Conradinho Close-Up!

Por José Ribamar Bessa Freire (*)

Chamava-se Konrad, com “K”, mas tinha uma puta cara de severino ou ribamar. É que nascera logo após a II Guerra Mundial, em Buriti dos Montes (PI). Seu pai, o velho Dodó, carpinteiro de profissão, ia registrá-lo como Dorgival Junior. Mas mudou de ideia no meio do caminho, quando parou na taberna do Léo para tomar umas talagadas de cocal. Lá, sobre o balcão, viu um exemplar do jornal da UDN, O Piauí, com o nome de KONRAD ADENAUER em letras garrafais. Encheu os cornos de pinga, recortou a manchete e foi pro cartório levando o nome impresso do chanceler alemão:
– É Konrad. Com “K”.
O filho ficou sendo, pois, Konrad. Konrad Soares. Escapou, por pouco, de se chamar Churchill ou Stalin. Foi nas águas do rio Poti que o Quase-Churchill, aprendeu a nadar. Passou a infância entre Buriti dos Montes e Ipaporanga, contemplando, maravilhado, os paredões da garganta do rio, que formam um cânion com rochas de até 60 metros furadas pela correnteza. Seu pai o levou por trilha de difícil acesso, permitindo que os olhos do menino focassem a fenda geológica, o primeiro de tantos close ups de sua vida severina.
– Já-pensou, já-pensou, um close up da Cachoeira da Lembrada?
Quando chegou no Rio, em 1966, para estudar, trazia consigo, gravadas na retina, muitas imagens de Buriti dos Montes, algumas panorâmicas, outras em travelling. Eram tomadas de planos da procissão de Nossa Senhora do Monte Serrat, das novenas do mês de julho, dos arraiais e quermesses, das quadrilhas juninas e, evidentemente, close ups diversos com detalhes de cabeças, rostos, mãos.
– Já-pensou, já-pensou um close up da tia Deca, um plano fechado sobre a verruga que ela tem no nariz?

Geração Paissandu
Tudo isso ele me contou em longas conversas mantidas na Casa do Estudante do Brasil, na Esplanada do Castelo, atrás do Bob´s, no centro do Rio, onde morávamos juntos com outros estudantes pobres, nordestinos e nortistas, irmanados pela mesma fome atávica. Depois das aulas na FNFi – eu cursava Jornalismo, ele Letras – passávamos horas discutindo cinema, a grande paixão de Konrad, que fazia qualquer sacrificio para não perder as sessões do Cine Paissandu, na Rua Senador Vergueiro, Flamengo.
Estávamos na década 1960-70. Foi ali, como integrante da dissidência pobre da chamada Geração Paissandu, que ele se familiarizou com os recursos da linguagem cinematográfica e se especializou em close up. Diante da expressão alegre ou triste, tensa ou descontraída, de qualquer pessoa, o Konrad piauiense não hesitava. Unia os dois polegares e os dois indicadores, formando um quadrado, colocava-o na altura do olho esquerdo, como se fosse uma câmera, focava no ponto que lhe interessava e se aproximava lentamente, dizendo:
– Já-pensou, já-pensou, um close up desse rosto?
Aquilo que começou como uma simples brincadeira, da qual todo mundo ria, virou mania, obsessão, e acabou por ser, em alguns momentos, algo inconveniente, quase doentio, que podia chatear as pessoas. Na exibição do filme A grande cidade, de Cacá Diegues, que acabara de sair do forno em meados dos anos 1960, ele viu a Nara Leão de mini-saia, achou que ela estava a tôa na vida, querendo ver a banda passar. Não resistiu. Armou a câmera com os quatro dedos, focou e partiu pra cima:
– Já-pensou, já-pensou, um close up do joelho da Nara.
Essa era a vantagem de pertencer à Geração Paissandu, permitia a convivência democrática do pé-rapado com a celebridade. Mas essa não foi a única vez que o destino cruzou o seu caminho com um membro da família Leão. Meses depois, quando já havia perdido definitivamente o “K” de Konrad e o senso do ridículo, tornando-se o Conradinho, Conradinho Close Up, para ser mais preciso, topou com Danuza. Foi assim.
Um dia, depois de uma passeata, ele vestiu sua farda de gala – um surrado macacão jeans unisex estilo boyfriend, calçou a alpercata de arigó de pneu usado, tipo ojota andina, e caminhou a pé do Castelo até o Flamengo, porque não tinha um puto pra pagar a passagem de ônibus. Ficou em pé na frente do Paissandu, esperando ver se encontrava alguma alma caridosa disposta a pagar sua entrada. Não queria perder o filme de René Allio, cujo roteiro se baseava em um texto de Bertold Brecht – Uma velha dama indigna.

