O colapso financeiro mundial e nacional no DNA da bitcoin e das moedas: a saída pelo Pacto Social, por J. Carlos Assis

“Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises.”

Por J. Carlos Assis*

Meu querido amigo Luiz Gonzaga Belluzzo, o mais destacado e erudito economista político do país, concorda comigo em quase tudo, exceto quanto ao fato, que sustento, de que a economia mundial caminha para uma crise gigantesca. Por ser meu amigo, ele quer me proteger do desgaste público por anunciar fatos catastróficos que não se realizarão. Sou suficientemente modesto para não acreditar que tenho o dom da profecia. Isso pertence a Deus, mas infelizmente não sou Deus. Se fosse, a primeira coisa que faria seria isolar o Brasil da crise mundial que vem por aí.

Belluzzo se apoia em decisões objetivas das autoridades monetárias para controlar alguma crise econômica. Por exemplo, acha que o FED, o banco central, que está injetando rios de dinheiro na economia dos Estados Unidos e do mundo ocidental para controlar o desemprego, que ainda perdura contra as políticas emergenciais de Joe Biden, segura a barra do crescimento. Até aí estamos quase de acordo. Onde divergimos é quanto ao papel do sistema financeiro no processo. O sistema financeiro é um bicho complexo. Move-se por percepções, não por fatos e decisões.

As bolsas quebram não porque tenham algum desequilíbrio de fundo na oferta e demanda de ações, mas porque alguém, ou alguns, acham que ela vai quebrar. Para transformar suas aplicações em dinheiro vivo, essas pessoas vendem tudo que têm em ações e vão em busca de algum ativo real. Outros, percebendo que isso está acontecendo, vendem também suas ações e deixam de comprar. É o famoso efeito manada. De repente todo mundo vende e ninguém compra. E aí a bolsa quebra, inapelavelmente. Instala-se o caos financeiro, que afeta também a economia real.

Não há remédio contra isso. É um movimento estritamente subjetivo. Não entendo como Belluzzo, que não é propriamente um economista, mas um filósofo da economia, não tira daí a conclusão necessária de que sistemas financeiros quebram pela margem, e não pelo corpo principal do mundo real que apenas representam. Assim, algo tão insignificante em relação ao mercado financeiro globalizado como o universo paralelo das bitcoins, a moeda privada não garantida pelo Estado, pode desencadear um desastre de proporções catastróficas.

A bitcoin é o equivalente contemporâneo, de perfil tecnológico, de uma pirâmide financeira antiga: ganha nela quem entra primeiro e sai primeiro. O sujeito que entra paga pelo que sai. Na febre especulativa, sempre entra mais gente do que sai. Nos primeiros tempos desse mercado paralelo, é preciso que mais gente nova entre no processo para pagar as aplicações dos antigos, a preços cada vez mais altos. A percepção é de uma alta fantástica, sem limites. Aí então um ganhador desconfiado não volta ao mercado para comprar. Ninguém compra. Vem o estouro.

Até que ponto um mercado restrito como o da bitcoin pode afetar o gigantesco mercado financeiro globalizado? Basta um percepto do lado errado, e o sistema de comunicação instantâneo do mundo atual faz o resto através da internet. Ordens de venda e compra se fazem de forma imediata num terminal de computador ou de um celular. Rapidamente os mais especializados na manipulação do sistema percebem uma manifestação estranha. É inevitável o efeito manada. Como ocorre nas bolsas, a bitcoin segue um curso na direção das cinzas, inevitavelmente.

Como é uma moeda sem Estado por trás, a bitcoin não pode ser salva por bancos centrais. Se querem o livre mercado, como há décadas pregam o Consenso de Washington e o grupo do Forum Econômico Mundial, que o tenham. Mas o FED, me adverte Belluzzo, está enterrando dinheiro nos mercados – é o banco central ocidental do dólar, 70% de dinheiro do mundo -, e toda essa liquidez pode salvar sistemas institucionalizados e sistemas paralelos. Será? E os chineses gostarão disso, eles que têm trilhões de dólares enterrados em títulos norte-americanos?

