Vê bem, Maria!

Por José Ribamar Bessa Freire (*)

Aqui se cruzam: este é o rio Negro, aquele é o Solimões! Imagina, Maria, que suas águas se misturam, imagina que não existe – que nunca existiu – o espetáculo esplêndido e singular conhecido no mundo inteiro como “encontro das águas”, que nelas não vivem botos e peixes desovando, nidificando, saltitando. Faz de conta que as margens dos dois rios, dos igarapés e dos lagos da redondeza são carecas, estéreis, sem árvores, sem floresta, sem animais e plantas. Nenhum passarinho jamais ali cantou ou fez seu ninho.

Fecha os olhos, Maria, e continua calculando que sem vida aquática também não existe comunidade de pescadores. Supõe que na estação seca não aparecem lajes de arenito, belas e majestosas; que não se usa aquela área nem como balneário, nem para qualquer outro tipo de lazer. Esquece, Maria, que esse é um lugar de memória, com sítios arqueológicos nos lembrando a existência de antigas civilizações indígenas ou evocando saudades e recordações de poetas loucamente apaixonados, com a alma embriagada de lirismo.

Vê bem, Maria! Se nada disso existe, não há qualquer obstáculo que impeça a construção de um terminal portuário, tão necessário para a economia. Então, me ajuda, vamos erguê-lo ali, na margem esquerda, na entrada do Lago do Aleixo. Pronto. É isso o que os teus olhos abertos agora vêem: o Porto das Lajes. Construído sem agredir a natureza – consideremos assim, Maria – o porto é a porta por onde entram e saem mercadorias e insumos destinados ao comércio e à indústria. Ele gera empregos, faz a economia funcionar, presta serviço inestimável a Manaus – uma Liverpool caboca, sem caras sardentas e olhos azuis.
Mas – que pena, Maria! – a ausência do “encontro das águas” significa carência de poesia, porque nunca um poeta se inspirou numa empilhadeira para fazer sonetos à amada. Verso é que nem passarinho, não rima com doca, contêiner, guindaste, carga, correia, tubulação, armazém, atracação de navios e índice Bovespa, mas com árvore, planta, bicho, peixe, água, gente, vida. Temos um porto por onde as riquezas circulam, mas não temos a beleza da paisagem nem o encanto da poesia. Lamentavelmente, não se pode ter tudo. Entre o canto das aves e o pregão da Bolsa, tem escolha?
Criação da vida
Será que é mesmo preciso optar? Em verdade, em verdade te digo, Maria, se é assim, se no lugar do “encontro das águas” já existe um porto, vale a pena interferir e mudar essa paisagem degradada. Chamemos todos os arquitetos, urbanistas e paisagistas do mundo para que, juntos, concebam e desenhem um projeto similar em tudo e por tudo ao “encontro das águas” construído outrora pelo grande arquiteto do universo.
Convoquemos químicos, físicos, biólogos, ambientalistas, pajés, pais de santo e chefes de terreiro. Imploremos a eles a descoberta de uma fórmula mágica capaz de impedir a mistura daquela água “negra como tinta e que posta nas mãos é alva que faz gosto” com “aquela outra que parece amarelaça, mas que é também limpa”.
– Impossível! Milagres, só na bíblia, que dividiu o Mar Vermelho em duas muralhas! – gritam os incrédulos. Mas eis que o milagre acontece: as águas separadas mostram que cada rio permanece com sua cor, da mesma forma que cada coração tem um jeito de mostrar o seu amor. Esse fenômeno prodigioso acontece com os dois rios que já nasceram humanos “porque afinal são filhos de um abraço”.
Vê bem, Maria, como se separam duas águas que se querem reunir. Dentro delas colocamos o boto brincalhão, o peixe-boi, o pirarucu, o tambaqui e peixes de todas as famílias, com condições para que eles se reproduzam, enriquecendo a vida aquática e alimentando os ribeirinhos. Criamos um programa de água potável para a população de Manaus. No lugar do porto, plantamos milhares de árvores diversas ao longo das margens dos rios, lagos e igarapés. A floresta se povoa com todo tipo de animal, milhares de aves e recebe ainda as migratórias provenientes de outras regiões.
Aproveitamos que as águas do rio estão baixando para edificar as lajes rochosas, embelezando ainda mais a paisagem e criando um centro de lazer para pescadores, turistas, moradores da comunidade do Aleixo, para ti e para nossos filhos e netos, Maria.
Mapeamos e preservamos os sítios arqueológicos, arquivos e lugares de memória. Juntamos os cacos de cerâmica que testemunham como os povos que habitaram o Amazonas foram capazes de conviver em relativa harmonia com a floresta. Dessa forma, “reunimos as mágoas de um passado às venturas de um presente”.
Se não existisse o “encontro das águas”, Maria, e se fôssemos capazes de sonhá-lo, valeria a pena construí-lo, fazer qualquer sacrifício, investir milhões de reais, energia e trabalho para poder fruí-lo. A invasão da floresta naquele lugar até então estéril, criando condições de reprodução de vida terrestre e aquática, seria um gesto civilizatório.
E o porto, o que faríamos com ele? Desmontado peça por peça, seria transferido para outro espaço já degradado, bem distante, longe dali. É assim que se faz em terra de muro alto.
Muro baixo
