Affonso Romano de Sant’Anna

“O poeta é um jornalista da alma humana”

Por Ana Helena Ribeiro Tavares em 10/3/2009

(publicado pelo “Observatório da Imprensa“)

Uma entrevista exclusiva com Affonso Romano de Sant´Anna, realizada em 30 de janeiro de 2009, na Livraria da Travessa, Leblon, Rio de Janeiro.

***

AH – “O que não escrevi, calou-me. O que não fiz, partiu-me.” Pensando em suas próprias palavras, há algo que mais o partiu por não ter sido?

Affonso Romano de Sant´Anna – Já se disse que arte é a presentificação da ausência, uma espécie de retorno do reprimido. Arte é um exercício de preenchimento da falta, do vazio, que são coisas inapelavelmente humanas.

AH – Em algum momento você pensou em ter uma única profissão?

A.R.S. – Ah, pensei! Na verdade, eu pensava em ser jornalista! Comecei em jornal muito cedo, com 16 anos, em Juiz de Fora, e quando eu fui para Belo Horizonte com meus 19, 20 anos, eu fui pensando em fazer jornal. E tentei, comecei a trabalhar em jornal, mas aí aconteceu a Faculdade de Letras porque também não tinha Faculdade de Jornalismo no Brasil, naquela época. Depois, vim a ser professor dos primeiros cursos de Jornalismo na UFMG, mas aí já era professor de Letras… E me lembro que na PUC os professores do curso Jornalismo eram todos jornalistas, do JB, sobretudo, que não tinham feito curso de Jornalismo. Então, fui fazer Letras e aí a minha carreira se endereçou porque no último ano, antes de eu terminar o curso, surgiu uma oportunidade para eu lecionar nos EUA e acabei indo. Mas teve um momento, em BH, quando além de dar aula num colégio estadual, além de dar aula na Faculdade de Filosofia, eu fazia o segundo caderno de um jornal chamado O Diário de Minas, que já não existe mais. Foi um jornal muito curioso porque o Gabeira chegou a ser editor-chefe desse jornal com 21 anos. E, quando eu era editor desse segundo caderno, resolveram criar em São Paulo a Veja e o Jornal da Tarde.

O corpo do jornal e o corpo do país

E, na verdade, a equipe quase toda desse suplemento do Diário de Minas, chamado DM2, foi trabalhar na Veja e no Jornal da Tarde. O Fernando Mitre, que dirige hoje a Bandeirantes, trabalhava comigo no Diário de Minas. O Ivan Ângelo, que foi fundar o Jornal da Tarde, também trabalhava comigo lá. E assim por diante, dezenas de pessoas. Então, a minha geração se dividiu em três coisas: uma parte foi para a Veja – fazer a Veja. Fui convidado para trabalhar na Veja, mas fui para os EUA porque já tinha convite para dar aula na Universidade da Califórnia; outra parte da geração foi para o Jornal da Tarde; e outra parte foi para as universidades. Minas era um celeiro de jornalistas naquele tempo, tinha talentos que se tornaram talentos nacionais. E, antes da criação da revista e do jornal paulista, alguns tinham vindo para o JB. O próprio Gabeira, com quem eu trabalhei na parte de pesquisa no JB. O Adauto Novaes, que hoje dá cursos de cultura geral, trabalhava na pesquisa também. O Roberto Drummond, que é romancista, trabalhava no copydesk do JB. Então, era uma geração que estava dividida entre jornalismo, literatura e faculdade.

AH – O que você via no JB dos anos 50 a 80 que falta à grande imprensa de hoje?