Se o FED continuar inundando o mundo de dólares seu valor cairá, e os chineses, que já deram sinal disso, caem fora com seus títulos. Voltam para casa. Os europeus também não gostariam disso, porque o BCE, seu banco central controlado pelos alemães, tem horror à inflação. Também eles fugirão dos EUA. Poderá se ver, ao reverso, o que aconteceu em 1979: junto com o segundo choque do petróleo, que impôs uma recessão ao mundo, veio o choque de juros. O FED, sob a mão de ferro de Paul Volcker, quadruplicou a taxa básica de juros. Incrível, mas deu certo.

Por que deu certo? Em 1979, último ano de governo do presidente Carter, a Casa Branca estava inteiramente desmoralizada. O sequestro da Embaixada norte-americana em Teerã pelos jovens da Guarda Revolucionária se estendia por mais de 400 dias. Os mercados mundiais comandados pelos Estados Unidos estavam mergulhados em recessão e inflação. A instabilidade monetária e cambial era universal. Então, venceu o mandato do presidente do FED e colocaram em seu lugar o único funcionário público de alta credibilidade no país, Paul Volcker.

Volcker era um durão em matéria de política de combate à inflação. O livro texto liberal dizia que isso deveria ser feito mediante políticas de arrocho fiscal e aumento da taxa de juros. O ajuste fiscal não estava sob seu controle. Mas os juros estavam. Então, ele elevou a taxa básica com um choque sem precedentes. Saiu de um dígito e foi parar em 21%. Jamais acontecera isso. A taxa de aplicação dos bancos chegou a quase 30%. O Brasil, que tomara sua dívida externa a taxas flutuantes de cerca de 7%, passou a pagar extravagantes valores quatro vezes superiores.

O livro texto dizia que, num ambiente inflacionário provocado pela fraqueza do dólar perante outras moedas europeias, o aumento dos juros sugaria a liquidez internacional para os EUA. Foi exatamente o que aconteceu. À custa do aumento da recessão na Europa, provocado pela escassez de dólares, e da brutal expansão da dívida externa dos países pobres e em desenvolvimento, notadamente o Brasil, Volcker estabilizou a economia norte-americana sem fazer arrocho fiscal. Ao contrário. O carismático presidente Ronald Reagan assumiu o poder e acelerou o gasto público.

O que isso tem a ver com a situação econômica brasileira atual? Tem tudo, mas há um fator político inescapável. A inflação e sobretudo o custo de vida estão ficando fora do controle, e o Banco Central de Roberto Campos e Paulo Guedes, como manda o livro texto neoliberal, está aumentando a taxa de juros para combatê-los. Acontece que, no Brasil, não há um Reagan chegando a cavalo à Casa Branca. É Lula que se aproxima do Planalto. Para os especuladores, Guedes é uma garantia de política monetária favorável, enquanto Lula representa uma ameaça futura.

O que caracteriza a especulação é a aposta no futuro. Eis que temos uma situação econômica e política caótica, e uma perspectiva externa desfavorável. A inclinação do especulador, sobretudo quando confrontado com a total falta de credibilidade do governo, é pular fora das aplicações especulativas. A maior delas são as chamadas moedas virtuais, inauguradas pela bitcoin. É a moeda inteiramente sem lastro de metal ou de papel, e sem garantia do Estado como emissor. Essa moeda realizou o ideal do Forum Econômico Mundial: a moeda privada da globalização.

A bitcoin está explodindo no Brasil. Há poucos dias a Polícia Federal prendeu o maior especulador brasileiro em bitcoin, a quem se atribuiu um golpe de R$ 1 bilhão nos mercados interno e externo. Eis outro ponto de diferença entre mim, Belluzzo e outro economista amigo, o professor Daniel Conceição, presidente do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Ambos sustentam que, diante do porte do mercado financeiro mundial, a bitcoin, sendo uma moeda segregada, não tem potencial de, perdendo circunstancialmente valor, deflagrar uma crise financeira.

