Bush/Barack/Bolsonaro/Bullying – A banalização da barbárie

Por Raul Longo (*)

O texto do Ribamar Bessa Freire que há pouco distribuí, têm me retornado em apreensivas manifestações de pais, professores, pedagogos e psicólogos. De ambos os gêneros.

Denota ainda haver capacidade de depreensão de algo dos fiapos de humanidade que restaram ao Wellington Menezes de Oliveira, aos quais se referiu o comentarista amazonense.

Reconhecem que por andar sobre duas pernas como todo homo erectus e, apesar de insano, dotado de raciocínio como homo sapiens, inclusive contrapondo a articulação dos polegares aos demais dedos das mãos; Wellington Menezes de Oliveira era um ser humano.

Profissionais dos meios de comunicação têm demonstrado dificuldade em aceitar tal realidade, o que justifica as preocupações desses correspondentes que me escrevem inclusive de países onde a prática do bullying ainda não se tornou – oxalá nunca se torne! – uma generalidade.

Sempre pouco afeitos ao exercício da reflexão sobre as realidades humanas, é de se esperar que profissionais de comunicação nada possam aferir da observação de Goethe de que não há crime do qual não se possa imaginar ser o autor.

Sem dúvida, o ato cometido por Wellington Menezes resultou de uma disfunção psíquica, mas sua doença será a única causa? Todos portadores dos mesmos problemas reagem igual? Wellington é o único jovem brasileiro com predisposição a tais sintomas?

Não foi o primeiro, ainda que tenha sido o que provocou mais vítimas dentro de uma escola. E, apesar de nada indicar ser o caso do Wellington, preocupa meus correspondentes a redução de faixa etária entre os que aderem ao consumo de drogas. Também o vertiginoso aumento de casos de bipolaridade, depressão, hiperatividade e outros desvios que em todas as partes do mundo têm garantido substanciosos lucros aos laboratórios da farmacologia psiquiátrica.

Mas, perante tantas preocupações, sem dúvida mais cômodo classificar o caso de Wellington como uma monstruosidade. Algo inumano e incontrolável.

Admitir resíduos de humanidade em Wellington, como sugeriu o Bessa Freire, é muito desagradável. Implica em reconhecer a responsabilidade de todos, toda a sociedade. Mas a simplificação dará conta de responder o que pode estar influenciando na barbárie que vem se banalizando pelas escolas de todo o mundo?

Já se ouviu comentários de que mesmo sem essa denominação em inglês, o bullying sempre existiu. De fato, quem não recorda de ter chamado um colega manco de “deixa que eu chuto”, ou o que usava óculos de “quatro olho”. Além dessas pequenas crueldades, também comum era a ameaça do “eu te pego lá fora!” No entanto, há de se convir que ataque a professores, espancamentos, meninas rolando engalfinhadas, hospitalizações, estupros, mortes e armas nas escolas não ocorriam ainda há poucas décadas atrás.

Depois do famoso episódio de Columbie, alguém parou para pensar porque esses comportamentos vêm recrudescendo entre jovens e adolescentes de todas as classes sociais, inclusive no meio de filhos das elites? Limitar a prevenção em instalação de detectores de metais, aumento de vigilância ou redução de maioridade penal resolveria a questão?

Não foi o que sucedeu em países que já adotaram tais medidas. Ainda que possam ter coibido o avanço das ocorrências escolares, não eliminaram distúrbios domésticos e de rua. Mas como centros onde se forjam as sociedades futuras, em escolas o acesso de fúria do garoto australiano que ergueu e atirou um coleguinha ao chão é ainda mais impactante.

A cena é mesmo chocante, mas apesar da violência com que a criança foi arremetida, felizmente daquela vez não houve maiores consequências do que escoriações. De toda forma, já não se pode mais relegar esses acontecimentos ao antigo “coisas de criança”.

Crianças são imprevisíveis? Sim. Algumas vezes incontroláveis também. Mas as “coisas das novas crianças” não seriam inevitáveis se parássemos de relegar os tantos Wellington de todo o mundo à monstruosidade, à mera loucura.

Já cometemos o mesmo erro com consequências igualmente drásticas. Se não tentassem justificar o extermínio genocida de 10 milhões de vidas (6 milhões de judeus mais os sempre omitidos 4 milhões de ciganos) conferindo a Hitler a condição de louco, possivelmente a história das décadas posteriores à II Guerra fosse outra.

Hitler não teria como promover o maior conflito bélico mundial sozinho, por mais louco que fosse e muito menos se um louco isolado, solitário. Para chegar ao que chegou, Hitler contou com a participação de todo um sistema de interesses políticos e econômicos que incluía os avós do mesmo Bush que na década passada apoiou o massacre em Gaza.

