Rumo a uma Marcha Nacional da Liberdade

Somos todos indignados? Debate nesta quinta-feira procura articular coletivos jovens que propõem novas pautas emancipatórias – e não querem ser tratados com gás-pimenta e tasers

Por Antonio Martins (*)


Marcha Nacional da Liberdade: 18/6 (Sábado), em dezenas de cidades brasileiras: Localize e participe

Debate: Violência policial na periferia e armamento “menos letal” em manifestações
Quinta-feira (9/6), às 19h.

> Na Casa Fora do Eixo, em São Paulo: Rua Scuvero, 282 – Liberdade – Veja como chegar
Pela net, via twitcam, através do @liberdadeMARCHA

Palavra livre. Presença de Marcelo Zelic (Grupo Tortura Nunca Mais) e membros do Movimento Passe Livre, Coletivo Desentorpecendo a Razão, Casa Fora do Eixo e Organização Popular Aymberê

“Violência policial na periferia e ‘armamento menos letal’ em manifestações”. Com um debate sobre este tema [veja dados acima], um conjunto de coletivos jovens estabelecidos em São Paulo – mas com laços nacionais – lança amanhã (9/6), um esforço que pode contribuir para propagar no Brasil uma nova cultura política. Convencidos de que é preciso superar o capitalismo, os organizadores não cabem, contudo, na imagem tradicionalmente associada à esquerda. Acreditam que política se faz principalmente por meio de opções quotidianas. Valorizam a diversidade. Articulam-se (com eficácia crescente) de modo horizontal.

Os coletivos defendem, entre outras causas, o passe livre no transporte coletivo (Movimento do Passe Livre-MPL), a legalização de drogas hoje ilícitas (Desentorpecendo a Razão-DAR), o apoio aos movimentos sociais (Aymberê), a produção cultural independente, difundida por circuitos não-mercantis (Fora do Eixo). Juntos, conceberam e realizaram com êxito, em 28 de junho, a Marcha da Liberdade [ver relato em Outras Palavras], em São Paulo. Agora, querem dar-lhe caráter mais amplo. Em 18 de junho, 33 cidades preparam atividades de rua que, juntas, comporão a Marcha Nacional da Liberdade – construída tanto em reuniões presenciais quanto numa página própria no Facebook.

Por trás da novidade, há dois processos simultâneos. Existentes há vários anos, os coletivos acima – e diversos outros, que compartilham pontos de vista e formas de organização semelhantes – têm alcançado, nos últimos meses, poder de convocação surpreendente. Em janeiro, uma indignação que se difundiu via net reuniu centenas de adolescentes, numa série de manifestações contrárias ao fechamendo do Cine Belas Artes. No mês seguinte, começaram os protestos contra o aumento das passagens de ônibus, que atraíram participação inédita e tiveram fôlego para se estender por muitas semanas. A partir de maio, uma sequência impressionante: “churrasco de gente diferenciada” (14/5), para exigir a construção de uma estação de metrô rejeitada por uma minoria influente no bairro de Higienópolis; marcha pela legalização da maconha (21/5); marcha da liberdade (28/5) e “marcha das vadias”, pela liberdade sexual e contra o machismo.

Todas estas manifestações, que reuniram entre várias centenas e alguns milhares de pessoas, foram organizadas de forma não-convencional. O convite partiu de indivíduos (como no “churrasco”) ou coletivos. Partidos políticos, embora bem recebidos em todas as ocasiões, tiveram papel discreto. A horizontalidade estendeu-se à ausência de carros de som e de oradores oficiais. Em sua nova “arquitetura”, os atos oferecem a cada participante ou grupo amplas condições de manifestar suas causas (por meio de cartazes, faixas, refrões). Mas nenhum está autorizado a se sobrepor aos demais.

O segundo motivo que impulsiona a Marcha Nacional da Liberdade é a necessidade de inibir a repressão. As novas manifestações estão sendo confrontadas por uma selvageria policial que não se via desde a ditadura militar. São Paulo destaca-se de novo – aqui, por reacionarismo. Na maioria dos protestos contra o aumento das tarifas de ônibus, e na marcha pela legalização da maconha, a polícia usou, contra manifestantes pacíficos, armas (balas de borracha, gás pimenta, bombas de “efeito moral”) e métodos (espancamentos brutais) típicos de quem procura desmobilizar pelo terror. As sensações de cerceamento à liberdade e retrocesso institucional foram agravadas por um comportamento do Ministério Público estadual incompatível com a democracia. Promotores que deveriam encarregar-se do combate ao crime organizado acostumaram-se a requerer da Justiça, por meio de estratégias esdrúxulas, liminares que foram usadas como pretexto para a violência.

Denunciar e desarmar a volta da repressão parece ser estratégico para os novos movimentos. É por isso que o debate desta quinta-feira – o primeiro, em preparação à Marcha Nacional da Liberdade, procura abordar a brutalidade da polícia. Ao fazê-lo, introduz uma novidade: os organizadores querem ir além da denúncia, conforme explica Gabriela Moncau, do Coletivo Dar. “Estamos interessados em assegurar a liberdade de expressão. Queremos lutar por um dispositivo legal que proíba o uso, pela polícia, das ‘armas menos letais’, contra manifestações pacíficas”. Ela lembra que, além dos dispositivos já empregados contra as marchas recentes, a PM já adquiriu (em São Paulo e outros Estados) os chamados tasers – armas de eletrochoque que paralisam instantaneamente, afetam o sistema nervoso central e podem, comprovadamente, levar à morte.

Embora ainda não haja uma agenda futura consolidada, os debates devem continuar, após o pontapé inicial de amanhã. André Takahashi, do Aymberê, sugere que os coletivos examinem, nos próximos dias, o Projeto de Lei (PL-)222, que pune a discriminação de homossexuais. Propõe ainda uma reflexão mais ampla sobre as rebeliões da juventude – “em especial o Democracia Real Ya! da Espanha e o movimento global que vimos surgir com as revoluções nos paises árabes”.

Se este diálogo inter-coletivos se estabelecer, é provável que dois temas migrem para o centro das preocupações. O primeiro é a amplitude social dos novos movimentos. A onda de manifestações vivida em São Paulo está, até o momento, restrita quase exclusivamente à classe média. Mas isso não revela tendência ao elitismo. Embora o cenário brasileiro seja muito distinto aos do Egito ou Espanha (o que é assunto para outro texto), a disposição para multiplicar relações, entre a sociedade parece manifestar-se também nos grupos brasileiros. Isso está explícito na própria proposta do Aymberê — que, aliás, busca ativamente abrir-se além da juventude. Também aparece, com intensidade crescente, no site do Coletivo Dar – onde se destaca, nos últimos dias, um texto em solidariedade à greve reprimida dos bombeiros do Rio de Janeiro.

Um segundo assunto palpitante é a relação entre novas lutas e projetos contra-hegemônicos de sociedade. Para gente como Gabriela Moncau, é uma discussão necessária. “Um dos desafios da esquerda é dialogar com quem não compõe seus guetos. Vejo-me como alguém anticapitalista. Mas penso que os novos projetos de emancipação podem ser tecidos sem unificar artificialmente pautas. Sou a favor de estabelecer diálogos, e buscar confluências naturais, baseadas em novos valores, lógicas e formas de estar no mundo”, diz ela.

*Antonio Martins é jornalista. Mora em São Paulo e é editor-chefe do site “Outras Palavras”.

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