Crônicas

O Rio que eu amo é de Janeiro

Floresta da Tijuca. Foto: Ana Helena Tavares
As pessoas clamam por sangue sem perceber que estão esquartejando a si próprias. Como um queijo suíço que não assume seus buracos, manda-se que a polícia saia matando e criam-se os Batmans (o mais famoso dos milicianos). E troca-se seis por meia dúzia.
Por Ana Helena Tavares (*)
Há décadas, o Rio, hoje totalmente dominado pela família Marinho, vem perdendo força econômica e cultural. Tem sido muito maltratado não só pelos governantes como também por parte de seu povo que não valoriza esta terra.
Por isso, vale o alerta: quem ama cuida.
Dizem que amor nem sempre gera amor. Talvez. Mas morrerei tentando – isto é prestar um serviço a si mesmo.
Nesta mais recente crise na segurança pública carioca, duas das maiores emissoras de TV do país – as concorrentes Globo e Record – “uniram-se” para prestar juntas um desserviço à população carioca: a filmagem, durante horas ininterruptas, das operações policiais. Não estou de modo algum pregando que a polícia censure a imprensa. Nem em nenhum momento tentaram isto. Mas o BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM) expressou sua preocupação com a exposição exagerada que prejudica as operações, no que está certíssimo.
Além de exagerada e prejudicial, a meu ver, é desnecessária. É justamente este tipo de shownalismo que dá às pessoas a falsa idéia de que é tudo um filme, onde a pipoca é o próprio telespectador. Queimando aos poucos junto com cada faísca na tela. Enquanto a imprensa oportunista tem o único intuito de ganhar audiência e vender jornal – porque a tragédia dá lucro e isto foi sempre assim -, as pessoas clamam por sangue sem perceber que estão esquartejando a si próprias. Como um queijo suíço que não assume seus buracos, manda-se que a polícia saia matando e criam-se os Batmans (o mais famoso dos milicianos). E troca-se seis por meia dúzia. E, mais que isso, cria-se um câncer para o sistema.
Bandido bom é bandido na cadeia – inclusive, os fardados. Melhor ainda se for bandido engravatado, que é aquele que, prendam-se ou matem-se mil pobres, ele aliciará outros para fazer o serviço pesado do tráfico, enquanto ele toma champanhe com dinheiro sujo.
Pelo que se tem visto, parte da população brasileira, com o luxuoso apoio de um punhado de famílias, ainda tem sede de heróis. Falta ter sede de política para cobrar que cheguem às favelas todos os benefícios sociais que conferem cidadania às coberturas.
Por isso, vale o alerta: amar uma terra é defender o direito de todos os seus cidadãos. O resto é ódio.
E ódio sempre gera ódio. Disto podem estar certos. Na música, “Nomes de Favela”, Moyses Marques garante: “Ou lá na favela a vida muda ou todos os nomes vão mudar”. O Rio que eu amo é de Janeiro, não é de Agosto.

*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz. Editora-chefe do blog “Quem tem medo do Lula?”.

Categorias:Crônicas, Os dias lindos*

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2 respostas »

  1. Penso que é uma emergência, das emergências, cuidar dos civis em risco de vida morte. Tira toda a tranquilidade das pessoas o direito de ir e vir. Claro que existem os “tubarões” por aí, que precisam ser presos. Mas também não pensem que o comando do tráfico são garotos, cujo contexto foi retrado no filme Cidade de Deus, premiado. Vamos unir forças!
    Temos também que consertar o Brasil.

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  2. Ainda pouco comentei uma imagem de uma amiga no face que pedia PAZ NO RIO, vejam: ” E de uma hipocrisia de achar que é invadindo os morros com violência e fuzis na mão é que vai resolver o problema, não consigo crer que essa seja a solução! PAZ JÁ! Sempre! Existem outras formas de coagir bandido, principalmente atuando na raíz do problema, pegando os tubarões e não meia dúzia de bandidinhos que na verdade não comandam nada! Vamos deixar de falsidade BRASIL! PAZ SIM! E JÁ! MAIS EDUCAÇÃO!”
    Ótima matéria Ana Helena! Ótimo que sejamos MUITO críticos com relação ao que a TV mostra e ao que vem acontecendo de verdade com o Brasil, as reais raízes dos problemas da sociedade brasileira…

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