Uma página infeliz de nossa história

O Brasil tem que fazer justiça e oferecer um mínimo de paz a todos os sobreviventes dos porões da ditadura, aos seus familiares e aos familiares dos mortos. Enterrados embaixo de imponentes quartéis ou sabe-se lá onde…

Por Ana Helena Tavares

A ditadura foi aqui. A dita branda que povoa a fantasia dos que hoje têm medo da verdade. Daqueles que hoje têm medo de que seus netos e bisnetos saibam letra por letra o que eles fizeram no milênio passado.

Aristóteles dizia que “o homem é um animal político”, mas até que ponto pode chegar o ser humano em nome de uma ideologia, acho que nem Freud em seus maiores delírios seria capaz de entender. E as atrocidades de determinados militares na época da ditadura foram, certamente, documentadas de forma bastante vasta. Dentro da caserna, havia pessoas com a única função de registrar aquela horrenda realidade em sabe-se lá quantas laudas. Muitos destes arquivos foram, provavelmente, destruídos ou pela ação do tempo ou pela ação humana, ambas implacáveis. Mas, seja nas mãos de militares ou de civis, não tenho dúvidas de que ainda hoje esta “página infeliz de nossa história”, que Chico e outros tantos narraram em prosa, verso e música, permanece também legível em anotações das mais diversas e documentos oficiais.

Vale lembrar também que a grande imprensa da época não publicou só versos de Camões e receitas de bolo. É claro que houve ainda os que preferiram emprestar seus carros de reportagem para os torturadores, mas, seja em jornalões ou publicações alternativas, é também considerável o número de jornalistas que conseguiu driblar bravamente a censura noticiando os fatos e opinando sobre eles de forma corajosa e competente.

Além disso, outra coisa que ainda nos resta – e isto para ser apagado precisaria muita gente morrer – é a memória de quem viveu o horror e resistiu a ele, a memória de seus familiares e dos familiares dos mortos.

Será que alguém poderá ser capaz de me dizer que é justo que, por exemplo, um sujeito que era conhecido como “Tenente Mata Rindo” continue rindo por aí, sabe-se lá rindo de que, mas solto – livre, leve e solto? É este tipo de gente que os comandantes militares de hoje defendem contra a “Comissão da Verdade”?

Eu tive parente torturado brutalmente e quase morto. O ano era 1969, AI-5 vigorando a pleno vapor e meu parente era um jovem como sou hoje. Naquele ano a caça aos comunistas, indiscriminadamente chamados de “terroristas”, estava a mil por hora. Luta armada, num regime de exceção, contra uma ditadura (que de branda nada teve), não pode de modo algum ser classificada como terrorismo. Seria quase como dizer que Tiradentes e os inconfidentes eram terroristas porque pegaram em armas para lutar contra a monarquia portuguesa. Mas obviamente que o militarismo imperialista não pensa assim.

Meu parente havia ido ao cinema e os militares – aqueles que, há quem diga, “não queriam o golpe” – provavelmente assistiram à sessão junto com ele, de tocaia. Ao sair, enquanto esperava o ônibus para voltar para casa, foi abordado e começaram a perguntar-lhe sobre questões políticas. Do alto de sua inocência, sem sequer imaginar o que se passava naquele momento, limitou-se a balançar a cabeça afirmativamente. Assim, lhe mostraram a carteira do DOPS (“Departamento de Ordem Política e Social”, nome pomposo para repressão) e lhe “convidaram” a entrar em um carro.

Era tão ingênuo que, perguntado a que grupo pertencia, disse pertencer a um grupo folclórico – e era verdade. Obviamente, acharam que era deboche. Mas não era. Ele não tinha envolvimento político com direita, esquerda, centro, nada! Tinha, sim, a infelicidade do destino de ser parecido com um comunista muito procurado e foi isso o que o fez ser seguido até o cinema.

Sem nada entender, antes de entrar no carro, disse ainda que precisava falar com sua mãe. Na cabeça, ele já trazia uma cicatriz profunda que os militares certamente fingiram não ver. A cicatriz se deve a uma lesão cerebral por atropelamento na infância, o que o levava a tomar remédios para controlar a epilepsia. Ele trazia estes medicamentos no bolso, sendo este mais um “motivo” para aqueles que buscavam “motivos” a qualquer preço. Em suma, resolveram “entender” que, além de comunista, ele era viciado.

