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Epidemiologista considera “surpreendente” evolução rápida da pandemia e defende isolamento horizontal

Mapa mostra os países atingidos pela pandemia até 18 de março. Fonte: Tecnologia/IG.

Por Ana Helena Tavares, jornalista

As estratégias de enfrentamento a pandemias são dinâmicas, alteráveis dependendo da experiência do momento. Mesmo no meio científico, há ainda muitas dúvidas sobre o novo coronavírus (Covid-19). E, dependendo das respostas que possam ser encontradas, a evolução pode surpreender e as estratégias podem mudar, exigindo, por exemplo, um maior ou menor grau de isolamento. Essa incerteza ocorre por vários fatores. Um deles é a característica mutável dos vírus em geral, como explica o médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa.

“Os vírus, como são estruturas simples e precisam de um hospedeiro para serem replicados, têm uma capacidade,) grande de sofrer alterações menores e mutações (alguns mais estáveis, outros menos. Neste caso podem passar a atacar diferentemente, com menor ou maior agressividade (virulência). É como se o vírus ao entrar na membrana desse uma mensagem química para o núcleo da célula hospedeira e dissesse assim: ‘faça outro igual a mim’. Ela vai buscar o material que tem e faz. Uma linhagem do vírus ao passar por células de populações diferentes, provoca um processo de resultado pouco previsível, que vai marcá-lo em termos de estrutura.

Esse fato permite, por exemplo, dizer empiricamente de onde veio um vírus, ele fica marcado pelo tipo de população pela qual ele está circulando. Permite comparativamente ver se o que circula no Brasil por exemplo teve origem na Itália ou nos Estados Unidos, mesmo sem saber onde a pessoa se infectou. Isso quer dizer que temos de acompanhá-lo para não sermos surpreendidos por mudanças mais significativas que possam aumentar ou diminuir a virulência. E, nosso tempo epidêmico atual, representa um período muito curto, podemos ter surpresas.

O fato de o problema ter começado no final de dezembro e já estar nessa dimensão foi surpreendente, mas comparável com a pandemia de gripe espanhola de 1918. Muito do que se antecipa hoje se baseia na experiência de então, inclusive na repercussão econômica. E também, as estratégias vão acompanhando esse legado. Nós temos muitas medidas de controle. Desejamos muito uma vacina, mas ela leva tempo para ser feita, dependendo de diversos fatores. Em menos de um ano, não vai ter (vacina)”, antecipa o médico.

A duração da imunidade de quem já pegou uma doença é fator importante para a produção de vacinas. É longa, dura muitos anos? Apesar de já terem surgido algumas notícias dando conta de que uma mesma pessoa contraiu a Covid-19 duas vezes em curto espaço de tempo, ainda não há consenso sobre se o tipo de vírus foi o mesmo.

“A maioria das doenças virais têm imunidade duradoura. Dengue não. Por isso, até hoje não se consegue vacina. Não é para qualquer coisa que você pode ter vacina. A imunidade duradoura é um elemento importante numa estratégia de longo prazo. No curto prazo, é menos importante, porque o que se busca é conter a epidemia. A gente sempre diz o seguinte: há uma fase de ataque. E o que é isso? É quando você concentra todos os esforços, fazendo uma varredura para controlar a situação. Depois tem a fase de consolidação. Depois tem a vigilância. Nessa etapa, as operações de contenção e bloqueio, associadas, à investigação epidemiológica dos casos, contribuem fortemente para a consolidação do controle efetivo. São mais ou menos essas as fases dentro de uma programação”, enumera o epidemiologista.

E se não tiver vacina, mas tiver medicamento? Nesse caso, o médico elucida que o fato de haver remédio “não diminui a transmissão”.

“E nós ainda vamos ter um complicador: as pessoas vão ficar mais tempo no hospital sob tratamento. Por isso, o medicamento, mesmo eficiente individualmente, é paliativo no controle da situação epidêmica”, esclarece.

