Mataram meu amigo Facundo Cabral

Na foto, Facundo Cabral

Por Raul Longo (*)

Na foto, Raul Longo

Tenho tantos amigos que muitos sequer conheço ou conhecerei.

Por vezes me dá pena pensar na inexorabilidade de minha morte, pelos amigos que sei que tenho, mas nunca terei noção de suas existências. São aqueles que mesmo depois de minha morte virão para fazer e pensar exatamente o que eu faria e pensaria no lugar deles, junto com eles, como bons amigos que sem dúvida seríamos. Ou já somos, ainda que não nos conheçamos.

Surpreendente é que apesar de movidos e motivados pelos mesmos sentimentos, nem sempre concordamos naquilo que falamos e pensamos.

Facundo Cabral é um desses exemplos. Apesar de eu ser ateu e ele fervoroso amante de Deus, nunca tivemos qualquer discussão em relação a esse assunto. E por dois motivos.

Primeiro porque não nos conhecemos, mas principalmente porque o Deus de Facundo não é o das igrejas, às quais ele também muito criticou com aquele seu sempre refinado humor, aquela sua forma de fazer rir dos soberbos, dos prepotentes, dos que se mentem a si mesmos para se crerem o que jamais um ser humano será em relação em qualquer outro: superior.

Pois por desespero, ignorância ou seja lá o que for, nesta manhã de sábado alguém tentou superar suas próprias insuficiências, suas pequenezes e o mesquinho que concebia de si mesmo; com uma arma na mão.

Com uma arma na mão, esse anônimo “alguém” matou ao meu amigo Facundo Cabral.

E eu nem o conhecia. Mas respeitava ao seu Deus mais do que ao milenar Deus das igrejas pelo qual não tenho o menor respeito.

O Deus de Facundo não é milenar. Não é secular, como se diz nas igrejas. O Deus de Facundo é o verdadeiro Deus eterno, ou pelo menos tão perene quanto for o ser humano. É o Deus vindo de onde veio o ser humano.

É muito mais antigo do que o próprio El, o deus que os hebreus herdaram dos Ugarith que adoravam a Baal. O Deus de Facundo é anterior a Baal por ser o mais primitivo de todos os deuses criados pelo homem.

Surgido quando os homens, não sabendo como denominar o sentimento que os enternecia e fazia com que compreendessem seus semelhantes, ou os revoltava contra as injustiças impostas ao “outro”, aos seus iguais; chamaram a esse sentimento de Tupã, Pachamama, Manitu, Oxalá.

Ou Deus, como o evocava Facundo em sua admiração à Madre Tereza de Calcutá e em abjeção à Sua ausência nos padres, pastores e papas das igrejas todas.

Com meus amigos é mesmo assim: discordo deles sabendo que no fundo e na verdade estou concordando, pois por trás de nossos conceitos está uma mesma compreensão, uma mesma intenção, um mesmo objetivo muito adiante de nós mesmos e infinitamente mais importante e efetivo do que uma arma na mão.

Pois neste sábado acordo com a notícia de que na capital da Guatemala, sem qualquer motivo aparente, alguém com uma arma na mão matou ao meu amigo Facundo Cabral. E eu nem o conheci.

Mas sei qual o motivo de o terem matado. É o mesmo porque mataram outro velho amigo que também não conheci. Aquele que, como eu, também não acreditava em Deus e fez até uma música falando de tudo em que não acreditava. Inclusive Deus.

Só que aquele, morto em 1980 por outro alguém com uma arma na mão numa esquina de Nova Iorque, terminava sua música com o verso: “I believe in me. Only me”.

Ou seja, de toda forma acabou chegando ao mesmo Deus do Facundo. Aquele Deus que não está nas igrejas e em nenhum altar ou livro. Mas, sim, em cada ser humano.

É por isso que somos todos bons amigos. E com uma arma na mão, os ínfimos matam os verdadeiros deuses sem ter ideia do que nos faz eternos.

