Brasil. Mesmo depois disso, continuou ameaçado de morte.

Trata-se da biografia de um homem perseguido. Mas não amargurado. Um poeta que sabe fazer versos com a dor e transformá-la em ação.

Lançamentos no Rio e em São Paulo:

Em 08 de maio, a partir das 18:30, lançamento no Rio de Janeiro. Apresentação do livro pela autora e debate ecumênico com o pastor Mozart Noronha, o padre Ricardo Rezende Figueira e o ex-pároco da Igreja dos Capuchinhos Reimont Otoni. Após o debate, haverá sessão de autógrafos com a autora. Local: livraria Leonardo Da Vinci, Av. Rio Branco, 185.

Em 09 de maio, às 19h, lançamento em São Paulo, com o padre Julio Renato Lancellotti e José Genoíno. Haverá debate, mediado por Paulo Pedrini, e sessão de autógrafos com a autora. Local: auditório da Apeoesp, praça da República, 282.

Destaque

Pérez Esquivel e as Regras de Mandela

ESQUIVEL+MANDELA

Por Carlos A. Lungarzo

Esquivel e o “Efeito Nobel”

Esquivel foi o quarto dos cinco prêmios Nobel da Argentina (paz, medicina e química) e o segundo da Paz. Ele obteve a distinção nessa área 44 anos depois do primeiro ganhador, o político Carlos Saavedra Lamas. Este era membro da oligarquia de Buenos Aires e chanceler do governo conservador pró fascista. Recebeu a distinção em 1936 por ter contribuído para o fim da guerra entre o Paraguai e a Bolívia (Guerra do Chaco, 1932-1935). Esta “pacificação” não teve motivações éticas, mas puramente diplomáticas e econômicas, pois a guerra à qual essa paz deu fim foi resultado da cumplicidade entre Brasil e Argentina, ambos ávidos pela hegemonia na América do Sul.

Aqueles eram tempos difíceis para a organização fundada por Alfredo Nobel, pois, embora algumas das distinções fossem valiosíssimas (como a dada ao fundador da Cruz Vermelha, Jean Dunant, em 1901), a maioria era concedida a celebridades oficiais dos estados e burocratas que conseguiram algumas pacificações por causa de interesses nacionais e não humanitários. Após a derrota do Eixo, os critérios para a atribuição do prêmio Nobel da Paz viraram mais críticos, embora algumas contradições subsistissem até os dias de hoje.

Mas o caso de Pérez Esquivel não tem nenhuma similaridade com o primeiro Nobel argentino. Esquivel é um talentoso arquiteto e escultor, dedicado a monumentos e memoriais com nítido significado social, e nada é tão oposto à burocracia e o mandonismo como a arte e o ativismo. Ele descende de imigrantes espanhóis pobres e de indígenas, o que o coloca no polo oposto das oligarquias que são donas pela força deste continente desde 1492.

Deve-se a ele o Monumento aos Refugiados, que se encontra na sede do Alto Comissionado da ONU para os Refugiados (ACNUR), em Genebra, e vários conjuntos famosos esculpidos em homenagem aos povos oprimidos, aos indígenas e à paz, erigidos em diversos lugares do planeta.

Também foi um excelente professor que deixou seu emprego para mergulhar plenamente na defesa dos direitos humanos, e um perseguido cuja dignidade resistiu a múltiplas repressões, no Brasil (1975), no Equador (1976) e na Argentina (1977-78), onde foi torturado e permaneceu como prisioneiro sem julgamento. Esquivel representa um enorme grupo, ao que o dedicou o prêmio durante o discurso de recepção: A “mis hermanos indígenas, los campesinos, los obreros, los pobres, los jóvenes”, ou seja, ao grupo majoritário de vítimas da violência capitalista.

www.youtube.com/watch?v=ACXddUlXzys

Ele não é apenas um Nobel, mas está entre os poucos premiados que, desde 1960, tiveram méritos superlativos para receber o legado do velho Alfred, um mérito que virou consensual e que a própria direita tem dificuldade em atacar.

Os outros que, segundo acredito, tiveram popularidade equivalente, no caso de prêmios individuais da Paz, são: Martin Luther King (1964); Andrei Sakharov (1975); Maired Maguire (1976); Betty Williams (coparticipado em 1976); Desmond Tutu (1984); Rigoberta Menchú Tum (1992); Nelson Mandela (1993); Mohamed ElBaradei (2005); Shirin Ebadi (2003); e Malala Yousafzai (2014). De cerca de sessenta prêmios individuais dados nesse período, há muitos outros cujo mérito é indubitável, mas que não tiveram a mesma repercussão que estes. Também há um grupo cuja premiação foi resultado da precipitação e falta de cuidado do Comitê Nobel, o que gerou numerosas críticas.

De fato, o prêmio foi muitas vezes concedido sob critérios que não tinham nada a ver com os sentimentos que Alfred Nobel começou a nutrir no final de sua vida, por influência de sua namorada, a famosa pacifista e escritora austríaca Bertha von Suttner, ela mesma Prêmio Nobel da Paz em 1905. Bertha, que também era música, sempre estimulou o bem-sucedido químico sueco a pagar sua pesada dívida com a humanidade pelo fato de alguns dos produtos de suas empresas terem sido usados com finalidades militares. Vide:

www.nobelprize.org/alfred_nobel/will/will-full.html

O cuidado da Fundação Nobel em não repetir erros foi relativo: nas últimas décadas foram laureados chefes de países em guerra, e até dois presidentes dos EUA. Em compensação, no caso das instituições (como Amnesty Internacional, Médicos sem Fronteiras e muitas outras) a atribuição foi quase sempre irretocável.

www.wikiwand.com/en/Nobel_Prize_controversies#/Peace

Esquivel foi importante em diversos conflitos ao redor do mundo. Em 1974 foi nomeado coordenador geral da rede de comunidades latino-americanas que promoviam a libertação dos pobres por meio da não violência ativa. O trabalho de Esquivel ficou em destaque durante a sexta ditadura argentina (1976-1983) por seu auxílio às centenas de milhares de vítimas dos militares, dos sobreviventes e de seus familiares, mas também às vítimas de outras ditaduras próximas e coligadas com a Argentina, como a Brasileira, a Chilena e a Paraguaia.

Pouco antes disso, ele havia participado da fundação da ONG Serviço de Paz e Justiça (SERPAJ) que influiu em que os direitos humanos fossem apreciados na América Latina, uma região na qual sempre tinham sido (e são) criminalizados. O SERPAJ passou a formar parte da rede conhecida como Sociedade para a Reconciliação, fundada em 1914 pelo movimento Quaker, com propósitos claramente pacifistas e antimilitaristas.

