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Dom Pedro Casaldáliga conversa com Deus sobre como Temer foi parar lá

BRASÍLIA: A SODOMA E GOMORRA DE PINDORAMA

Por José Ribamar Bessa, em seu site

No mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) soltou o deputado Rocha Loures (PMDB, vixe vixe) e negou o pedido de prisão do senador Aécio Neves (PSDB vixe vixe), o Criador do Universo, escoltado por um querubim e um serafim, apareceu a Dom Pedro Casaldáliga, de 89 anos. O bispo emérito de São Félix do Araguaia descansava às margens do rio Xingu, na área alagada da Cachoeira do Limão, debaixo da última árvore que sobreviveu ao desmatamento da Hidrelétrica de Belo Monte. Levantou os olhos e prostrou-se descalço sobre a terra vermelha diante da face divina:

– Vou buscar um pouco de água para lavar vossos pés – disse o bispo, debilitado pelo mal de Parkinson. Deslocou-se em sua cadeira de rodas e pediu ao padre agostiniano José de Jesus Saraiva, que é seu enfermeiro:

– Traz água. Prepara farinha de mandioca, beiju e aquela quinhapira do Tiquié, lá do Rio Negro, aquela feita pela sogra do Nazareno.

Ofereceu aos visitantes peixe e vinho de buriti. O serafim pediu pimenta murupi. O querubim, malagueta. Enquanto os dois “seguranças” angelicais saboreavam a quinhapira dos deuses, Dom Pedro indagou:

– Senhor, o presidente Michel Temer declarou em cadeia nacional de televisão: “Não sei como Deus me colocou aqui”. Senhor, está é a pergunta que fazem 200 milhões de brasileiros e a primeira-ministra Erna Solberg, da Noruega (ou será da Suécia?). Por que, Senhor, Vós lá o colocastes, envergonhando-nos diante de nós mesmos e do mundo? Além de corrupto, ele é medíocre.

Foi aí que o Senhor Deus dos Exércitos abriu o jogo:

– Pedro, me inclui fora dessa. Isso não é obra minha, mas de Lúcifer, o capiroto, que confessou em delação premiada ter agido em conluio com o pato da Fiesp. Por isso, estou aqui. Acaso poderei ocultar-te o que vou fazer? Tal qual Sodoma e Gomorra, é imenso o clamor que se eleva do Brasil. O pecado é grande. Muita corrupção: gente embolsando recursos da saúde, da educação, da cultura, da merenda escolar. Uma quadrilha, que tomou de assalto os poderes de Estado, comete crimes que bradam aos céus e pedem a Deus vingança.

– E o que ide vós fazer contra esses crimes sem castigo? – perguntou o bispo.

– Eis que é chegada a hora do ajuste de contas. Estou mandando os anjos conferirem. Se for verdade, ai de ti, Brasil! Os quatro cavaleiros do Apocalipse trarão fome, desemprego, doenças e morte. Fogo e enxofre cairão do céu. A lama da Mineradora Samarco que jorrou com o rompimento da barragem de Mariana e destruiu casas, árvores, pássaros, peixes, envenenou os rios, matou gente e animais, na maior catástrofe ambiental do Brasil, vai parecer café pequeno.

O bispo do Araguaia, com seu chapéu de palha e seu anel de tucum que substituíram a mitra e o ouro, implorou:

– Senhor, não destruais o Brasil. Os inocentes não podem pagar pelos pecadores. Castigai apenas os ímpios. Preservai os justos: são milhões de brasileiros conscientes e honestos. Fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis o país em atenção a essas pessoas?

O Senhor respondeu:

Ego accípior. Se encontrares em Brasília 50 homens justos, eleitos pelo povo, incluindo aí juízes do Supremo Tribunal Federal, ministros e ocupantes do Palácio do Jaburu, em atenção a eles, pouparei o país da destruição.

