Non abbiate paura

A sociedade em debate: Alô, alô, Realengo – outra opinião

=> O texto abaixo, do professor de filosofia Gustavo Castañon, é uma resposta à crônica “Alô, alô, Realengo“, do antropólogo Ribamar Bessa

Caro Ribamar,

Parabéns pelo texto, é muito bem escrito. Conseguiu devolver a humanidade a uma figura que para todos agora é monstruosa. Sem dúvida, nem sempre foi. Sem dúvida, viveu uma vida de miséria absoluta: miséria afetiva, intelectual, cultural e financeira. Foi torturado psicologicamente por outras crianças. Foi abandonado e esquecido. Foi desamado.

Não foi o único. Desde que este mundo dos seres humanos começou, a história tem sido a história do sofrimento humano. Escravidão, exploração, ignorância, violência, injustiça brutal, preconceito, miséria: isso tem sido a realidade de cerca de nove entre dez seres humanos (creio que muito mais) que vem ao mundo desde que temos alguma notícia histórica.

Você perguntou, “quem produziu Wellington?”. Eu pergunto: tudo o que ele foi, foi produção de outros? Se a sociedade ditasse tudo o que nós somos, jamais teríamos melhorado a condição desse atoleiro moral. Mas com muita luta, avançamos centímetro a centímetro pra fora dele. Avançamos porque as pessoas individualmente fazem escolhas: de deixar pro mundo mais do que receberam. E quando mais pessoas fazem essa escolha e não a outra, nós andamos pra frente.

As pessoas fazem escolhas. Alguns bebem sofregamente o pouco de amor que recebem e lutam contra o ódio que tem em si. Outros tem tudo, mas bebem da gota de ódio que receberam e esquecem todo o amor onde estiveram mergulhados. Escolha.

Muitos vão falar: “mas Wellington não teve escolha”. Por Deus, teve sim. Mais do que todos os escravos que já existiram. Mais do que todos os que não conheceram uma mãe. Mais do que os que nunca puderam sequer andar. Mais do que os que nunca tiveram uma merda sequer de escola. Mais do que os que nunca puderam ler uma linha na internet. Mais do que os que nunca tiveram um salário na vida. E ele escolheu. Escolheu apertar o gatilho mais de 50 vezes. Ele escolheu matar onze meninas que nunca fizeram nada com ele. E um menino, porque, talvez, fosse bonito. A maioria dos desgraçados da história da humanidade não fez essa escolha. Graças a eles, estamos aqui.

Como você é antropólogo, talvez você siga a cartilha da antropologia contemporânea e não acredite em indivíduo, ache que a crença no livre-arbítrio é coisa de gente ignorante pré-estruturalista e crente, e que Deus, bem, Deus é aquela idéia que levou o Wellington a matar e ferir todas aquelas crianças.

Talvez, pelo que pareceu do seu artigo, você conceba um mundo de pessoas determinadas pelo meio, onde no fundo todos são vítimas indefesas, bolas de bilhar se chocando sem direção nem responsabilidade pelos seus atos.

Eu não penso nem sinto assim, absolutamente não. Chame do que quiser. Pra mim,até o dia do massacre, Wellington era realmente uma vítima. Mas depois que ele deu o primeiro tiro na testa de uma menina de quatorze anos que nunca lhe fez nada, ele escolheu ser, louco ou não, o vilão. Um vilão monstruoso.

Eu espero que todos os mortos descansem em paz, todas as doze vítimas desta história, inclusive o vilão dela: Wellington. Mas aos vivos, eu espero que não descansem jamais, e continuem fazendo desse mundo um lugar melhor, dando mais a ele do que receberam, não importa quanto. E eles só poderão fazer isso, se vendo como sujeitos responsáveis, que podem dar mais à sociedade do que receberam.

Mas eu não tenho ilusões. Sei que por melhor que a gente faça, por mais longe que a gente chegue, por mais que a gente venha a construir uma sociedade justa com toda beleza, amor e conhecimento que tivermos, sempre haverá os que beberão da última gota de ódio que sobrar, porque assim é também o ser humano. Ele escolhe o que quer, entre o que encontra diante de si. E se não encontra, ainda pode inventar.

Um abraço pra você Ribamar, que sei que luta por um mundo melhor.

Gustavo*

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*Gustavo Castanon é professor adjunto de filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora e, com este texto, inaugura hoje no site “Quem tem medo da democracia?”, a coluna “Non abbiate paura” (Não tenha medo)

20 respostas »

  1. Muito bom este debate.
    Quem dera pudéssemos ter alguma centena de brasileiros debruçados sobre o tema, mas vejo que a grande maioria não vive, e sem consciência de si mesmo, apenas executa um programa social padrão e obsoleto, num comportamento de gado de rebanho conforme afirmou Nietzche há séculos.
    Entendo que facilmente julgamos os comportamentos dos outros porque, ateus ou não, nos vemos como semelhantes a Deus, mas só nós, individualmente, pois os outros são cópias mal feitas Dele (“Dele” claro, pois nada tenho a ver com isso). Nunca fiz cópias de Deus e de ninguém, além disso, observo tudo o que passa pelos meus olhos, sou cuidadoso e perfeccionista, olho inclusive para mim mesmo, mas só no espelho onde também me acho bonito.
    Abraços
    Zé Nauiack

