Os bestializados de S. J. da Boa Vista

“Entre as elites, houve sem dúvida a sensação geral de libertação, que atingiu as mentalidades… não seria exagerado dizer que a saída da figura austera e patriarcal do velho imperador, que imprimia forte marca na elite e em setores mais amplos da população, significou a emancipação dos que seriam simbolicamente seus filhos… a mudança… trouxe uma febre de enriquecimento a todo custo”. (OS BESTIALIZADOS – O RIO DE JANEIRO E A REPÚBLICA QUE NÃO FOI).

Por Flavio de Souza Lima

Meninas e meninos, boas!

Acabo de ler no ABCDMAIOR e deu também na TV, que um adolescente de São Bernardo e seu pai, foram agredidos em São João da Boa Vista, no aprazível interior paulista, o motivo, como em quase toda a agressão, torpe, tosco, ridículo, dantesco, melancólico e estapafúrdio, como diria Dona Soledade, minha Professora de Língua Portuguesa no Grupo Escolar do Jardim Bom Pastor, FORAM CONFUNDIDOS COM GAYS!

Segundo testemunhas, os dois, acompanhados de suas respectivas namoradas mulheres, teriam ido ao banheiro, na saída, resolveram ceder um carinho de entes queridos e se abraçaram. Neste momento, uma malta de homofóbicos se sentiu ofendida em seu “direito de rinoceronte” e resolveu atacar. Bem triste! Não contente, um dos mamíferos (penso que seja apenas isso o que nos iguala) apagou que possui tele encéfalo desenvolvido e polegar opositor e se atirou feroz sobre o pai do menino, pespegando-lhe violenta dentada, arrancando uma orelha… chega!

Em “OS BESTIALIZADOS”, José Murilo de Carvalho debruça-se sobre os acontecimentos subsequentes à Proclamação da República. Sua análise tem como proscênio o Rio de Janeiro do início do século passado. Minunciosamente, professor ‘Zé’ Murilo vai desfiando um rosário que indica a “não participação” do povo na mudança de regime… o que para Aristides Lobo (republicano da época), teria sido um desapontamento: “O povo, que pelo ideário republicano deveria ter sido protagonista dos acontecimentos, assistiu a tudo bestializado, sem compreender o que se passava…”

Tomando emprestado um termo do próprio José Murilo, o povo poucas vezes se rebela contra a ESTADANIA, que para ele é uma espécie de cidadania “de cima pra baixo”. Na mentalidade brasileira, o peso de décadas de ditaduras, notadamente no século XX, nos fez esperar pelo ESTADO, pelas leis e depois delas, na truculência do braço armado da polícia para seguir. Não é assim com a lei anti-racismo, com a lei do tabagismo, com a lei Maria da Penha?!

Estes imbecis de S.J. da Boa Vista, estão espalhados entre nós, talvez precisem apenas de algumas doses para movê-los da covardia e acertarem o primeiro soco. Na história das mentalidades, aprendemos que usos e costumes não desaparecem apenas com leis, PELA LEI QUE TORNA HOMOFOBIA CRIME, SIM! Mas, como no caso do machismo e do racismo, temos muito ainda que fazer.

Na analogia medíocre que tentei empreender, a mudança da Monarquia para República, veio carregada de primícias de liberdade, entretanto, tal liberalidade deu, como se vê no livro de José Murilo, aos vários setores da elite brasileira a possibilidade maior de tomar posse dos recursos do Estado, situação que mudou pouco, até então. Para o povo, a mentalidade de “tutoria” do velho imperador foi perdida e ele se viu tendo que tomar decisões, o que delegou ao Congresso e ao Presidente.

Hoje, passados mais de 120 anos de trajetória republicana, o que temos? O povo vota em seus representantes por biênio, em muitos casos elege, para um Estado Laico que somos, gente comprometida com setores religiosos, por exemplo, que patrocinam marchas homofóbicas, satanizando pessoas com orientação sexual diferente… o resultado, o leitor pode depreender. Por isso, meninas e meninos, urge trabalhar e viver pela busca da tolerância de ver e incluir o outro, sob a ameaça de continuarmos tendo episódios como o do interior paulista. É isso.

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