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O humano, o social, o epidemiológico. É preciso conciliar, alerta médico

Foto: REUTERS/Borut Zivulovic

Por Ana Helena Tavares, jornalista

“Uma coisa que eu tenho ouvido que eu discordo é, por exemplo, recentemente o ministro da saúde orientando a não deixar os filhos com os avós. Como não deixar com os avós? Quer dizer, ele está pensando, corretamente, que o idoso é mais vulnerável para ter o quadro grave. Entretanto, muitas famílias não têm onde deixar os filhos. Vão deixá-los sozinhos?” Com esse questionamento, o médico sanitarista Pedro Reginaldo Prata chama atenção para a importância de se levar em conta as consequências sociais e humanas, além dos aspectos epidemiológicos, quando se trata da imposição de quarentena para o enfrentamento de uma pandemia, como a de coronavírus (COVID-19).

“Se as crianças têm sintomas, sabendo que é coronavírus ou não, aí evita contato com o idoso, claro. Mas não é no genérico, todas as crianças. Não. O idoso vai ajudar a cuidar. Se não pode ir para a escola ou para a creche, as crianças têm que ficar em algum lugar. Ou os pais passam a ser liberados do trabalho, em turnos. Ou algum familiar vai ajudar, ou um vizinho. Até porque o idoso ficar isolado é muito deprimente para o idoso também. É preciso um balanço entre o humanamente possível, o socialmente possível, e o epidemiologicamente recomendável, que é dinâmico, porque depende do grau de evolução da doença.”

Quando o sanitarista chama de “dinâmico”, ele se refere ao fato de que as ações, a intervenção e a orientação no que diz respeito a uma pandemia podem mudar de acordo com os acontecimentos. Como consequência humana e social, essa característica instável gera o ambiente ideal para a proliferação do pânico. Mas esse cenário pode ser amenizado com a circulação de informações corretas.

“A única maneira de controlar uma epidemia propriamente dita é quando existe uma vacina. Não existindo vacina – acho que em breve vamos ter uma – a solução é tentar de fato bloquear os casos, ou seja, os contatos. E como fazer isso sem que as pessoas se assustem? Eu não tenho a fórmula.

Depende muito da repercussão, da velocidade da expansão. E nós estamos num mundo hoje de muita comunicação, de muita divulgação. É claro que imagens de pessoas com uniformes de proteção para casos mais graves (como a que ilustra esta matéria), sem dúvida nenhuma, aumentam o medo das pessoas e a insegurança.

É muito difícil a gente julgar sob o ponto de vista da reação das pessoas. A tendência das pessoas é ficarem alertas em situações de medo e insegurança. O papel da gente, da área de saúde pública, é observar o que está se passando e ver como agir, como controlar. O esclarecimento ajuda muito, sem dúvida.”, pontua Prata.

O SUS e a necessidade da colaboração de todos

“É extremamente desumano, triste, difícil, quando você não tem como atender”, salienta o médico, referindo-se, ao mesmo tempo, à incapacidade do sistema de saúde de dar conta da demanda e à responsabilidade que a sociedade tem de colaborar nestes momentos.

“Na realidade nossa, penso que a gente tem um sistema público deficiente na questão da facilidade do acesso, quantidade de profissionais… Tem uma precarização muito grande dessa mão de obra hoje em dia com a terceirização… E não existe uma uniformidade na padronização da atenção por causa dessa pulverização da municipalização com níveis diferentes de complexidade, de formação das pessoas. A gente tem um sistema muito menos integrado, tanto que o Ministério (da Saúde) acaba tendo uma função muito mais de orientação do que de determinação de ação. Isso pode fragilizar situações como essa (de pandemia).  

Acho que a gente não tem estrutura para dar conta de uma explosão expansiva de casos. Então, uma das alternativas que estamos tendo de testar para uma certa contenção – isso de evitar aglomerações, escolas, etc. – tem a possibilidade de reduzir a velocidade de expansão. Em todas as questões, nós temos que pensar em como se minimiza a possibilidade (de transmissão). Com o isolamento entre aspas – quando falo entre aspas é porque não se trata de um isolamento absoluto, mas de evitar multidões e de ficar mais em casa –  você libera as unidades de saúde, não sobrecarrega o sistema, e consegue tratar os casos graves quando surgirem, mesmo porque assim teremos menos casos graves. E as pessoas poderão ser atendidas”, avalia.

“A escolha de Sofia” e o “tratamento humano”

“Na profissão médica, uma das coisas que a gente é treinado, aprende e é muito duro, mas faz parte, é a definir prioridades. Se você tem 10 leitos e 15 pacientes, o que é mais grave, o que não é? E o que é grave mas você já sabe que não há possibilidade de cura? Nesse caso, você tem que fazer um tratamento humano, que alivie a pessoa, mas deixar seguir seu curso. Agora, se existe uma gravidade, que você sabe que tem possibilidade de cura, aquilo deve ter prioridade, para um tratamento intensivo, etc…

O médico é preparado para a atenção individual. Para tratar doentes e identificar a doença. Eu acho até que a qualidade da formação vem caindo. Ele deve estar preparado para identificar sinais e sintomas, principalmente – e esse é o desafio numa pandemia – identificar o que é grave. Na grande maioria dos casos, inclusive no caso desta (COVID-19), as pessoas vão ter o que seria um quadro gripal entre aspas e vão ficar boas. A questão é como identificar o que é grave ou está se agravando.

Isso exige conhecimento, experiência e uma capacidade de empatia humana muito grande. Ter que lidar com sentimentos, com famílias, com pessoas… A pior de todas as situações é as pessoas se sentirem desamparadas, abandonadas… Então, existe um caráter individual de atenção médica e um caráter coletivo, que é o que lida com os números. Todas as ações da epidemiologia, na verdade, são ações de saúde pública. Aí estamos tratando de como minimizar o impacto” conclui.

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA PEDRO REGINALDO PRATA E A TERCEIRA PARTE DE UMA TRILOGIA PUBLICADA AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS.

CLIQUE AQUI para assistir ao vídeo com a entrevista completa:

Primeira parte, sobre a responsabilidade social em tempos de pandemia: https://quemtemmedodademocracia.com/2020/03/16/medico-sanitarista-fala-sobre-a-responsabilidade-social-em-tempos-de-pandemia/

Segunda parte: “Governos do Brasil e dos EUA vivem da notícia mentirosa”: https://quemtemmedodademocracia.com/2020/03/17/governos-do-brasil-e-dos-eua-vivem-da-noticia-mentirosa-diz-sanitarista/

Categorias:Nova, Saúde pública

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