Política

Lulismo seduz América Latina, mas é difícil de copiar

Na imagem, Lula aparece ao lado de ex-presidente de Gana. Os dois foram laureados recentemente com um prestigiado prêmio internacional pela contribuição no combate à fome.

Abaixo, análise publicada pelo “Diário de S. Paulo” sobre a sedução do “Lulismo”

Foi uma peregrinação política que não surpreendeu ninguém. Poucos dias depois de ser eleito presidente do Peru, Ollanta Humala viajou ao Brasil para aprender mais a respeito do sucesso do país na última década, e também para visitar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que inspirou o próprio Humala em sua trajetória da esquerda radical para o centro do espectro político.

A vitória eleitoral de Humala foi mais um sinal da propagação internacional da receita adotada por Lula, que mistura políticas de mercado e programas sociais para os pobres, e que é vista como responsável por transformar o Brasil em uma potência econômica. É o chamado Consenso de Brasília, ou simplesmente lulismo.

O ex-sindicalista estabeleceu uma invejável fórmula eleitoral ao conseguir impressionantes avanços no combate à pobreza durante seus oito anos no poder, mas sem desagradar os banqueiros de Wall Street, e elevando o Brasil e seu grande mercado à mesma estatura de potências emergentes como China e Índia.

Em 2009, o esquerdista Mauricio Funes conquistou a presidência de El Salvador à frente de um partido formado por ex-guerrilheiros marxistas, ao convencer suficientes eleitores de classe média de que ele se inspirava mais em Lula do que no venezuelano Hugo Chávez.

Na América do Sul, vários líderes trilharam o caminho do lulismo. O caso mais notável é o de José “Pepe” Mujica, ex-guerrilheiro eleito em 2009 para a presidência do Uruguai.

O paraguaio Fernando Lugo também se esquivou de copiar políticas esquerdistas mais radicais desde sua eleição, em 2008.

Hoje em dia, citar Lula como modelo é uma manobra política inteligente para qualquer candidato esquerdista latino-americano desejoso de afastar uma imagem de radical junto ao eleitorado.

“O Brasil é a estrela guia, a referência para muitos governos como um exemplo de sucesso”, disse Michael Shifter, presidente da entidade Diálogo Interamericano, de Washington.

“Há vastas diferenças entre o Brasil e outros países latino-americanos, mas parece haver uma fórmula, um consenso que tem produzido resultados reais.”

FALAR É FÁCIL

Mas copiar a fórmula lulista pode ser mais fácil na teoria do que na prática — algo que Humala talvez perceba nos próximos meses.

Os dois mandatos de Lula — que terminaram em 1o de janeiro, com a posse de sua apadrinhada Dilma Rousseff — foram construídos com base em uma longa transição do PT até o centro do espectro político, de um “boom” no preço global das commodities e do carisma pessoal do próprio Lula.

Já a adesão de Humala às políticas de centro-esquerda é bem posterior, e seu partido não tem a mesma força institucional do PT. O Peru, que vem de governos anteriores de centro-direita, alinhados com países como Chile, Colômbia e México, tem um orçamento público pequeno, o que limita sua capacidade de ajudar populações carentes em áreas pobres e/ou rurais.

“Qualquer emulação enfrentará sérias limitações”, disse Matias Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

“Isto posto, o que Humala parece estar fazendo é perceber que há uma mensagem para os partidos progressistas na região, de que você precisa de estabilidade financeira com algum grau de redistribuição (de renda). Não se trata de as pessoas irem às ruas combaterem a velha elite, trata-se de uma redistribuição em níveis mínimos.”

O próprio Lula saudou a vitória de Humala como um passo adiante para a esquerda progressista na América Latina, na qual ele incluiu o socialista Chávez e seus principais discípulos — o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.

LULA OU CHÁVEZ?

Mas há uma clara e tradicional divisão entre o chavismo, com seu estilo radical e de embate frontal contra os EUA, e o lulismo, mais moderado. E ultimamente este vem se sobrepondo àquele.

Nos países chavistas, a economia tem enfrentado dificuldades. A Venezuela tem sido incapaz de domar sua inflação na casa dos dois dígitos anuais, e seu crescimento econômico é oscilante. O setor privado encolheu, empresas nacionalizadas apresentam mau desempenho, e há frequente escassez de produtos básicos.

Chávez também vem perdendo o apoio entre cidadãos comuns da América Latina nos últimos anos por causa de políticas agressivas, como ao ameaçar o controle dos meios de comunicação, segundo Yehude Simon, um ex-esquerdista que atuou como primeiro-ministro no governo do conservador Alan García, atual presidente do Peru.

“O Chávez de 2006 não é nada em comparação ao Chávez de 2011. Ele cometeu uma série de erros”, disse ele. “Chávez pode ser muito amistoso e charmoso, mas às vezes é muito autoritário.”

No Peru, Humala aproveitou-se repetidamente de táticas eleitorais de Lula, chegando inclusive a contratar dois experientes quadros do PT – Luis Favre e Valdemir Garreta – para ajudar no comando da sua campanha.

Eles aconselharam Humala — derrotado por uma estreita margem na eleição de 2006, quando apresentou uma plataforma ultranacionalista que assustou investidores — a apresentar uma “carta ao povo peruano” em que se comprometia a combater a inflação e manter o equilíbrio fiscal.

Foi a mesma coisa que Lula fizera em 2002 na sua “Carta ao Povo Brasileiro”, um marco na sua conversão da esquerda radical para o centro político, após três derrotas sucessivas na disputa para o Planalto.

Humala também se propõe a copiar outro pilar do lulismo, as políticas de distribuição de renda que, no Brasil, ajudaram a tirar milhões de pessoas da pobreza e a criar uma vibrante classe média.

INFLUÊNCIA CHINESA

O futuro presidente peruano propôs taxar os lucros das grandes mineradoras para financiar um fundo que ajude os peruanos pobres, que são um terço da população. Críticos dizem, no entanto, que esse modelo só irá funcionar enquanto o preço das matérias-primas continuar elevado.

“Humala vai precisar de muita habilidade para manter as empresas estrangeiras e peruanas investindo aqui, ao mesmo tempo em que gerencia as exigências das províncias por melhores programas sociais”, disse Simon.

O Peru e outros países da região têm orçamentos federais muito menores que o do Brasil, o que limita a capacidade dos governos de copiar os enormes investimentos sociais da era Lula.

As economias desses países também são bem menos diversificadas que a do Brasil, tornando-se assim mais vulneráveis a choques econômicos causados por uma queda no preço das commodities, por exemplo. Num cenário desses, eles podem ter dificuldades para manter os mercados financeiros e seus cidadãos satisfeitos ao mesmo tempo.

E, afinal de contas, pode ser a China comunista — já a principal parceira comercial do Brasil, e segunda maior do Peru — que irá determinar o sucesso do lulismo dentro e fora do Brasil.

“Se a economia da China sofrer uma desaceleração, será um problema para Humala”, disse Simon. “Grande parte da América Latina é dependente da China.”

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