Estão enganados. Crises financeiras são desencadeadas por fatores subjetivos, não objetivos. Não é o fato em si que as deflagram, mas como outros o percebem. O que importa não é o estoque dos valores a elas referidos, mas seu fluxo. Em uma palavra: bancos e outros agentes financeiros quebram pela margem, não pelo centro. Então, poderiam dizer Belluzzo e Daniel – e, de fato, disseram – porque a notícia da fraude de R$ 1 bilhão no mercado brasileiro de bitcoin não desencadeou o efeito manada no mundo? Suspeito da razão: porque Chico Pinheiro não deixou.

Chico é um dos mais competentes e responsáveis apresentadores de telejornais do Sistema Globo, mas não é um especialista em economia. Quando um repórter lhe apresentou, quando estava no ar, a notícia de que a PF descobrira uma fraude de R$ 20 bilhões no mercado brasileiro de bitcoin, ele não acreditou. Pediu que conferisse. O repórter insistiu, mas assim mesmo Chico Pinheiro não leu a notícia. A versão apresentada foi negociada por R$ 1 bilhão. Era mais aceitável pelo público conservador da Globo. R$ 20 billhões ficaram por R$ 1 bilhão.

A Psicologia diz que pessoas comuns não conseguem conceituar valores absolutos acima de mil. Mas conseguem avaliar valores relativos. R$ 1 bilhão como valor absoluto não faz muito sentido, mas R$ 20 bilhões, ou seja, algo 20 vezes maior que R$ 1 bilhão, despertam atenção. Alguém que esteja aplicado em bitcoin não dá muita importância a um golpe de R$ 1 bilhão, mas fica assustado quando se fala em 20 vezes mais. É o dinheiro dele que está em risco. Ele o põe instantaneamente onde quiser. Na dúvida, pula fora. Outros o seguem. Eis o efeito manada.

Chico riu muito quando lhe disse que ele evitou nesta semana a débâcle dos mercados de moedas virtuais. Como são moedas sem Estados por trás, só tem valor porque alguém está disposto a comprá-las. Quando todo mundo quer vendê-las, viram pó. E como são as moedas características da especulação desenfreada nos paraísos fiscais, podem levar esses últimos na derrocada. Isso, naturalmente, não passa ao largo dos bancos sérios. Alguém que perde dinheiro na bitcoin e deve a um banco sério, pode não pagar a dívida e determinar também sua queda pela margem.

Este é o limite extremo e final da especulação financeira condenada de forma corajosa pelo Papa Francisco num documento técnico espetacular do Vaticano. É um libelo contra a imoralidade básica dos sistemas financeiros atuais. É possível segurar essa onda? Na próxima onda, é possível que não haja um sujeito tão responsável como Chico Pinheiro para segurá-la. Então, finalmente, terá chegado a hora que todos os analistas técnicos dos mercados de moedas virtuais prognosticaram: isso são pirâmides tecnológicas contemporâneas que revivem fraudes financeiras do passado.

A questão é saber o que vem depois. A crise global é inevitável, de proporções gigantescas, maiores do que a de 2007/2008. Será que um país com absoluta falta de credibilidade como o Brasil de hoje, presidido por um psicopata que quer desmontar as instituições da democracia, pode superá-la? Ora, em 2009 conseguiu. Mas era governado por um sujeito sem arestas e sem ódio, com alta credibilidade internacional, apesar de não ter muita cultura. Com auxiliares competentes, adotou a política certa: injetou dinheiro na economia e recuperou o consumo e a produção.

Agora a situação é diametralmente oposta e o presidente louco está dominado por neoliberais que acham que a situação será normalizada pelo livre mercado, sem intervenção do Estado. Na matriz neoliberal, o único instrumento de política econômica à mão de outro desequilibrado, Paulo Guedes, é a política fiscal-monetária de austeridade. A fiscal, aplicada com extremos sacrifícios para o povo durante por mais de 20 anos, jogou a economia numa estagnação permanente e à inflação de agora. Resta o choque dos juros. E isso não dará apenas inflação, mas hiperinflação.

