Algum lugar entre a prosa e a poesia

Com licença, sociedade, que eu vou sair por aí com a minha caneta (II)

Era o caos para o cenário. O caos: o inesperado. Não para mim. Eu já conhecia aquele rosto.

Até o violão, estou certa, era o mesmo. Mas, dessa vez, ele não estava só.

Por Ana Helena Tavares*

O ônibus seguia calmamente seu rumo. Era uma tarde fria, apesar de o cenário ser a Central do Brasil, Rio de Janeiro. A mesma que já virou nome de filme, a mesma tão maltratada. Muitos desembarcaram ali, mas houve também quem embarcasse. A música e a poesia, por exemplo.

Era o caos para o cenário. O caos: o inesperado. Não para mim. Eu já conhecia aquele rosto. Até o violão, estou certa, era o mesmo. Mas, dessa vez, ele não estava só.

Aquele rapaz que, já há mais de um ano, eu sei que resolveu pedir licença à sociedade e sair por aí com seu violão estava agora acompanhado de outro que, tal como ele, saiu por aí com sua coragem. E que melhor companhia pode haver para os acordes de um violão do que uma voz firme, ao lado, declamando versos?

A platéia era maior e viu-se anestesiada, pois o companheiro do músico não só declamava, como também encenava cada palavra que trazia num surrado caderninho. Observando aqueles gestos, aqueles passos largos pelo ônibus afora e, principalmente, aquele olhar fixo de quem acredita com devoção na palavra mudança, por alguns segundos, cheguei a crer que o mundo poderia trocar cada revólver por uma caneta e por uma palheta de violão.

Era o caso de não querer descer, mas, uma hora, o ponto chega. Desci. Feliz pelo reencontro que demonstra a persistência de alguém que não se importa com rótulos. Quantos hão de ter pensado: “Caras loucos!” E quantos queriam estar no lugar deles? Arrisco-me a dizer que muitos.

Liberdade é a palavra. Desci com a certeza de que para se chegar a ela é preciso ser considerado louco pela sociedade cruelmente hipócrita em que vivemos.

Pois, se é assim, que me sigam os loucos… A caneta é o meu violão.

*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.

=> Dedicado a Joannes Jesus, agora eu sei o nome dele. Nascido em Taubaté, SP, é estudante de história, compositor de música popular, integrante da banda “Na sala do sino” e, claro, artista de rua (e de ônibus)

Parte 1: http://ahrt84.blog.terra.com.br/2009/03/29/com-licenca-sociedade-que-eu-vou-sair-por-ai-com-a-minha-caneta/

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