Poesia Política: Um cordel para Jango

Por Jetro Fagundes

Um dia esse Brasil fará justiça
ao seu presidente João Goulart
que enfrentou o ódio da cobiça
por ter feito um governo popular

Ele que nunca foi um comunista
enfrentou muitas campanhas hostis
pode até ter sido sim populista
porém só quis o bem pro seu país

Vento, tu que fazes ser tremulado
o lindo Lábaro estrelado da nação
que jamais haja golpe de Estado,
e que se respeite a Constituição

Que noites tenebrosas, escuras
sejam para quem ladra como os cães
Temos nojo e ódio à ditaduras
assim dizia Ulysses Guimarães

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João Goulart em visita a Nova York em 1962.
Foto: Biblioteca do Congresso – Washington
João Goulart

Por Jetro Fagundes*

Como, quando e porque
se depõe um presidente
I
Grande companheiro inseparável
confiável testemunha ocular
Vento tu te lembras do memorável
gaúcho presidente João Goulart ?

Ele que um dia foi afastado
da sua função presidencial
através dum golpe de Estado
de modo traiçoeiro e brutal

João Goular, chamado de Jango
filho da patria nem tão gentil
vem dos maragatos, dos chimangos
lá de São Borja, sul do Brasil

Surgiu num partido trabalhista
quando este tinha real valor
e apesar de ser corporativista
buscava defender trabalhador

Próspero estancieiro advogado
sendo eleito deputado federal
recebeu de Vargas o chamado
pra assumir pasta ministerial

Ministro do Trabalho preocupado
com o piso arrochado estarrecedor
concedeu um reajuste duplicado
no salário do povo trabalhador

E esse reajuste de salário
despertou o ódio irracional
em muitos militares reacionários
e em toda elite empresarial

Jango foi acusado de comunista
até mesmo no congresso nacional
por um certo histórico golpista
fascista tribuno dono de jornal

Já de olho no próximo pleito
o trabalhista pede demissão
e em cincoenta e cinco é eleito
vice presidente dessa nação

Duas vezes vice presidente
com JK e janio, manipulador
Jango, um político diferente
jamais se revelou conspirador

Quando Janio de mente lunática
num mega blefe veio renunciar
Jango em missão diplomática
da China foi impedido de voltar

Contra reacionários golpistas
João Goulart retorna ao Brasil
acatando Emenda Parlamentarista
pra evitar uma guerra civil

Fracassado o parlamentarismo
no Brasil tudo volta ao normal
no retorno ao presidencialismo,
regime republicano tradicional

João Goular, gaucho trabalhista
como presidente institucional
se aproximou dos socialistas
e muita gente do meio sindical

Ele que nunca foi um comunista
do tipo leitor de “O Capital”
mas era um patriota futurista
preocupado com o bem social

Vento, que conhece bem os fatos
Jango, do trabalho à educação
até o golpe de sessenta e quatro
buscou o melhor pra sua nação

E eu sei que tu ainda fazes
com tua capacidade espetacular
análises das Reformas de Bases
propostas por João Goulart

E se fossem postas em práticas
certamente que pela via legal,
teríamos uma nação democrática
com harmonia e justiça social

II

Vento meu mano revolucionário
Jango criou um abono salarial
famoso décimo terceiro salário
que se recebe próximo ao natal

Até o golpe de sessenta e quatro
ele visando a futura geração
tentou focalizar o seu mandato
na importante area da educação

Seu projeto educacional ousado
o Método Paulo Freire, genial
poucos anos depois foi plagiado
pelas quarteladas do Mobral

Conhecedor da situação fundiária
no drama dos trabalhadores rurais
ele quis fazer a Reforma Agrária
à principio em terras federais

É claro que a direita golpista
na base do primeiro de abril
dizia que jango era esquerdista
e que queria comunizar o Brasil