Tivemos hiperinflação no passado, esmagando o povo, mas tolerada pela classe dominante porque a economia era indexada. Hoje, a indexação, mesmo que imposta improvavelmente por um governo neoliberal, é insuficiente. O custo de vida vai para a lua. Ou iria. Já que, diante de crises tão profundas, um governo que viria substituir a tragédia neoliberal bolsonarista ainda pode salvar a Nação. A preliminar é a imediata deposição de Bolsonaro e de Guedes. Isso tem que ser feito rápido, pois o atual desgoverno ameaça explodir o custo de vida, o desemprego e as eleições.

Será que o Congresso terá agilidade para atuar nessa velocidade? Acredito na pedagogia da crise. Colegas meus acham que exponho muito minha credibilidade porque aponto a inevitabilidade da consumação das crises particulares numa crise global. Faço isso, porém, não porque quero ser profeta. Faço porque quero dar uma contribuição ao país e ao povo para evitar o pior. O que estou propondo é um grande Pacto Social entre classes e grupos que correm riscos comuns, em vários campos, em busca de um objetivo comum, a estabilidade e a retomada da prosperidade perdida.

Entre as lideranças sociais não há grande dificuldade de conciliação quanto ao diagnóstico básico das crises e a definição de interesses comuns. A questão é enquadrar esses objetivos num nível superior de decisão. Esse é o papel do Pacto e do Congresso Nacional. A partir dele, e da intervenção efetiva de classes dominantes tradicionais, que estão fragmentadas, e classes dominadas, que sofrem conjuntamente o pior das crises, pode-se colocar pressão sobre o Congresso Nacional para que tome o poder institucionalmente, enterre o neoliberalismo e mude radicalmente a economia.

Pode parecer difícil, mas não é. Isso é um jogo dialético. Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises. É a ambiental, a energética, a urbana, a de segurança pública, do terrorismo, que são comuns ao mundo. E a econômica, a social, a política, a do Estado, a do mercado de trabalho, que são principalmente nossas. Não há como enfrentá-las isoladamente. É preciso que haja coerência na formulação e na ação. Isso está ao alcance do Pacto Social.

*José Carlos Assis é jornalista e economista.

Eduardo Azeredo Costa: “O coronavírus está se lixando para o Bolsonaro”

Por Ana Helena Tavares, jornalista, editora do QTMD?

Em março de 2020, o médico sanitarista, doutor em epidemiologia, Eduardo Azeredo Costa concedeu entrevista para o QTMD? e disse enfaticamente: “O desastre Bolsonaro é muito maior do que o coronavírus”. No último dia 09 de setembro, um ano e meio depois, em nova entrevista a este site, ele analisa que ter Bolsonaro na presidência “é um contrabônus extra”, que favorece a disseminação do vírus, porém afirma que, refletindo sobre o assunto ao longo deste tempo, chegou à conclusão de que “o coronavírus está se lixando para Bolsonaro”. Assim como está se lixando para você que lê este texto, para quem o escreve e para o próprio entrevistado.

Arrogância da humanidade

“Acho importante dizer o seguinte: nós estamos numa posição arrogante enquanto humanidade, eu diria, nesta pandemia. Como se fosse o nosso direito de sobreviver e que não importasse o resto. Arrogante acharmos que podemos fazer isso, quando, na verdade, estamos sendo derrotados por uma estrutura biológica mais simples do que a nossa e, por isso mesmo, mais plástica. Ela consegue se flexibilizar e encontrar respostas. Esse bichinho é muito malandro. Está nos dando um banho”, sintetiza Azeredo Costa. Assista a este trecho da entrevista no vídeo a seguir:

Máquina de propaganda

Com a experiência de quem trabalhou na Organização Mundial de Saúde na época da erradicação da varíola e por 30 anos na Fiocruz, tendo sido diretor de Farmanguinhos, Costa critica severamente a “máquina de propaganda da indústria farmacêutica”, que, para ele, tem favorecido a Pfizer e desacreditado outras vacinas, como a CoronaVac. Ele sustenta que a vacina oriunda da China e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan “é boa, com uma estrutura antiga, muito mais segura”. O problema, ele brinca, é que a CoronaVac “dá tão pouca reação que há quem a tenha apelidado de água benta. Talvez com água benta Deus ajude mais”.

