Depois de Madri, Atenas

Como a rebelião dos jovens espanhóis está se espalhando pela Grécia. Por que ela tem mais chances de sacudir o país

Por Antonio Martins (*)

Ao fundo da vasta praça, destaca-se uma enorme faixa, cuja mensagem pode ser lida a dezenas de metros. Pintada nas três cores espanholas, ela provoca: Estamos despiertos! Que hora es? Ya es hora de que se vayan. À sua frente, 20 mil jovens. Dizem que já basta, é o momento de tomar as ruas e ocupar as praças. Bem formados, capazes e intensamente conectados com o mundo, não se conformam com a vida insípida e medíocre oferecida pelo sistema. Exigem que cesse o ataque aos direitos, que os banqueiros e políticos parem de enriquecer às custas de todos. Querem inventar uma nova democracia.

É noite de quarta-feira, 25 de maio. Mas não é a Puerta del Sol, em Madri, e sim aPraça Syntagma (da Constituição), centro de Atenas. A ocupação foi tramada em poucas horas. Durante o dia, funcionários do FMI estiveram na capital, mantendo contatos com autoridades gregas. Anunciaram que as privatizações devem começar imediatamente e o governo precisa criar novos impostos. É a condição para que a Grécia receba mais um empréstimo de 12 bilhões de euros – que serão consumidos em poucos meses, em novos pagamentos de juros aos magnatas do sistema financeiro. Do contrário, o caos.

Em resposta, a convocação para ocupar a praça espalhou-se em horas pelo Facebook (veja fotos, em uma das páginas) e Twitter (#greekrevolution). Inspirados pelos indignados espanhóis, os jovens chamaram-se (em tradução para o inglês) the indignants of Syntagma Square. Mas além de Atenas, foram ocupados pontos centrais de Tessalonica, Patra, Larissa, Volos e Hania. Não houve acampamento: a multidão dissolveu-se na madrugada, mas o protesto foi reconvocado para as 18h desta quinta-feira (há cinco horas de diferença entre Brasília e Atenas) e já recomeçou – apesar da forte chuva. É possível acompanhar pela internet: aqui.

Grandes manifestações têm sido comuns na Grécia há um ano, desde que começaram a ser aplicadas as medidas “de austeridade”. Mas há características distintas, agora. A convocação não foi feita pelos partidos à esquerda, pelos sindicatos ou pelos coletivos anarquistas (que são fortes no país). Nas redes sociais, muitas mensagens declaram a opção pela não-violência. Um comentário no Facebook sustenta: “o governo sabe como lidar com os protestos convocados pela esquerda tradicional, mas está embaraçado conosco”.

É cedo para ser tão otimista, mas a situação é, de fato, mais delicada para o poder que na própria Espanha. Também a Grécia é governada por um Partido Socialista. Também lá, o governo curvou-se ao corte de direitos e desmonte dos serviços públicos “exigidos” pelo FMI e União Europeia (UE). Mas em Atenas, está claro que tal concessão leva apenas a novos sacrifícios, numa espiral empobrecedora cujo fundo ninguém conhece.

Como mostra texto de Luís Nagao em Outras Palavras, FMI e UE ofereceram, há exatos doze meses, um empréstimo de 110 bilhões de dólares à Grécia. Exigiram, como contrapartida, rebaixamento de salários, aumento da idade mínima para aposentadoria, redução dos benefícios, aumento de impostos.

O governo seguiu finalmente a receita. Os recursos foram rapidamente consumidos e o país está de novo à beira do abismo. A maior parte da população condena a penúria inútil. Mas o sistema político tradicional não parece oferecer rota de escape. Nem “socialistas”, nem a oposição conservadora são capazes de imaginar, para a Grécia, um cenário distinto do proposto pelas instituições financeiras. Os partidos de esquerda denunciam com vigor o capital, mas não avançam para a formulação de alternativas concretas. O impasse desconcerta a opinião pública.

Os jovens que se auto-convocaram poderão ir além? Seria possível desenhar, em resposta à crise grega, um conjunto de medidas claro, rapidamente exequível, e de fácil popularização? Neste caso, ele teria mais chances de conquistar a maioria da sociedade que as respostas anteriores? São perguntas ainda sem resposta.

De qualquer forma, duas coisas parecem claras. A Europa, que almeja nomear o próximo diretor do FMI é a região do mundo em que se praticam as piores políticas econômicas – e, por isso, a mais afundada em crise [leia nossa análise]. Porém, como notou há dias Pep Velenzuela, nosso correspondente em Barcelona, os jovens espanhóis traçaram uma linha na areia. Qualquer nova tentativa de impor ataque aos direitos sociais será recebida com povo nas ruas e praças tomadas.

*Antonio Martins é jornalista. Mora em São Paulo e é editor-chefe do site “Outras Palavras”.

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