Mas foi a Reforma Tributária
que mexia até com multinacionais
que incitou a fúria reacionária
de empresários, coronéis, generais

Jango preocupado com a pobreza
testemunhada pelo céu cor de anil
propunha que o lucro das empresas
claro, fosse reinvestido no Brasil

Ele também quis mexer no imposto
na renda de quem ganhava mais
pena que acabou sendo deposto
por militares e donos de jornais

O presidente também foi atingido
pela direita católica-cristã
e pelo demônio dos Estados Unidos
visto na Operação Brother Sam

Atingido por mentira, inverdades
da fanática, famigerada TFP
na Tradição, Família, Propriedade
que buscava uma fatia do poder

E ao se interromper a trajetória
dum grande presidente do Brasil
o país perdeu o bonde da história
num mentiroso primeiro de abril

Vento, irmão dos manos caipiras
e de todo povo humilde batalhador
eu sei que tu detestas mentiras
e odeias manipulador, torturador

Mercedes das Corrientes e serras
foi ali que Jango veio a falecer
sentindo o cheiro da nossa terra
nas mãos da ultra direita volver

Injustiçado na Argentina exilado
proibido, impedido de retornar
sim foi assassinado, envenenado,
outro crime da ditadura militar

Um dia esse Brasil fará justiça
ao seu presidente João Goulart
que enfrentou o ódio da cobiça
por ter feito um governo popular

Ele que nunca foi um comunista
enfrentou muitas campanhas hostis
pode até ter sido sim populista
porém só quis o bem pro seu país

Vento, tu que fazes ser tremulado
o lindo Lábaro estrelado da nação
que jamais haja golpe de Estado,
e que se respeite a Constituição

Que noites tenebrosas, escuras
sejam para quem ladra como os cães
Temos nojo e ódio a ditaduras
assim dizia Ulysses Guimarães

*Jetro Fagundes,
Farinheiro Marajoara
Mantém o blog “Ventos que sopram do Marajó

História Política – 1964: A insônia dos golpistas

Por Gilson Caroni Filho Para continuar sendo exeqüível, é fundamental não ceder terreno. Reafirmar os princípios do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, cumprir as propostas aprovadas na Confecom, avançar na questão agrária e na manutenção do diálogo com os movimentos sociais são passos decisivos para construir uma nação moderna e organizada. Não fazê-lo é conviver com o permanente risco de retrocesso. E nunca é bom desconsiderar o aspecto trágico da História e o papel motriz da violência em sua caminhada. Os golpistas esperam o sono dos justos para lançar os dados do nosso destino. Não podemos dormir novamente.

Os golpistas esperam o sono dos justos para lançar os dados do nosso destino. Não podemos dormir novamente.

Por Gilson Caroni Filho (*)

Escrever sobre o golpe de Estado de 1964, passados 47 anos, não deixa de ser um trabalho de reconstituição que conserva toda a sua atualidade política no momento em que o sermão pelo esquecimento do passado, pelo desarmamento das vontades, continua sendo pregado pelas mesmas classes e grupos que apoiaram, e depois conduziram o regime autoritário. É bom lembrar que essas forças políticas romperam, na undécima hora, com o núcleo decisório da ditadura, forjando uma transição por alto, que desidratou todos os projetos políticos da oposição progressista.

Isso explica, como que, num passe de mágica, José Sarney, o presidente do PDS, após comandar no Parlamento a batalha contra as “Diretas-já”, tenha ressurgido como um dos líderes da redemocratização e candidato à vice-presidência na chapa de oposição junto a Tancredo Neves. Não estamos falando apenas de um projeto pessoal oportunista bem sucedido, mas da incrustação no próprio centro de decisões, de setores políticos e econômicos comprometidos com as concepções do regime político anterior. Não compreender as implicações desse processo nos dias de hoje pode levar a um voluntarismo pueril. Aceitá-lo como fato incontornável é uma resignação em tudo, e por tudo, pusilânime.