Mistura de vacinas: uma má prática de saúde pública

Nesta entrevista, Costa fala ainda sobre a terceira dose da vacina, comentando a crítica feita pela Organização Mundial de Saúde que apontou questões éticas porque muita gente no mundo ainda não tomou nem a primeira dose, especialmente nos países mais pobres. O epidemiologista concorda avaliando que, nesse cenário, “do ponto de vista da equidade, é uma injustiça que se esteja aumentando mais a proteção de quem já tomou duas doses”. Porém, ele vê base científica para esta dose de reforço: “como há evidências de que vai caindo a imunidade, a dose de reforço é importante para mantê-la alta. É importante não haver mais gente transmitindo”, defende.

No entanto, ele se diz contrário à mistura de vacinas. “Essa coisa da ‘misturança’ é o seguinte: importaram 200 milhões de doses da Pfizer e querem de todo jeito fazer alguma coisa para usá-la. (…) A maioria da população brasileira mais velha tomou CoronaVac, porque no começo só tinha ela. Então, tomá-la como reforço, já tendo funcionado, é bom, dá segurança. Misturar não é tão grave numa situação em que não haja outra opção, ou numa situação particular ligada a reações adversas, mas não é uma boa prática de saúde pública planejá-la fora destas situações especiais”, assegura o sanitarista. Sobre a variante Delta, que se espalhou inicialmente pelo Rio de Janeiro, ele alerta que as crianças têm maior potencial de transmiti-la e que precisam ser vacinadas. “A única vacina que dá para vacinar crianças é a CoronaVac. Outras vacinas provocariam muitas reações em crianças sem o mesmo benefício individual”, garante.

Medidas futuras: não dá para imitar o Ibrahim Sued

Falando sobre as medidas de saúde pública que possivelmente precisarão permanecer mesmo após a pandemia, Costa recorreu a uma frase de um famoso colunista social para apontar o que não deve ser feito: “No caso do coronavírus, que em pouco tempo pegou tanta gente, é preciso manter a vigilância epidemiológica e a informação para ação imediata. Não é como o Ibrahim Sued dizia: ‘agora que vocês estão bem informadinhas, a demain’. Não, é informação para a ação. Não é só comunicar. É comunicar para poder implementar medidas”, conclui.

A seguir, as palavras do entrevistado em detalhes:

Ana Helena Tavares: Conversamos no início da pandemia e você via o Bolsonaro como pior do que o Coronavírus. Como vê isso hoje?

Eduardo Azeredo Costa: Esse páreo ficou complicado. Porque cada um com suas particularidades. Nós temos esse marco de ter conversado sobre a pandemia lá no começo. No início, eu achava que não ia durar tanto tempo o caos. Achava que ia ter uma resolução em tempo mais curto. Temos um belo exército de agentes de saúde no Brasil inteiro que poderiam ter informado e ajudado a população. Mas o Bolsonaro, pior do que o vírus, assumiu o lugar do desastre. Mandou através do Mandetta, que a atenção primária ficasse em casa. No ano passado, quase tudo foi muito mal conduzido. Até que veio a vacina e ajudou a colocar um norte mais visível, atropelando até a ira de bolsonarista contra medidas de combate à pandemia.

