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Sobre militares ordeiros e desordeiros

Henrique Teixeira Lott e Rui Moreira Lima

Por Ana Helena Tavares*, em homenagem aos militares ordeiros, legalistas e patriotas do Brasil

O ministério da Defesa emitiu um documento infame e aviltante de “ordem do dia” para este 31 de março, dizendo que o “movimento de 64” foi um marco para a democracia brasileira. O general Hamilton Mourão, vice-presidente da República e aspirante à presidência, fez um post no Twitter exaltando a data, dizendo que as Forças Armadas enfrentaram a “desordem e a subversão”.

Estamos presenciando no Brasil, além da pandemia, um trabalho de negação da História que parte dos ocupantes dos mais altos postos do Estado. É muito preocupante imaginar o efeito disso para as próximas gerações.

Se as forças armadas estivessem mesmo preocupadas com “desordeiros” e “subversivos” jamais teriam permitido a chegada à presidência de Jair Messias Bolsonaro. Um militar altamente indisciplinado que foi preso na década de 80 por desordem e subversão. Um capitão desprezado por generais como Ernesto Geisel, que chamou Bolsonaro de “mau militar”.

A ditadura instalada em 64 elevou ao posto de “herói” torturadores sanguinários como Brilhante Ustra e arrancou a farda de militares ordeiros e dignos, como foi o caso do brigadeiro Rui Moreira Lima.

Na madrugada do dia 1º de abril, verdadeiro dia do golpe, Rui, que era coronel-aviador e comandante da base aérea de Santa Cruz, recebeu um telefonema de um ministro militar, muito exaltado, que gritou: “Passa logo o comando desta merda”.

Moreira Lima respondeu calmamente: “O Senhor pode achar que esta Base Aérea é uma merda, mas para mim não é. Agora, se o senhor disser que eu sou, aí eu fico à vontade e digo que o senhor é outra. O senhor venha aqui amanhã de manhã e faça aquele discurso bonito onde tinha dito que eu era o oficial padrão da FAB”.

Em seguida, Moreira Lima, herói da 2ª guerra mundial, que era tido pelos próprios golpistas como “oficial padrão da FAB”, foi preso. Com ele, toda uma geração de militares legalistas, ou seja, respeitadores das leis e defensores da Constituição, foi cassada, presa e perseguida por se opor ao golpe.

O marechal Henrique Teixeira Lott, por exemplo, que no Brasil é sinônimo de legalidade por ter garantido a posse de JK, morreu escanteado, em 1984, e não teve direito a honras militares em seu enterro. Vejam bem: um marechal.

Será que o capitão desordeiro e subversivo, alçado à presidência do Brasil usando a mentira como método, terá tais honras em seu enterro? O que é, então, honra? Fica a pergunta que o general Mourão não será capaz de responder.

*Ana Helena Tavares é jornalista, editora do site “Quem tem medo da democracia? É autora, entre outros, do livro “O problema é ter medo do medo – O que o medo da ditadura tem a dizer à democracia” (Revan, 2016), fruto de cinco anos de trabalho e no qual reúne 26 entrevistas com pessoas, das mais diversas áreas, inclusive cinco militares, que viveram a ditadura e foram atingidos por ela.

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