Dom Pedro fez as contas nos dedos, calculando, excluiu Jucá, Renan, Gilmar Mendes, Toffoli, Marco Aurélio, Alexandre de Moraes, Temer. O bispo tremeu nas bases e negociou:

–  Excelência, não me leveis a mal, se ainda ouso falar-Vos, embora seja eu pó e cinza. Se porventura faltar dez aos 50 justos, fareis perecer todo o país por causa desses dez?

O Senhor respondeu, tratando com a maior intimidade o bispo a quem muito amava:
– Fica frio, Pedro. Não destruirei o Brasil, se em Brasília forem encontrados 40 homens justos hoje no poder.

Dom Pedro voltou a contar. Foi excluindo um a um: deputados, senadores, juízes, ministros. Barganhou como um camelô da rua Uruguaiana:

– Rogo-vos, Senhor, que não vos irriteis se eu insisto ainda! Talvez só se encontrem 30 justos.

Deus, que não é besta, contou também nos seus dedos e desafiou:
– Se encontrarmos 30 políticos ou juízes incorruptíveis em Brasília, salvo o país inteiro.

Dom Pedro, que também não é leso, pediu as pastas do arquivo do Centro de Defesa dos Direitos Humanos para ali pesquisar os recortes de jornais e ponderou:

– Desculpai, se ouso continuar enchendo – com todo respeito – o Vosso divinal saco e torrando Vossa celestial paciência. Pode ser que só se encontrem 20, um deles já está em nossa lista, é o juiz Herman Benjamin.

– Tudo bem, Pedro.  Me diz quais são os outros e em atenção à tua coragem e aos 20 homens públicos honrados, não destruirei o Brasil.

Dom Pedro buscava os nomes, mas só encontrou Aécio, “o Mineirinho”, jamais preso apesar de ter suas trapaças fartamente documentadas; Rocha Loures, o homem da mala de dinheiro do Temer, agora solto; as falcatruas do Moreira Franco, o “Angorá”, e do Cunha; o cinismo de Gilmar Mendes libertando Eike Batista e de Marco Aurélio devolvendo o mandato a Aécio; visualizou – ai! – José Serra e – ai, ai –  Geraldo Alckmin, absolutamente impunes. O bispo pediu, então, à CNBB verificar na sessão plenária da Câmara dos Deputados do dia 30 de julho. Às 9h30, o único parlamentar solitário que lá estava era Celso Jacob (PMDB-RJ), preso por falsificação de documentos e dispensa indevida de licitação e autorizado a sair da prisão e a ela retornar depois de poder votar medidas sobre o destino dos brasileiros. Dom Pedro, derrotado, replicou:

– Senhorzinho de minh’alma. Não se irrite se falo ainda uma última vez! Que será se forem encontrados apenas 10 homens públicos honrados?

Deus respondeu sem pestanejar:

– Negócio fechado. Ainda assim não destruirei o Brasil por causa desses dez.

Nesse exato momento, os anjos, a quem tentaram subornar com propinas, já haviam feito suas contas. Chamaram o povo para as ruas e disseram a todas as pessoas decentes:

– Levantai-vos. É preciso sair de vossa apatia e desânimo, porque do contrário o Senhor vai destruir o Brasil. Ganhai as ruas. Manifestai vosso protesto e batei panelas. Panelas não são monopólio do pato da Fiesp. Batei panelas. Nada de olhar para trás, para não virar estátua de sal.

Foi aí, então, que a população descobriu, enfim, que quem colocou Temer no Jaburu e lá o mantém não foi Deus, mas nossa própria inércia política. E que ele só sai de lá se for retirado pela mobilização popular.

De todos os rincões do Brasil, ouviu-se um coro de vozes:
– Assim seja. Amém, Jesus! Aleluia, peixe no prato, farinha na cuia.

Houve queda na Bolsa de Nova York com repercussão na Sacola de Brasília. Siempre es posible la utopia.

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