Bolsonaro fez tudo ao contrário do que deveria ter sido feito e nós todos vimos o resultado. O famoso bate-cabeça dos estados, desarticulando todo um sistema que é um pouco complexo de se mexer. É preciso ter uma autoridade coordenando centralmente as várias partes. Ela não existindo, o que a gente viu foi isso: os estados tentando resolver, descoordenados. Conseguiram alguns se articular e até tentar fazer aquisição direta de vacinas, que a ANVISA não aceitou, porque está bolsonarista na essência.

Então, o que nós vimos foram esforços não frutificarem (por parte dos estados), inclusive em relação à ativação de uma vigilância epidemiológica, porque vários municípios não os acompanhavam. Porque foi cada um por si, trabalhando na ausência de uma liderança nacional, dependendo do projeto eleitoral e crenças sanitárias de cada governador e de cada um dos prefeitos. Enfim, cada um tomou as medidas que tomou de acordo com seu entendimento das necessidades políticas e sanitárias locais.

O coronavírus está se lixando para o Bolsonaro. Ele se aproveita do Bolsonaro. Está se lixando para mim e para todo mundo. Ele tem a sua estratégia de sobrevivência. A cada passo que a gente dá, ele procura outro para sobreviver. Venho fazendo essa reflexão e acho importante dizer o seguinte: nós estamos numa posição arrogante enquanto humanidade, eu diria, nesta pandemia. Como se fosse o nosso direito de sobreviver e que não importasse o resto. Arrogante acharmos que podemos fazer isso, quando, na verdade, estamos sendo derrotados por uma estrutura biológica mais simples do que a nossa e, por isso mesmo, mais plástica. Ela consegue se flexibilizar e encontrar respostas. Esse bichinho é muito malandro. Está nos dando um banho.

É verdade que Bolsonaro atrapalha, mas também não podemos ser cegos. Na maioria dos países, com outros líderes, alguns deles muito mais positivos do que aqui, também as coisas estavam acontecendo mal. Isso é uma coisa que não dá para esconder. Nós tínhamos o problema do nosso enfrentamento, mas outros países que não tinham os mesmos problemas também sofreram bastante. Então, nós tínhamos que ver que não adiantava só focar na questão da gestão Bolsonaro. Tínhamos que mobilizar o maior número de secretarias e de pessoas para o combate. Porque, quando a gente acha que só a gente por direito vai sobreviver e outras não, eu chamei de arrogância, mas é também uma negação da realidade. O cara pensa: sou muito poderoso! E nega a realidade.

Olha o banho que ele (o coronavírus) está dando agora, por exemplo, naquela “super” vacina da Pfizer. Vemos os EUA bombando com a doença. Israel, que foi o campo de prova da Pfizer, fez tudo direitinho, tem todos os recursos, sem nada que atrapalhe, está lá às voltas com o vírus. As vitórias são fugazes, aí começa-se a achar que as vacinas dão uma imunidade de curta duração, etc. Então, você vê que os problemas estão em todos os cantos e temos que aprender com eles. Agora, claro que é um contra bônus extra ter um Bolsonaro na presidência.

AHT: Você tem muita experiência com vacinas. Como tem visto o tratamento dado às diferentes vacinas? Pode-se dizer que alguma é melhor ou pior do que a outra?

Eduardo Azeredo Costa: A questão é a seguinte: nós temos uma máquina de propaganda da indústria farmacêutica que detém a propriedade da Pfizer, que desenvolveu o produto (vacina) e trabalhou para vende-lo. A vacina da Pfizer é uma vacina que todos tinham que ter muita precaução por usar uma tecnologia muito nova, sobre a qual não se tinha muita segurança. Eu sou uma pessoa de mais precaução quando se trata de uso em larga escala na população. Mas ela passou (nos testes).

E temos agora uma discussão, talvez de pouca relevância, que mostra os interesses do Bolsonaro contra a  CoronaVac. Por quê? Porque o governo comprou 200 milhões de doses da Pfizer e não têm como em dizer que isso é não bom. Ótimo para a Pfizer que tem muito poder, vive munindo os jornais e toda a imprensa para dar boas notícias. Já a CoronaVac só tem o poder do estado de São Paulo, porque os chineses não têm possibilidades de defendê-la aqui. Mas é uma vacina boa, com uma estrutura antiga de produzir vacinas, muito mais segura. É uma vacina que pode ser aplicada em crianças, claramente, pelos estudos que já estão feitos.

