Internacional

‘O capitalismo não quer assumir responsabilidades’, alerta István Mészáros

Por Paulo Pastor Monteiro para oOpera Mundi

O teórico húngaro, aos 81 anos, em São Paulo.

Quando Rosa Luxemburgo escreveu a frase “Socialismo ou Barbárie” (no ensaio The Junius Pamphlet, 1916) para apontar as escolhas que os países tinham, ela se referia à segunda opção como um produto natural do capitalismo. “Se ela escrevesse essa frase hoje, o título deveria ser: ‘Barbárie… se tivermos sorte’”.

A tirada irônica foi feita pelo professor e teórico marxista, István Mészáros, em uma palestra que fez parte do lançamento de dois livros: István Mészáros e os desafios do tempo histórico (Organizações Ivana Jinkings e Rodrigo Nobile) e o segundo volume de Estrutura Social e Formas de Consciência, do próprio Mészáros. Além do número 16 da revista Margem Esquerda, da editora Boitempo. O evento ocorreu na quarta-feira (08/06) no teatro TUCA, em São Paulo.

Durante a palestra, Mészáros criticou a ideia do capitalismo como um sistema eficiente para a humanidade. “O capitalismo é tido como a melhor opção. Então porque, mesmo em tempos de superprodução, ainda há pessoas que se revoltem contra a fome?” questiona o professor.

Ele explica que, atualmente, a sociedade global funciona de acordo com três pilares: o capital (que tem o capitalismo como subsistema), o Estado e o Trabalho. “Para haver mudanças efetivas, precisamos substituir essas bases e não consertá-las”, explica.

O capitalismo criou uma lógica de funcionamento na qual ninguém assume a responsabilidade pelos problemas que ele cria, afirma. “O sistema que estamos operando toma decisões e nenhum personagem assume a responsabilidade por elas, como se ninguém pudesse ser responsabilizado”, aponta o professor

Crise de 29: um ‘chá da tarde’

Ele conta que, nos últimos meses de 1967, conversava com um amigo e ouviu dele que o capitalismo finalmente tinha se organizado e estava funcionando de uma maneira mais justa e menos desequilibrada.

“A minha resposta foi que a crise de 1929 era é um “chá da tarde com biscoitos” comparada às próximas crises. Logo alguns meses depois da nossa conversa, deram-se os acontecimentos de maio de 1968. Vocês se lembram o que aconteceu em maio de 68, não lembram?”, brinca o professor.

Ao falar sobre a atual crise econômica, Mészáros argumenta que esta não é uma das crises cíclicas que ocorrem a cada sete ou dez anos como as outras, mas uma profunda crise na estrutura do capitalismo.

De acordo com sua análise, ainda não há sinais de uma recuperação da economia mundial. As chamadas “ondas ascendentes” – termo usado para definir períodos de recuperação econômica – ainda não vieram. Apesar de alguns países aparentemente demonstrarem alguma reação, ninguém apresentou uma solução estrutural, via capitalismo, para os problemas mundiais.

A guerra como saída

Mészáros cita o general alemão Carl von Clausewitz que, em seu livro Da guerra (Vom Kriege, no original), fez a seguinte pergunta: “O que é a guerra?”. E cuja resposta era: “É a continuação da política por outros meios”.

Para o teórico marxista, o capitalismo usa a guerra, que é um “mecanismo anacrônico”, para tentar solucionar os seus problemas mais imediatos. Ele lembra o ex-presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, o qual alertou que capitalismo estava excessivamente atrelado ao complexo da indústria militar.

“As guerras espalhadas ao redor do mundo não estão resolvendo os problemas do capitalismo. Por isso, é possível ver que está sendo preparado o cenário de uma Terceira Guerra Mundial. Alguns militares norte-americanos já começam a argumentar que é legítimo usar armamento nuclear contra qualquer país”, observa.

Consciência mundial

Para Mészáros, a saída para a “crise estrutural” passa necessariamente por uma tomada de consciência mundial. “É preciso uma ação global unificada, com uma visão estratégia de fundo político, para que sejamos capazes de encontrar uma solução para essa crise estrutural”.

As pessoas não podem somente esperar algo dos partidos e achar que estão fazendo política “quando colocam o papel em uma urna”. O teórico aponta que os trabalhadores e grupos críticos do capitalismo precisam, em escala global, desenvolver e propor ações interligadas que façam frente ao capital. “Não é fácil apontar uma resposta para um problema deste nível. Por isso, é preciso que as pessoas busquem em parceria uma solução”.

Ele também critica a atuação dos partidos de esquerda na Europa os quais, ao longo do tempo, foram mudando as suas políticas e posicionamentos aderindo à social-democracia e, após isso, ao neoliberalismo. “O antigo partido comunista italiano, que se autodenominava democratas de esquerda, retiraram a palavra ‘esquerda’ e se autodenominaram somente democratas”, cita o professor.

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