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  2. Vejo que a briga está boa aqui rsrsr sou aluno de Pedagogia da Uerj e lendo o texto e os comentários só afirma a minha opinião nos debates aqui na faculdade.Que esse Crime cometido pelo “Wellington” não tem Solução!!Calma não vão pensando coisa errada o que eu quero dizer que crimes desse tipo que termina co mo responsável morto, só deixa dúvidas sem nenhuma resposta passa ser objeto de estudo de sociólogos psicólogos e demais “logos” que existem porque o principal objeto de estudo que é o criminoso está morto e a pouca provas e depoimentos das pessoas sobre a sua vida social não são o suficiente para nós pudéssemos concluir esse caso com um PONTO Final.Tudo que foi dito aqui ,e no site taqui pra ti tem relevância no incentivo que levou ele a cometer esse crime. Vai depender do que você acredita e no seu olhar perante isso. O que me deixa triste que esse crime poderia sido evitado. Se alguém tivesse notado o Wellington.

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  3. Ana, essa frase aí eu vou passar a usar… Paulo, não esquenta não. Você tem uma opinião, eu tenho outra. Você acha que tudo de ruim no mundo é culpa da religião. É uma forma peculiar de ver, mas tem outros que vêem assim. Eu acho que é sem fundamento nenhum. Pra mim é o contrário, a religião é um princípio civilizatório básico, e desde seu início, tem sido freio para os impulsos agressivos e violentos naturais do ser humano. Mas como noventa e cinco por cento das pessoas em média declara ter religião, ela é o fator de unidade e adesão emocional na sociedade mais forte que existe. Assim, é sempre usada por fanáticos, políticos e também pelo pior tipo de gente, o ateu que finge que é religioso para manipular as pessoas no que elas tem de mais sagrado. A política brasileira está cheia disso. À propósito, Hitler, era ateu. Mas não foi isso que fez ele fazer o que fez. O problema não é que ele era ateu, mas que ele era um psicopata. Abraços e obrigado (sincero) pelos comentários!

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    • Eu não disse que em tudo é culpa da religião. Apenas quis enfocar o caso por esse ângulo, por que — repito –embora as evidências nos documentos encontrados apontem para uma forte influência da religião no seu comportamento, as pessoas relutam em analisar o caso sob esse aspecto. Agora que você está mais calmo, me permita te sacanear um pouco. Você afirmou no texto que “ele escolheu matar onze meninas …e um menino, porque, talvez, fosse bonito” E, concluiu no seu segundo comentário “porque foi o ódio acumulado dentro dele pelas mulheres a causa da chacina”. Pergunto, vc está insinuando que o Wellington era homossexual ou misógino, só por que nunca namorou ? É isso ? E como ficam os padres sérios que nunca namoraram ?

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    • Concordo. A mídia o vê Wellington como um monstro. Eu não. Eu o vejo como um jovem perturbado que matou inocentes e se suicidou. Tchau.

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  4. Além de tentar justificar o injustificável através unicamente da questão religiosa, caindo, assim, numa generalização perigosa, os problemas que eu vejo nos comentários do Paulo são dois:
    1- A insistência em dizer que o Wellingnton era um homem decente. Ora, o que é ser decente? Há outras comparações possíveis, com efeito contrário. John Lennon, por exemplo, que bebia e fumava muito, mas queria a paz mundial, era, então, indecente? O que aconteceu com ele? Matou, se matou ou foi morto?
    2- Eu não sou dada a falar sobre o que não sei, por isso tô impressionada com a riqueza de detalhes como o caro Paulo fala do Wellington. O conhecia para ter tanta certeza de tudo isso? Caso sim, tentou ajudá-lo quando ele deu vários alertas de que promoveria um massacre? Ele precisava de tratamento. Não sei se resolveria, mas ele não o teve, então não temos como saber.

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    • Querida Ana. Não existe nenhuma justificativa para o abominável ato cometido pelo Wellington. O que queremos é tentar compreender as causas para que tal ato não mais se repita. Tudo que sei sobre o Wellington é o que foi divulgado na mídia. Eu não conhecia o Wellington, mas convivi com alunos com comportamentos semelhantes. Quanto aponto a influência da religião em sua vida, o faço a partir das evidências apresentadas nos documentos deixados e na opinião do porta Voz da PM-RIO Ibis Pereira que afirmou “ser um fanático religioso, um quadro de demência religiosa”. Ok ?Lembre-se: O pior cego é aquele que não quer ver.