Então, sou uma pessoa que, do ponto de vista técnico, diria que a CoronaVac responde mais às necessidades do Brasil do que a Pfizer. Mas a vacina da CoronaVac dá tão pouca reação que há quem a tenha apelidado de água benta. Talvez com água benta Deus ajude mais, não sei.

AHT: A OMS fez duras críticas ao uso de uma terceira dose ou dose de reforço, levantando questões éticas. Como você vê isso do ponto de vista ético e científico?

Eduardo Azeredo Costa: Nós temos dois problemas diferentes. Do ponto de vista mundial, é verdade que muita gente não tomou dose nenhuma. E usar uma terceira dose consome, porque a produção, embora já seja muito grande, ainda não dá para todo mundo. Então, do ponto de vista da equidade é uma injustiça que se esteja aumentando mais a proteção de quem já tomou duas doses. Estes estão sendo protegidos, mas não está protegendo todo mundo. Seria um problema ético nesse sentido. Agora, do ponto de vista científico, é interessante citar que essa decisão começou em Israel porque começaram a observar que, possivelmente, a imunidade estava caindo com o tempo.

E, num país de população grande (como no Brasil), mesmo uma vacina que tenha 99% de eficácia não vai proteger uma parcela grande da população. 1% de 200 milhões é 2 milhões. Então, é muita gente adoecendo e, como há evidências de que vai caindo a imunidade, a dose de reforço é importante para manter. É importante até para o mundo inteiro para não haver mais gente transmitindo. Aqui, há um fenômeno meio surpreendente. O Rio de Janeiro foi onde teve essa invasão e disseminação da (variante) Delta. Nós estamos acompanhando um pouco isso aqui e talvez possa lembrar um pouco o começo da pandemia, que no começa (a doença) pega nas classes médias, porque são os que viajam para o exterior. Mas nos outros estados não está acontecendo assim.

AHT: O que você acha da recomendação de misturar vacinas na terceira dose? Há quem diga que a CoronaVac não poderia ser usada nesse reforço. É verdade?

Eduardo Azeredo Costa: Essa história de que a Coronavac não pode ser usada como dose de reforço é bobagem. A Coronavac é muito boa para reforço. Achei muito boa a decisão de São Paulo de usar, especialmente nos mais velhos. Primeiro porque eles não costumam ter muitas reações adversas, mas as poucas que têm costumam ser mais graves neles. A maioria da população brasileira mais velha tomou CoronaVac, porque no começo só tinha CoronaVac. Então, tomar ela como reforço, já tendo funcionado, é bom porque dá segurança.

Misturar não é tão grave numa situação em que não haja outra opção, ou que uma reação adversa anterior acautele justificando o uso de uma diferente, mas não é uma boa prática de saúde pública. Essa coisa da “misturança” é o seguinte: importaram 200 milhões de doses da Pfizer e querem de todo jeito fazer alguma coisa para usar a Pfizer. É uma má prática, porque é fazer algo com um risco invisível sem necessidade. Pode até ser que não exista o risco, mas se há chance de existir, para que fazer? Quem já passou pela experiência com uma vacina deveria voltar a tomá-la.  Eu tenderia a manter a mesma vacina tomada em todos os grupos de idade. Isso depende da disponibilidade. Mas essa é uma boa prática de saúde pública. Misturar vacinas é uma má prática de saúde pública e digo isso com uma segurança absoluta, porque dilui responsabilidades dos produtores, aliás o que a big pharma quis desde o início da pandemia e está impondo.