Acabada a ditadura argentina em 1983, os partidos tradicionais eleitos democraticamente tentaram ofuscar a tarefa dos defensores independentes dos direitos humanos, em especial dos grupos de Mães, Avós e Filhos de Praça de Maio, para retribuir a tolerância que receberam da ditadura, cuja usurpação do poder tinham justificado durante uma década. Nessa época, Esquivel deveu atuar como simples cidadão, porque os cargos oficiais do primeiro governo civil (1984-1989) foram distribuídos entre burocratas que fizeram um elenco (incompleto) dos milhares de desaparecidos, e propuseram algumas medidas tímidas que acabaram “em pizza”, apenas para criar uma imagem de justiça for export.

Deve-se a Esquivel, junto com as Mães de Praça de Maio e outros grupos independentes, o feito de ter sido possível julgar e condenar dúzias de criminosos de lesa humanidade de 2005 em diante. Em realidade, os condenados são uma parte ínfima do total de carrascos, mas é muito mais do que foi feito em outros países, salvo na Alemanha pós-nazista.

Seu ativismo se estendeu à proposta de políticas sociais e econômicas em confronto com o neoliberalismo e com a opressão imperialista na região. Em contraposição com as falsas políticas ambientalistas (o grande negócio dos bancos e dos traficantes de licenças para empresas), Esquivel defendeu um ecologismo autêntico com ênfase nas comunidades indígenas.

Ele fez denúncias públicas contra os abusos do poder financeiro internacional, e até desmascarou o propósito do governo americano de encobrir as verdadeiras raízes do terrorismo. Além disso, sua posição permanente como consultor da ONU, uma atividade em que tem sido extremamente eficiente, fez possível que a luta pela democracia de nosso subcontinente fosse valorizada pela primeira vez. Além disso, é Presidente da Liga Internacional pelos Direitos e a Liberação dos Povos e de várias organizações similares, e membro de numerosas entidades defensoras de direitos humanos e ecológicos.

A SERPAJ, da qual Esquivel foi o principal criador, é uma organização que objetiva a Educação para a Paz e desde há vários anos pertence ao conjunto dos órgãos consultivos da ONU junto ao UNESCO, e ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (CESNU), com direito de fala em todas as reuniões.

Apesar de considerar-se uma entidade ecumênica e interessada no diálogo inter-religioso, a SERPAJ mantém boas relações com o mundo secular. Por exemplo, Esquivel tem mostrado, em várias entrevistas, certa abertura ao problema do aborto, o que é um avanço em relação com outros movimentos cristãos. Várias das propostas da SERPAJ se entroncam com as posições da esquerda acumuladas desde o século XIX até os dias atuais, das quais, as principais são:

  • A desmilitarização, a oposição ao recrutamento, a luta pelo desarme e (como foi estabelecido na proposta de Alfred Nobel) o fim dos exércitos. Veja o parágrafo 16 do testamento original de Nobel de 1895:

https://www.nobelprize.org/alfred_nobel/will/will-full.html

  • O equacionamento e a resolução de conflitos.
  • A eliminação dos vestígios autoritários na sociedade e o julgamento rigoroso dos crimes de lesa humanidade.
  • A inclusão de todos os excluídos por causas étnicas, nacionais, de classe, de gênero, etc.
  • A promoção da cultura da paz, da justiça social e econômica e dos direitos humanos.

A desmilitarização foi um projeto de enorme relevância na história da humanidade, mesmo antes do surgimento da esquerda socialista (por exemplo, nos movimentos antimilitaristas nos EUA a partir de 1812). Porém, a pressão pela desaparição dos exércitos diminuiu pouco por volta de 1950 por causa de certos tons chauvinistas dos países ex-coloniais (em especial, na América Latina). Neste modelo, se traçou uma diferença artificial entre exércitos “do mal” e “do bem”, objetivando fortalecer as lideranças nacionais, em vez de propugnar a abolição total das forças armadas e de denunciar seus efeitos destrutivos para a totalidade do planeta. Essa tendência está arrefecendo desde o final da Guerra de Vietnam e desde a crise de sistemas autoritários que a direita identificava como movimentos de esquerda, embora não fosse.

Neste sentido, Esquivel e o SERPAJ estão dentro da melhor tradição dos fundadores do prêmio Nobel, que nem sempre foi respeitada depois: a paz não é acabar com as guerras; para obter a paz o único caminho possível é fechar as instituições que as estimulam. Esquivel se posicionou de maneira radical no Rio do Janeiro contra a utilização do exército como método de opressão civil, argumentando que nunca o exército é pacificador. Essa manifestação é um ato de muita coragem, numa região do mundo onde a violência e o despotismo possuem quase absoluta prioridade sobre qualquer raciocínio ou sensibilidade.

Esquivel no caso de Lula

Esquivel é amigo de Lula desde há muitos anos, mas seu compromisso com ele é do mesmo tipo que o do seus milhões de eleitores. O presidente da SEPARJ, como outras celebridades, ficou impressionado pelo fato de o brasileiro ter sido o único líder do continente capaz de tirar da faixa de miséria absoluta 30 milhões de pessoas. E também ficou aterrorizado pelo fato oposto: a velocidade com que a máfia golpista tem destruído todas as conquistas do povo brasileiro desde 1930, em apenas dois anos.

A probabilidade de Lula obter o prêmio não pode ser prevista, pois o processo de seleção se realiza sob o maior sigilo e apenas os candidatos e seu mentores têm o direito de revelar sua identidade. O único dado público é o número de candidatos. Sabemos que há cerca de 300 para o prêmio que será deferido em 2018, mas não é possível deduzir quantos serão em 2019, quando a proposta de Esquivel será julgada. Ainda assim, podemos nos orientarmos por alguns casos parecidos que já foram deferidos no passado.

O caso de Lula se parece muito ao da militante Aung San Suu Ki, líder de oposição à junta militar de Myanmar, filha do principal ativista pela democracia e a libertação do país, Bonyoke Aung San (1915-1947). Ela possui um curriculum de luta democrática e popular comparável ao de Lula, sendo similares os índices de popularidade de ambos os líderes.

Uma coincidência incrível é que, em 1990, Suu Ki foi detida pelos golpistas birmaneses sob um pretexto qualquer, para evitar que pudesse ganhar as eleições.

