DSK: Socialista no campo do FMI

Por Mario Augusto Jakobskind (*)

Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional se deu mal. Ele foi acusado de atacar sexualmente uma camareira de um hotel em Nova York. Virou manchete em todo mundo. Até aí nada de novo no front financeiro, salvo quedas em algumas Bolsas de Valores. DSK, como é conhecido na França é (ou era) candidato do Partido Socialista à Presidência da República e seguia na frente das pesquisas. O incidente sexual parece que não surtiu efeito naquelas bandas e muitos franceses acreditam até que ele tenha sido vítima de um apronto.

Por incrível que pareça, até agora nenhum analista de plantão parou para discutir ou indagar o seguinte: que fenômeno é este que faz um dirigente do FMI sair candidato de um Partido Socialista? Isso independente de qualquer coisa. Já não se fazem socialistas como antigamente, como, por exemplo, um François Mitterrand, ou trata-se de um fato normal na era da globalização? A política se mediocrizou totalmente mesmo?

DSK vive de mordomias pelo mundo afora em defesa do capital financeiro. Tem hotel de luxo com diária de 3 mil dólares e classe A nas empresas aéreas. Ele apresentou para países europeus que estão na lona, como Portugal, Grécia, Irlanda receituário de arrocho com diminuição de salários dos servidores públicos, aumento do tempo de trabalho dos assalariados e grana para socorrer os que provocaram a crise. A receita de sempre.

Independente de se conjecturar se DSK foi vítima ou não de uma armadilha de uma camareira procedente da Guiné, é preciso mostrar à opinião pública toda a engrenagem que levou os países mencionados para a lona.

Se os franceses não percebem isso, cedo ou tarde vão perceber, independente do incidente sexual, o significado de um conto socialista que apresenta como candidato a Presidente alguém vindo do FMI.E mesmo que DSK tenha feito pronunciamentos, como aconteceu, que desagradaram ao mundo financeiro. Embora até não se descarte a possibilidade que no incidente sexual tenha dedo de Nicolas Sarkozy, este sim um subproduto do mundo medíocre da globalização, inclusive com fortes componentes mafiosos.

Enquanto isso, no Oriente Médio, na semana passada voltou a correr sangue, desta vez com a repressão do Exército israelense aos palestinos que protestavam nas fronteiras do Líbano e Síria contra o Dia da Nakba, quando o povo palestino lembra o que consideram a catástrofe representada pela criação do Estado de Israel em 1948. Doze pessoas morreram e tudo ficou por isso mesmo.

Nos EUA, aliadíssimo de Israel, não se discute o significado do Nakba e tudo que o governo israelense tem feito conta geralmente com o apoio da Casa Branca. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, qualquer resolução condenando Israel tem o veto de Washington, prevalecendo como sempre a impunidade.

De vez em quando Barack Obama fala uma ou outra coisa fora do esquema, como aconteceu na última quinta-feira em que se pronunciou a favor de um Estado Palestino com as fronteiras de 1967. Resta saber se o que Obama disse ficará apenas no discurso ou vai exigir que Israel recue na ocupação.

O premier Benyamin Netanyahu, que leva Israel ao isolamento, já respondeu dizendo que não recua e não aceita dialogar com o Hamas, agora unido com a outra facção palestina, o Fatah. O troglodita político Netanyahu está isolado internacionalmente, mesmo em Israel, onde 40 intelectuais e escritores, mais de 20 militares de alta patente, incluindo 18 generais da Reserva, entre outros,  publicaram no The New York Times um manifesto em favor do reconhecimento do Estado Palestino e defendendo um acordo sobre fronteiras, baseadas nas de 1967.

O jornalista israelense Gideon Levy, uma das poucas vozes independentes em seu país, em função dos acontecimentos, fez uma importante reflexão que serve para se entender melhor os acontecimentos atuais naquela área do planeta. Segundo ele, no dia seguinte à Independência, quando Israel estava “imerso quase que ad nauseam em loas a si mesmo e a sua democracia, e nas vésperas do (virtualmente fora da lei) Dia da Nakba” começava uma limpeza étnica, como demonstram as cifras. E a limpeza prosseguiu através dos tempos, no momento dos Acordos de Oslo, já no início da década de 90, Israel tinha revogado a residência de 140 mil palestinos da Cisjordânia, segundo revela outro jornalista, Akiva Eldar. Ou seja, 14% dos residentes da Cisjordânia que ousaram viajar ao exterior tiveram seu direito de retornar a Israel  negado. E, como afirma Gideon Levy: “foram expulsos de suas terras e de seus lares. Em outras palavras: limpeza étnica”.

O jornalista israelense não fez por menos e assinalou que “enquanto ainda estamos (os israelenses) desesperadamente ocultando, negando e reprimindo nossa principal limpeza étnica de 1948 – mais de 600.000 refugiados, alguns dos quais fugiram pelo temor às Forças Armadas de Israel e suas antecessoras, e outros que foram expulsos pela força – a realidade nos demonstra que 1948 nunca terminou e que seu espírito continua conosco”.

Gideon Levy não pode ser acusado de antissemita, como costumam fazer os sionistas aos que criticam a política levada a cabo por sucessivos governos de Israel.

A seguir neste diapasão, o banho de sangue continuará, sem perspectivas de finalização, até porque a impunidade acaba sempre prevalecendo.

Em tempo: Mais cedo do que se imaginava, Obama neste domingo mesmo já se corrigiu em relação ao que falou na quinta-feira. Em encontro com dirigentes da colonia  judaica estadunidense,  declarou que foi mal interpretado e que a sua proposta requer trocas de territórios entre os palestinos e israelenses e não apenas por parte de Israel. Obama assinalou que a proposta inclui uma troca mútua de territórios previamente. Pelo jeito, tudo continua como antes e a paz de Obama está mais próxima da paz dos cemitérios do que outra coisa.

*Mario Augusto Jakobskind é jornalista.

=> Artigo publicado originalmente no site “Direto da redação”

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