O bullying contra as minorias étnicas e religiosas não ocorreu só na Alemanha e sequer começou ali. Mas ao invés de se discutir as causas dos conceitos nazistas, assumindo a responsabilidade das instituições cristãs, dos preconceitos e da inerente intolerância étnica e social da cultura ocidental, o genocídio e escravidão nas Américas, a insaciabilidade do sistema capitalista; se preferiu explorar preconceitos ao povo alemão e fundamentar a loucura de Hitler pela sífilis, por suas frustrações como artista plástico, pela possibilidade do patrão judeu ter engravidado a mãe, entre outras cogitações que encheram páginas de pura especulação que em nada explicam os campos de extermínio.

Como exemplo, uma frase de Rachel de Queiroz em crônica publicada na década de 60 pela antiga revista O Cruzeiro: “Se derem a um alemão uma faca e um garfo, ele constrói um canhão”. Sem esquecer que, amiga de seu conterrâneo Castelo Branco, a cronista foi entusiasta de primeira hora da ditadura militar, regime assumidamente de orientação nazista.

E assim se eternizam os mesmos conceitos que promoveram a Ku Klux Khan, os golpes militares da América Latina, os genocídios dos Bálcãs, o apartheid da África do Sul e até o racismo e homofobia de Jair Bolsonaro.

Entre os relatos provocados em meus correspondentes pelo texto do Bessa Freire, há um nem tão terrível quanto os demais, mas, menos complexo, igualmente exemplar. É o de Maria Ana, uma menina de 15 anos que não quer voltar à escola porque as colegas riem de seus sapatos.

Aí há o componente do consumismo, da publicidade, do condicionamento de padrões por interesses de mercado que promovem até o auto bullying, como o das vítimas de anorexia e bulimia. Agravantes que minimizam a assimilação dos valores humanos, mas o que se busca é a causa de uma manifestação coletiva, perguntando-se pelo que realmente inviabiliza a compreensão das escolas como ambiente de desenvolvimento de cidadania e meio de integração do individuo ao seu conjunto?

O que é feito daquele desenvolvimento pessoal através do reconhecimento do semelhante, do “outro”, tão citado pelos clássicos da pedagogia, psicologia e sociologia? Como se formará cidadãos participativos e contributivos ao desenvolvimento de uma sociedade saudável, se um representante público, alguém que mais deveria se responsabilizar pela promoção da civilidade; através da TV diz aos nossos filhos que os de pele de cor diferente ou diverso estímulo de libido são frutos de promiscuidade ou de ausência paterna?

Bulsonaro não é professor, mas é homem público. E as escolas, mesmo quando privadas, prestam um serviço público. Pode-se imaginar que Bulsonaro atenda a interesses privados, mas quando pessoas, privatizadas ou não, ocupam cargos públicos, espera-se que correspondam às responsabilidades que lhes foram conferidas, até porque mesmo não sendo seus eleitores todos pagam os salários bem acima da média dos percebidos por negros ou homossexuais que não têm os impostos e deveres discriminados, mesmo quando o legislador discrimina seus direitos.

Qual a diferença entre o bullying do deputado contra a cor da pele da Preta Gil pela televisão, e o bullying na escola da Maria Ana contra seus sapatos? Possivelmente nem só pelo Bolsonaro aquele menino estourou a lâmpada na cabeça do homossexual na Avenida Paulista, mas se não houvessem relegado o nazismo à loucura de um outro, talvez também não existissem os skinheads que se manifestaram na mesma avenida em apoio ao Bolsonaro. Talvez até nem existisse Bolsonaro ou, pelo menos, a opinião de nossos filhos não sofreria riscos de influências tão torpes e retrógradas.

Mas entre as torpezas que cotidianamente deformam a compreensão de nossos jovens e crianças, Bolsonaro é das menores. Afeta quase que unicamente os carentes de afirmação sexual ou de personalidade. Aqueles que precisam atacar em outros, o que não admitem nem querem reconhecer em si mesmos. Evidente que jovens seguros e confiantes, que através do natural entusiasmo juvenil atraiam a empatia das colegas e sejam capazes de manter relações amáveis ou amigáveis, não se importarão com diferentes preferências sexuais desses outros.

No entanto, mesmo estes jovens saudáveis sofrem uma pressão muito maior do que a que possa exercer a desqualificação de um político resulto da falta de vivência democrática de seu eleitorado. Jovens de todo o mundo experimentam um desafio na formação de seus sensos de civilidade e humanidade, independente de suas constituições mentais.

Mais até do que as pressões experimentadas pelas gerações da II Guerra Mundial, porque mais intensas e constantes. Os garotos de Paris não mais se assustam com o compasso dos tacões invasores desfilando nas praças e nas ruas, mas a indiferença à intermitência de terríveis notícias é ainda mais temerosa. Os meninos de Londres não precisam atentar para sirenes de aviso de bombardeios aéreos, mas não têm como se abrigar do cotidiano bombardeio de tenebrosas notícias. Os garotos da moderna Berlim não têm de desviar de minas e trincheiras, mas não escapam das explosões de brutalidades pelos cliques dos mouses de seus computadores.

