O pastor da liberdade – Um cordel para D. Hélder

Dom Helder Câmara
O Pastor da Liberdade

Por Jetro Fagundes*

I

Amigo que da Brisa é a vida
vou te falar dum bispo sonhador
pessoa que é bastante conhecida
aqui e lá pros rumos do exterior

Menino das Fortalezas cearenses
foi um belíssimo bispo, pastor
amigo dos espetáculos circenses
era parceiro do povo sofredor

Homem das atividades proféticas
inspirou uma feminina Legião
de humildes operárias domésticas
lavadeiras, passadeiras do sertão

Pregava uma fé cristã comprometida
com os anseios da carente multidão
E defendia essa multidão excluída
na teoria, na prática e em sermão

Socialista puro, sem bravatas
com poucos recursos materiais
comprou terras na Zona da Mata
e as deu a trabalhadores rurais

Além dessa primeira experiência
de Reforma Agrária na santa paz
fundou o banco da Providência
e fez conjuntos habitacionais

Figura carismática, meiga linda
com uma voz de menino cativador
foi Arcebispo de Recife e Olinda
no início dum período de terror

Estabeleceu uma clara resistência
ao regime golpista ditatorial
por achar que toda conivência
não combina com missão pastoral

Por nunca agir com complacência
vai pra rádio, jornal, televisão
denunciar injustiças, violências
torturas, censuras e corrupção

Vento, tu sabe de quem eu falo?
Ah! menino que nunca é de se calar
falo de alguém que foi um calo
em vinte anos de ditadura militar

Lindo dom Helder Câmara sereno
amigo inesquecível das pastorais
apesar do porte franzino, pequeno
foi capaz de vencer os generais

Da sua arquidiocese, no nordeste
dom Helder em trabalho pastoral
denunciava o regime cafajeste
retrógrado, covarde, policial

Com perseverança e muito afinco
dom Helder nunca jamais compactuou
com a lei monstrenga do AI e cinco
que infinitas crueldades provocou

Porta voz de um Evangelho Vivo
homem que nunca foi de se tremer
era tachado de bispo subversivo
pelos generais, donos do poder

I I

Pastor do torturado, perseguido
soube honrar o dom sacerdotal
e foi em todo canto proibido
de falar em rádio, TV e jornal

Mas à medida em que era impedido
de usar a mídia para denunciar
se tornava bastante conhecido
na seio do movimento popular

Vento, sabes o que é coragem pura?
É você na candura sair, se arriscar
correr o mundo denunciando ditaduras
e não ter o menor medo de retornar

Homem da letra, intelectualidade
foi por defender direitos sociais
doutor Honoris Causa, personalidade
nas Universidades internacionais

Ele que nunca dobrou seus joelhos
às raposas anti-constitucionais
era chamado de o bispo vermelho
amigo da terra, justiça e da paz

Dom Helder pela firmeza, coragem
de um libertário sereno, angelical
foi alvo da xeretagem, espionagem
dos arapongas da segurança nacional

O tempo inteiro com a vida ameaçada
viu no auge do período da repressão
sua casa ser duas vezes metralhada
mas o Deus da Vida lhe dava proteção

Pouco mais de metro e meio de altura
na coragem de menino pastor de Deus
lembrava ao enfrentar a ditadura
David diante de Golias, o filisteu

Um dia recheado da graça, encanto
disse que na sua missão sacerdotal
o Pai, o Filho, o Espírito Santo
protegiam e os livravam de todo mal

Com arma mais simples que o estilingue
a CORAGEM de quem professa fé cristã
ganhou o prêmio Martin Luther King
um herói Batista da terra do Tio Sam

E quando a ditadura militar cretina
bate em retirada diante do povão
dom Helder aposenta a branca batina
avermelhada no cumprimento da missão

Vento, tu que amas as lindas Bases
das lendárias Comunidades Eclesiais
sei que te lembras de muitas frases
do teu profeta, apóstolo da paz

Dom Helder que detestava as trapaças
de quem vivia da tortura e do mentir
dizia que a graça de todas as graças
é caminhar certo sem nunca desistir

Amigo das comunidades guerrilheiras
também dizia na beleza do seu ser:
Feliz quem atravessa a vida inteira
tendo milhares de razões pra viver

I I I

Frases que o teu povo nunca esquece
pois são dum testemunho libertador:
“Se discordas de mim, tu me enriqueces
pois o perfume das almas é dom do amor”

Dizia que nos rostos dos necessitados
esmagados pelas dores e humilhações
via o próprio Cristo ressuscitado
acalentando, confortando corações

O seu falar firme, doce, compassado
nos lembrava um Ser humano divinal
aquEle que desde os tempos do passado
pelos pobres fez opção preferencial

Bispo da Liberdade, dos necessitados
menino de grande lampejos culturais
dos brasileiros foi o mais indicado
pra receber o Prêmio Nobel da Paz

Vento, lindo tradutor do esperanto
tantas coisas dom Helder escreveu
“Quando eu ajudo me chamam de santo
quando questiono dizem que sou ateu”

Quando esse profeta do irmão aflito
lá pros rumos do infinito partiu
foi consciente de ter feito bonito
na redemocratizada pátria, o Brasil

Inimigo dos privilégios, mordomias
viveu uma vida de humilde cristão
singelo, sem pompas, sem regalias
simplesmente com absoluta discrição

Partiu deixando enorme saudades
nos inúmeros recantos e arraiais
onde o Sol da Justiça, Liberdade
clareia sempre e cada vez mais

Homem que pela paz venceu a guerra
levou em torno do seu esquife, caixão
a bandeira dos companheiros Sem Terra
por ter defendido uma gente sem chão

E toda vez que se fala de Conferência
mesmo nos tempos conservadores atuais
lembramos o bispo que fez preferência
de lutar pela liberdade, nas pastorais

Quando a gente canta na comunidade
cantigas de Zé Vicente, companheirão
lembranças do Pastor da Liberdade
se achegam e nos enchem de emoção

Lembranças dum bispo que na rebeldia
da ira santa revelou-se um realizador
que transformava os sonhos, utopias
em ações de cidadania na base do amor

Coração carinhoso e alma destemida
imaginava uma sociedade sem exclusão
realizando o banquete da fé, da vida
com harmonia em constante celebração

Sobrevivente das dores, dos escombros
dizia, manifestando o dom do perdão
“Algo te pesa? Não o carregue no ombro
leva-a lá no íntimo do teu coração”

*Jetro Fagundes
Farinheiro Marajoara

Mantém o blog Ventos que sopram do Marajó

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