Ladrão de banco

Por Urariano Mota (*)

Eu também  já fui ladrão, confesso.

Este colunista e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais cedo, e terminávamos, melhor dizendo, por volta das 20 horas fazíamos um breve intervalo para o outro dia. Isso, é claro, quando não demonstrávamos maiores provas de amor ao ofício estendendo a jornada até as 22 horas. Ainda assim, não chegávamos a ganhar o pão com o suor do próprio rosto, porque: a) o que ganhávamos não dava para o pão acompanhado de qualquer proteína; b) não suávamos, porque o trabalho era sob o frescor do ar-condicionado. Mas alguma coisa ganhávamos, como veremos.

Uma bela noite entrou em nossa pequena sala o gerente. Entrou com caixas de sorvete, preciosos sorvetes de frutas tropicais. Cajá, mangaba, caju… Se um gênio nos perguntasse àquela hora das 21 horas, em 1981:

– Homem, o que desejas? Vida eterna, ouro, ser amado pela maja de Goya….

Nós responderíamos, sem dúvida e sem vacilar:

 Primeiro o sorvete, gênio. E depois conversamos sobre o resto.

Quando a agência mergulhou no silêncio, eu e Hermann nem nos falamos. Eu me levantei e fui olhar, somente olhar, a cara dos sorvetes. E pelo nome na tampa, percebi que um deles era de cajá. Ora, ver é permitido. Ver não dói. Somente ver, Deus. Ora. Com artes de arrombador de cofres eu retirei a tampa da caixa. E vi a cor amarela.

Ver dói. Sorvete de cajá às 9 da noite, em dois bancários com fome, e com aquela raiva que nos possuía, com aquele ódio de classe acumulado, eu lhes digo, o cajá tem uma força maior que a do sexo. E por isso eu comandei uma assalto rápido.

– Hermann, se a gente fizer assim, eles nem vão notar.

E com isso dei o exemplo. Com uma colher fazia raspagens, retirava lâminas da superfície do cajá, rebaixava o tamanho delicadamente (tão delicado quanto um homem com fome assalta uma presa), de forma e de formas a deixar o volume do sorvete bem distribuído, em uma mesma altura.  No entanto, Hermann foi com muita ambição no pote. Eu não quero incriminar o meu cúmplice, mas acredito até hoje que ele foi o culpado. Ele acabou com o sorvete!

O animal me disse depois que não pôde seguir as minhas instruções de calma, “vá com calma, Hermann, atenção, cuidado”, enquanto aquela polpa amarela, melhor que as majas de Goya, era devorada em profundas horizontais por este orientador. Sedento, ele esvaziou todo o conteúdo! O certo é que restou uma caixa vazia, que tampamos atenciosos, e com recomendações de estima retornamos a embalagem ao mesmo lugar e temperatura.

No outro dia voltou o gerente. Eu e Hermann baixamos nossas cabeças, extremamente concentrados nas somas e subtrações de valores. Em torno de nós, melhor dizendo, em nossas costas ouvimos um silêncio, aquele silêncio dos filmes de caubói que vem antes do ataque dos índios. Súbito, um grito. É agora. Eu não pude nem olhar para Hermann. Ele também nem me viu. Mergulhamos a cara nos relatórios de conta corrente.

– Quem foi que roubou o meu sorvete? Quem foi?!

As evidências nos apontavam como autores do crime. Eu e Hermann éramos os últimos a sair. Talvez também os de pior condição social e financeira do próspero Banco. Em vez do cherchez la femme, e a fêmea era aquela maravilhosa polpa amarela, os sinais anunciavam: busquem os fodidos. E por isso o gerente nos recriminou, olhando ora para mim, ora para Hermann:

 Quem rouba sorvete é ladrão. Quem rouba sorvete, assalta um banco!

O fato é que muitos anos depois desse furto soubemos que o gerente se transformara em um criminoso procurado pela polícia federal. Motivo: ele tomara conta, com excessivo zelo, de valores de clientes do Banco. Pior: assim como a fome sobre a caixa do sorvete de cajá, que começou pela superfície e foi até o fundo, o nosso Catão comera além da conta  muitas aplicações de amarelo mais valioso.

Acreditem, esta história tem moral. Aliás, duas: primeira – em obediência ao ladrão que rouba ladrão, estamos há mais de 30 anos perdoados; segunda – leitor, se não for seu, não comece jamais a comer um sorvete de cajá. É irresistível.

*Urariano Mota é jornalista, professor de português e escritor.

=> Texto publicado originalmente no site “Direto da Redação”

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