O problema começou no final de dezembro na China. Por conta disso, muitas pessoas, incluindo o presidente dos EUA, Donald Trump, chamam o novo coronavírus de “vírus chinês”, nomenclatura considerada preconceituosa. Azeredo Costa lembra que países como o Brasil também têm o potencial de iniciar uma pandemia e que a China não forneceu ao mundo somente um vírus.

“O Brasil tem, na Amazônia, a maior riqueza de vírus desconhecidos do mundo. De vírus conhecidos, catalogados, são centenas. De repente, daqui a pouco pode saltar um vírus da Amazônia e atingir o mundo todo. A pandemia de gripe ‘espanhola’, por exemplo, parece ter se originado no Kansas, sul dos Estados Unidos, em 1918.

Uma coisa que a China fez, fantástica no meu ponto de vista, foi imediatamente identificar e decodificar o vírus. Chegar ao RNA dele, que é encapsulado e mostrar fornecer para todo o mundo com todas as suas características. Eles são altamente tecnológicos e rápidos, ao ponto de, ainda na primeira quinzena de janeiro, terem distribuído todos os dados, em vez de segurarem para depois ficarem donos de alguma coisa como arma ou como uma maneira de ganhar dinheiro.

A China mostrou que lá existe um pensamento de solidariedade diferente. O que eles estão dando para a gente não é só um vírus, mas os métodos diagnósticos, material para desenvolvimento e modos diferentes de fazer as coisas que nos levam a refletir perante os nossos”, assegura.

Na etapa atual, o Brasil está na chamada “fase de ataque” contra o novo coronavírus. Costa avalia que o isolamento horizontal, que abrange toda a população, é o melhor método para ser aplicado no momento.

“O isolamento e a quarentena são das coisas mais antigas que existem no controle de saúde pública. São instrumentos importantes. Na época da gripe espanhola, era a rigor a única medida disponível. Em cerca de dois anos, ela desapareceu. Era outro mundo. Mas ela também se alastrou por vários países, houve aqui também. Alastrou-se rapidamente, porque a transmissão era grande. E queimou como fogo de palha, porque ninguém tinha imunidade alguma. Essa também é uma questão que envolve a Covid-19. Nossa população não havia tido ainda contato com esse vírus ou qualquer outro  imunologicamente cruzado com ele, então se espalha muito rápido.”

Além do isolamento horizontal ou populacional, existe o isolamento vertical ou parcial, que engloba apenas casos de alto risco. Este se baseia na premissa de que a Covid-19 atinge fatalmente mais aos velhos. No entanto, na cidade do Rio de Janeiro, o maior número de infectados são jovens entre 30 e 40 anos.

“A estratégia populacional é sempre melhor, que é essa que está sendo feita (de isolamento horizontal). A de alto risco (vertical) é mais complexa e de efeito limitado. Há uma grande contribuição de um epidemiologista inglês, com quem estudei – Geoffrey Rose – demonstrando as grandes vantagens da estratégia populacional sobre as estratégias de risco. Com essa epidemia vemos, por exemplo, que a separação dos velhinhos, além de ser ineficaz para conter  a transmissão, pelos laços familiares, ofende a própria cultura. Assim, acho que nós estamos no caminho certo”, conclui, advertindo:

“Como a epidemia é dinâmica precisamos, três coisas mais: uma que já abordamos, é a disciplina social frente a situação – é melhor errarmos juntos do que nos separar (mesmo que possamos ter outras ideias, o que não é proibido e pode até ser o próximo passo coletivo), que fará todas as alternativas ineficazes. A segunda é a inteligência central ter um sistema de informações rápido e confiável, como vimos antes, a distribuição dos leitos de UTI está dissociada da distribuição da grande maioria da população, pela enorme concentração de renda do Brasil, e isso é um complicador operacional importante E a terceira, é assistência econômica e social na crise econômica que acompanha essa epidemia.”

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA EDUARDO AZEREDO COSTA E PARTE DE UMA SÉRIE DE MATÉRIAS QUE ESTÃO SENDO PUBLICADAS AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS. 

Categorias:Nova, Saúde pública

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