Amizade

Cotidiano: Carta a amigos

Por Paula Cajaty*

Queridos amigos,

O outono renova as folhas, as árvores vão trabalhando nisso. O tempo se amansa e já não é preciso resistir tanto, lutar a cada dia contra o calor, a chuva, os mosquitos, as notícias terríveis. O tempo vai passando, mudando, trazendo outros ventos. Óbvio que eu queria ligar, falar com cada um de vocês, como talvez tenhamos até chegado a combinar. Esses cafés e chopes que nunca se marcam. Mas sei bem, ou pelo menos imagino… Imagino tudo, os afazeres, os cansaços, os projetos tomando de assalto até os sonhos.

Na verdade, eu fico feliz, de verdade, só de saber de vocês, que estejam bem ou, talvez, melhorando de algum resfriado, que estejam colocando a vida do jeito que queriam. Pelas fotos, pelo Face, pelo Twitter, às vezes dá para notar (e agora passa longe o tempo em que vocês reclamavam comigo de alguma coisa qualquer, da mãe, do marido, das fraldas, do peso, da algazarra dos brinquedos na sala).

Meus novos trabalhos vão bem. Não que cultura seja assim tão lucrativa (nem que eu tenha um blog milionário) mas me sinto bem rica, sim, sempre cheia de amigos novos, aventuras emocionantes, novidades, desafios, projetos, parceiros de trabalho. Isso é o que mais importa, não é?

O desafio, o convite para apostar, às vezes consegue ser a parte mais deliciosa do que ganhar ou perder… Quase como um Can-Can, ou brincadeira de rolha à beira da piscina: quem ganha leva a tristeza de terminar o jogo.

Ainda sinto saudades, sim. Se é que vocês possam se perguntar isso.

Saudades do tempo curto, de fugir por um dia e encontrar por um dia, de matar aula num shopping, de fazer piada para quem está do outro lado do anfiteatro, de passar blecaute dentro de uma galeria antiga, de ouvir Yesterday num piano de rua, de comer yakisoba numa esquina, de se esconder dos transeuntes dentro de um fusca, de namorar baixinho no laboratório da faculdade, de fazer juras de amor no Theatro Municipal, de tomar susto em pega-pega no escuro, do carinho sempre passeando na ponta dos dedos, de se encontrar de repente no Twitter, ufa!, e, sobretudo, de poder olhar a lua como se a noite não terminasse nunca. E bem talvez não termine, porque essa noite perfeita – assim como tantas outras lembranças perfeitas – continua existindo comigo.

Apesar dos tantos outros amores que a gente vai tendo pelo caminho. Apesar de outras lembranças que vão se somando. Apesar de, às vezes, parecer que estamos tão sozinhos, tão perdidos e distantes. Pode deixar, eu guardo tudo.

Um amigo, uma vez, já me disse que às vezes é bom se perder, só para poder se encontrar de novo.

Acho que é por esse motivo, deve ser, o motivo por que há tempos deixei de me preocupar com o próprio tempo.

E fico feliz, bem feliz, quando ele muda.

*Paula Cajaty é escritora. 

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