Última conversa com canhoto da Paraíba

Por Urariano Mota (*)

Hoje (domingo, 24 de Abril) faz três anos que o gênio do violão Canhoto da Paraíba partiu.

Lembro da última vez em que o visitei.

Naquele dia, Canhoto da Paraíba estava com 81 anos, sentado em uma cadeira, como sempre esteve durante 16 horas, todos os dias em seus últimos três anos. Depois de um AVC, ele falava com dificuldade e baixo. Eu havia ido à sua casa como portador de um presente, os CDs Vale dos Tambores, do compositor e intérprete Carlos Henrique Machado.

Descobri dessa vez que ele via mal por somente uma das vistas. Mas Canhoto era um homem com mania de felicidade. O seu prazer era sorrir, procurar o sorriso, buscar a felicidade. Ele sofria, claro, ele percebia o sofrimento, mas isso não o levava ao desespero. Naquele domingo, carregava comigo meio litro de uísque, para beber enquanto ouvisse os choros de Carlos Henrique Machado. Então eu pedi à sua filha Vitória um copo com gelo. Que fez Canhoto? Pediu um também, porque desejava me acompanhar na bebida. Mas Vitória, filha, secretária, enfermeira e companheira repôs a nossa alegria no quintal da realidade:

– Ele não pode beber, por causa do remédio. Ele toma Gardenal.

Então eu, o caridoso – e a caridade se confunde com a crueldade em mais de uma rima – levei o meu copo de uísque a seu nariz, para que ele, se não podia beber, pelo menos sentisse o aroma do álcool no domingo. O diabo era que ele, gripado, estava com as narinas cheias de vick. O frustrado, acreditem, fui eu. Canhoto, não, ele foi do desejo de me acompanhar à paciência de viver com o que era possível. E por isso, para não afrontá-lo com a minha temporária saúde, bebi menos, somente três doses, em respeito a seu estado. E assim melhor pude ver e observar a sua pessoa.

Aos primeiros acordes do choro Canto dos Quilombos ele sorriu. Melhor dizendo, pôs um sorriso que não voltou a se fechar nos lábios. Então entraram o cavaquinho, o bandolim, os violões. Para quê? Como é que se podia ser infeliz a ouvir uma composição assim? Não sei se descobri a pólvora, mas Canhoto era feliz porque era um homem musical. Ele retirava do som o remédio para a desgraça. Porque a sorrir ele se pôs a balançar a cabeça também, a dizer e a se repetir “sim” em silêncio. Então eu senti que ele estava liberto. Ele não estava mais naquela cadeira, ou melhor, estando sentado nela, a cadeira era um objeto de profundo conforto. Era como estar na dor e integrar a dor em algo maior, em outro lugar, onde a própria dor não tem razão, como canta Paulinho da Viola. Então ele comentou, baixinho, à sua maneira, mas com um ar no rosto que não admitia outra frase:

– Como tem gente boa no Brasil.

E dessa vez fui eu que balancei a cabeça. Vieram outros choros, até chegar na composição Catira. E ele, esquecido do nome do artista que ouve:

– É João Pernambuco?

– Não, Canhoto, é Carlos Henrique Machado, eu lhe respondi.

Senti que ele não me via, não mais pela falta de visão, mas porque a ausência de luz era um elemento para sua viagem. E ele estava mais que certo, não era uma ilusão, um escapismo, como qualquer idiota de manual podia escrever. Aquilo era típico da arte: fazer do circunstancial um elemento de composição, sempre. Na dor, na alegria, na felicidade, no sofrimento, no riso, na raiva – tudo era matéria para a expressão.

Mas isso que acabo de escrever, no calor do que percebo agora, ele sabia sem conceito cerebral, ele sabia por sentimento, a balançar a cabeça e a sorrir. Impossibilitado que estava de ele próprio executar a beleza, com as suas gordas e canhotas e generosas mãos – porque era todo esquerdo, agora sinto, o que nele era destro era apenas auxílio para o outro lado -, ele passou a compor de outra maneira, enquanto acompanhava os movimentos do choro do CD. Então eu percebi que Canhoto estava tocando! Acreditem, porque eu vi Canhoto a executar o violão, apesar do AVC, tocando. Como? – Ele estava com uma das pernas cruzada, posta sobre o joelho. Com a mão esquerda, imóvel, repousada em um braço da cadeira, com a direita ele marcava posições de acompanhamento na tíbia, no tornozelo!

Essas coisas a gente vê e deve olhar para o outro lado em sinal de respeito. Mas era irreprimível. Ver as notas a correr com o polegar, com o médio, o indicador, em marcações imaginárias em uma tíbia quese transformara em braço de violão. Eu bebi e silenciei ali, como silencio aqui.

O mais que escrever será inútil.

*Urariano Mota é jornalista, professor de português e escritor. É pernambucano, nascido em Água Fria e residente em Recife. 

=> Artigo publicado originalmente no site “Direto da Redação”

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