Agora, há um grupo que a gente tem que olhar. São as crianças. Essa Delta tem uma particularidade, não de tornar-se grave nas crianças, mas fazer-se mais aberta e transmissível nessa faixa etária. Todos os estudos estão mostrando isso: as crianças têm um papel na transmissão (da Delta) que era praticamente nulo antes (nas outras variantes). Ou seja, nós temos que vacinar as crianças. E a única vacina que dá para vacinar crianças é a CoronaVac. Outras vacinas provocariam muitas reações em crianças, com baixíssimo risco de adoecer gravemente individual. Não é legal.

AHT: Pensando num cenário futuro de pós-pandemia, quais seriam as medidas necessárias de serem mantidas?

Eduardo Azeredo Costa: A última coisa é o lockdown. Eu nem sei direito o que nós chamamos no Brasil de lockdown. Chega a ser engraçado isso. Decretam o lockdown para tudo e todos. Para tudo. Fecha as portas, todo mundo se tranca em casa, coisas desse tipo. Eu sempre digo que se não houvesse gente que nunca parou, como quem produz comida, nós estávamos todos mortos de fome a essa altura. Então, não pode ser algo indiscriminado, mas seletivo segundo os riscos e de acordo com os serviços que cada um presta. Profissionais de saúde, por exemplo, nunca puderam parar, mas continuaram tendo riscos. Não pode ser uma coisa assim: chega o lockdown, todo mundo para e cada estado e município interpreta de um jeito. Isso não tem o mínimo de racionalidade. Em vez de um isolamento geral, tem que focar no local onde a situação está ocorrendo.

Agora, as outras coisas a gente sabe como é, porque temos essa experiência. Quase todas as doenças pandêmicas ficam circulando em baixos níveis. É difícil o desaparecimento total. Mesmo no caso da varíola, foi preciso ficar alguns anos vacinando, depois parou. No caso do coronavírus, que em pouco tempo pegou tanta gente, é preciso manter a vigilância epidemiológica e a informação para ação imediata. Não é como o Ibrahim Sued dizia: ‘agora que vocês estão bem informadinhas, a demain’. Não, é uma informação para a ação. Não é só comunicar. É comunicar para poder implementar medidas. As duas pernas têm que andar juntas. Uma equipe preparada para agir assim que haja a informação de um caso suspeito.  E vai lá, vacina todos ao redor, faz testagem e tal. Porque, o que vai acontecer? Daqui a dois ou três anos vamos estar com a população adulta vacinada e vão nascer crianças que não estão vacinadas. Nós vamos ter que manter uma vacinação infantil o quanto antes. Para adultos, tem certas doenças, como a da gripe, que necessitam de uma vacinação anual. Pode ser que a Covid também. Precisa mais tempo para analisar isso.

AHT: A pandemia envolve também questões psicológicas graves. Como sanitarista, qual sua avaliação disso?

Eduardo Azeredo Costa: Acho que tem gente que exagera e é ruim para a cabeça. As pessoas não estão bem por diversas razões, inclusive pela questão econômica, mas também porque estão com pouca conexão umas com as outras. Isso é fundamental para a humanidade. A gente não se dá bem sozinho, em qualquer coisa.

Infelizmente, o Brasil não trabalhou com vigilância epidemiológica, não trabalhou com inteligência e faz esses lockdown indiscriminados. Aí fica todo mundo apavorado sem saber o que fazer. Não saiam de casa! Não saiam de casa! Um absurdo. Uma caminhada num ambiente aberto, como a Lagoa aqui no Rio, só faz bem. O sol ajuda muito.

Os ambientes confinados é que são perigosos. Todo mundo juntinho à noite numa boate é problema. Igrejas, que são ambientes fechados, também. Ou ficar muito perto de pessoas que você não conhece. O que é preciso é que as informações sejam mais dirigidas (localizadas) e não ficar assustando todo mundo, como se ninguém pudesse relaxar nunca. Não dá. Vamos, pelo menos, relaxar por partes.

Eu acho que lidamos muito mal com tudo isso. Porque parte da mídia, que depende de propaganda e do poder econômico, para chamar atenção, precisa criar o pavor. Isso é exagero e o pior é que não é eficiente.

AHT/EAC

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