Se poderia concluir positivamente sobre a ampliação do acesso às informações, mas se para qualquer sobrevivente do nazismo Bolsonaro é muito reconhecível, como jovens e adolescentes de hoje reconhecerão e entenderão a manipulação de informações que invadem suas consciências em formação? Todos os dias. Através de emissoras de TV, portais de internet, telinhas de celulares e coloridas páginas de revistas e jornais.

Apenas um exemplo: Ontem foi encarcerado o ditador Osny Mubarak derrubado pelo levante popular do Egito, mas na página 93 da edição de 6 de abril de 2011 da revista VEJA se insere, entre diversos outros apontados como terroristas islâmicos em atuação no Brasil, foto e informações sobre Mohamed Ali Soliman, acusado pelo governo de Mubarak de ter participado em 1997 de atentado contra 62 turistas. Já residente em Florianópolis, onde se fixou há mais de 5 anos, Mohamed foi recolhido pela Polícia Federal que por meio ano o manteve encarcerado enquanto se aguardava o solicitado envio de provas que sustentassem a acusação formulada pelo corrupto governo de Mubarak. Não se recebeu nenhuma confirmação de que Ali Soliman tenha sido treinado pela Al Qaeda, do que o acusa a revista. E, depois de liberto, Muhamed continua sendo encontrado em Florianópolis, às margens do Oceano Atlântico, embora o autor da matéria informe que viva em Foz do Iguaçu, na divisa com o Paraguai.

Não é o único desencontro entre informação e verdade na mesma matéria de Leonardo Coutinho que, segundo o editorial da revista, com 11 anos de experiência em VEJA esmiuçou investigações sobre ameaças islâmicas que pairariam sobre a juventude brasileira.

Quantos anos de experiência serão necessários para o jovem brasileiro escapar das ameaças do terror de ininterruptas rajadas de mentiras, sem sucumbir à irresponsabilidade, a displicência, negligência, falta de compromisso com a sociedade e consigo mesmo?

Se por descenderem de judeus italianos os Civitas podem aliciar profissionais da mentira para denegrir um cidadão por sua origem, porque as descendentes de açorianos não podem aliciar suas coleguinhas para denegrir Maria Ana em razão de seus sapatos? Quê importa quem seja Maria Ana, seus familiares, sua incipiente história? Qual o valor de alguém com sapatos fora do padrão convencionado?

Qual o valor do “outro”? Se por ilação sobre armas químicas que nunca existiram, crianças, mulheres e homens são mortos diariamente, em todos os noticiários, que valor poderá ter o vizinho que reclama do som alto ou o motorista de outro carro que não abre à ultrapassagem? O que é o bem, se o mal é o torturado nas fotos do presídio de Abu Ghraib? O que é a civilidade, se incivilizadas são as mulheres afegãs nas fotos de estupros coletivos em vias públicas? O que é o humano, se desumanas são as mães e pais das mais de 400 crianças esfaceladas em Gaza?

Quem é o “outro” se Barack Obama e seus pares de França e Inglaterra ordenam o bombardeio do povo da Líbia porque Kadafi bombardeou aquele mesmo povo da Líbia?

Qual o valor desse “outro”? E qual o meu valor, em meu ínfimo “euzinho”, se não me impor como fazem os poderosos dos noticiários? Como o judeu sobre o palestino, o branco sobre o negro, o hetero sobre o homossexual, o igual sobre o diferente?

Quem serei se não realçar minhas diferenças do outro, acusando-o de promiscuo ou de qualquer coisa por ser gordo ou muito magro? Por ser baixo ou muito alto? Por ser estúpido ou muito inteligente? Por ignorar ou saber demais? Por seus sapatos.

Talvez eu possa ser apenas um louco, um monstro, assassino ou suicida, mas preferível nem mesmo ser humano se minha religião, minha descendência étnica, minha libido, minha classe social, ou o que for de mim me impedem de ser correspondido como igual.

E quais as justificativas? As mesmas porque se mata em Gaza, Bagdá, Trípoli, Cabul ou Realengo, conforme cotidianamente se divulga pela abrangente rede de comunicações.

Nas últimas décadas nenhum fato político causou tanta comoção em todo o mundo quanto a eleição de Barack Obama. Nem mesmo o ataque de 11 de Setembro.

Muito provavelmente até as coleguinhas da Maria Ana sentiram uma grande esperança e talvez também tenham repetido para si mesmas, fazendo coro ao refrão do discurso na avenida em frente à Casa Branca: “Yes, we can!”

O que podem, agora, senão rir dos sapatos da Maria Ana? Espera-se que Maria Ana possa fazer algo melhor do que têm feito Barack Obama que revelou ter sido vítima de bullying na infância. Não será por isso que continua matando crianças pelo mundo e bombardeando as escolas da Líbia?

*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis (SC), onde mantém a pousada “Pouso Poesia”. Assina a coluna “Pouso Longo” no site “Quem tem medo da democracia?”.

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