A.R.S. – Esse é um ponto traumático. O JB daquele tempo, mais especificamente dos anos 50 e 60, era principalmente um jornal criativo. Textos de notícias feitos por copydesks que eram pessoas que pertenciam à literatura brasileira. Pessoas que viriam a dar uma contribuição muito grande para a cultura brasileira. O Nelson Pereira dos Santos (cineasta) foi copydesk do JB naquela época. O Hélio Póvoa, que é romancista e crítico literário, também foi. O Cláudio Mello e Souza, que depois foi para a Globo, também foi copydesk do JB na década de 60. E assim por diante… Então, havia um cuidado com o texto muito grande. Era um cuidado que também existia na revista Senhor, com a qual eu colaborei ainda estudante, em 1962, 63. Um cuidado que havia também no Diário Carioca, um jornal que era também revolucionário. E havia uma idéia do jornal como lugar de discussão, lugar de aprendizado. Havia uma euforia, uma alegria no estar fazendo jornal que era uma coisa apaixonante. Eu diria que era toda uma geração que tinha também uma visão de Brasil um pouco diferente… Nós vínhamos de um Brasil construído por Juscelino Kubitschek, então era uma geração que tinha uma visão utópica do Brasil. O Brasil tinha que dar certo! O Brasil ia ser um grande país… Então, o jornal participava disso. O próprio Amilcar de Castro, que foi um dos grandes paginadores do JB, quando paginava o jornal, pensava em Brasília. Quer dizer, pensava na paginação de Brasília, na paginação do espaço brasileiro. Fazia uma teorização entre o corpo do jornal e o corpo do país, pensando no país visualmente. E era isso. Era um jornal de surpresa. Todo o dia você acordava e tinha sempre seções muito interessantes. Isso sem falar que foi lá que eu conheci minha mulher… Então, você está vendo que jornalismo serve para várias coisas…

Contemporâneos não percebiam os sábios

AH – Em que fases você trabalhou no JB e como foi sua experiência com Drummond no jornal?

A.R.S. – Bem, trabalhei no JB em fases distintas. No ano de 68, com o Gabeira no Departamento de Pesquisa. Nos anos 70, como copydesk da cabeça, depois como colaborador e, finalmente, como cronista substituindo Drummond. Com ele sempre tive uma boa relação desde os 17 anos quando trocamos algumas cartas e depois fiz tese sobre ele.

AH – Além de vocês terem trocado correspondências, de você ter escrito tese sobre ele e tê-lo substituído como cronista no JB, você é ainda considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Drummond. Conte um pouco sobre a influência do pensamento de Drummond no seu modo de ver o mundo.

A.R.S. – Olha, eu entrei em contato com a obra do Drummond ainda na adolescência e ainda acho que ele é o maior poeta brasileiro do século 20. E um dos maiores da literatura. Ter estudado a poesia dele sistematicamente me foi muito importante porque me abriu não só o conhecimento da poesia dele especificamente, mas me fez estudar certos assuntos que me são caros. A questão do tempo, da morte, da fugacidade do amor, da responsabilidade do poeta diante da história. Ou seja, o meu encontro com a obra do Drummond foi um encontro de afinidades. Quer dizer, eu tenho uma série de preocupações que são semelhantes às preocupações dele. E se assim não fosse, eu não teria me aproximado da obra dele. Por outro lado, nós somos muito diferentes. Alguns críticos já fizeram essa sinalização. Ele nunca saiu do Brasil praticamente. Foi uma vez ou outra à Argentina visitar a filha, mas a Argentina é um “estado brasileiro”… E eu, como alguns críticos já apontaram, sou um sujeito cosmopolita. Basta abrir a minha poesia que você vai ver uma visita à Pérsia, à China, à Rússia, à Índia. Experiência de vida no sul da França, experiência de vida na Alemanha. Possivelmente, talvez seja o poeta brasileiro que mais tenha feito poemas sobre os EUA, por ter vivido lá. Então, tenho uma relação bastante diferente nesse sentido, apesar de muitas identidades. E essa proximidade com ele foi muito fecunda porque não é sempre que se pode conviver com pessoas de alto nível… Uma das reclamações que a gente costuma ter é se queixar dos contemporâneos. Como teria sido bom ser contemporâneo de Sófocles, de Shakespeare, de Cervantes… Porque às vezes algumas pessoas do passado são mais contemporâneas nossas do que algumas pessoas do presente. E, de uma maneira geral, os reais contemporâneos deles não percebiam aqueles sábios. Mas Drummond deu essa sorte. Ele foi muito festejado em vida. Acredito que até mais do que o Jorge Amado, que era muito criticado por várias razões.

Um Proust brasileiro

AH – Houve outras pessoas que também o influenciaram significativamente?