Com Danuza
Conradinho Close Up já estava para desistir, quando desceu de um táxi, sozinha, Danuza Leão, causando um burburinho nas mesas espalhadas pela calçada do bar Oklahoma. Naquele momento, qualquer um daria razão ao Conradinho: ela, poderosa e bela na explosão dos seus trinta e poucos anos, estava implorando por um close up. Ele empunhou sua câmera imaginária formada pela união dos dedos, ajustou a lente de distância focal variável, enquadrou e clicou. Depois do superclose, saudou:
– Oi.
– Oi – respondeu Danuza, cujos olhos buscavam pelo recinto do bar, sem encontrar, alguém que se atrasara para o encontro marcado. Enquanto esperava, decidiu sentar-se. Conradinho, como um soldado, se mantinha de pé a seu lado, com cara de cachorro abandonado. Ela convidou-o, então, a compartilhar sua mesa. Parecia se divertir com aquele nordestino simpático, visivelmente faminto, meio folclórico, Ronnie Von dos pobres, com longos cabelos lisos caindo sobre os ombros salpicados por uma camada branca de escamas de caspa.
Quando o garçon chegou, ela pediu um uísque e perguntou de Conradinho o que ele queria beber – era seu convidado. Acontece que o Restaurante Estudantil do Calabouço estava fechado, ele não havia almoçado. Nem piscou: pediu uma vitamina de abacate, no capricho, e um sanduíche americano.
Enquanto Danuza bebericava seu uísque e Conradinho traçava a abacatada espessa, conversaram sobre política, estética e cinema. Ele, é claro, defendeu o close up como a forma mais acabada de captar o pormenor, o detalhe, com capacidade de penetrar profundamente na alma da personagem, de revelar com força e intensidade dramática suas características. Descreveu, com muito fervor, o filme “O Nascimento de uma Nação”, comentou cada close de Griffith como algo “genial, genial” – adjetivo muito usado por aquela geração. Ela ouviu tudo com respeito e paciência.
Foi aí que chegou o amigo da Danuza, num carrão. Ela pediu a conta, pagou tudo e se despediu, deixando o troco sobre a mesa. Enquanto a musa se afastava, Conradinho e o garçon se mediram com os olhos, numa disputa silenciosa, mas louvado seja Deus, o piauiense foi mais rápido e deu um close up, embolsando a gorjeta, que era suficiente para pagar o cinema e ainda voltar de ônibus para a casa.
No dia seguinte, tomando banho no Posto de Gasolina da Av. Presidente Antonio Carlos porque a água da Casa do Estudante havia sido cortada, todo ensaboado com sabão de côco, ele se gabava de haver tomado um uísque com a Danuza Leão. E contava a história da velha que ficou viúva, fez amizade com uma prostituta e com ela ganhou o mundo, viajando e passeando pelas estradas e cidades. Sabia de cor os close ups de René Allio em Uma velha dama indigna.
Mais de quarenta anos depois, só lembrei da figura folclórica do Conradinho e de sua tese de que o close up torna visível aquilo que ninguém via, por causa das caras e bocas dos personagens que aparecem no noticiário sobre a corrupção no Ministério do Transporte e no DNIT.
– Já-pensou, já-pensou, um close up nas contas do Alfredo Nascimento, do filho dele, do Valdemar Costa Neto, das empreiteiras…
Por onde andará o Konrad piauiense, o Quase-Churchill? Saudades do Conradinho Close Up!

*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo e colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde tem a coluna “Taquiprati“.

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