O golpe veio para barrar a emergência de um movimento de massas. Não foi para atingir personalidades, ainda que muitas delas tenham desempenhado um papel importante na abertura dos espaços para essa nova dinâmica, mas para conter o crescimento popular.

Como destacou Almino Afonso, ministro do Trabalho no governo João Goulart, o movimento tinha dois objetivos: “Primeiro, barrar o avanço dos movimentos sociais; segundo, impedir a tomada de consciência nacional que começava a esboçar uma linha de resistência internacional com uma nitidez nunca havida antes em nosso passado. Esses dois fatores confluíram gradualmente para um todo mais ou menos homogêneo e, embora não tivéssemos nem partido político para ser expressão desse despertar, nem lideranças claras para se converterem em porta-vozes desses novos atores, essa emergência foi suficientemente forte para alarmar os setores dirigentes do país e seus aliados internacionais, que se associaram na implantação da ditadura”( Folha de S. Paulo, 1/4/1984)

Numa retrospectiva das medidas tomadas naquela época, é impressionante ver, no governo de Jango, a quantidade de iniciativas que foram adotadas, projetadas e enviadas ao Congresso Nacional. Na sua totalidade é inequívoca a vontade de atacar os pilares da estrutura capitalista num país subdesenvolvido.

Disciplinou a remessa dos lucros das empresas estrangeiras, estabeleceu o monopólio da compra do petróleo, desapropriou as refinarias privadas, bem como os latifúndios improdutivos nas margens das rodovias, congelou os aluguéis e buscou o apoio dos sargentos, cabos e soldados, diretamente. Atacando a todos simultaneamente, João Goulart facilitou a aglutinação dos interesses econômicos contrariados em torno dos generais da direita, que chegaram a receber a garantia do Pentágono, conforme documentos divulgados em Washington.

A índole dos golpistas pôde ser apreciada desde os primeiros atos legislativos baixados. Seguiu-se a arrasadora repressão, ampla entrega do subsolo, compra pela União das empresas de serviços públicos pertencentes à Bond & Share (American Power) e depois os da Light, por preços absurdamente abaixo do valor de mercado. A corrupção generalizada nos negócios do Estado e a censura à imprensa – apesar do apoio do baronato do campo midiático – fizeram da noite dos generais a luxúria dos cartéis e grandes corporações.

Apesar de tudo, um fio de continuidade, transverso e denso, percorre a história desses anos. A história dos tempos de arbítrio é a história de uma crise feita de muitas dimensões: das sucessivas crises militares, dos esforços de Geisel e Figueiredo de usar a “abertura” como garantia do monopólio do poder a serviço do grande capital. É, no entanto, no crescimento do movimento popular – da luta pela anistia, da reabertura da UNE à criação do Partido dos Trabalhadores – que se avolumam os choques maiores e as contradições mais profundas do regime. Um ciclo se esgota, mas a história não se encerra. Mobilizar a vontade nacional, tendo como fundamento um pacto social mais justo e não excludente, em defesa da soberania nacional, da cultura brasileira, da sua integridade, visando a realização do bem comum é o projeto nacional posto em pauta desde 2003.

Para continuar sendo exeqüível, é fundamental não ceder terreno. Reafirmar os princípios do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, cumprir as propostas aprovadas na Confecom, avançar na questão agrária e na manutenção do diálogo com os movimentos sociais são passos decisivos para construir uma nação moderna e organizada. Não fazê-lo é conviver com o permanente risco de retrocesso. E nunca é bom desconsiderar o aspecto trágico da História e o papel motriz da violência em sua caminhada. Os golpistas esperam o sono dos justos para lançar os dados do nosso destino. Não podemos dormir novamente.

*Gilson Caroni Filho é sociólogo e mestre em ciências políticas. Mora no Rio de Janeiro, onde é professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). Tem traço cativo no site “Quem tem medo da democracia?”.

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