Quando recebeu o Nobel em 1991, a senhora Suu Ki estava em prisão domiciliar, mas é importante saber que o sadismo da ditadura birmana era menos truculento que o dos carrascos brasileiros. Ou seja, mesmo que seus méritos sejam iguais aos de Lula, o sofrimento suportado por Suu Ki sob a junta militar birmana foi menor que o padecido por Lula sob a Lava Jato.

Por outro lado, a partir dos anos 70, a Fundação Nobel tem outorgado muitos prêmios Nobel da Paz a figuras defensoras dos direitos humanos e sociais, numa medida comparável a às vezes maior que a de negociadores de armistícios ou tréguas bélicas. Também, tem aumentado as distinções aos que são claras vítimas da paranoia assassina dos diversos tipos de carrascos.

Esse foi o caso de Nelson Mandela, Rigoberta Menchú, Malala Yousafzai e o já citado de Suu Kim, entre outros. Também está o caso de Prêmios de Literatura que tiveram este caráter de reparação de pessoas vitimadas, como foi o caso de Solkhenitzin e Pasternak na extinta União Soviética. Isto coloca a indicação de Lula muito mais dentro dos padrões atuais.

As Regras de Mandela

A proibição dos juízes para que Esquivel visitasse Lula foi claramente contrária à relação amigável que existe entre a ONU e os países que são, pelo menos, minimamente civilizados. Seu intuito é muito evidente. A despeito das perversões contra Lula (criticadas por Gilmar Mendes), e a exibição provocadora de descomunais fraudes judiciais (percebidas, em apenas dois dias, pelo eminente jurista Geoffrey Robertson), o prisioneiro continua com sua dignidade intata e seu habitual senso de humor. Isto enraiva ainda mais a ridícula casta de linchadores, pois a humilhação e o sofrimento do linchado é o máximo de todos os benefícios que algoz tira de sua vítima.

  • Por sinal, o sadismo dos que exercem autoridade foi muito bem esclarecido após a Segunda Guerra pelos sobreviventes do nazismo, e em especial pela Escola de Frankfurt. Segundo numerosos estudos, esse sadismo é originado em distorções emocionais e sexuais dos que o praticam. Mas, este é um tema extenso para ser tratado aqui.

Voltemos, então, às Regras de Mandela:

Após a parcial derrota do fascismo em 1945, percebeu-se que a maioria das leis são simples regras de proteção das classes dominantes (o Terceiro Reich estava cheio de leis que eram rigorosamente aprovadas antes de serem aplicadas), e a punição jurídica é apenas uma forma mais nova de vingança. Essa primeira compreensão alicerçou a Declaração Universal de Direitos Humanos, e sua inclusão dentro dela aos excluídos pela perseguição jurídica.

Em 30/08/1955, o Congresso sobre a Prevenção dos Crimes e o Tratamento de Infratores das Nações Unidas aprovou algumas normas, ainda muito fracas, para tentar diminuir a crueldade prisional. Estas regras experimentaram leves aprimoramentos até 2015, quando foram reformuladas num projeto mais humanista.

Nesse ano, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 70/175 sobre o “Padrão mínimo da ONU das regras para o tratamento de prisioneiros”, mas conhecidas como Regras de Mandela, em homenagem ao mais prestigioso prisioneiro de toda a história humana.

http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2016/05/39ae8bd2085fdbc4a1b02fa6e3944ba2.pdf

O monitoramento da aplicação das Regras de Mandela está descrito no Capítulo 1 do manual “Conferindo a obediência às regras de Mandela”, publicado pela ONU. Nele se transcreve a Regra 83, que admite dois tipos de inspeção: a interna, feita pelo mesmo governo que “custodia” o prisioneiro, e a externa, que é conduzida por um corpo exterior à administração penal, independente das autoridades do país, reino, colônia, etc., onde fica o presídio. De acordo com essa regra, a equipe de inspeção deve conter competentes equipes regionais ou internacionais.

Os juízes da Lava Jato, quando disseram que as Regras de Mandela não são vinculantes, descobriram a pólvora! A maioria das regras da ONU, nos diversos aspectos da atividade da Organização, são persuasivas e não vinculantes. As únicas realmente vinculantes são as que chegam ao Conselho de Segurança, e são apenas as que se referem a problemas complexos, onde se vislumbra o possível uso da força.

O que se espera é que um estado onde os poderes públicos têm um mínimo de dignidade e decência (5% da Holanda seria suficiente) cumpram as regulações humanitárias da ONU que esses mesmos estados aceitaram.

Brasil em nenhum momento se manifestou contra a resolução 70/175 no dia 17 de dezembro de 2015 nem depois, e também não apresentou nenhuma objeção à UN Commission on Crime Prevention and Criminal Justice (conhecida informalmente como Comissão sobre Crime) durante o encontro realizado sete meses antes, entre 18 e 22 de maio.

O diretor da Associação Americana pelas Liberdades Civis, David Fathi, que estava representando sua entidade no evento, reconheceu que as reuniões costumam ser litigiosas, mas que naquele caso (18 a 22 de maio de 2015) as Regras de Mandela foram aprovadas por aclamação.

O Brasil foi reconduzido na cota da América Latina em 2017 e, portanto, é provável que, como parte de seus deveres no período anterior, estivesse na sessão onde se aclamaram as Regras de Mandela. Se “por acaso” não assistiu, poderia ter apresentado um disclaimer depois, o que nunca aconteceu.

www.aclu.org/blog/prisoners-rights/solitary-confinement/victory-un-crime-commission-approves-mandela-rules

Os juízes de Curitiba também recusaram o direito de uma ONG de exercer uma função (como a vistoria) que, segundo eles, só corresponderia às agências oficiais. A SERPAJ é um órgão consultivo do CESNU, no mesmo nível que as grandes ONG’s de Direitos Humanos, como Anistia Internacional (AI), HRW e outras.

Justamente o caso de Anistia é o que melhor refuta esta mentira, pois AI mencionou várias vezes que, salvo no caso de apenas três países da comunidade internacional, sempre foi recebida (com simpatia ou antipatia) para realizar suas inspeções anuais… Até no Brasil é recebida, embora nem sempre com simpatia.

Enfim, no ambiente da ONU as pessoas mais perspicazes sabem que a diplomacia brasileira aplaude tudo, mas o Estado cumpre as regras que a favorecem, que não são as dos direitos humanos. Mas, devemos reconhecer que os diplomatas brasileiros sempre se justificam e dissimulam seu embaraço. Já para magistrados e procuradores, a violação dos direitos humanos é um motivo de honra!

Gente, não precisam exagerar em sua “liberdade de espírito”.

