O ovo da serpente

Por Flávio de Souza Lima*

Professor reflete sobre o ataque de direitista na Noruega
“Quando sair para uma vingança, abra duas covas”
Provérbio chinês

Há alguns anos, quando o trágico se abateu sobre Santa Catarina e a televisão exibia imagens de pessoas flageladas das águas, chamou minha atenção a tez alva e os olhos claros dos desabrigados. Num País em que pretos, pobres e mulatos pontuam sempre nas estatísticas de qualquer tragédia, na posição de algoz e vítima, ver gente de aparência nórdica perdendo tudo na hecatombe surpreendeu.

Em Oslo, na semana passada, o autor do crime lesa/humanidade me fez lembrar da enchente brasileira.Perto de completar uma década de quando o Ocidente se assombrou num setembro, a sanha de estadunidenses e eurocentristas por buscar culpados e cabeças com feições médio-orientais, tem produzido assassinatos de Estado, como o de Jean Charles de Menezes. Mas a violência não brota da suposta “natureza selvagem” de cada um, não; o ovo da serpente se acha chocando há muito, o 11/09 funcionou como uma espécie de “parteira” ou apenas precipitou a quebra da casca do ovo.

O atirador não é um simples fanático que escolheu descarregar sua incompatibilidade em conviver com frustrações e neurastenia sobre jovens campistas. Ao contrário, ele sabia muito bem contra quem despejava as rajadas. Para Anders Behring Breivik, os meninos da Ilha de Utoeya, filhos de membros combativos do progressista Partido Social Democrata, eram representantes da miscigenação, defensores dos imigrantes do norte da África ou de europeus considerados de “segunda linha”, como turcos, gregos ou portugueses, classificados como ameaça ao welfare state, perdido na crise do petróleo, do longínquo 1973. Em seu manifesto Frankenstein (colado de livros e artigos vários de gente chegada ao 3º Reich), divulgado na internet, o matador faz citações ao Brasil, nos criticando naquilo que temos de melhor, nossa alardeada mistura. Em suma, o rapaz de olhos azuis e madeixas loiras apertou o gatilho contra gente de madeixas loiras e olhos azuis! E agora?!

Entendamos, meninas e meninos, que os atos bárbaros, principalmente de 2001 até hoje, foram engendrados pela construção violenta de mundo que empreendemos. Passamos 10 anos alimentando o grande monstro que se criava: fabricamos homens-bomba, tantos, que já temos um “exército de reserva” deles; vibramos com a invasão e destruição de culturas e países inteiros; na busca frenética por culpados, apoiamos atirar ao mar, o corpo inerte de um conhecido criminoso, apenas para que não fosse venerado; aplaudimos interrogatórios clandestinos em obscura prisão do Caribe, em nome da democracia…

Agora, o susto. Não sabemos o que fazer com quem elimina quem luta pela pluralidade. Foram 10 anos a nos desumanizar.

Então, quando você for navegar pelo mar do norte e quando sair para espancar gays na Paulista, pense em Oslo, Oslo é aqui. É isso.

*Flávio de Souza Lima é profº da E.E. Profª Cynira Pires dos Santos, em São Bernardo, e redator do blog “Conterrâneoriundi” do www.abcdmaior.com.br Colabora com o “Quem tem medo da democracia?”

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