Ulysses e Sarney

Por Laerte Braga (*)

José Ribamar de Araújo Costa já nasceu na política de seu estado, o Maranhão, com um adereço colonizado. O Sir Ney. Filho de Sarney de Araújo Costa e Kiola Ferreira de Araujo Costa. Incorporou o Sarney ao nome por ser conhecido o filho do sir Ney, o senhor Ney.

Coisas do Brasil.

Suplente de deputado federal em 1954 pelo antigo PSD rebelou-se contra a liderança do cacique Vitorino Freire e migrou para a UDN. Ali foi eleito deputado federal em 1958 e 1962. Fez parte de um grupo udenista denominado bossa nova que divergia da orientação geral do partido. O grupo tinha posturas de centro esquerda. Em 1964 José Sarney era um dos apoiadores do governo do presidente João Goulart até meio dia do dia 1º de abril. Ao perceber a vitória dos golpistas retirou a nota que havia lançado apoiando a legalidade (Goulart) e anunciou apoio aos militares.

Foi eleito governador do Estado em 1965, com o apoio do então ditador Castello Branco.

De lá para cá montou um império político no Maranhão escorado na mediocridade e na corrupção e beneficiado pelo regime militar ao qual serviu até o momento em que os ratos abandonaram o navio da ditadura, entre eles o próprio.

Foi senador, presidente do partido governista a ARENA, presidente do Senado, deitou ramas por todo o Maranhão, conferiu ao Estado a condição de capitania hereditária (a governadora atual é Roseana Sarney, sua filha).

A grande “virtude” de Sarney foi a capacidade de ouvir calado os berros dos ditadores (Figueiredo esculachou em termos brutais com Sarney e o colocou para fora do Palácio do Planalto) e o cinismo hipócrita com os eleitores maranhenses. Ou a violência típica dos coronéis políticos.

Presidente da República com a morte de Tancredo protagonizou um dos mais hilários (por isso mesmo trágico) governos da história do Brasil, num momento decisivo para o País, o do Congresso Nacional Constituinte.

O jornalista Millôr Fernandes quando tomou conhecimento da decisão do presidente de candidatar-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras reduziu seu romance BREJAL DOS GUAJÁS a pó, literalmente. Melhor escrevia no extinto JORNAL DO BRASIL onde possuía como ele denominava um “quadrado”.

Em visita a União Soviética encantou-se com as políticas de abertura de Gorbachev e ao regressar ao Brasil disse a jornalistas que “é o Gorbachev lá e eu aqui espargindo democracia”. Muita gente saiu da sala por “delicadeza” para ir rir lá fora.

Nos dias que se seguiram ao Plano Cruzado chamou Roberto Campos, então senador do PDS – que sucedeu a ARENA – e disse a ele que estava promovendo distribuição de renda. O senador, seu amigo e aliado, deu-lhe uma aula sobre distribuição de renda, deixou-o meditabundo sobre a asneira que havia dito.

Com a morte de Tancredo, pelos termos constitucionais, Ulysses Guimarães, presidente da Câmara, deveria assumir a presidência da República e convocar eleições no prazo de noventa dias ou pouco mais.

Os militares advertiram a Sarney e outros líderes políticos que não aceitariam nem a posse de Ulysses e muito menos a convocação de eleições diretas naquele momento. A grandeza de Ulysses (Sarney não tem a menor idéia do que seja isso) permitiu a ilegalidade como forma de evitar um novo general.

O porta-voz militar foi o próprio ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves.

Envolvido a partir daí, ele e a família (Roseana à época tinha ligações com o PC do B, ela e o marido Jorge Murad, aquele do milhão de dólares no escritório para a campanha presidencial da mulher) em trocas e futricas políticas e mergulhadas na mais profunda corrupção, para além da apropriação de dinheiro público, mas as estruturas do um império que se estende ao Amapá, José Sarney, um político medíocre, de quinta categoria, por obra e graça das troças e traças da história é hoje um dos personagens mais influentes do clube de amigos e inimigos cordiais (tem sede em Brasília, envolve Executivo, Legislativo e Judiciário).

Segundo sua biografia autorizada Ulysses Guimarães era “um político menor”.

Sarney é um verme.

Desconhece deliberadamente a trajetória de Ulysses Guimarães ao longo de todo o período militar. O papel fundamental exercido pelo presidente do antigo MDB e depois PMDB (a morte de Ulysses transformou o partido num pêndulo dos “negócios políticos no Brasil”).

Não tem a menor idéia do significado histórico de Ulisses Guimarães durante a luta contra a ditadura e nem sabe o que é isso, pois servia à ditadura.

Quando foi escolhido vice de Tancredo o foi por exclusão. Aureliano Chaves era o vice de Figueiredo, não poderia ser, e Marco Maciel, preferido de Ernesto Geisel (um dos principais apoiadores de Tancredo dentro das casernas) acabou declinando da indicação para fortalecer a adesão de nomes do PFL (dissidência do PDS partido governista), permitindo a Sarney trazer a quadrilha para assegurar a eleição de Tancredo.

Não era o preferido nem do candidato a presidente.

Tinha um mandato de quatro anos e comprou mais um no leilão costumeiro de boa parte de deputados e senadores no Congresso Nacional. Governou o Brasil por cinco anos, nos últimos trinta dias de seu governo uma taxa de inflação de 80% ao mês e no desespero de manter-se no poder inventou em pleno processo eleitoral a candidatura do apresentador e dono de rede de tevê Sílvio Santos, como tentativa de derrotar Collor de Mello, candidato apresentado por Washington para os novos tempos do neoliberalismo.

A abertura dos portos.

Aliado ao que há de pior na política brasileira é detentor de concessões de emissoras de rádio e tevê no Maranhão e retransmite a REDE GLOBO de televisão.

Com a crise no governo Collor foi ele Sarney que levou Itamar Franco, então vice do alagoano, à residência de Roberto Marinho, uma espécie de condestável da República, para assegurar que tudo continuaria como estava no que dizia respeito aos interesses da quadrilha Marinho. Só aí a GLOBO apoiou a luta das ruas, apoiou e começou a noticiar as passeatas de milhões pelo impedimento de Collor.

Os livros de História nos bancos escolares costumam ser sucintos quando se trata de figuras como Sarney. Vem lá presidente do Brasil ao fim do governo militar, era vice de Tancredo que faleceu e assumiu em seu lugar. “Autor do plano cruzado, cacique político do Maranhão”.

Quando se trata de brasileiros do porte de Ulysses Guimarães o versículo é maior. Principal líder político do principal partido de oposição à ditadura militar. Responsável por ações políticas concretas contra a barbárie do golpe de 1964. Enfrentou desde os cachorros da PM na Bahia a todo e qualquer obstáculo na busca do restabelecimento da democracia. E mais um monte de linhas com encômios e destaques para a coragem cívica de Ulysses que, como diz Ana Helena Tavares, foi o único político que o “mar aceitou”.

Dia desses, nos feriados de semana santa, quando é comum a exibição de filmes sobre a vida e a época de Cristo, assisti a QUO VADIS DOMINI, um clássico, onde Nero se imagina um grande poeta e um grande cantor.

Sarney não chega a ser um Nero, mesmo com o sofrimento imposto ao povo de seu estado principalmente, mas tem mania de ser poeta, escritor e como acontecia com Nero, é insuportável na literatura, como em tudo que faz.

Ulysses é o retrato do Brasil com moldura de caráter e dignidade. De coragem e determinação.

*Laerte Braga é jornalista.

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