Ele ficou cinco dias desaparecido. Encontrava-se nu, trancafiado numa cela com luz constante. Apanhou muito e conta que implorava para que não batessem em sua cabeça. Vão apelo de um inocente que recebeu choque elétrico e lavagem cerebral, agravando os problemas neurológicos que já tinha.

A família moveu céus e terras e conseguiu encontrá-lo graças, primeiramente, à intuição de sua mãe que pediu para que o procurassem no DOPS. Os militares negaram que ele estivesse lá, mas ela sabia que ele estava. Ela tanto bateu nesta tecla que um tio dele e um amigo da família conseguiram chegar a um alto funcionário do DOPS. Tio, amigo e alto funcionário, os três eram maçons e, naquele momento, foi o que os uniu. Não tenho conhecimento suficiente para fazer juízo de valor sobre a maçonaria, mas tenho a quase certeza de que sem ela jamais a inocência de meu parente teria sido provada e ele seria mais um para a larga estatística de mortos daquele período.

Ele sobreviveu sabe-se lá como. Mas ficaram seqüelas traumáticas visíveis. Por exemplo, quando ele hoje se depara com uma blitz, a primeira coisa que faz é pegar os documentos, se desespera sempre achando que vai ser preso e viver aquilo tudo de novo. Talvez esta preocupação se explique porque, naquela época, os militares, quando o libertaram, queriam a todo custo ficar com os documentos dele. Coisa que o trio também conseguiu impedir. Mas talvez ele ache que ainda ficou por aí algum registro. E vai convencê-lo… Só quem viveu o inferno e tem até hoje a sensação de impunidade sabe as razões pelas quais ainda não consegue se sentir seguro nas ruas deste país.

Quem agora é capaz de me convencer que aqueles militares que em nenhum momento deram chance de defesa a um inocente e fizeram com ele tudo o que fizeram merecem ser hoje vovôs que levam impunemente os seus netos à pracinha?!?!?! Pelo amor de Deus, algum dia o Brasil tem que fazer justiça e oferecer um mínimo de paz a todos os sobreviventes dos porões da ditadura, aos seus familiares e aos familiares dos mortos. Enterrados embaixo de imponentes quartéis ou sabe-se lá onde…

Tenho certeza de que quem estivesse no meu lugar também iria morrer pedindo justiça. E este sentimento é ainda maior por eu saber que não foi só com ele.

Se tem algo que salta aos olhos neste país é que nós ainda vivemos numa ditadura, uma ditadura disfarçada de democracia. Ainda há, sim, torturas. Torturas no campo, por exemplo, que a grande mídia sempre esconde. E isso talvez seja até mais complicado, pois não se vêem os capuzes e isso engana aos desavisados. Os desavisados que acreditam piamente numa grande mídia suja, os desavisados que acreditam cegamente num poder judiciário que de cego não tem nada, sabe muito bem para onde olha e continua restringindo-se à visão limitada.

No entanto, ainda que tenhamos que todo dia lutar contra isso tudo, em busca de uma democracia plena, o presente não é mais importante do que o passado neste caso. Enquanto nosso país não acertar contas com sua história, tal como já fizeram outros países da América Latina, não poderá se dizer um país democrático.

Hoje percebo que Lula já deveria ter feito isso há bem mais tempo. Agora que começou não dá pra deixar pro próximo milênio.

Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

Outros locais onde você pode encontrar este texto:

Editorial da “Idéias em revista” (revista do Sindicato dos Servidores da Justiça Federal)

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Sobre Casoy e os “xerifes da nação”

Diante das câmeras, a maioria dos apresentadores de telejornal vira um produto que precisa vender uma imagem de paladino da moral e dos bons costumes. Muitos confundem estúdio com delegacia e fazem uma cara de “xerifes da nação”. Tudo é uma vergonha menos eles.

Por Ana Helena Tavares

Afinal de contas quem é Boris Casoy? Não costumo ver a Band, praticamente não consigo mais ver televisão, mas é espantoso ver como um pequeno erro de áudio desmascara um jornalista. A ética não está em agirmos como pensamos somente quando estamos diante de um grande público. Ao contrário, ela está principalmente em agirmos como pensamos quando estamos sozinhos.