A.R.S. – Clarice Lispector é um monumento! Ela é uma autora internacional. Está entre os maiores autores do século 20, sem dúvida alguma. Eu a conheci ainda estudante lá em Minas, quando ela foi lá. Escrevi vários ensaios sobre ela. Tinha uma ótima relação com ela. Ela até dedicou um dos livros a uma das minhas filhas… Em várias crônicas, já narrei episódios até engraçados em relação à Clarice. Por exemplo, fui eu e a minha esposa Marina (Colasanti, escritora) que levamos a Clarice para conhecer uma cartomante no Méier. E essa cartomante acabou virando personagem do livro dela A hora da estrela. Sendo que depois a personagem foi representada pela Fernanda Montenegro no filme homônimo. Então, a Clarice era uma pessoa que eu admirava e curtia muito.

Outra figura que acho exponencial e um dos maiores é o Guimarães Rosa. Essa tríade, na verdade – Drummond, Clarice, Guimarães Rosa – é uma coisa de doido… Há um memorialista – agora não se fala muito nele, mas quando surgiu, lançado pelo Fernando Sabino, foi um sucesso – que tem que ser revisto. É o Pedro Nava. O Pedro Nava tem um conjunto de meia dúzia de livros de memória e lendo aquelas memórias dele, você tem lições de literatura, de cultura, de geografia, de medicina – ele era médico – de história do Brasil etc. Você tem ali um painel do Brasil exemplar. Ele é uma espécie de Proust brasileiro. É um clássico e, além do mais, é um estilista, tinha um estilo próprio de escrever. Então, a literatura brasileira tem vários dinossauros que são muito importantes e têm que ser lidos e relidos com atenção. Sem falar no Nelson Rodrigues, que é um monstro do teatro brasileiro.

Não se sabe o que é e o que não é crônica

AH – Como você definiria o processo de criação de uma crônica?

A.R.S. – O processo é muito variado e ao mesmo tempo é um só. Digo que é um só porque a crônica é um trabalho profissional. Você se senta e tem que produzir um texto dentro de um tempo determinado. Quando comecei a fazer as crônicas regularmente para o JB, eu tinha duas horas, durante uma terça-feira, para escrever aquela crônica. Então, é um problema que você tem que equacionar em duas horas. E esse tempo não é bom nem ruim. Ele é. Por exemplo, tenho quase dez livros de crônicas e estou pensando em publicar outro agora. Se não escrevesse crônicas, eu não saberia o que eu penso sobre uma série de coisas. A crônica obriga o cronista a raciocinar, a pensar e a formular seus sentimentos. E é interferir no cotidiano. Como eu faço uma crônica de interferência no cotidiano – até diria que essa crônica, comecei a fazer nos anos 80 – diferente da crônica que se fazia antes porque até então a crônica de Rubem Braga, de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e até do Drummond era uma crônica meio lírica, episódica, narrando pequenos incidentes do cotidiano, um pouco para divertir as pessoas e, sobretudo, atemporal. Então, comecei a fazer uma crônica de interferência na política. Tenho vários exemplos que se tornaram notórios. Teve uma crônica, por exemplo, que o Sarney leu no avião (na época em que era presidente da República) e tomou providências urgentes para mandar trazer lá do Espírito Santo o Augusto Ruschi, que era um ecologista que estava morrendo, e aí tem toda uma história sobre isso. Teve também uma crônica que o Figueiredo leu, ficou possesso e quase se demitiu da presidência da República.

Tem crônicas também de outro nível, não mais político, um nível emocional, e que também mobilizaram muitas pessoas. Como a crônica “A mulher madura”. Poucos anos atrás, recebi um e-mail de uma mulher perguntando se aquele e-mail era meu mesmo porque se fosse ela queria me contar que quando leu naquela crônica, que eu escrevi em 1985, que “a mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia”, ela tinha 19 anos e decolou… Ela queria ser madura de qualquer jeito! Quer dizer, você escreve uma crônica e a pessoa atravessa o oceano por causa disso. Temos aí a força mobilizadora do texto… Então, é um tipo de crônica diferente. Por outro lado, você tem um tempo determinado para produzir e você pode quebrar a cara também. Você pode fazer uma coisa que não resulte em nada. Esse é o desafio. Agora, hoje em dia eu diria que a crônica anda muito mal. Porque os jornais partiram para o “liberou geral”. Antigamente, você tinha meia dúzia de bons cronistas. A crônica era o lugar nobre do jornal e da revista. Como na revista Manchete, que tinha o Fernando Sabino, o Rubem Braga, o Paulo Mendes Campos, o Henrique Pongetti. Hoje, são mais de dez, vinte cronistas num jornal. Você poderia achar que isso é uma riqueza – e poderia ser uma riqueza – mas houve uma dispersão. Qualquer pessoa hoje pode virar cronista. Perdeu-se o encanto, perdeu-se a magia. Você já não sabe o que é e o que não é crônica. Houve uma confusão entre cronistas, colunistas, articulistas etc…