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  5. É Ana… Conhece aquela advinhação que compara Churchull e Hitler? É isso aí…
    Não Paulo, eu não estou cego de ódio. Pra falar a verdade, até tenho pena dele. Só que eu tenho muito mais das crianças assassinadas e das famílias.
    Quem está cego de ódio parece ser você, que está se comportando como aqueles ateus militantes que odeiam Deus e a religião e vivem atribuindo a eles todas as mazelas da humanidade, investindo contra a crença das pessoas com argumentos falsos como esse, porque no fundo tem inveja daqueles que tem fé. Não sei se é o seu caso.
    No caso do Wellington, acredito no contrário. Se ele não fosse religioso, já tinha feito isso há mais tempo, ou tinha entrado pro crime. Achar que ele matou as meninas porque elas eram impuras, é ridículo. Atribuir isso ao cristianismo, aí já é pior que isso…

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    • Gustavo. A minha fé não me impede de questionar e até de discordar de algumas práticas religiosas. Você se comporta como um sectário, quanto tenta desqualificar este comentarista ao invés de contraditar os meus argumentos. Talvez por que a sua religiosidade não aceite críticas a religião como, decerto você, como um homem de ciências, aceitaria se o tema a fosse política, literatura, filosofia. Prá você qualquer crítica a religião soa como hostilidade, ódio. etc. De qualquer forma forma, agradeço a atenção. eu só quis contribuir com o debate. Ok ?

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  6. Hitler também não bebia e não fumava. Além disso, ainda era vegetariano. Suponho que, na visão do Paulo, tudo isso fizesse dele um homem decente, antes do holocausto. O seu defeito era ser perigosamente nazista.

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    • Querida Ana. Para mim Hitler não era decente, mas para o cardeal arcebispo de Munique, não sei não. Em 1939 quando Hitler escapou da morte, aquele cardeal rezou uma missa especial na Catedral de Munique “Para agradecer a providência divina , em nome da arquidiocese , pela feliz escapada do Fuhrer”. Em 1922, Hitler fez um discurso em Munique, no coração da Bavária católica, que iniciava assim; “Meu sentimento como cristão aponta-me para o meu Senhor e Salvador como lutador”, e por aí vai.

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  7. Caro Gustavo. Parabéns. No entanto, parece que você achou insignificante o fato de ter sido “a idéia de Deus que levou o Wellington a matar e ferir todas aquelas crianças”. Só a fé religiosa é forte o bastante para motivar uma loucura tão completa em pessoas tão decentes, como Wellington, cujo erro foi acreditar literalmente no que dizia acreditar. Não foi apenas uma escolha sua, mas foi motivado pelo que ele entendeu ser correto e fiel ao seu Deus (e não Alá). Não era psicótico, mas, um idealista religioso, católico, porque foi ensinado desde o batismo a ter uma fé total e indiscutível. Pena que você não quis desenvolver esse raciocínio. Porque temos tanta relutância em aceitar essa explicação ?

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    • Porque, Paulo, ela é completamente falsa. Primeiro, porque Wellington não era uma pessoa decente, pessoas decentes não matam 12 meninas quer o aiatolá, o papa ou qualquer outra pessoa mande. Segundo, porque foi o ódio acumulado dentro dele pelas mulheres a causa da chacina, que ele precisou justificar religiosamente pra manter a auto imagem e a esperança de salvação. Terceiro porque qualquer pessoa que ache que o novo testamento, em alguma de suas linhas, justifique o assassinato, está completamente cego pelo ódio que tem da religião e da idéia de Deus.

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      • Gustavo você é muito inteligente, mas está cego de ódio. Só consegue enxergar o Wellington do dia 07 de abril. Esquece de toda a sua trajetória de vida. Antes do dia 07 o Wellington era um jovem decente, sim: Não bebia, não fumava, Não usava drogas, Não era promíscuo, Não era vagabundo, Trabalhava, estudava, Vivia ás suas próprias custas, Nunca agrediu ninguém, Gostava de animais abandonados, Era um bom vizinho. Foi considerado apto em exame psicotécnico para conseguir emprego. O seu defeito é que era muito e perigosamente religioso. Só isso.

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  8. Primeiro, deixa eu dizer que é uma honra pra mim abrigar aqui esse debate de alto nível. Gustavo, não se preocupe quanto ao texto. Pois o Bessa me disse que copiou só o link, então as pessoas serão direcionadas já pro texto alterado. Bjs aos dois.

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  9. Obrigado pelo espírito democrático Ribamar, você sabe, toda resposta é um elogio, porque mostra que o texto valia a pena ser respondido. Sei que tomou dessa maneira. Escolheu (risos). Se puder, esse texto acima agora já está um pouco modificado, troca então por causa dos errinhos de concordância do outro. Tem duas frases novas no fim, mas não altera nada do sentido. Grande Abraço!

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  10. Excelente texto, Gustavo. Apresenta argumentos sólidos. Discordamos, o que é bom para o debate, porque apresenta outro ponto de vista. Estou colocando nos comentários do Taquiprati este site com o artigo. O pessoal que discordou do meu artigo vai adorar, porque vai ver munição de qualidade. Quem concordou, também certamente vai gostar de ter o contraditório.
    abs.
    bessa

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