Pássaro de Marfim

– Para o povo maravilhoso que faz dessa cidade verdadeiramente maravilhosa.

Absoluto sobre a Guanabara, paira um pássaro de marfim. Uma majestosa imagem de feições e nome santos – nosso Cristo Redentor.

O extremo privilégio de sua localização brinda quem o visita com a vista de todas as demais maravilhas do Rio. Do alto do Corcovado, vê-se a exuberância do Pão de Açúcar, a imponência do Maracanã, os belos contornos da Praia de Ipanema, a elegância da Lagoa e a imensidão das águas da Guanabara. Brilho aos olhos, sorriso aos lábios – esses são os presentes do Cristo a quem dele observa o esplendor da cidade postada aos seus pés.

Assim como dele ver a cidade é um encanto, de vários pontos do Rio é fácil vê-lo e se encantar. Braços abertos como asas, ele parece voar por cada canto de sua maravilhosa cidade. Andando pelas ruas do Rio, se olharmos com carinho para o céu, algo surgirá no horizonte… talvez um pássaro de marfim, que nos acompanha e nos protege, voando sem sair do lugar para que por ele nos sintamos abraçados.

Entre todos os que no Rio vivem, todos que por ele passam, cariocas de nascimento ou de coração, não há quem consiga ser indiferente à magnitude de sua beleza. Quem nunca o viu de perto sonha com isso, quem já viu não esquece a indescritível sensação de liberdade.

Alma dessa terra, imaginá-la sem o Cristo seria tirar-lhe a identidade. Pensar em Rio de Janeiro é pensar em Cristo Redentor. Chegar ao Rio é querer avistá-lo para, aí sim, saber-se nos braços da cidade.

Ana Helena Ribeiro Tavares,
07 de Novembro de 2002

Considerações sobre a questão da verdade

– Para Vera Vidal, minha filósofa amiga, minha amiga filósofa, que nunca deixou de acreditar nessa sua avoada orientanda, nunca deixou de acreditar no seu “prodígio da síntese”…

Verdade… Eis aí um conceito dos mais polêmicos. Palavra de estranha magia, que vem estimulando a imaginação do ser humano desde os primórdios da humanidade.

Será possível encontrar verdades inquestionáveis? Ou, ao menos, escolher entre as possíveis verdades, aquela que nos for mais cômoda, por parecer-nos mais adequada? Será??? Certamente, a grande maioria das pessoas, não saberia como responder a essas perguntas. Essa questão que à primeira vista pode até parecer banal, é tão ou ainda mais relativa do que a relação tempo/espaço, consagrada pela famosa “teoria da relatividade” de Einstein… Teoria que bem poderia ser aplicada ao conceito de verdade…

Foi justamente por não conseguir conviver com essa dúvida, que René Descartes dedicou-se, entre outras atividades, a pesquisar, incansavelmente, esse conceito. E para ele a única verdade que não poderia ser posta à prova é o fato de pensarmos, pois para ele só existimos porque pensamos, é o “Penso, logo existo”, ou seja, existo enquanto ser pensante. Ele acreditava, também, que dentre as supostas verdades que nos são apresentadas devemos, sempre, escolher a mais simples. Isso lhe parecia mais lógico…

Baseada nessas convicções cartesianas, arrisco-me a fazer um paralelo com o conceito de loucura… Como destinguir se uma pessoa está mesmo louca ou se apenas foge às verdades preestabelecidas e aceitas pela maioria, no que se pode chamar de “acordo involuntário”? Penso que não conseguir mesmo controlar o que se diz e não ter plena consciência do que se pensa, é que realmente pode-se chamar de loucura, pois quando a pessoa se acha meio louca, muitas vezes, por se achar diferente da maioria , isso não deve ser considerado loucura… Apenas, essa pessoa segue uma linha de pensamento que nos parece estranha, justamente pelo fato de o seu conceito de verdade fugir ao senso comum. O próprio Descartes deve ter sofrido esse tipo de preconceito que, aliás, deve ser a sina de todo o grande gênio. Digo isso, porque o processo de formação de opinião sobre qualquer assunto, traz muitas dúvidas, podendo levar a caminhos estranhos, quase sempre, incompreendidos pela maioria. E talvez seja esse o preço da “escala do conhecimento”, um dos principais métodos de Descartes.

Não tenho a pretensão, portanto, de ter certeza de nenhuma verdade, mesmo porque não acredito em verdades absolutas! Entretanto, concordo com Descartes quando ele diz que devemos escolher as verdades que nos pareçam mais simples. Afinal, se já é instintivo tentarmos definir as melhores verdades para nós, por que desafiar nossa própria natureza?

Ana Helena Ribeiro Tavares
15/07/02

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