Publicações “nanicas”

AH – Você vê diferenças entre a motivação que o fez nascer como escritor e a que o fez nascer como jornalista?

A.R.S. – Ao contrário, vejo uma relação entre as duas atividades. Tenho dito em algumas ocasiões que o poeta é um jornalista da alma humana. Ele supera o cotidiano e fixa o essencial. Veja Dante e Shakespeare. De resto, muitos poemas meus surgiram em páginas de jornal, até em páginas de política.

AH – Dado o engajamento de muitos de seus poemas, além de eles já terem sido tantas vezes publicados pelas páginas de política dos mais diversos jornais, você também já os viu serem distribuídos em cartazes por todo o Brasil e veiculados em horário nobre em plena ditadura militar. Como você vê atualmente o papel da linguagem poética no texto e no discurso jornalístico?

A.R.S. – Nos tempos da ditadura houve, paradoxalmente, um espaço para a poesia se manifestar. A música popular foi um exemplo. E, no caso literário, ousei enfrentar o regime e levar alguns jornais a falarem através da poesia. Hoje, a poesia foi banida dos suplementos literários. Inexplicavelmente. Mesmo em termos de revistas literárias, o Brasil é muito pobre. Quando dirigi a Biblioteca Nacional, senti urgência de criar a (revista) Poesia Sempre, de caráter internacional.

AH – Em meio a passagens pelo JB, O Globo, Estadão e pelas revistas Manchete, Veja e IstoÉ, dos tantos outros jornais e revistas para os quais colaborou e ainda colabora, quais citaria?

A.R.S. – Já nem sei em quantas revistas colaborei. Ainda agora faço questão de colaborar com publicações chamadas “nanicas”, como a ótima revista Papangu, de Mossoró, e a Fala Brasil!, de Porto Alegre. Sem falar no Rascunho, que é um jornal literário de Curitiba, um suplemento para os jovens escritores.

Mais perigoso e mais fácil

AH – Você diria que consegue encontrar hoje nas bancas revistas que aliem tratamento estético e qualidade de texto?

A.R.S. – Houve um problema com as revistas em geral. Eu fui crítico da Veja nos anos 70. Durante dois anos, fiz crítica de literatura lá. E naquele tempo a revista tinha alguma coisa a ver com literatura. Os livros de literatura que estavam saindo eram resenhados. Hoje, o critério da Veja, da Época, da IstoÉ, dessas revistas, é abrir espaço para o best-seller. Os editores até já falaram isso: eles estão interessados no best-seller. Pode eventualmente surgir um livro de um escritor. Se você pegar a lista dos mais vendidos dos anos 60 e 70 e a lista dos mais vendidos hoje, você vai ver que naquela época tinha muito mais livro de autor de literatura do que hoje. Hoje tem autor de best-seller. Então, eu diria que as revistas se renderam de alguma maneira ao mercado.

E uma coisa sintomática disso você pode observar fazendo uma comparação. Você pega uma revista européia, como, por exemplo, a revista francesa L´Express, ou a italiana L´Espresso, ou ainda a Época, que existe na Alemanha com outro nome. Você encontra algo entre 40 e 50 páginas dedicadas à cultura. Você abre essas revistas aqui e, primeiro, a chamada literatura já não existe. Espetáculos… E está tudo misturado. Então, a literatura entra como um ingrediente ali meio solto, meio perdido. E isso tem tudo a ver, infelizmente, com a chamada sociedade do espetáculo. Tem tudo a ver com a malfadada pós-modernidade. E o que caracteriza a pós-modernidade? É a superficialidade, é a rapidez, é o recorte, é o fragmento. E com isso ninguém se aprofunda em nada.