Veja os critérios de verificação das regras da 70/175:

https://www.unodc.org/documents/justice-and-prison-reform/UNODC_Checklist_-_Nelson_Mandela_Rules.pdf

*Carlos Alberto Lungarzo é membro da Anistia Internacional. AIUSA 9152711

Destaque

De onde vem seu ódio a Lula?, por Gilson Caroni Filho

latiffPor Gilson Caroni Filho*

Sabe, descobri que você gosta de ser chamado de fascista. Por pior que seja, é a primeira vez que sua visão simplória de mundo obtém reconhecimento político. E, convenhamos, no seu caso, é um upgrade e tanto.

Não, não vou falar em política ou luta de classes. Vou tentar entender seus recalques, aqueles que originaram seu ódio contra o ex-presidente.

Lula, filhos de lavradores pobres, veio de Caetés, se tornou um metalúrgico qualificado, maior líder sindical da história do país, e, para seu desespero, fundou, junto com militantes de esquerda e setores progressistas da Igreja, o maior partido político da América Latina. Como se não bastasse, foi o presidente mais carismático do século XXI, aquele que implantou políticas de combate à miséria, investiu na educação como nenhum outro, além de políticas inclusivas, que levaram muitas famílias a verem um filho ingressar em universidade pela primeira vez.

A ascensão política de um operário era sentida como uma bofetada na sua concepção de que governantes eram os oligarcas investidos nos cargos por direito divino. Sim, veio FHC, aquele que sucateou o país, mas do qual você tinha orgulho. Que beleza ter um presidente poliglota! Quando ia aos States, fazia pronunciamentos em inglês. Na França,falava francês. E na América Latina, hablava espanhol. Talvez você não saiba, mas abrir mão da língua pátria em terras estrangeiras é coisa de colonizado. Mas qual o problema? Você também é.

E você?Seguiu na sua vidinha de classe média, se satisfazendo com gratificações vãs,bajulando superiores imediatos e agradecendo ao patrão que lhe pagava o sal.Sempre soube que vivia na merda, mas a visão dos mais pobres funcionava como mecanismo compensatório, um imaginário rastaquera que você abraçava como símbolo de status.Como era boa a ilusão de que aeroportos, restaurantes e escolas eram propriedades exclusivas suas, dos amigos e dos parentes.Intelectualmente, talvez até não fosse, mas você se percebia como uma fraude aceitável. Puta que pariu,que vida triste a sua! Mas eu entendo sua alegria ao ver Lula condenado à prisão. Acabou seu inferno astral. Você já se sente redimido. Em breve, voltará a ser um filho da puta cordial.

Parabéns!

*Gilson Caroni Filho é professor de sociologia. Artigo originalmente publicado no site GGN, de Luís Nassif.

Destaque

Pedro Casaldáliga ganha o título de cidadão de São Félix do Araguaia

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Por Ana Helena Tavares

Em sessão plenária realizada nesta sexta, 9 de fevereiro, a Câmara Municipal de São Félix do Araguaia aprovou, por unanimidade, projeto de lei que confere ao bispo emérito Dom Pedro Casaldáliga o título de cidadão são-felicense.

Clique aqui para assistir à sessão.

É a primeira vez que o bispo catalão, que chegou ao Brasil como missionário em 1968 e nunca mais voltou à Espanha, apesar de terem tantas vezes tentado expulsá-lo, é reconhecido como cidadão em terras brasileiras.

Além de marcar os 50 anos de sua chegada ao Brasil, o ano de 2018 marca também seu aniversário de 90 anos, que será celebrado com missa de ação de graças e almoço comunitário no próximo dia 16 de fevereiro.

A proposta de conceder a Dom Pedro a cidadania de São Félix do Araguaia, cidade no norte do Mato Grosso na qual o bispo ainda mora, partiu do presidente da Câmara Municipal, Antônio Miranda.

Ao QTMD?, Miranda comentou: “Tive sorte, afinal Dom Pedro nunca tinha sido agraciado com o título de cidadania da cidade para a qual doou a vida”.

Em uma de suas poesias, Dom Pedro anotou que “em terra de homens, não existe estrangeiro”. Já Leon Tolstoi ensinou que quem quer ser universal deve falar de sua aldeia.

Pedro Casaldáliga saiu da Espanha e passou algum tempo na África. Depois, adotou a região do Araguaia como sua aldeia. Ali, fez-se povo em meio ao povo. Dali, denunciou ao mundo os problemas daquele povo.

A partir de hoje, ele é oficialmente um membro deste povo.

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Pedro Casaldáliga, de óculos, no meio do povo. Foto: ‘Nós do Araguaia”
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O caminho de volta para o presidente Lula, por J. Carlos Assis

retornoPor J. Carlos Assis*

A sorte de Lula neste momento está selada. A rigor sua condenação no recurso do tribunal federal de Porto Alegre era esperada na medida em que fez parte de um golpe judicial-midiático a serviço das classes dominantes do país com suporte internacional. Só os ingênuos poderiam supor que o golpe desfechado com o impeachment de Dilma pudesse ser abortado no meio do processo em razão de argumentos jurídicos de boa fé. Lula foi condenado porque, do contrário, a escalada golpista teria sido derrotada, o que, no mínimo, era inesperado.
O aumento da pena não é circunstancial, embora seja aparentemente uma provocação adicional aos milhões de brasileiros que apoiam o ex-presidente. É funcional. Se a sentença for confirmada em níveis superiores, Lula, que ficaria inelegível por oito anos até a idade de 79 anos, passaria a ser inelegível por 12. Com oito anos de condenação, ainda seria possível imaginar o ex-presidente disputando uma campanha eleitoral lá pelos fins dos anos 20. Com doze anos, não existirá mais essa possibilidade do ponto de vista prático. Lula estará velho demais.
Os juízes foram extremamente calculistas. Jogam com o fator emocional que empurra o PT para uma estratégia suicida do equivalente ao voto em branco. Se a estratégia do PT e de seus aliados progressistas for, como anunciado por alguns deles, a estratégia dos recursos sucessivos até o Supremo Tribunal Federal, não haverá tempo, diante de uma mais que provável decisão negativa deste, de preparar uma candidatura alternativa. Nessa situação o maior líder popular brasileiro será pouco mais que um pregador solitário pelos caminhos do Nordeste.
A única estratégia possível é óbvia: preparar imediatamente um candidato alternativo reunindo todas as oposições ao regime anti-povo e anti-nacional de Temer. Se apoiar esse candidato, Lula voltará a seus maiores momentos de eficácia, empurrando para a lixeira as forças conservadoras que o derrotaram, espera-se, temporariamente. E haverá grande possibilidade de esse candidato ganhar as eleições tendo em vista a pobreza das candidaturas de direita junto ao povo brasileiro.
Com isso, Lula, beneficiado pelo imperativo de um indulto certo pelo novo governante, poderá se preparar para voltar ao governo, se quiser, em 2022. Terá idade para isso, mais ou menos equivalente à idade de Reagan quando foi candidato pela primeira vez à Presidência dos Estados Unidos. Só um esquema como esse, garantindo uma presidência popular, poderá viabilizar o referendo revogatório das medidas infames de Temer, proposto pelo senador Roberto Requião, assim como abrir caminho para uma assembléia constituinte que limpe as instituições da República, como o Judiciário, de seus vícios.

