A quem interessa confundir doença mental e violência?

Por Pedro Alves A questão que vale no caso de Realengo, e que é a real, é a questão do doente mental e da juventude que não recebem o devido apoio no Brasil. O doente mental teve um tratamento deteriorado no pais, principalmente após a implantação da ditadura em 1964. Nomes como Nise da Silveira, médica psiquiatra, nascida em Maceió em 15 de fevereiro de 1905, falecendo em 30 de outubro de 1999, com 94 anos, no Rio de Janeiro, contribuiram significativamente para um melhor tratamento do doente mental no Brasil. Pela posse de livros marxistas, foi levada à prisão em 1936 no presídio da Frei Caneca por 18 meses. Neste presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos. Assim ela tornou-se um dos personagens do livro Memórias do Cárcere.

Por Pedro Alves, no site “Rede Democrática

A questão que vale no caso de Realengo, e que é a real, é a questão do doente mental e da juventude que não recebem o devido apoio no Brasil.

O doente mental teve um  tratamento deteriorado no pais, principalmente após a  implantação da ditadura em 1964.

Nomes como Nise da Silveira, médica psiquiatra, nascida em Maceió em 15 de fevereiro de 1905, falecendo em 30 de outubro de 1999, com 94 anos, no  Rio de Janeiro, contribuiram significativamente para um melhor tratamento do doente mental no Brasil.

Pela posse de livros marxistas, foi levada  à prisão em 1936 no presídio da Frei Caneca por 18 meses.

Neste presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos. Assim ela tornou-se um dos personagens do livro Memórias do Cárcere.

 Em 1944 é reintegrada ao serviço público e inicia seu trabalho no “Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II”, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde retoma sua luta contra as técnicas psiquiatricas que considera agressivas aos pacientes.

Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise da Silveira é transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim em 1946 funda nesta instituição a “Seção de Terapêutica Ocupacional”.

 Co-terapeuta
Co-terapeuta 
No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Foi uma pioneira na pesquisa das relações emocionais entre pacientes e animais, que costumava chamar de co-terapeutas.

Através do conjunto de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu e divulgou no Brasil a psicologia junguiana. Ela tem um vasto reconhecimento internacional com inúmeras obras publicadas.

Hospital Nacional dos Alienados

Hospital Nacional dos Alienados

A foto ao lado mostra o Hospício Nacional dos Alienados, na Praia da Saudade, Urca, Rio de Janeiro. O prédio foi iniciado em 1842 e inaugurado em 1852, como Hospital Pedro II,  imperador que deu apoio tendo em vista os  parentes que tinha: a mãe D. Maria I de Portugal, a Louca, e o pai, D. Pedro I, que sofria de epilepsia.

D. Maria I, levou a morte o seu filho primogênito, que  ela havia impedido de  vacinar contra a varíola, por motivos religiosos.

Em 1890 tomou o nome de Hospital dos Alienados e assim funcionou até 1944 quando os pacientes foram removidos da Praia Vermelha para o novo hospício construído no Engenho de Dentro.

O prédio passou a ser usado pela Reitoria da Universidade do Brasil, hoje UFRJ.

Esta mudança, colocando o doente mental mais distante das áreas nobres, saindo da Urca para o Engenho de Dentro, indica já a desvalorização dada ao tratamento ao doente mental.

Poderiamos, inclusive, dizer que o estudo cientifico, a Universidade, expulsou o doente mental para ocupar o seu lugar no final da década de 1940. O louco e o estudante, trocam assim de lugar.

Como também, mais tarde, em 1966 e 1968, a policia, não aceita as ebulições estudantis  por mais liberdade e mais avanços  e invadem a Universidade, impondo de novo a loucura no ambiente cientifico, que perdura até a década de 1980.

Loucura, ciencia e repressão disputam o mesmo terreno, um expulsando o outro. O Hospital Nacional dos Alienados é um exemplo tipico do nosso pais, retratando bem a nossa sociedade, onde se misturam problemas e soluções, passado e futuro, avanços e retrocessos.

Não é a toa que Wellington Menezes de Oliveira, em surto psicotico, volta a escola e realiza o massacre de crianças, que representam o futuro, para que não houvesse futuro nem para ele e nem para ninguém.

O ‘bullying’, prática importada,  nomeada culturalmente  seguindo a sociedade doente, esquizofrênica, norte-americana, pode não ter sido o único motivo que fez com que ele causasse o assassinato em massa, mas foi um deles, segundo a carta que ele mesmo escreveu e deixou.