AH – Tudo isso tem a ver com o fenômeno a que se deu o nome de globalização, que tem, claro, seus malefícios e benefícios. Dentre os malefícios, você teria como apontar aqueles que mais o preocupam como jornalista e escritor?

A.R.S. – É difícil pinçar assim uma coisa, porque isso é como cortisona. É uma arma de dois gumes. O que é bom e o que é mau depende de como você está utilizando. Porque, por exemplo, a quantidade de informação… Isso pode ser um desastre e pode ser um benefício. É um desastre na medida em que pulveriza tanto – há uma avalanche de informação de tal ordem que muita gente não sabe como selecionar e como organizar aquilo. É positivo, por outro lado, para quem tem um rumo, tem um norte, sabendo pelo menos o que não quer. Porque aí você tem uma margem de escolha muito grande. Então, tornou-se mais perigoso e mais fácil, por outro lado, viver hoje. Mais perigoso porque você se confunde com tudo. Mais fácil porque você vai encontrar também um norte quando você tem alguma coisa na cabeça.

Poeta tem que viajar e sofrer

AH – E, como resultado principalmente da internet, o jornalismo de hoje envolve muitas habilidades para o uso de mecanismos aos quais você não tinha acesso na época em que começou. Como você lida com tudo isso? E-mails, blogs, redes sociais etc.?

A.R.S. – Bem, eu costumo dizer que eu sou do tempo do papel carbono e do mimeógrafo a álcool, que o pessoal da sua geração nem sabe mais o que é… No entanto, sempre tive uma curiosidade normal. Quando fui trabalhar no jornal pela primeira vez, adolescente, muita gente ainda escrevia à mão, à tinta, com pena! Pena tinteiro. Depois é que veio a máquina de escrever. Depois veio a máquina elétrica. Depois veio o computador, vários tipos de computador. Hoje, a imprensa já percebeu que ou ela faz uma parceria com a internet ou ela morre. Tanto é que o jornal El País (da Espanha) já está programado para daqui a dez anos ser substituído totalmente pelo meio eletrônico. No Jornal Nacional, depois de cada notícia, fica o William Bonner remetendo a pessoa para a página da internet como que para treinar a pessoa a ver o jornal eletrônico. Resolvi criar um blog para mim – e esse blog vai virar um site em pouco tempo – por uma razão muito simples: se eu escrever um artigo no Estadão ou no JB esse artigo vai atingir às pessoas de São Paulo ou do Rio, e pronto. Eu fui a Belém do Pará outro dia a uma Feira do Livro e, de repente, apareceram uns alunos do Amapá, que moram em Macapá. Eram meus leitores e vieram com artigos de jornal que tinham recortado vinte anos atrás. Eles nem sabiam que eu já tinha publicado em outros jornais, outras revistas, que já tinha publicado certos livros. Aí isso me fez cair na real. Pensei: vou logo partir para o meu jornal, o blog é o meu jornal. Então, o estudante brasileiro em Nova Orleans ou o estudante brasileiro no Japão – tem gente estudando literatura brasileira no Japão – ou na China, assim como o estudante em São Carlos, em São Paulo, vai ao meu blog e tem tudo ali. E eu converso com ele o tempo todo. Então, é a literatura em tempo real porque não posso esperar que a livraria vá cumprir o seu papel. Você ainda tem edições de livros até hoje em que o normal é de 2.000, 3.000 exemplares, e a rede de livrarias não funciona como deveria funcionar. O livro é caro, você não pode estar comprando e a internet é de graça. Então, está havendo uma mudança e eu estou tentando acompanhar isso.

AH – Por que é importante ler e o que seria para você um bom leitor?