*José Carlos Assis é economista.

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Uma sentença contra uma geração, por Rudá Ricci

Deixamos de ser protagonistas. De vez. E é este gosto amargo que fica na boca. Não se trata de Lula. Trata-se de confiarmos na possibilidade do futuro ser construído por nós.

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Por Rudá Ricci*

Ontem, a página da história virou. Sei que, como diz minha esposa (que é historiadora), a história acontece todos os dias, todos os minutos. Mas, assim como a poesia transforma algo pueril em som especial, há momentos desta história cotidiana em que se quebra um vínculo com o passado. Foi o que ocorreu ontem.

Em 1979 eu tinha 17 anos. Vivia em São Paulo para fazer o último ano do ensino médio (que se chamava, na época, colegial) e tentar ingressar na faculdade. Participei de todos movimentos de redemocratização do país que explodiam em cada esquina da capital paulista. Não se tratava de política, apenas. Era um giro. A tal virada de página. Tudo se alterava: o jeito de dar aula (com Marilena Chauí na vanguarda), o jeito de se educar (com a volta de Paulo Freire), o jeito de se pensar a justiça (a Constituinte era tema central em bares descolados onde artistas esbarravam em estudantes e políticos), o jeito de se pensar e fazer arte (você entrava em qualquer ateliê ou ensaio de grupos experimentais de música à luz do dia ou entrava na casa de cineastas sem bater, apinhadas de gente como uma grande, democrática e confusa república de estudantes), o jeito de se discutir (com debates sobre sexualidade nos auditórios do Hospital das Clínicas ou no “Pátio da Cruz” da PUC-SP), o jeito de se fazer música (ouvindo a obrigatória coluna de Maurício Kubrusly sobre a nova música paulistana, do Premeditando o Breque, do Grupo Rumo ou do experimentalismo de Arrigo Barnabé). Era ousadia pura.

Na política, nada era mais novo que a greve dos metalúrgicos. E, tinha Lula. Lula tinha ironia e deboche. Mas, desde aquele momento, Lula não era dono de sua imagem. Era interpretado. O primeiro libelo do Partido dos Trabalhadores foi um artigo de Francisco Weffort publicado na Folha de S.Paulo. Lembro vagamente do conteúdo, embora me recordo com facilidade do impacto que me causou. Ele dizia sobre um momento marcante e definitivo da política nacional, quando os trabalhadores entravam pela porta da frente. Não eram objeto de discursos de lideranças de classe média, mesmo as mais bem intencionadas, mas eram donos de seus próprios discursos. O artigo discorria sobre uma meia-verdade. E ele era a prova da outra parte que não dizia. Weffort era sociólogo reconhecido. Havia escrito uma tese famosa sobre uma greve espetacular que havia ocorrido em plena ditadura militar. Havia criticado duramente o populismo trabalhista. Era um intérprete. Foi um dos intérpretes de Lula. Diziam que ele escrevia alguns dos discursos de Lula, após a fundação do PT, e cometia alguns erros gramaticais para manter um tom de originalidade. Trabalhei com Weffort, anos mais tarde, mas nunca tive coragem de perguntar se este boato tinha sentido. Imagino que, mesmo se tivesse, ele negaria.

O fato é que o movimento libertário do final dos anos 1970 – e que invadiria toda a década seguinte até o ápice da constituinte de 1987 ou das eleições de 1989 – não foi um desenrolar de acontecimentos, mas uma interpretação de toda uma geração sobre o presente que apontava para um futuro distinto. Aqui é o marco de minha geração. Ao menos, parte dela que mergulhou nesta construção do futuro. O que ocorre agora, não é construção de um futuro, mas a destruição deste potencial. Explico: minha geração sentia que tudo estava para ser construído. Não era reconstrução, mas construção. Algo novo, não uma reforma. E, por este motivo, reinterpretava e interpretava tudo o que ocorria. Os acontecimentos tinham que ter um sentido, se encaixar nesta tarefa empolgante e coletiva de construir um país. Mergulhamos, de cabeça.

O tom destoante, que se destacaria a partir de meados dos anos 1990, era José Dirceu e as centenas de ativistas que o seguiram. Diria que era a faceta racional no interior de um movimento passional. A reinterpretação do Brasil – que enquadrava em perspectiva a figura de Lula, sempre controversa – era marcada pelas pulsões libertárias. Pulsão é uma espécie de catarse, um jorro de desejo, uma explosão de sentimentos e sentidos que dão cor à vida. Era assim que o petismo – apenas a ponta do iceberg das mudanças que uma geração promovia – reinterpretava todo racionalismo da esquerda dos anos anteriores. Reinterpretava as intenções tímidas do MDB, a linha justa e o amplo arco de alianças promovido pelo PCB, o populismo que sequestrava o protagonismo dos trabalhadores dirigido pelo PTB ou pelo brizolismo. Na política, falava-se do protagonismo dos trabalhadores, sem intérpretes, mas que eram interpretados por jovens, pesquisadores e jornalistas. Lula era o artista que criava o “efeito stand up”, aquela tirada surpreendente para falar sobre algo que já sentíamos, mas que não tinha sido racionalizada em palavras. Lula não era o que ele pensava ser. Era nosso intérprete. O intérprete de uma geração. Um intérprete criado por nós.

O que os juízes de ontem não parecem se dar conta é que não julgavam Lula. Nem sei quais eram suas intenções e isto pouco importa. Mas eles julgaram todo um movimento libertário que começou a ser deformado na segunda metade dos anos 1990 pelo velho e carcomido racionalismo de parte da esquerda que havia sido criticada pelos movimentos libertários de 1980.

