Sobre os impactos do Porto do Açú (Eike Batista e Governo do Estado-RJ)

Por que lutamos?

Por Raul Longo (*)

Enquanto éramos seguidos por duplas intimidadoras ao sairmos de nossas casas, mesmo para ir até a esquina fazer compras ou conversar com os amigos. Em nossas manifestações tínhamos de nos conter perante as provocações e ofensas de especuladores interessados em empreendimentos paralelos à instalação do megaestaleiro que se anunciava como o maior da América Latina. Pela internet recebíamos diversas acusações a nos prejulgar como defensores de propósitos individuais. Pela imprensa local, acusados de contrários ao desenvolvimento do estado e de melhorias para aqueles mesmos a quem defendíamos.

Companheiros políticos tiveram suas candidaturas alijadas do esforço promocional da campanha partidária ao pleito de 2010. Embarcações de pescadores foram apreendidas sob alegações inéditas da Marinha local e tivemos de nos cotizar em pagamento de pesadas multas para a liberação de seus instrumentos de trabalho e sustento.

Éramos submetidos a constantes inverdades sobre os motivos e caráter de nossa luta, nossa própria realidade individual e a realidade de nossa região.

Já tivemos oportunidade de agradecer àqueles que nos apoiaram, mas aproveitamos para novamente indicar alguns dos que nos foram mais prestativos e se destacaram pela pronta resposta e sensibilidade às evidências do que expúnhamos quanto a inviabilização do histórico direcionamento cultural, econômico e social da região compreendida no entorno à Ilha de Santa Catarina.

Se fomos vitoriosos naquela luta, devemos também a participação do Portal Dilma na Rede — dilmanarede.com.br –, o blog “Quem Tem Medo do Lula?” e atual “Quem Tem Medo da Democracia?” — https://quemtemmedodademocracia.com/ — administrado pela jornalista Ana Helena Tavares do Rio de Janeiro. A redecastorphoto.blogspot.com/ do jornalista Castor Filho de São Paulo, o grupobeatrice.blogspot.com do maranhense Adauto Melo.

Também nos auxiliou o saudoso Assaz Atroz do escritor Fernando Soares Campos do Rio de Janeiro e, aqui em Florianópolis, destacaram-se o blog falasambaqui.blogspot.com da profissional em comunicação social Angelita Brandão, o blog sambaquinarede2.blogspot.com  e o Portal Daqui — daquinarede.com.br –, ambos do jornalista e historiador Celso Martins; além do Portal Desacato — desacato.info – do ativista Raul Fittipaldi.

Mas não foram os únicos. Muitos integrantes de listas de debates e discussões políticas e sociais foram capazes de dimensionar a amplitude social do evento e nos alentaram com informações e avaliações sobre a absurda desproporção entre as condições de sobrevivência de uma população de cerca de 500 mil ou mais pessoas, e o capricho empresarial do maior conglomerado capitalista do país.

A todos os que nos ajudaram na divulgação do que então aqui se pretendia cometer, pedimos que nos ajudem mais uma vez na divulgação do mesmo despropósito pelo mesmo empreendimento no Estado do Rio de Janeiro.

Para implantar seu projeto em Santa Catarina, irresponsavelmente o empresário Eike Batista adquiriu extensa área que abrange dois municípios de nossa região. Sem qualquer prévia consulta sobre a realidade local e através do apoio político dos principais partidos do estado e das agremiações de elite, tentou nos impor suas assumidas e propagadas pretensões de ilimitado enriquecimento.

Sem nenhuma demonstração de sensibilidade humana ou preocupação ambiental, armou audiências públicas através das quais propagou publicitariamente as conquistas de suas empresas. Aqueles que ousaram contestar expondo razões de desacordo ao empreendimento, foram noticiados pela imprensa local como bêbados e baderneiros. Reagimos comparecendo à última assembleia com exibição de nossas manifestações culturais, narizes de palhaços e apitos, sem nos deixar intimidar pelos 9 guarda-costas postados em prontidão de ataque e as teleobjetivas constantemente miradas contra nossas crianças por 2 fotógrafos típica e ridiculamente caracterizados de escolta árabe.

Contamos 9 ônibus de alto luxo que transportaram a população das periferias de Biguaçu, a ser utilizada como claque. Iludidos pelo prefeito daquele município com o anúncio de criação de 4 mil empregos em atividades para as quais nunca tiveram qualquer formação ou experiência, foi graças a ostentação da força e do poder da empresa OSX, que pudemos, então,  informá-la sobre a omitida extinção de no mínimo 20 mil empregos em atividades tradicionais da região: pesca, maricultura, agricultura, gastronomia, artesanato, comércio e turismo.

Para compensar, Eike Batista nos acusou pela programação nacional de TV de sermos meia dúzia de eco-xiitas preocupados em defender um cardume de golfinhos. Até então éramos poucos, sim, e o empresário sabia de nossa impossibilidade de demonstrar que os golfinhos de nossa luta éramos nós mesmos. Mas, talvez por essa declaração, nos angariou o apoio de jornalistas como o Paulo Henrique Amorim.

