Alberto Dines

“Você hoje não forma jornalistas, com raras exceções, você está formando acadêmicos, teóricos, assessores de imprensa”.

Entrevista exclusiva com o jornalista Alberto Dines (Novembro de 2008, saguão da TV Brasil)

Por Ana Helena Tavares, para o Jornal Laboratório Facha

AH: No geral, como você diria que anda o ensino de jornalismo?

Dines: De duas décadas para cá, muita coisa mudou. Uma das coisas que mudou – para pior – foi o ensino de jornalismo. Está cada vez mais massificado, cada vez menos profissional, cada vez mais acadêmico. Então, você hoje não forma jornalistas, com raras exceções, você está formando acadêmicos, teóricos, assessores de imprensa, mas jornalistas mesmo hoje já não se forma. A não ser aqueles que, depois de formados, conseguem ir trabalhar nesses cursos de trainee de grandes empresas, que aí eles pegam algum verniz profissional. Mas, no geral, a base que eu tenho encontrado é lamentável. 


As pessoas não sabem o que estão falando, têm uma noção muito vaga. E, sobretudo, têm preconceitos. Recebem dos professores caixotes de preconceitos e repetem por aí afora.

AH: Certa vez, você declarou: “minha formação é até o científico e não o completei porque me envolvi com um movimento socialista judeu e antiburguês, e o primeiro traço da burguesia era o diploma”. Hoje em dia, qual sua posição a respeito da obrigatoriedade do diploma para os jornalistas?

Dines: Naquela época eu nem sequer pensava em ser jornalista. Foi uma coisa existencial, ainda ligada ao fim da guerra. Isso foi em 1947 e a guerra acabou em 45. Então, era um contexto completamente diferente. Hoje em dia, minha posição quanto ao diploma é inequívoca. A partir de uma das edições do meu livro “O papel do jornal”, publicada em 1987, eu coloquei um adendo defendendo enfaticamente o diploma e dando ainda sugestões de como isso poderia ser aperfeiçoado. Uma delas seria fazer diploma de mestrado profissionalizante, o que formaria jornalistas um pouco mais velhos e já num outro nível. Agora, o quadro neste momento é tão ruim que uma revista como a “The Economist”, que não tem nada a ver com o Brasil, deu recentemente bastante destaque para aqueles que considera os dois defeitos da imprensa brasileira: um é a exigência do diploma e, na outra ponta, o outro, que eu considero até mais grave, que é a concessão de canais de rádio e TV para parlamentares. Eles consideram esses os grandes males. Mas é claro que não se pode simplesmente acabar com o que já existe. É preciso levar em consideração que temos aí mais de 350 escolas de jornalismo no país e isso não pode ser desfeito da noite pro dia, tem que se encontrar uma solução.


AH: O que acha da recente proposta do ministro da educação de que pessoas já formadas em outras áreas possam fazer o curso de jornalismo em dois anos?

Dines: Bem, o que o ministro da educação, Haddad, que é uma boa pessoa, está propondo é que a obrigatoriedade esteja num curso de pós. Quer dizer, justamente o mestrado profissionalizante. Ou seja, se você já se formou em jornalismo faz esses semestres complementares, se já se formou em direito ou medicina, etc., e quer ser um divulgador da sua área, faz também esses semestres complementares. Eu acho que isso faz mais sentido, porque permite que o profissional de jornalismo venha com uma base maior e obrigaria as escolas a contratar professores de mais nível, com mais experiência profissional ou com alguma, pelo menos. Acho que é muito interessante e que valeria à pena.

AH: Você citou a revista “The Economist”. O que o faz acreditar na viabilidade dessa proposta do ministro é sua experiência com esse padrão de diploma nos EUA?

Dines: Sim, eu passei um ano na Columbia e lá é assim. Você vem de qualquer graduação, qualquer: artes, ciências, etc. Chega lá, você passa dois semestres intensivíssimos, full-time, e sai um jornalista profissional com nível de MBA. Sai com um nível um pouquinho maior e claro que isso traz para as redações gente um pouco mais qualificada.

AH: Você costuma dizer que “o jornalista tem que ter a formação de um historiador”. Como essa visão influenciou na sua vida profissional?

Dines: Isso se refere à curiosidade intelectual. Eu sou um curioso. Justamente porque a minha formação acadêmica é precária eu sempre li muito, sempre procurei entender tudo. E isso ligado a outras atitudes minhas me fez uma pessoa interessada no processo histórico. E acho que o jornalista é, sim, um historiador. Ele faz a história instantânea e se ele não tiver essa visão ele será um mau jornalista. Ele tem que saber que está fazendo uma matéria que vai ser impressa e que daqui a dez, vinte anos vai ser compulsada por um historiador para formar um contexto histórico maior. Então, é uma coisa que não se pode perder de vista. Isso tem sido fundamental para mim, porque toda vez que eu quero entender algum fenômeno o que eu faço? Eu vou buscar a origem dele.

AH: Há algum fenômeno recente que nos poderia dar como exemplo?

