O capítulo do MEC: ponta de um iceberg (anti) pedagógico

Por Gustavo Castañon (*)

O episódio do capítulo “Escrever é diferente de falar” se tornou instantaneamente um símbolo. Depois do alarmismo da mídia e das respostas das autoras, de seu mentor e o do MEC, é possível fazer uma análise mais equilibrada. E o resultado da minha é que a defesa apresentada da obra num primeiro momento foi paternalista, equivocada e insuficiente.

Num primeiro momento, procuraram apresentar os críticos (ABL, Cristóvam Buarque, Maria Clara Machado, Estadão, O Globo) como preconceituosos ignorantes que não conhecem a propriedade dinâmica da linguagem e participam do processo elitista de afirmação da língua culta (o Português) como forma superior de expressão.

Essa linha de defesa desmoronou em dois dias de debate. Era arrogante e preconceituosa. No segundo grau, aquele antigo, que ensinava, aprendemos que a língua é dinâmica. Não foi o desconhecimento dessa banalidade que causou a indignação de muitos cidadãos brasileiros, incluindo professores e acadêmicos.

Mas também a crítica a este capítulo tem sido conduzida de forma falha, e algumas vezes, mistificadora. Ao insistir que o “livro ensina a falar errado”, ela não torna claro que os grandes problemas do capítulo são sua cultura do ódio de classes e ineficiência didática (para os objetivos que as autoras dizem que tem…).

Resumidamente, o capítulo é criticável porque:

1) PROMOVE O ÓDIO DE CLASSES. Afirma textualmente: “A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão linguística, mas social” Além de mentirosa, essa passagem é um desserviço ao país. Como ela, há pelo menos mais três no capítulo. Mente, pois a razão da discriminação (não preconceito) contra quem não usa a norma culta é também linguística, principalmente num concurso público, entrevista ou tentativa de produção de um documento. Desserviço, porque incute no jovem a falsa ideia de que se ele é preterido numa entrevista de emprego para um cargo de jornalista em virtude de sua forma de se expressar, isso se dá somente em função do preconceito de seus opressores: a classe dominante. Português? Ora, português “culto” é a língua dos opressores.

2) IDEOLOGIZA O USO DA NORMA CULTA. Afirmar que a classe dominante usa a norma culta principalmente por ser um sinal de prestígio e escolaridade é uma bobagem que só serve à intenção básica de vitimizar o aluno e promover o ódio de classes. O uso da norma culta é uma necessidade civilizatória. É preciso manter uma unidade linguística mínima numa sociedade em aspectos como legislação, documentos oficiais, imprensa, comunicações científicas, produção de manuais de produtos, linguagem de softwares e muito mais. O fato de a língua ser dinâmica na verdade só aprofunda essa necessidade, e a alternativa a isso é a dissolução da identidade linguística de um país, a criação de guetos lingüísticos e a exclusão dramática, em médio prazo, de grandes setores da população dos processos de decisão.

3) NÃO CUMPRE PAPEL DIDÁTICO. Partir do conhecimento do aluno, reconhecer sua funcionalidade e a partir daí corrigí-lo em relação à norma culta, seria uma estratégia pedagógica construtivista. Mas correção de um aluno, para a autora e grande parte da pedagogia brasileira, é sinônimo de opressão e estigmatização. Como se não bastasse, não há no capítulo traço de preocupação com técnicas de ensino e não se organiza o material com base nas técnicas conhecidas pela Psicologia Cognitiva para facilitar a retenção do conteúdo. Isso não é novidade. O uso de técnicas de ensino com base nas Ciências Cognitivas é rejeitado pela ideologia pedagógica que hoje comanda o naufrágio da educação brasileira, é rotulado de “tecnicismo” e “opressão”, porque baseada na refutação científica do mito do ser humano tábula rasa sociologicamente construído. Noam Chomsky, o maior linguísta e um dos maiores cientistas vivos, para estas pessoas, é um “reacionário”, simplesmente porque sabe que o ser humano possui estruturas linguísticas inatas universais.

