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A incômoda presença de Anitta, por Gilson Caroni Filho

vai malandra

Anitta durante cena do clipe “Vai, Malandra”

por Gilson Caroni Filho*

O que tinha para ser escrito sobre Anitta já foi. Alguns textos muito bem fundamentados. Outros, vindos de uma esquerda que se pensa vanguardista, lamentáveis. Valeu de tudo. Desde o uso de uma leitura funcionalista dos frankfurtianos sobre indústria cultural ao tradicional “nunca ouvi essa mulher”.

 

O conceito de cultura popular, muito bem problematizado por Chartier, foi mais uma vez banalizado por integrantes da academia, que pensam caber a eles definir o que é ou não autenticidade cultural. E dizer que, há décadas, Marilena Chauí escreveu um livro excelente desmontando esse maldito lugar de fala.

 

Outro ponto recorrente foi associação entre funk, tráfico e objetificação do corpo feminino. Que reducionismo preconceituoso! Todo gênero musical expressa as contradições do contexto em que é produzido. Seria interessante que os doutos pesquisassem a representação social da mulher no samba e na MPB.

 

Encontrarão o magistral Ataulfo Alves, em “Mulata Assanhada”, um negro evocando a volta da escravatura: “ai, me Deus,que bom seria/ se voltasse a escravidão/ eu pegava a escurinha/e prendia no meu coração”. Ou a visão idílica de Paulinho da Viola cantando que “vista assim do alto mais parece o céu no chão”. Dirão que é preciso contextualizar o tempo em que as músicas foram compostas. Falácia de ideólogos que não suportam ver abertas as veias de nossas diversas contradições simbólicas.

 

Mas por que Anita incomoda tanto? Porque os que condenaram o convite de Caetano para que ela se apresentasse na abertura dos jogos olímpicos tiveram que engolir a bela interpretação de ” Isso aqui é o que é” e de ” Sandálias de Prata”. Mas não parou por aí. A apresentação com Andrea Bocelli foi outro tapa na cara da classe média que, à direita e à esquerda, não consegue superar seus preconceitos de classe.

 

Anitta, gostem ou não, é guerreira antropofágica. Sabe, como poucos artistas, administrar sua carreira. Não esqueceu que a laje é sua raiz, mas nem por isso deixa de penetrar no mercado hispânico e, em breve, no estadunidense. Farão com ela o que, há 60 anos, fizeram com Carmem Miranda? Dirão que está americanizada? Não estou comparando cantoras, mas a repetição do mesmos ranços. Aqueles que, a pretexto de valorizar o que é nacional ou popular, tentam condenar à pobreza cantores e compositores.

 

São os mesmos que apoiaram a marcha contra a guitarra e tiveram que reconhecer a beleza de “Domingo no Parque” onde Gilberto Gil, mandou um belo “foda-se” para os puristas de plantão, cantou com os Mutantes, e compôs uma das mais belas músicas do nosso cancioneiro.

 

Os críticos de Anitta gostam de dizer que ela reafirma valores misóginos, conformistas e que faz o jogo da indústria cultural. Pois bem, ela mostra uma bunda longe dos padrões idealizados pelo patriarcalismo como quem diz “é minha, não é seu espaço de dominação”.

 

Sobre “fazer o jogo da indústria cultural” o cinismo dá a mão à indigência analítica. Qualquer produção simbólica em país capitalista dela não escapa. Ou não sabem que a mercantilização de tudo é a marca deste modo de produção?

 

Anitta, ignore esse lixo. Vai ganhar dinheiro, mulher!  Prossiga na sua saga tropicalista! Vai, malandra linda!

 

*Gilson Caroni Filho é professor de sociologia. Artigo originalmente publicado no site GGN, de Luis Nassif.

 

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