O final do jorro da década libertária do Brasil já aparecia no final dos anos 1990. Era como um gosto amargo na boca depois de uma ressaca. Mas, como uma ressaca, basta um comprimido e muita água para se ter a certeza que logo tudo voltará ao normal. Nem sempre volta. A vitória de Lula não era mais a vitória dos libertários dos anos 1980. Era algo mais racionalizado e enquadrado em esquemas mentais, em discursos fabricados em gabinetes fechados. A vitória de Lula foi programada por quem queria interpretar a sociedade. O inverso do que ocorrera duas décadas antes. Nós, os da rua, tínhamos perdido o protagonismo da mudança, mais uma vez. Mas, mesmo assim, o “artista que sintetizava o que sentíamos” tinha chegado ao poder. Seu ápice era uma espécie de prêmio de consolação do que, um dia, imaginávamos ser o futuro. Não era aquele futuro radiante, mas era como se um velho conhecido, já com rugas e voz pastosa e grave, tivesse conseguido chegar lá. Não exatamente nos representando ou representando aquele momento espetacular em que sentíamos que estávamos construindo o futuro. Era mais adequação ao presente.

O governo Lula cometeu vários erros em nome do racionalismo, mas cometeu vários acertos. Para minha geração, tenho a impressão, o maior acerto foi combater a pobreza e a fome. Não tenho receio de dizer que era apenas um dos pontos de pauta que criavam uma identidade no passado. Mas, ao menos um, Lula e o lulismo haviam conseguido cumprir. Para muitos, já bastava, dava sentido ao passado. Para outros, não bastava, mas justificava a crença que tínhamos na mudança em algum ponto do futuro.

Pois bem, foi este futuro e esta geração que pensava poder construir o futuro que foi julgado no dia de ontem. Viramos a página de nossa história. Não para a frente, mas para trás. Voltamos décadas. E, o mais importante, não viramos a página pela vontade das ruas, dos jovens, dos artistas, dos crentes. A página foi virada por quem existe para manutenção da ordem vigente. E, como afirmei, uma ordem construída pelo racionalismo que procurou nos interpretar e nos conduzir.

Deixamos de ser protagonistas. De vez. E é este gosto amargo que fica na boca. Não se trata de Lula. Trata-se de confiarmos na possibilidade do futuro ser construído por nós.

*Rudá Guedes Ricci é cientista político.

Destaque

Marcondes Namblá: desenhando com o próprio sangue

marcondes   

“… meu ódio é o melhor de mim / Com ele me salvo /  e dou aos poucos

uma esperança mínima”. (Carlos Drummond – A flor e a náusea)

Por José Ribamar Bessa Freire*

– Faça um desenho mostrando como são tratados, hoje, os índios no Brasil, imaginando que daqui a 400 anos um historiador o encontrará num arquivo junto com outros documentos que atravessaram o tempo.

Dei essa tarefa, em outubro de 2013, aos alunos do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Entre eles, Marcondes Namblá, professor Laklãnõ/Xokleng da Terra Indígena Alto Vale do Itajaí. Ninguém podia imaginar que, quatro anos depois, o desenho seria feito com sua própria vida, isto é, com sua morte. Ele foi assassinado a pauladas, com o crânio fraturado, neste primeiro de janeiro. Tinha 38 anos, cinco filhos, um sorriso doce e cativante de menino e deixa na orfandade as crianças da escola indígena onde ensinava.

O suspeito do crime Gilmar Cesar de Lima, 22 anos, residente em Gaspar (SC), com várias passagens pela polícia, teve prisão preventiva decretada. Segundo o delegado Douglas, a polícia o identificou através das câmeras de monitoramento que flagraram o momento do crime cometido com um porrete. Testemunhas revelam que “Gilmar falou a pessoas que passavam na rua que o indígena teria ‘mexido’ com o cachorro dele”. O caso, para a polícia, se encerra quando o foragido for preso. Para nós, não.

– “A violência contra os povos indígenas é sistemática, diária, individual e coletiva” – denuncia o Núcleo de Estudos dos Povos Indígenas (NEPI) da UFSC, o que é confirmado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em nota na qual denuncia “a onda de intolerância racista contra indígenas no litoral de Santa Catarina, estimulada pelas autoridades municipais que não aceitam o fato de os indígenas frequentarem as praias”.

Efetivamente, agressões, humilhações e discriminação acontecem com muita frequência, inclusive contra crianças, mas só são registradas em caso de morte. Há dois anos, o Brasil acompanhou, estarrecido, o enterro no dia 1º de janeiro de Vítor, bebé kaingang de dois anos, degolado por um jovem de 23 anos na rodoviária de Imbituba (SC) diante da própria mãe. As agressões aumentam, ironicamente, nas festas de Natal, quando muitos índios saem de suas aldeias para vender artesanato aos turistas, ou no caso de Namblá, para vender picolé numa praia em Penha.

Brinquedos e brincadeiras

Por que alguém, pertencente à espécie humana, age como uma besta-fera e mata um semelhante que esboça gesto de carinho a um cachorro? O que ele ganha com isso? Em qual escola estudou? Quem colocou merda nesse cérebro criminoso? Por que ceifou a vida de um pesquisador promissor que em novembro último impressionou o público do III Seminário Crianças e Infâncias Indígenas com a apresentação dos resultados de sua pesquisa? Na ocasião, Namblá revelou à antropóloga Antonella Tassinari seus planos de ingressar no mestrado para continuar investigando a infância indígena.

Esse foi o tema de sua monografia de conclusão de curso em abril de 2015. Ele pesquisou a prática dos banhos nos rios, mostrando como a construção da Barragem Norte transformou o cotidiano das crianças Laklãnõ e prejudicou as brincadeiras infantis que usavam vocabulários específicos na língua nativa e começam a cair no esquecimento. Preocupado com o destino da língua materna, Namblá estava atento para a circulação de saberes tradicionais e as dimensões identitárias configuradas pelo território. “Ele nos cativou com seu sorriso, entusiasmo e criatividade” – escreveu Antonella.

Os depoimentos de professores e colegas ressaltam a jovialidade e o entusiasmo de Namblá pela vida. Ele era dono de uma “alegria contagiante que nos passava com sua viola e cantorias de sempre na UFSC” nas palavras enlutadas de sua colega, a guarani Kerexu Yxapyry. Ele cantava e encantava.

Guardo dele saudosas lembranças. Depois que ministrei dois módulos para sua turma, continuamos a manter contato permanente, com troca de mensagens pelo facebook. Numa delas, em 18/01/2014, ele escreveu:

– Olá professor. Quero ampliar a minha pesquisa sobre a infância. Na conversa em Foz do Iguaçu vc me falou de um autor que fala disso, gostaria de saber o nome dele.

– Acho que foi o Walter Benjamin – eu respondi

– Ah, é esse mesmo.