Insistindo em ignorar a realidade mesmo quando advertidos por especialistas por eles mesmos contratados para avaliação técnica dos impactos sócios/ambientais, tentaram omitir a existência do laudo indicativo de riscos irreversíveis a serem potencializados pelo empreendimento. E hoje processam o cientista Simões Lopes por termos logrado a divulgação daquele documento ignorado e escamoteado pela inconsequente presunção de que a imediata progressão econômica de poucos, deva prevalecer sobre as condições de sobrevivência de toda uma população.

Lamentaremos profundamente se o oceanógrafo Simões Lopes for penalizado por termos utilizado de sua correção científica para comprovarmos as evidências dos motivos de nossa luta. Correção confirmada por reconhecidos cientistas e doutores de instituições privadas e públicas que apontaram erros elementares e grosseiros na análise final, arranjada em substituição a de Simões Lopes para corresponder aos intentos do projeto.

Talvez por mero lapso e não por provocação a estes cientistas, naquela última audiência pública o diretor da empresa contratada para estudo substitutivo ao de Simões Lopes, mais de uma vez se referiu aos golfinhos como “bicho”. Embora nossa luta não fosse pelos golfinhos ou qualquer outro animal que não o ser humano, em momento algum nos pareceu que fizéssemos mais diferença do que uma barata de praia.

No entanto, não há no que nos lamentarmos sobre nós mesmos. Afinal, com a colaboração de tantos em todo o Brasil, apesar de sermos realmente poucos no início, terminamos vencendo.

Para lamentar só nos restou a lembrança das sanções sofridas por técnicos e cientistas que mantiveram a prerrogativa de defesa dos interesses públicos. E também aos que os sancionaram e ameaçaram publicamente: superiores hierárquicos, autoridades e políticos que ao priorizar os interesses do empresário Eike Batista em detrimento da responsabilidade pública, perderam nosso apoio e credibilidade.

A esses lamentamos muito, pois sabemos quanta falta faz à história do Brasil, e de Santa Catarina em particular, o devotamento aos reais interesses do futuro de sua gente. Devoção da qual os acreditávamos imbuídos.

A eles por certo em nada comoverá os depoimentos registrados pelo vídeo acessado pelo link abaixo, mas não podemos deixar de divulgá-lo, pois ao contrário das ilações dos que nos prejulgaram sem conhecimento de nossas história e realidade, não somos contrários ao implemento e evolução da indústria naval brasileira. Regozijamo-nos pela recuperação de setor tão vital a um país com nossa extensão costeira, mas não nos conformamos com o financiamento do desenvolvimento através de custos humanos.

Temos confiança de que o slogan utilizado pelo governo Dilma Rousseff: “país rico é país sem pobreza”, se exemplificará no impedimento a que os depoentes desse vídeo sejam levados à mesma miséria e degradação humana a que seriam relegados os cidadãos da Grande Florianópolis, se não tivéssemos lutado nem recebido apoio de todo o Brasil e mesmo de brasileiros e estrangeiros que vivem no exterior.

Se incompreendidos por muitos que nos acusaram de defender interesses pessoais, ainda mais foram os que nos escreveram prestando esse apoio hoje igualmente necessário aos moradores de São João da Barra no Estado do  Rio de Janeiro.

Por mera questão de responsabilidade humana e por termos passado exatamente pelo que agora passa a população aí documentada, tomamos a iniciativa de daqui de Florianópolis novamente recorrer a todos, para que ali não sucumbam aos pesados métodos de “persuasão” financiados pela maior riqueza individual do Brasil.

À nossa vitória, pela qual também devemos reconhecimento ao Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual de Santa Catarina, não pode corresponder a derrota de outros brasileiro em qualquer parte do país. E muito nos preocupa a impressão de que embora em São João da Barra sejam pessoas tão simples quanto nossos pescadores, lá não contam, como aqui pudemos contar, com a participação de proprietários de residências e imóveis de alto padrão e empresários de valorizados setores de turismo e comércio. Por essa razão pedimos a atenção daqueles que se mantêm atentos as condições humanas de todo o povo brasileiro.

Assim como não admitimos o absoluto desrespeito à nossa cultura, nossa história, nossas vidas e humanidade, também não podemos admitir o que está se passando com a população do litoral do Rio de Janeiro e sabemos bem do que se trata. Pedimos à todos que nos apoiaram que também apoiem a gente de São João da Barra do estado do Rio Janeiro, vitimada pelos mesmos intentos e a mesma prepotência e irresponsabilidade que nos atingiu no ano passado.

Indústria naval, sim. Mas sem o afogamento e inviabilização de condições de sobrevivência das comunidades litorâneas. Somos uma das maiores costas litorâneas do mundo e inadmissível que pelo aproveitamento desse potencial se aceite a eliminação de insuperável potencial maior: o humano.

*Raul Longo é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo“.

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