Por essa ignorância é que estou triste na manhã deste sábado e, só para me confortar um pouco, distribuo aí um dos versos que encontrei do meu amigo poeta a quem sequer conheci, usando como epígrafe o verso de outro bom amigo morto ainda ontem. Mas esse, eternizado por morte natural, sem nenhum mesquinho a atingir-lhe com uma arma.

*Raul Longo é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde tem a coluna Pouso Longo.

“Quanto maior o coqueiro, maior é o tombo do coco.

Afinal, todo mundo é igual.

Quando o tombo termina, põem terra por cima

E na horizontal.”

Billy Blanco – Belém do Pará (1924) Rio de Janeiro (8 de julho de 2011)

Pobre Mi Patron

Facundo Cabral – Balcarce, Argentina (1937) Ciudad da Guatemala (9 de julho de 2011)

yo no se quien va mas lejos
la montaña o el cangrejo
pobrecito mi patron piensa que el pobre soy yo
Quien sabe si el apollarse
es mejor que deslisarse
pobresito mi patron piensa que el pobre soy yo
Mas que el oro es la pobresa
lo mas caro en la existencia
pobrecito mi patron piensa que el pobre soy yo
Solamente lo barato
se compra con el dinero
pobrecito mi patron piensa que el pobre soy yo
Que me inporta ganar dies
si se contar hasta seis
pobresito mi patron piensa que el pobre soy yo.

Facundo Cabral: http://www.vagalume.com.br/facundo-cabral/pobre-mi-patron.html#ixzz1Rd2MnHzV

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Abaixo, comentário que o diplomata e embaixador Arnaldo Carrilho enviou para o QTMD? sobre o artigo acima:

As Américas todas (com um pouco de exceção canadense) são extremamente violentas, assim como a África. São continentes desajustados, por flagrantes injustiças sociais em seus quotidianos. A Guatemala – não é de hoje – é uma das campeãs de matanças bárbaras da América Latina, se bem que El Salvador e México não lhe fiquem atrás.

Na foto, Arnaldo Carrilho

Matar um poeta, ainda que indiretamente – diz-se que o alvo era o que dirigia o carro que transportava Facundo para o aeroporto, o empresário nicaraguense Henry Fariñas, promotor de um show de Facundo que acabara de ocorrer -, porque não passa de um reles homicídio. Burro, sobretudo, porque assassinar um poeta, compositor e letrista musical só leva a perder o(s) criminoso(s), engrandecer a vítima e reduzir-se à mais baixa escala de dejetos da (des)humanidade.

Com a leitura do artigo, senti também um baque, ao aprender da morte de Billy Blanco, compositor de primeira e ótimo arquiteto. Apelidado por uns de Diamante da Bossa Nova, é bom que recorde que ele já existia, como um de nossos melhores músicos, antes de o movimento ser desencadeado em 1958, com o lançamento de Chega de saudade, no balanço joaogilbertiano. Assim também como o recém-falecido Johnny Alf e outros que também se foram, como Luiz Bonfá, os guitarristas Mario Telles e Garoto, além do pianista Newton Mendonça – gigantes de nossa música – Billy foi um dos  precursores do movimento. A rigor, até Vinicius e Tom ocuparam essa posição. A “batida diferente” serviu-lhes de ilustração para suas obras-primas, eis aí.
Que descansem todos, que deram tanto por nós todos, na mais perfeita paz.
É de dar pena, imensa, um País em que as novas gerações não conhecem bem a obra dessa gente e seu significado universal. Excesso de Foucault mal-assimilado e porres assimiláveis de Guattari, B. Henri-Lévy e Glucksmann deram nessa ruptura. É preciso um dia processar nossos militantes “intelectuais” de baboseiras, bando de farsantes pós-neo-sub-ultra-híper (mal)-graduados.
Abraços do
Arnaldo C.

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