Dois dias depois lhe enviei cópias do “História Cultural do Brinquedo” e “Brinquedo e brincadeira – Observações sobre uma obra monumental”, ambos de Benjamin. Já em 2015, Namblá comentou a resenha que lhe enviei do livro “A hora das crianças. Narrativas radiofônicas de Walter Benjamin” organizada por Rita Ribes.

Continuamos em contato até há alguns meses quando ele escreveu: (07/03/2017):

– Olá, professor! Td bm? Sabe eu to de saída, mas logo que vi vc conectado, lembrei que podes me ajudar, se puder, é claro. To precisando que vc me envie artigos científicos sobre metodologia de ensino de língua portuguesa literatura.

Respondi:

– Oi Namblá, veja (leonorwerneck.wixsite.com) lá você vai encontrar o que te interessa. Acho que vale a pena consultar também a revista “Linha D’Água” da APPL – Associação dos Professores de Língua e Literatura. Também o artigo “Na sala de Aula” de Antônio Cândido.

– Valeu. Vou pesquisar o site sim. Muito obrigado

O desenho

Esse é Marcondes Namblá, assassinado não só por um indivíduo, que foi apenas um instrumento, mas pela sociedade que o armou com o preconceito. Ele e seus 35 colegas de turma, Laklano, Guarani e Kaingang, além da dolorosa experiência pessoal, conheceram a trajetória histórica da violência. Na disciplina Análise e interpretação de textos que ministrei na Licenciatura das Linguagens, em Florianópolis, todos leram trechos da “Nova Crônica e Bom Governo” do índio andino Felipe Guamán Poma de Ayala (1526-1615), ilustrada com 398 desenhos só encontrados em 1908 na Biblioteca Real da Dinamarca.

Foi aí que cada aluno escolheu um desenho para comentar sua atualidade. São imagens fortes do período colonial, de caráter narrativo, que relatam os métodos violentos usados pelos conquistadores, num deles está a imagem do avô do autor, Guamán Chaua, que foi queimado vivo por Pizarro. O desenho de Poma de Ayala selecionado por Namblá foi aquele em que violência física era cometida contra crianças indígenas chicoteadas pelo mestre-escola.

Marcondes Namblá escreveu comentário para avaliação da disciplina, que depois leu no Colóquio sobre Poma de Ayala em Foz do Iguaçu, em outubro de 2014, numa mesa com a participação dos Guarani Joana Mongeló e Teodoro Alves, e dos professores da UNILA Clóvis Brighenti, Giane Lessa e Mário Ramão Villaba.  Em sua homenagem, reproduzo aqui trechos do seu texto:

“A imagem que escolhi retrata os abusos das autoridades políticas e religiosas.  Mas o que eu gostaria de deixar para a posteridade é que a entrada da igreja dentro das terras indígenas sem dúvida é a pior e mais eficiente arma utilizada pelos colonizadores europeus para dominar os povos indígenas brasileiros.

“Sobre o autor, foi a primeira vez que conheci o trabalho através do professor José Bessa, durante uma etapa do curso Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica – UFSC. É impressionante ler um texto de 500 anos atrás e saber como e o que aconteceu naqueles anos. Podemos descobrir as atrocidades que os espanhóis cometeram com os Incas no Peru. O desenho é interessante, pois ele consegue transmitir com muita precisão o que ele testemunhou durante a sua vivência.

“Outra mensagem que o desenho nos transmite enquanto indígenas é que a cultura oral é muito importante, mas no mundo atual, o registro escrito de tudo o que acontece no dia-a-dia da comunidade, os rituais, a musicalidade, a culinária, os medicamentos tradicionais, o movimento e a luta pela conquista dos nossos direitos é fundamental, para que as gerações posteriores possam conhecer. Por isso defendo o ingresso dos indígenas nas universidades, sabendo que a formação acadêmica pode contribuir para concretizar esse processo”.

Quando seu colega guarani Eduardo Kuaray morreu, em novembro de 2014, escrevi que a morte de um aluno jovem é, para o professor que a ele sobrevive, como a morte de um filho: uma inversão, uma cilada do destino, da história. Assim como existe pai órfão de seu filho, existe professor órfão de seu aluno. Já sinto saudades da troca de mensagens com Namblá. O coração, repleto de vergonha pelo Brasil no qual vivemos, revela a impotência de dar um basta num crime que se arrasta por cinco séculos.

Só nos resta a esperança de que o desenho com sangue de Namblá contribua para combater a intolerância e chegue ao séc. XXV, quando quem será julgado por esses crime não será um pobre infeliz, mas a sociedade que o armou. Com dor, mas com indignação e com a raiva de Drummond.

P.S. – Na terça-feira, 9 de janeiro, às 9 hrs da manhã, o Curso de Licenciatura da UFSC realiza um ato em homenagem a Marcondes Namblá. Agradeço as informações recentes e as fotos postadas por Marina Oliveira, Clóvis Brighenti, Antonella Tassinara e Kerexu Yxapyry.

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*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo. Artigo originalmente publicado no blog do autor: Taquiprati.

Destaque

O “homão da porra” – A tautologia do ministro

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“… Eu vejo um museu de grandes novidades”. (Cazuza)

Por Flavio de Souza Lima*

    Em meados do ano que passou, a expressão “homão da porra” virou meme. Personificada no ator Rodrigo Hilbert por sua polivalência. De acordo com o dicionário informal, ela é usada para se referir ao homem capaz de atos admiráveis, corajosos. Exemplo: QUE HOMÃO DA PORRA, DEFENDEU A FAMÍLIA DOS ASSALTANTES. Em Rodrigo, a alcunha grudou. Não fora ele um duble de ator, apresentador, cozinheiro, marceneiro, ferreiro, carpinteiro, costureiro, galã, dono de casa, marido e pai exemplar.

     A biografia do Ministro da Defesa Raul Jungmann, fornecida por seu partido o PPS -http://www.pps.org.br/ (antigo PCB), perpetra uma trajetória diversa. Secretário de Planejamento (PE), Secretário do Ministério do Orçamento e Gestão (Gov. Itamar, 1993-1994), Presidente do IBAMA, Ministro de Política Fundiária, Presidente do INCRA e Ministro do desenvolvimento Agrário (Gov. de FHC, 1995-2002) integrou o conselho de importantes estatais indicado por políticos. Destacando-se o cargo de Conselheiro da LIGHT/CEMIG, (“luxuosa” indicação de Aécio Neves). E em São Paulo, Conselheiro da Companhia de Engenharia de Tráfego e da PRODAM, pelas mãos do ex-alcaide paulistano Gilberto Kassab. No legislativo, foi Deputado Federal (atualmente é suplente), e eleito vereador no Recife (2012).