Dines: Saíram há pouco tempo várias notícias sobre o fim do Christian Science Monitor, um jornal americano de altíssima qualidade, que vai fechar as portas. Ele vai completar cem anos agora e vai acabar. Aí todo mundo escreveu ligando isso à crise do capitalismo e não sei mais o que, vi um monte de artigos, mas não vi ninguém se dar ao trabalho de procurar a origem deste jornal: como ele foi fundado e por que tem certas características. E, assim, eu levei duas, três horas, e fiz um textinho lá pro Observatório da Imprensa em que entendi a trajetória deste jornal. Acho que é isso que o jornalista tem que fazer. Não adianta ele só cobrir um desastre – cobriu. Agora, que ponha isso num contexto maior senão vai ser apenas um noticiarista. E o jornalista é mais que um noticiarista.

AH: Vamos falar um pouco da estrutura dos meios de comunicação no Brasil. Creio que nós temos um setor extremamente concentrado e queria que você nos fizesse uma breve análise de como acredita que isso se reflete no meio sociocultural do país.

Dines: O problema é o seguinte: a primeira distorção gerada pela questão das concessões de canais de rádio e TV a parlamentares é que elas influem localmente, ou seja, dentro da política local. Você tem aí o Brasil inteiro na mão de um grupo de coronéis políticos, que antes tinham os currais, e agora têm os currais e os meios de comunicação locais. Isso provoca distorções políticas muito graves e impede a desconcentração na mídia regional, porque se o povo se cala, há uma concessão para determinado político e ele consegue que a sua emissora seja afiliada da Rede Globo, ele fica com um poder extraordinário. Ele passa a ser o “dono local”. Então, são distorções terríveis e ninguém quer meter a mão nisso. Dos jornais, o único que se mexe é a Folha, que tem feito periodicamente reportagens denunciando, mas os outros não se metem. O Globo não vai se meter porque tem interesses na televisão e cada grande jornal local tem interesses na mídia eletrônica. Então, ninguém quer mexer nisso e isso é terrível para a democracia e, claro, para a mídia. Você não tem hoje uma mídia regional desenvolvida, exatamente porque ela está toda concentrada.

AH: Você poderia citar um caso de alguma cidade em que essa concentração é flagrante?

Dines: Uma cidade como Santos, por exemplo, que é um porto importantíssimo, o maior porto da costa leste da América do Sul, tem um único jornal. Tem um jornal centenário, que é “A Tribuna”, um bom jornal, mas nunca mais vai ter outro, não vai ter concorrente. Porque essa empresa que detém a concessão do jornal detém também a exclusividade da representação da Globo. Quem é que vai entrar em Santos sabendo que o concorrente é afiliado da Globo? Então, no Brasil você tem um jornalismo interiorano, regional, muito desequilibrado, muito precário. E você veja que a força do jornalismo americano vem precisamente do interior. Isso é histórico, há mais de cem anos. Aqui no Brasil você não tem isso, é tudo fechado. Pega o interior de São Paulo, um interior riquíssimo, tem jornais, mas é um jornal em cada cidade e só, não tem competição.

AH: Há alternativa para a imprensa brasileira alcançar um maior pluralismo?

Dines: Partindo do princípio que esse pluralismo está prejudicado por esse sistema de concessões, é complicado, porque, como eu disse, é um problema sério que ninguém tem coragem de tocar. Nem os sindicatos. Há um certo acordo aí. Os sindicatos também não querem mexer com isso porque eles sabem que mal ou bem eles vão conseguir enfiar alguns jornalistas profissionais lá no jornal do coronel tal. Quem tem levantado alguma campanha contra essas concessões somos nós no Observatório e alguns profissionais avulsos, sobretudo a Elvira Lobato, que tem feito grandes reportagens. O resto fica quieto porque acaba interessando. Não adianta dizer que a culpa é só de um lado, a culpa é de todos, porque acaba sendo feito um acordo para cada um tirar uma casquinha. Esse é o problema do Brasil. Ninguém tem a audácia de dizer: vamos mudar para cortar. E aí os sindicatos, os coronéis, todos eles estão mais ou menos na mesma jogada.

AH: Falando um pouco do Observatório da Imprensa, o que diria da aceitação da sociedade com relação a esse tipo de programa, que discute a imprensa?

Dines: A reação da sociedade é ótima, senão a gente não estaria há doze anos na Internet, há dez na televisão e há quase quatro no rádio. É sinal de que tem algum tipo de resposta. E não apenas isso, mas nós temos muita gente fazendo parecido, o que é ótimo. O próprio conceito de observação que nós introduzimos não é uma mera palavra, é um conceito que envolve toda uma atitude filosófica. Você observa e você interfere, mas não fisicamente, você interfere através da observação. Isso hoje está recorrente, está sendo aceito. Eu acho que se acrescentou muita coisa. Agora, é claro que poderiam ter acontecido mais coisas. Aí você tem a má-vontade, você tem as corporações, você tem os sindicatos, repito. Os sindicatos não gostam de ver os jornalistas independentes criticando o sindicato e criticando o patronato, mas são os independentes que fazem as coisas se movimentar. Ou seja, está tudo no Brasil meio divididinho.     

———- // ———– (fim da entrevista) ———– // —————-

AH: Abaixo, assista a um vídeo também gravado por mim, não no dia da entrevista, mas cerca de um mês antes, durante uma palestra na Casa de Ruy Barbosa. É quase um resumo biográfico de Alberto Dines e, o que é melhor, narrado pelo próprio com extremo bom humor. Por tabela, ele ainda detalha como nasceu a idéia que levou à criação do Observatório da Imprensa.  Tudo isso num vídeo de cerca de 6 minutos. Vale a pena conferir. 

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