A realidade, no entanto, Maria, é que o porto só existe no papel, mas o “encontro das águas” está lá, imponente, edificado pela mesma empreiteira responsável pelo Jardim do Éden, em licitação sem trapaça, num processo que se prolongou por todos os séculos e séculos, amém. Agora, uma horda de bárbaros quer destruir essa obra milenar, colocando em seu lugar um terminal portuário, que ameaça o patrimônio paisagístico, arqueológico, histórico e etnográfico, tombado recentemente como monumento natural. Te pergunto, Maria, será que vivemos numa terra de muro baixo?
Na terça-feira, 2 de agosto, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) concedeu licença de instalação do terminal portuário na altura do “encontro das águas”. O presidente do IPAAM, Antônio Ademir Stroski – guarda esse nome, Maria, que esse nome é ‘quente’ – se colocou de joelhos diante das empreiteiras, exaltando com blá-blá-blá os “benefícios logísticos” do porto e jurando que para diminuir o impacto ambiental a empresa se comprometeu atender as 22 condicionantes requisitadas pelo IPHAN – Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Conversa fiada, Maria! Para essa história, só existe uma condicionante: deixar em paz o encontro das águas e construir o porto em outra área. Por que tem que ser ali e logo ali, onde constitui uma ameaça real à floresta, ao rio, aos pescadores, à vida?
O mais estranho – segundo o próprio Ministério Público Federal – é a pressa, a celeridade das decisões. Dois dias depois, na quinta-feira, 4 de agosto, o juiz Dimis da Costa Braga – guarda esse outro nome, Maria, que ele também é ‘quente’ – anulou o tombamento do “Encontro das Águas”, que protegia o seu valor histórico, estético e paisagístico. Diante das duas decisões – do Executivo e do Judiciário – os empresários comemoram, exultantes, a licença para instalação do porto no Polo Industrial de Manaus (PIM).
Contra essa estupidez siderúrgica, o Movimento SOS Encontro das Águas está mobilizando a população para saber se efetivamente vivemos em terra de muro baixo. Na sexta-feira, dia 5, organizou manifestação frente ao prédio da Justiça Federal. Anunciaram que o poeta Thiago de Mello está se deslocando para Brasília, onde em nome do Movimento vai denunciar o fato à Ministra da Cultura, propondo que ela vá a Paris reivindicar o tombamento pela UNESCO.
Você está lembrando, Maria, que o IPHAN, anteriormente, já havia se pronunciado contra a construção do porto, ali, argumentando que “o Encontro das Águas terá sua paisagem natural manchada por um empreendimento de enorme proporção, com constante atracação de embarcações de grande porte”?  O Iphan não descartou também a “ameaça ao Programa de Águas para Manaus”, com riscos de contaminar a água captada pela estação destinada a abastecer 500 mil pessoas da Zona Leste.
O Conselho de Direitos Humanos da Arquidiocese, o SOS Encontro das Águas e outras organizações locais não duvidam que a poluição e o trânsito de navios vão prejudicar a pesca e as atividades de lazer, além de provocar desmatamento de uma parte significativa da floresta primária e degradar a paisagem.
O poeta e repentista cearense Quintino Cunha (1875-1943), que viveu no Amazonas durante muitos anos, escreveu um soneto premonitório, intitulado Realismo, traçando o perfil dos empresários que buscam o lucro fácil. O soneto termina se referindo – ouve bem, Maria – a“centenas de homens do Brasil moderno / Serena turma de aproveitadores / Lembram plantas daninhas pelo inverno./ Homens cujo ideal não tem raízes / Mas que vivem, vivendo entre os valores / inúteis, vigorosos e felizes”.
Aqui vai uma homenagem ao velho Quintino, que cantou o encontro das águas, dos dois rios que não se misturam: “Se estes dois rios fôssemos, Maria, / todas as vezes que nos encontramos, / Que Amazonas de amor não sairia / De mim, de ti, de nós que nos amamos”.       
 P.S. Sugerimos a leitura do texto escrito por Elisa Wandelli e Pe. Guillermo Codorna, intitulado “Porto das Lajes – Destruição do Encontro das Águas” que inspirou  essa coluna.
Encontro das Águas de Quintino Cunha
Vê bem, Maria aqui se cruzam: este / É o rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe, / como as saudades com as recordações.
Vê como se separam duas águas, / Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas / De um passado, às venturas de um presente.
É um simulacro só, que as águas donas / D’esta região não seguem o curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,/ O real rei dos rios do Universo;
Para o velho Amazonas, Soberano / Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,/ Porque afinal é filho de um abraço!
Olha esta água, que é negra como tinta./ Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim  com que se pinta, / Nos olhos, a paisagem de um desgosto.
Aquela outra parece amarelaça,/Muito, no entanto é também limpa, engana:
É direito a virtude quando passa / Pela flexível  porta da choupana.
Que profundeza extraordinária, imensa,/ Que profundeza, mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa / N’este céu d’água, brutalmente enorme./
Se estes dois rios fôssemos, Maria, / Todas as vezes que nos encontramos,/
Que Amazonas de amor não sairia / De mim, de ti, de nós que nos amamos!…
*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo e colaborador do “Quem tem medo da democracia?”.

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