Vergonha que vem do Chile

Por Mario Augusto Jakobskind (*)

Do Chile, considerado pelos neoliberais como país modelo a ser seguido, vem um exemplo eloquente da baixeza em que se encontra hoje a política partidária. Na calada da noite, sem divulgação da informação pela televisão, rádio ou jornais, os senadores chilenos aprovaram autorizar a venda das sementes do país para a empresa estadunidense Monsanto.

A decisão dos senadores na prática enfraqueceu sobremaneira a soberania no Chile, porque a empresa semeadora de alimentos transgênicos pelo mundo afora terá a propriedade dos vegetais, frutas, verduras e hortaliças do país andino. Isso tem um nome: entreguismo deslavado.

A Monsanto, que vem sendo denunciada em várias partes do mundo pelos métodos que adota para alcançar seus objetivos, está de olho em outros países do continente latino-americano. Aqui no Brasil também vem conseguindo favores de um modo geral perniciosos ao meio ambiente e, segundo especialistas, à saúde da população com os transgênicos.

Na verdade, a Monsanto onde se instala provoca problemas em seu redor. Ilude alguns agricultores em um primeiro momento, que só percebem mais tarde terem sido vítimas de arapucas que muitas vezes os levam à falência, por acabarem na dependência absoluta da empresa multinacional. É claro que as autoridades locais, da mesma forma que os senadores chilenos, contribuem para o favorecimento da Monsanto, esquema que naturalmente tem um custo alto em matéria de propina.

É verdadeiramente incrível como senadores de um país como o Chile entregam suas sementes a uma empresa como a Monsanto. Lá, como aqui, para dourar a pílula da subserviência a interesses econômicos, os legisladores se valem da mídia de mercado, que silencia diante de um crime como o perpetuado contra o povo chileno. A Monsanto mexe e colhe $eu$ fruto$.

O mesmo mutismo alcança um caso envolvendo os indígenas mapuches. Quatro deles estão em greve de fome há mais de 80 dias. Eles denunciam o Estado que os condenou a penas entre 20 e 24 anos por violação à propriedade privada e um suposto ataque a um funcionário estatal. O processo contra eles se deu de forma totalmente irregular, com testemunhas secretas e teve por base a lei de segurança nacional promulgada durante os anos da ditadura de Augusto Pinochet.

Por falar em América do Sul e seu ramo do Pacífico, neste domingo os eleitores peruanos estarão elegendo o sucessor do atual Presidente Alan Garcia, um governante vinculado ao deus mercado.

Duas candidaturas estão disputando o segundo turno presidencial: Keiko Fujimori, filha do mafioso Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e corrupção, e o nacionalista Ollanta Humala. O esquema gangster representado por Keiko tem o apoio da mídia comercial e dos defensores do deus mercado, como Alan Garcia.

A patota do mercado, ou seja, fujimorista, estava há dias absolutamente convencida da vitória e chegava até a proclamar soberbamente que Keiko já estava eleita. Mas só que nas duas últimas semanas de campanha, o candidato Humala cresceu e está empatado tecnicamente com a candidata Fujimori, segundo as pesquisas. Um debate na televisão entre os dois candidatos nos últimos dias da campanha fortaleceu a candidatura Ollanta Humala, segundo analistas.

Sendo assim, fica difícil um prognóstico antecipado, ainda mais se sabendo que os institutos de pesquisas excluíram da consulta os eleitores da zona rural, a maioria favorável a Humala, e mesmo os votos de peruanos residentes no exterior, mais de 750 mil. Estes dois segmentos, segundo analistas, poderão decidir o resultado deste domingo. Os jovens atuando nas redes sociais contra Fujimori podem ter peso decisivo também. Oito por centos dos eleitores ainda estavam indecisos horas antes do pleito.

Ollanta Humala obteve apoio do conservador Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura, que mesmo divergindo do candidato nacionalista decidiu evitar o mal maior da bandidagem representada por Keiko Fujimori. Llosa protagonizou um fato raro na mídia ao impedir que os artigos que escreve no jornal espanhol El Pais fossem reproduzidos no El Comercio do Peru, porque o jornal transformou-se numa espécie de porta-voz do esquema Fujimori.

Para evitar que a história se repita mesmo como farsa, só resta aos peruanos darem a vitória a Ollanta Humala. O ex-presidente Alejandro Toledo também entendeu o momento e decidiu mudar de opinião, ou seja, em vez de não apoiar ninguém, como dizia inicialmente, passou a recomendar que seus eleitores do primeiro turno votassem em Ollanta Humala.

O Peru, em suma, decidirá se o governo a ser eleito continuará alinhado com o conservadorismo, juntamente com o esquema mafioso, ou se somará aos setores reformistas.

Enquanto isso, a novela Antonio Palocci se arrasta. Na última sexta-feira ele falou, falou, mas não esclareceu coisa alguma. Não seria o caso de o Ministro Chefe da Casa Civil se afastar até que o caso do seu enriquecimento em 20 vezes quando deputado fosse totalmente esclarecido pelo Ministério Público? Se Palocci se considera inocente e vítima de intrigas políticas, porque não tornar toda a história transparente, até porque quem não deve não teme. O governador da Bahia, Jacques Wagner e a senadora paranaense Gleisi Hofman, ambos do PT, se posicionaram não ao lado de Palocci. Então, porque enfraquecer o governo com a blindagem de Palocci?

Em tempo: o Governador Sérgio Cabral mostrou a sua face truculenta ao ordenar o Bope reprimir centenas de bombeiros, no Quartel general da corporação, que ganham salários de fome. Há testemunhas, uma delas a deputada estadual Jane Rocha, que revelaram como agiram de forma violenta e desnecessária as forças de Cabral. É isso, nestas horas de crise que os governantes mostram quem são.

*Mario Augusto Jakobskind é jornalista.

=> Artigo publicado originalmente no site “Direto da Redação”.

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