Esportes

Por favor, chamem o rei e o leão!

O jovem Senna (1982)

Se há situações em que o esporte leva e eleva o nome de um país pelos quatro cantos do mundo, isso pode e deve ser aplicado a Ayrton Senna.

Na curva principal

*Para Ayrton Senna da Silva (in memorian) e para todos os que choraram junto comigo naquela manhã de domingo.

Essa é a história de Ayrton Senna
Um cara que nasceu pra ser campeão
E a sua morte abala a nação.
Foi assim que aconteceu…
Quando Senna morreu:
Senna estava em primeiro lugar
Ele tinha tudo pra ganhar!
Senna tava na frente
Com seu carro diferente
Quando ele bate na curva principal.
Senna é levado para o hospital.
Todos ficam em pânico total.
Mas Senna morre de morte cerebral.
Não adianta chorar.
Senna nunca mais voltará.
Senna morreu
E o mundo entristeceu.

Ana Helena Ribeiro Tavares,

1º de maio de 1994,

Como vocês podem ver pela data, escrevi o poeminha acima no exato dia da morte de Senna. Isso significa dizer que o escrevi aos 9 anos de idade. Circuito de Ímola, curva Tamborello. Nunca vou me esquecer. Tenho nítida a imagem de eu, criança, andando desesperada pra trás e pra frente, na cozinha, à espera de saber se ele tinha sobrevivido. Depois, veio a notícia trágica. Meu irmão, que era escoteiro, gostava de cantar a música do Erasmo – “Essa é a história de Jonny Furacão” – porque eles cantavam nos acampamentos. Então, tive a idéia de parodiar. Foi meu primeiro poema e há quem diga que foi um sinal claro de minha vocação, já que o que faço nele é uma reportagem, ou seja, reporto um acontecimento. E com detalhes, talvez imperceptíveis, como o “carro diferente”. Alusão ao fato de que, naquele ano, Senna havia se mudado pra Willians, depois de se consagrar na McLaren. Importante dizer que, depois disso, não desandei a escrever poemas, muito ao contrário. Só voltaria a escrever um aos 15 anos e a partir daí, sim, continuei escrevendo.

Bom, acaba de começar um novo domingo, 1º de Maio. Isso me deu vontade de homenagear aquelas manhãs da minha infância, que me deixaram tantas saudades. A F1 já tinha seus Rubinhos, suas tartarugas, claro, mas tinha também um leão, que se chamava Mansell (na foto ao lado, ele aparece de óculos escuros numa das raríssimas vezes em que correu sem o bigode que virou sua marca registrada). Mônaco tinha seus príncipes e um rei, que se chamava Senna. Eram memoráveis os duelos dos dois pelas ruas e túneis daquele belo principado. Isso sem falar nos capacetes daquelas duas feras… Simples, traziam orgulhosos as cores da bandeira de seu país, quando hoje capacetes adotam cor neon e trazem cravados algumas dezenas de diamantes capazes de ofuscar até o brilho do piloto. Por favor, chamem o rei e o leão.

Ana Helena Ribeiro Tavares,

17 temporadas depois.


Abaixo, as cenas do último duelo (Mônaco – 1992, ganho por Senna). As imagens são pequenas e a narração não é a original, mas é a única disponível no Youtube em português.

Categorias:Esportes, F1, História, Vídeos

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1 resposta »

  1. É um poema, mas é também um relato do que aconteceu, é possível entender o ocorrido lendo-o, inclusive com detalhes esportivos – tava em primeiro lugar, tinha tudo pra ganhar, tava na frente -, sociais – sua morte abala a nação – e médicos – morte cerebral. É um poema jornalístico, admirável para a idade. Inesquecível primeiro de maio de noventa e quatro.

    ‎”Isso sem falar nos capacetes daquelas duas feras… Simples, traziam orgulhosos as cores da bandeira de seu país”. Muito, muito bom, Ana! O automobilismo (F-Indy inclusa) era muito mais interessante, Senna, Mansell (e Fittipaldi) fazem muita falta. A única coisa bacana na F1 hoje é que há um piloto que é mistura de Karl Marx com Max Weber, o Mark Webber (de lascar, essa).

    Lá vem o Leão! 🙂

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