Diante das câmeras, a maioria dos apresentadores de telejornal vira um produto que precisa vender uma imagem de paladino da moral e dos bons costumes. Muitos confundem estúdio com delegacia e fazem uma cara de “xerifes da nação”. Tudo é uma vergonha menos eles. Resta saber o que é uma vergonha num mundo de tantas.

Nada justifica a falta de vergonha na cara. Mas que cara? Se é verdade que, em nome de linhas editoriais e até mesmo de padrões estéticos e comportamentais (de parcela da sociedade que dá IBOPE aos “xerifes”, pois sente-se amparada por eles), diante das câmeras, nenhum jornalista pode agir como pensa, parece-me translúcido o fato de que a declaração de Casoy sobre os garis demonstra o que ele verdadeiramente é. Dito isso, parece-me que ela é totalmente passível de processo por crime de intolerância de classes.

Boris Casoy falou quando pensava estar “às escondidas”, mas, em nome do pior dos tipos de corporativismo, há quem o defenda publicamente. Com os argumentos que eles têm apresentado, eu se fizesse parte da direção da Band começaria a ficar verdadeiramente preocupada com a dimensão do caso. Demitiria todos. A Band, porém, provavelmente os manterá lá, pois pensa igual a eles. E, nós brasileiros que pensamos diferente, temos nas mãos o controle remoto e uma chance única de repararmos, ao menos um pouco, o erro que é colocar uma classe fundamental como a dos garis à margem da sociedade.

Um dos artigos do abandonado Código de ética dos Jornalistas diz que “O jornalista não pode usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime.” Não é o que pensa Barbara Gancia que assinou hoje (08/01/2010) artigo na Folha de S. Paulo (local ideal para tal espetáculo) tentando defender o colega de emissora. No entanto, enganou-se absurdamente ao tentar confirmar as palavras de Casoy, de que os lixeiros são “o mais baixo na escala de trabalho”. Quem lê o artigo conclui que, para ela, isso se confirma porque, por exemplo, não há médicos entre eles.

Eu gostaria muito de entender o que é uma “escala do trabalho” para a tão afinada dupla de jornalistas. Partindo do artigo dela, em que, sem conseguir explicar onde está a piada, ela garante que “dois lixeiros desejando dinheiro para o novo ano é mesmo motivo de riso” (coisa que ela certamente não ousaria falar se eles ganhassem o que de fato o suor deles vale), então, conclui-se que estão no topo os que ganham mais. Ora, vejamos… Ronaldo “Fenômeno” está então no topo da escala do trabalho? Pensemos com cuidado de quem o mundo depende mais: dos jogadores de futebol ou dos lixeiros?

Ah, mas esperem, talvez “estar no topo da escala do trabalho” seja ter um diploma de médico. Ainda que fosse, como jornalista bem-informada, ela deveria estar ciente da quantidade de lixeiros com curso superior. Não possuo números, mas dou minha cara a tapa como existem médicos. Seria bonito, inclusive, se ao “lembrar” que “não há médicos entre os garis”, Barbara lembrasse também que o próprio Casoy não tem diploma de curso superior algum. Com a experiência adquirida que ele tem, isso não desqualifica nem a ele nem aos garis. O que desqualifica é o preconceito e nisso Barbara se superou, posto que tentou dar à declaração dele uma inacreditável sustentação.

Fico imaginando a felicidade, a sinceridade – e, mais do que isso, a provável ingenuidade – com que aqueles dois lixeiros fizeram aqueles votos de boas festas e não tenho como deixar de imaginar a decepção deles. Fico imaginando o que muitos âncoras televisivos devem ter comentado por detrás das câmeras sobre os recentes encontros de Lula com catadores de lixo e não tenho como deixar de imaginar que, perto do que ocorre diariamente nos bastidores da grande imprensa, o que Boris disse foi apenas uma gota num mar de lama.

Mas é melhor que eu fique só imaginando… Há coisas que não se publica onde crianças possam ler.

Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da “Revista Médio Paraíba” e editora/administradora do blog “Quem tem medo do Lula?”.

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