Não pode a sociedade brasileira se deixar tornar refém da esquizofrenia  e das neuroses de guerra dos Estados Unidos e a prática absolutamente esdruxula em que um individuo que recebe o premio Nobel da Paz é hoje o Senhor da Guerra e, sabendo da posição brasileira de não atacar a Libia, é daqui que Obama manda bombardear, desrespeitando a nossa hospitalidade.

É impossivel deixar de ver alguma causa e efeito, por menor que seja.

O fato ocorrido em Realengo mostra o abandono dos nossos doentes e o abandono do nosso ensino e das nossas crianças, dos nossos jovens.

Só se fala em Wellington como assassino e não como doente, justamente para esconder o doente e o abandono da nossa juventude.

Entre os extremos da loucura, nos últimos 16 anos de governantes o que vimos foi um professor universitario, FHC, sucatear o ensino e um semianalfabeto, Lula, resgatar este mesmo ensino. Para evitar novas tragedias, Dilma tem que continuar este trabalho do Lula e fazer muito mais ainda.

Teremos tempo, nós e Dilma, para evitar uma nova tragedia e impedir que os apologistas da violencia, enrustidos em campanhas de desarmamento, desvirtuem a evolução da nossa juventude?

Cotidiano: Carta a amigos

Por Paula Cajaty O outono renova as folhas, as árvores vão trabalhando nisso. O tempo se amansa e já não é preciso resistir tanto, lutar a cada dia contra o calor, a chuva, os mosquitos, as notícias terríveis. O tempo vai passando, mudando, trazendo outros ventos. Óbvio que eu queria ligar, falar com cada um de vocês, como talvez tenhamos até chegado a combinar. Esses cafés e chopes que nunca se marcam. Mas sei bem, ou pelo menos imagino… Imagino tudo, os afazeres, os cansaços, os projetos tomando de assalto até os sonhos.

Por Paula Cajaty*

Queridos amigos,

O outono renova as folhas, as árvores vão trabalhando nisso. O tempo se amansa e já não é preciso resistir tanto, lutar a cada dia contra o calor, a chuva, os mosquitos, as notícias terríveis. O tempo vai passando, mudando, trazendo outros ventos. Óbvio que eu queria ligar, falar com cada um de vocês, como talvez tenhamos até chegado a combinar. Esses cafés e chopes que nunca se marcam. Mas sei bem, ou pelo menos imagino… Imagino tudo, os afazeres, os cansaços, os projetos tomando de assalto até os sonhos.

Na verdade, eu fico feliz, de verdade, só de saber de vocês, que estejam bem ou, talvez, melhorando de algum resfriado, que estejam colocando a vida do jeito que queriam. Pelas fotos, pelo Face, pelo Twitter, às vezes dá para notar (e agora passa longe o tempo em que vocês reclamavam comigo de alguma coisa qualquer, da mãe, do marido, das fraldas, do peso, da algazarra dos brinquedos na sala).

Meus novos trabalhos vão bem. Não que cultura seja assim tão lucrativa (nem que eu tenha um blog milionário) mas me sinto bem rica, sim, sempre cheia de amigos novos, aventuras emocionantes, novidades, desafios, projetos, parceiros de trabalho. Isso é o que mais importa, não é?

O desafio, o convite para apostar, às vezes consegue ser a parte mais deliciosa do que ganhar ou perder… Quase como um Can-Can, ou brincadeira de rolha à beira da piscina: quem ganha leva a tristeza de terminar o jogo.

Ainda sinto saudades, sim. Se é que vocês possam se perguntar isso.

Saudades do tempo curto, de fugir por um dia e encontrar por um dia, de matar aula num shopping, de fazer piada para quem está do outro lado do anfiteatro, de passar blecaute dentro de uma galeria antiga, de ouvir Yesterday num piano de rua, de comer yakisoba numa esquina, de se esconder dos transeuntes dentro de um fusca, de namorar baixinho no laboratório da faculdade, de fazer juras de amor no Theatro Municipal, de tomar susto em pega-pega no escuro, do carinho sempre passeando na ponta dos dedos, de se encontrar de repente no Twitter, ufa!, e, sobretudo, de poder olhar a lua como se a noite não terminasse nunca. E bem talvez não termine, porque essa noite perfeita – assim como tantas outras lembranças perfeitas – continua existindo comigo.

Apesar dos tantos outros amores que a gente vai tendo pelo caminho. Apesar de outras lembranças que vão se somando. Apesar de, às vezes, parecer que estamos tão sozinhos, tão perdidos e distantes. Pode deixar, eu guardo tudo.

Um amigo, uma vez, já me disse que às vezes é bom se perder, só para poder se encontrar de novo.

Acho que é por esse motivo, deve ser, o motivo por que há tempos deixei de me preocupar com o próprio tempo.

E fico feliz, bem feliz, quando ele muda.

*Paula Cajaty é escritora. 

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