Por que o CRBE não funciona?

Por Rui Martins (*)

Berna (Suiça) – Até sábado, estarão ainda em Brasília os membros do CRBE, numa reunião de trabalho com o Itamaraty. Enquanto isso vai se formando uma bola de neve, na mídia emigrante contra a inoperância do CRBE, culpando-se os membros desse órgão com menos de seis meses.

Isso é fogo amigo ou friendly fire, na melhor das hipóteses é tiro n´água e não leva a nada. Pode mesmo ser crítica de candidato a conselheiro despeitado por não ter sido eleito.

A falha não está nos membros do CRBE, embora muitos possam enfiar a carapuça, mas na estrutura do próprio órgão. O CRBE foi criado para não funcionar e se funcionasse deveria ser beatificado por produzir milagres.

Prosseguindo no relato da última coluna, vamos mostrar porque o CRBE não pode funcionar e como seus membros trabalham de graça numa espécie de tortura contada na mitologia grega, aquela de ter de encher um tanque sem fundo.

Mas é claro, existem alguns membros do CRBE orgulhosos como o sapo que queria ser boi e irritados com a revista Época, por ter mostrado suas insignificantes preocupações. Como se não bastasse a impossibilidade de fazerem alguma coisa, a própria credibilidade do CRBE é agora posta em questão, ao se tornar público que um dos seus 16 membros é também funcionário de Consulado.

Por que não pode funcionar o tão falado e agora tão desprestigiado Conselho de representantes de emigrantes ? Primeiro, e principalmente, em decorrência do próprio Decreto que o criou, pois não passa de um órgão de assessoria, consultivo ou como diz a língua ferina do Samuel Saraiva, um órgão destinado a dar palpites. O terreno da política externa com tudo quando se passa no exterior é considerado pelo Itamaraty como sua « chasse gardé » como dizem os franceses, ou seja, é sua área exclusiva e ninguém pode mexer.

Quando o ex-presidente Lula quis criar alguma coisa para os emigrantes, embora seja o Ministério do Trabalho que tem feito mais coisas pelos emigrantes, os diplomatas do Itamaraty defenderam rapidamente seu território e colonizaram o espaço dos emigrantes. Faça-se um órgão para os emigrantes, mas secundário e sem força própria, sem possibilidade de decidir e discretamente tutelado como os deficientes e como eram os índios.

Uma prova – houve no dia 14 de fevereiro uma reunião de coordenação do Itamaraty com representantes de diversos ministérios e órgãos ligados ao governo para se discutir questões levantadas na III Conferência Brasileiros no Mundo e reivindicações constantes da chamada Ata Consolidada dos emigrantes. Só que… só que esse encontro foi sem se comunicar o CRBE e sem a presença (pelo menos) da direção do CRBE. Em outras palavras, na hora da coisa séria, dispensa-se a presença do CRBE porque quem decide mesmo é o Itamaraty através da Divisão das Comunidades Brasileiras, chefiada por um diplomata.

A outra prova, se refere à falta de recursos para poder fazer alguma coisa. Vejam bem, o CRBE tem 2 membros na Inglaterra, 1 na Bélgica e 1 na Espanha, representando a Europa. E, é claro, deveriam viajar e contatar as comunidadades brasileiras espalhadas pelo continente. Ora, a ordem é que se quiserem viajar que o façam com seu próprio dinheiro, porque de mordomia os membros frustrados do CRBE só têm duas viagens ao Brasil por ano com direito a hotel e comida. E nem têm mais o voo em classe executiva, foram rebaixados todos para a classe econômica.

É verdade, alguns podem viajar por conta própria por terem um trabalho independente e disporem de recursos. Os outros tentam se organizar pela Internet e se precisarem mesmo viajar vão procurar um voo low cost, barato, e dormir na casa de emigrantes. Disso decorre uma inegabilidade – os membros Vips podem viajar longe e, visitando emigrantes de outros países, estão assegurando mais votos nas próximas eleições. Como os membros pés de chinelo do CRBE não podem viajar, pode-se desde já prever a reeleição dos Vips e eleição de mais Vips, e assim o CRBE será o representante dos emigrantes abastados e não dos verdadeiros emigrantes, igual à época em que o Conselho de Cidadãos em Paris ou Londres, criado pelo ex-presidente FHC, tinha como representantes os diretores do Banco do Brasil, Varig e Vale do Rio Doce. Por certo para tomarem uísque e contarem piadas.

Mais uma prova ? Os 16 membros do CRBE vivem em regiões distantes e se comunicam por e-mails. Tirando-se os Vips, todos trabalham e não podem dedicar todo seu tempo aos emigrantes. Mesmo porque trabalham de graça, o que não ocorre com os responsáveis pelos serviços ligados à emigração do Itamaraty. Ou seja, são do segundo escalão, os peões do Itamaraty !

Qual a solução ? Só há uma – a criação de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes com um pequeno quadro de emigrantes em Brasília, onde vão trabalhar juntos todos os dias e com o direito de criarem normas, regulamentos, encontrarem ministros e o governo para decidir as questões ligadas aos emigrantes. E terão também alguns parlamentares emigrantes que irão ao Congresso criar leis em favor dos emigrantes. E um amplo Conselho de Emigrantes apresentará as reivindicações do emigrantes e vigiará seus representantes na Secretaria dos Emigrantes e no legislativo em Brasília.

Sem isso, tudo é só cena, festa, conversa mole e trabalho perdido dos emigrantes que acreditam no CRBE. Está na hora de se exigir do governo seja dado aos emigrantes o espaço sequestrado pelo Itamaraty.

*Rui Martins é jornalista.

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