4) ENCARA A EDUCAÇÃO COMO PSICOTERAPIA. O discurso contra a correção e a avaliação se baseia na idéia de que elas são instrumentos de opressão social, já que não existiria a verdade. Assim, a noção de educação defendida no livro é de educação como psicoterapia. É como se o papel do professor fosse dizer: “Não se sinta inferior, o que você fala é tão correto quanto a forma culta, quem diz que não, é mau e quer oprimir você, te manter numa condição social inferior com essa história de certo e errado”. O pior disso tudo é que a psicoterapia promovida por esta cartilha do ressentimento é, como tudo o mais, ineficiente. Não se melhora a auto-estima da criança convencendo-a que ela é uma vítima, mas sim, dando a ela o que ela não tem: o poder do conhecimento, poder para se inserir no mundo. O que a escola brasileira hoje oferece é a formação em segundo grau sem saber escrever nem fazer conta. E um papel que não vale nada atestando onze anos de terapia mal sucedida.

5) CONFUNDE O ESTUDANTE. Não haveria nenhuma pertinência em introduzir debates sobre teses alternativas de linguística para estudantes que estão se alfabetizando. Como se não bastasse, dizer que só o preconceito determina que “variedade do português” ele deve utilizar em cada situação confunde mais que ensina. Se há acordo social da língua, certo (não moralmente, mas factualmente) é o que está acordado, errado é o que não está.

6) CONFUNDE CONOTAÇÃO COM DENOTAÇÃO. Há uma confusão no texto entre a apropriação poética da linguagem e o uso descritivo da linguagem. Não é considerado erro o uso inédito ou popular de palavras na poesia, porque a função da poesia é conotativa, o uso das palavras pode ser metafórico. Mas a função da prosa é predominantemente denotativa, descritiva, razão pela qual o uso da linguagem, principalmente no que tange a documentos e artigos acadêmicos, deve ser denotativo e submetido à regras “universais” (universo dos falantes da língua). O objetivo disso é o compartilhamento da informação em seu sentido preciso por todas as sub-comunidades (sub de parcial) linguísticas da sociedade.

7) CONFUNDE EFICÁCIA COMUNICATIVA COM ADEQUAÇÃO EM PORTUGUÊS. Dizer que “os menino pega o peixe” é tão válido para o Português como quaisquer outras sentenças que comunicam o mesmo significado, é confundir teoria da comunicação com gramática. De fato, como ato comunicativo a elocução é eficaz, pois transmite informação ao destinatário. Como sentença gramatical é simplesmente errada, pois não obedece as regras convencionadas da língua. E uma língua, para quem não sabe, é uma convenção social. Depois de estabelecida esta convenção oficialmente, sua forma oficial é um fato concreto, independente das crenças individuais.

Bem, agora os defensores deste material problemático tomaram o rumo de afirmar que ele é fruto de um processo republicano que passou pelo crivo de comissões de professores universitários de educação. Bem, não é republicano transformar instituições públicas em máquinas ideológicas. Mas mesmo que verdadeira, essa nova linha de defesa é, exatamente, a parte mais terrível desta tragédia. As ONGs e grupos de professores que controlam o processo da educação básica no MEC, em sua maioria, representam um setor hegemônico da pedagogia brasileira que há muito deixou até mesmo o construtivismo e Paulo Freire para trás, para se tornar somente, a pedagogia do ressentimento.

Todos esses problemas só estão vindo à tona porque a autora do livro foi imprudentemente sincera. Essa imprudência deu ao grande público, que não consegue acompanhar esse debate, um símbolo vivo e palpável da desgraça que percebe na escola pública brasileira, instituição que perdeu nos últimos vinte anos boa parte dos valores básicos da educação, considera os conceitos de certo e errado opressores, não avalia e escarnece da ciência e da verdade. Mas isso, é tema para outro artigo.

*Gustavo Arja Castañon é doutor em psicologia e leciona filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora.

3 replies »

  1. “A verdade é que se um estudante fizer cursinho ano após ano, uma hora ele passa, mas muitas pessoas com potencial podem ser desperdiçadas por não terem feito uma escola que proporcionasse o mínimo”, [Eles não prestaram vestibular, mas entraram na Unicamp, http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/eles+nao+prestaram+vestibular+mas+entraram+na+unicamp/n1596980560046.html#comentarios%5D

    Ou seja, o reito não defende qualquer exigência de se aprender nada, mas apenas que pague pré-vestibular. Num país em que se confessa abertamente crime educacional e ninguém vai preso, o resto é o resto.

    Curtir

  2. no Brasil, ser bandido, pobre e favelado é cultura, ser ignorante é cultura … falar errado, escrever errado e só fazer e falar besteira é cultura! Esse é o retrato do nosso governo altamente demoniocrático.

    Curtir

Comente sem medo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s