A.R.S. – Primeiro, todo mundo é leitor. Mesmo os que não sabem ler. Uma das coisas que Lévi-Strauss falou num ensaio é que é uma falácia a gente achar que os analfabetos não têm cultura. Eles têm cultura, têm um conhecimento, uma visão de mundo. O que acontece com a imprensa, com a palavra escrita, é que ela fixa o conhecimento, ela passa de maneira mais ágil e eficaz o conhecimento, a técnica, e faz a história andar com mais agilidade. Quanto ao bom leitor, ele não é aquele que lê só um gênero, mas é aquele que lê de tudo o tempo todo. Ele lê bula de remédio, lê jornal, lê anúncio no chão, publicidade… Porque o mundo inteiro é uma grande informação que está sendo repassada. Um romancista, por exemplo, para fazer sua obra tem que ter arregimentada uma quantidade de informação dispersa na memória do mundo incrível. O poeta a mesma coisa. Hölderlin, grande poeta de língua alemã, dizia que para elaborar uma metáfora, o poeta tem que viajar muito, tem que sofrer muito. Portanto, é uma questão de leitura e interpretação.

No vídeo abaixo, assista a Affonso Romano me respondendo à pergunta acima:

Ser escolhido ao invés de escolher

AH – Qual a função do jornalista na construção de bons leitores?

A.R.S. – Jornalista que não gosta de ler e de escrever está no lugar errado. E os melhores jornalistas são aqueles que têm um escritor vivo dentro deles. O jornal é a primeira leitura de muita gente, logo é um elemento de alfabetização num sentido amplo, forma de “ler o mundo”.

AH – Quais as principais lições que você traz da época em que foi presidente da Biblioteca Nacional?

A.R.S. – Ter conhecido o ventre da fera, o Brasil por dentro, as mazelas do poder. E, sobretudo, ter comprovado que quando você tem um projeto e está determinado a fazer, não há quem o impeça. Quando lá entrei, o descalabro era total. Quando saí, a imprensa apresentava a BN como a instituição federal que melhor funcionava no Rio.

AH – Depois de sua experiência na BN, que recado deixaria aos jovens que têm um projeto, sentem-se determinados a fazê-lo, mas desanimam com as pedras no meio do caminho?

A.R.S. – Esse é o ponto. Eu me lembro de um poema do Allen Ginsberg, que era um poeta beatnik americano, em que ele dizia: “Eu vi os melhores cérebros da minha geração se perderem etc…” Ou seja, não basta você ter talento. Para conseguir alguma coisa na vida, você tem que mobilizar uma série de outras coisas. Se tiver descontroles emocionais, psicológicos, você vai ter problemas maiores. Se for muito apressado, pode ter problemas também. Você tem que estar atento ao fato de que, seja no domínio das artes, da política, ou até dentro das grandes indústrias, em qualquer emprego, todos esses lugares são sinônimos de uma selva selvagem. O mundo das artes todo mundo pensa que é um lugar de pessoas líricas, bem-intencionadas… E é um pega pra capar o tempo todo! É uma ciumada, uma inveja, é um derrubar o outro… Porque isso é típico do ser humano: a competitividade, que você encontra entre os animais. Todo animal tem o seu predador. Na vida social, na vida amorosa, na vida artística, existem os predadores e você tem que se cuidar em relação a isso. Eu digo isso de um ponto de vista geral. Agora, de um ponto de vista mais específico, acho que seria bom que as pessoas tivessem um projeto de vida, uma certa direção. Não é que vão andar em linha reta, não, mas que saibam pelo menos o que não querem. Porque se você souber o que não quer, já eliminou 90% de desvio. E vai acabar que as coisas vão começar a andar e a se encaminhar para serem canalizadas.

AH – O que é trabalhar para você?

A.R.S. – Eu trabalho o tempo todo. Atualmente, por exemplo, estou tentando trabalhar fingindo que não estou fazendo nada. Estou na entressafra agora. Eu lancei o livro O enigma vazio e estou sofrendo de pós-parto. Você se armou, pariu uma coisa e dá um vazio de repente… Então, tenho cinco ou seis projetos de livros ao mesmo tempo para desencadear e estou fingindo que isso não é comigo. Não estou nem aí… Larari, larari… Vou assobiando e olhando para cima para deixar as coisas me chamarem. Tem um negócio meio intuitivo, não é, que é você ser escolhido ao invés de escolher. Aí você tem que ouvir o seu desejo. E isso envolve o difícil exercício para qualquer pessoa em qualquer profissão, mas, sobretudo, na área da arte, que é você ouvir o seu inconsciente.

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