     A junção de termos gregos redundou na fusão latina, tautologia. Tautó quer dizer “o mesmo” e logos significa “assunto”, portanto, de acordo com o dicionário informal, tautologia é dizer sempre a mesma coisa em termos diferentes (redundância).  Pois bem, mesmo experimentado, o Ministro da defesa escorregou na retórica, proferindo declarações redundantes nos últimos dias de 2017.

     Em entrevista ao portal UOL, Jungmann disparou: “O sistema penitenciário não está nas mãos do Estado Brasileiro e sim nas mãos das grandes quadrilhas. É o home Office dos grandes criminosos, que comandam de suas celas ações criminosas no país e no exterior”. Outra: “O Brasil talvez seja o único país do em que as grandes quadrilhas foram criadas dentro do sistema penitenciário. O sistema é a maternidade, o berçário dessas grandes quadrilhas”. Mais uma constatação surpreendente: “Os dados indicam que há um acordo tácito entre funcionários do sistema prisional e o crime organizado”. Nossa! E, por último: “Os comandantes destas quadrilhas, apesar de estarem há décadas em presídios federais, permanecem no comando, pois o fluxo de informações ainda não foi interrompido. E isso se dá nas visitas íntimas, nas visitas de amigos e parentes e, infelizmente, nas visitas de advogados”.

     Bem, que existe acordo entre funcionários e o crime não é informação fresca. Até o filme de maior bilheteria de todos os tempos no Brasil, TROPA DE ELITE 2, explicita. Na cena em BANGU 1, primeiro presídio de segurança máxima do Brasil, o agente penitenciário “Curió”, entrega as armas ao bandido “Beirada”, que dá início à matança de grupos rivais. Sobre o “ovo da serpente” ter sido chocado dentro dos presídios, Jungmann que não se esqueça. A principal facção criminosa da América Latina foi concebida e gerada dentro dos presídios paulistas, sob as barbas do partido que comanda SP há mais de 20 anos (PSDB), e que tem como “correia de transmissão”, o partido do qual ele é integrante e fundador (PPS). Portanto, nem uma nova nas declarações. São como subir para cima, elo de ligação, fato real, surpresa inesperada, escolha opcional…ou outros pleonasmos. Apenas repete como novidade o que todo mundo já sabia.

     A noite de ano novo foi marcada por um ato heróico. Jungmann pediu emprestada a capa de “Homão da Porra” de Hilbert e voou para Natal, onde os PMS sem receber salários estavam aquartelados. Ali, foi instalado uma espécie de gabinete de crise contando com a guarda nacional. Passou a virada com quem quis trabalhar e fez questão de declarar que eles eram sua família. No dia 2, já tinha dados “animadores” da diminuição do número de mortos no Estado. Rodrigo que se cuide. É isso.

*Flávio de Souza Lima é professor da rede pública em São Paulo.

Destaque

A incômoda presença de Anitta, por Gilson Caroni Filho

vai malandra
Anitta durante cena do clipe “Vai, Malandra”

por Gilson Caroni Filho*

O que tinha para ser escrito sobre Anitta já foi. Alguns textos muito bem fundamentados. Outros, vindos de uma esquerda que se pensa vanguardista, lamentáveis. Valeu de tudo. Desde o uso de uma leitura funcionalista dos frankfurtianos sobre indústria cultural ao tradicional “nunca ouvi essa mulher”.

 

O conceito de cultura popular, muito bem problematizado por Chartier, foi mais uma vez banalizado por integrantes da academia, que pensam caber a eles definir o que é ou não autenticidade cultural. E dizer que, há décadas, Marilena Chauí escreveu um livro excelente desmontando esse maldito lugar de fala.

 

Outro ponto recorrente foi associação entre funk, tráfico e objetificação do corpo feminino. Que reducionismo preconceituoso! Todo gênero musical expressa as contradições do contexto em que é produzido. Seria interessante que os doutos pesquisassem a representação social da mulher no samba e na MPB.

 

Encontrarão o magistral Ataulfo Alves, em “Mulata Assanhada”, um negro evocando a volta da escravatura: “ai, me Deus,que bom seria/ se voltasse a escravidão/ eu pegava a escurinha/e prendia no meu coração”. Ou a visão idílica de Paulinho da Viola cantando que “vista assim do alto mais parece o céu no chão”. Dirão que é preciso contextualizar o tempo em que as músicas foram compostas. Falácia de ideólogos que não suportam ver abertas as veias de nossas diversas contradições simbólicas.

 

Mas por que Anita incomoda tanto? Porque os que condenaram o convite de Caetano para que ela se apresentasse na abertura dos jogos olímpicos tiveram que engolir a bela interpretação de ” Isso aqui é o que é” e de ” Sandálias de Prata”. Mas não parou por aí. A apresentação com Andrea Bocelli foi outro tapa na cara da classe média que, à direita e à esquerda, não consegue superar seus preconceitos de classe.

 

Anitta, gostem ou não, é guerreira antropofágica. Sabe, como poucos artistas, administrar sua carreira. Não esqueceu que a laje é sua raiz, mas nem por isso deixa de penetrar no mercado hispânico e, em breve, no estadunidense. Farão com ela o que, há 60 anos, fizeram com Carmem Miranda? Dirão que está americanizada? Não estou comparando cantoras, mas a repetição do mesmos ranços. Aqueles que, a pretexto de valorizar o que é nacional ou popular, tentam condenar à pobreza cantores e compositores.

 

São os mesmos que apoiaram a marcha contra a guitarra e tiveram que reconhecer a beleza de “Domingo no Parque” onde Gilberto Gil, mandou um belo “foda-se” para os puristas de plantão, cantou com os Mutantes, e compôs uma das mais belas músicas do nosso cancioneiro.

 

Os críticos de Anitta gostam de dizer que ela reafirma valores misóginos, conformistas e que faz o jogo da indústria cultural. Pois bem, ela mostra uma bunda longe dos padrões idealizados pelo patriarcalismo como quem diz “é minha, não é seu espaço de dominação”.

 

Sobre “fazer o jogo da indústria cultural” o cinismo dá a mão à indigência analítica. Qualquer produção simbólica em país capitalista dela não escapa. Ou não sabem que a mercantilização de tudo é a marca deste modo de produção?

 

Anitta, ignore esse lixo. Vai ganhar dinheiro, mulher!  Prossiga na sua saga tropicalista! Vai, malandra linda!

 

*Gilson Caroni Filho é professor de sociologia. Artigo originalmente publicado no site GGN, de Luis Nassif.

 

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