Os grandes blefes

Por Laerte Braga (*)

Existem afirmações que são perfeitas. A do ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln. “Você pode enganar a uma pessoa por algum tempo. A muitas pessoas por muito tempo, mas não pode enganar a todas as pessoas por todo tempo”.

Cabe como uma luva em Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro. O episódio envolvendo os bombeiros, suas reivindicações de melhores salários e condições de trabalho jogaram por terra a máscara de bom menino e bom governador do amigo de Luciano Huck.

A primeira constatação é simples. Na ocupação de um quartel Cabral ouviu os comandantes da Polícia Militar sobre “indisciplina” e necessidade de providências para “restabelecer a ordem”. Não foi capaz de perceber – não percebe nada que não seja o que os marqueteiros mandam que seja percebido, ou o seu feeling de enganador – que policiais militares não falam, vociferam e são produto histórico de uma barbárie que vem desde os primórdios da independência.

Polícias militares com as características que se constituem no Brasil são uma anomalia. Exércitos estaduais, cheios de privilégios, com impunidade garantida para crimes, achaques, corrupção, etc. Não há um só governador de qualquer estado que tenha controle sobre essas bestas/feras. É só olhar o que aconteceu no Espírito Santo semana passada.

No afã de restabelecer a ordem o governador concordou com a invasão do quartel ocupado, a prisão de mais de 300 soldados do Corpo de Bombeiros e o Rio de Janeiro hoje, pela maioria absoluta dos seus cidadãos se espanta com a fraqueza do governador.

Um blefe é o que sempre foi. Não resistiria, além disso, a uma comissão de inquérito íntegra. Iria ornar uma cela em Bangu. Ele e seu amigo Luciano Huck. Poderiam apresentar até um show com um quadro do tipo vamos consertar e arrumar a sua cela.

Outro grande blefe é o ex-governador e senador mineiro Aécio Neves. Para começo de conversa, se Aécio for solto no centro de Belo Horizonte, capital de Minas, não vai saber onde está e para onde ir.

O tal choque de gestão no estado, que continua com o descalabro Antônio Anastasia (responsável que emenda à época que criou o tal índice para cálculo de aposentadorias prejudicando os aposentados e pensionistas no País, isso à época do Congresso Nacional Constituinte, quando era assessor dos que mais tarde viriam a ser os tucanos) está transformando Minas Gerais no paraíso dos grandes grupos econômicos, levando o estado a desastres ambientais irrecuperáveis, liquidando com a saúde pública, a educação, enfim, Aécio é puro marketing e é outro que caberia em Bangu sem problema algum se seu governo fosse investigado com o mínimo de isenção.

Aécio é o que é apenas por ser sobrinho de Tancredo e capitalizar a imagem de “moço bonito, solteiro e rico”, bem ao gosto da sociedade do espetáculo. Se pego de surpresa vai cair no lugar comum, tropeçar no “b”, depois de algum esforço para lembrar o “a”.

Hoje é uma espécie de reserva das forças de direita no Brasil para o caso de José Serra não conseguir emplacar sua terceira tentativa de chegar à presidência, isso em 2014.

Aécio já foi “comunista”, já recusou exame de bafômetro e outras coisas mais e segundo inconfidência da irmã em uma solenidade em Ouro Preto, à época que era governador, “se deixar por conta do Aecinho ele joga tudo fora”. Disse isso para justificar as notícias que circulavam com insistência nos bastidores, que Minas não tinha um governador, mas uma governadora, Andréa Neves.

Seria como que um Collor mais articulado, à medida que é capaz de sentar, ouvir e obedecer, ciente de suas limitações e dos lucros que isso traz. Collor, ao contrário, é um destemperado, se arrebentou nesse destempero.

Eu não imagino o que Sérgio Cabral vai fazer em relação aos bombeiros. Se vai atender ao clamor público e anistiá-los administrativa e criminalmente (a justiça militar estadual, em qualquer estado brasileiro, é algo como garantia de impunidade), ou se vai manter a inflexibilidade padrão BOPE, dos que rosnam o cumprimento da lei à luz do dia e sentam em cima da corrupção à falta de luz à noite.

É possível que alguém de bom senso proponha ao governador algum tipo de saída honrosa, aquela de ceder os anéis para não perder os dedos e isso acabe sendo a solução. De qualquer forma a máscara de bom rapaz caiu.

Aécio já é um caso diferente. Tomou uma trombada dentro do seu partido, José Serra voltou da Transilvânia para assumir o governo de São Paulo (o governador nominal é Geraldo Alckimin) e começar a organizar sua terceira investida presidencial. É outro blefe. Veio às pressas ao ser informado que a presidente Dilma Roussef poderia estar gravemente doente, situação que poderia gerar uma eleição complementar se algo viesse a acontecer antes de dois anos de exercício efetivo do mandato. Quebrou a cara, mas resolveu ficar por aqui e reconstruir o caminho.

Guardadas as devidas proporções lembra a campanha de Ademar de Barros, ex-governador de São Paulo, duas vezes derrotado para a presidência da República e que na segunda campanha tinha o seguinte slogan – “para a frente e para o alto na direção do Planalto” –.

Serra, de quebra refaz as finanças, o caixa de campanha com consultorias. A briga com Palloci é por negócios e não por princípios. Disputa feroz de máfias. “Nada pessoal, são só negócios”.

São três dos muitos grandes blefes da política brasileira. Os tais que parecem ser de uma cor, mas são de outra, ou de cor nenhuma, ou de todas, desde que o troco seja bom.

Sérgio Cabral não imaginava que o episódio envolvendo os bombeiros pudesse ter a repercussão que vem tendo. Nem que o Rio se transformasse simbolicamente em um estado de bombeiros. A última vez que um bombeiro se viu no noticiário foi envolvendo o mega empresário Eike Batista.

Ou estava desprevenido no momento da decisão, ou os marqueteiros estavam longe, ou a noite foi complicada e a ressaca impediu clareza nas decisões. Devia ter consultado Aécio ao invés das bestas/feras da PM. O mineiro, que mora no Rio, diria a ele que era melhor chamar Andréa, ela, certamente, saberia o que fazer.

Como no caso a Andréa de Cabral é uma advogada que legaliza situações ilegais junto ao governo do estado – a casa de Luciano Huck – a vaca foi para o brejo.

Blefe tem esse tipo de risco. O sujeito vai jogando, blefando, jogando blefando, até que num determinado momento achando que é possível blefar e iludir a todos se estrepa.

Cabral, Aécio e Serra são três grandes blefes.

Ah! Um detalhe a ser conferido. Como fabricou Collor de Mello o caçador de marajás em 1989, atentem para o fato, a GLOBO está executando um piloto para transformar Luciano Huck numa nova versão do alagoano. O ponto capital seria a pinta sexy de Angélica. Página central da PLAYBOY.

Um projeto guardado a sete chaves para a eventualidade de fracasso dos dois azarões postos em pista pesada. Aécio e Serra.

*Laerte Braga é jornalista e mantém no “Quem tem medo da democracia?” a coluna “Empodera Povo”.

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