Crônicas

Desmitificando a amizade: a banalização do íntimo

O que é ser íntimo de alguém? Diziam os latinos que é “ter acesso ao interior do outro”. Pronto. A intimidade é uma doce utopia. Quiçá realizável? Mas e a sua irmã, a amizade, será que existe?

Por Ana Helena Tavares*

-> Para todos aqueles que sempre vibraram com minhas vitórias.

Há um senso comum de que “os verdadeiros amigos são descobertos nas dificuldades”. Isso é balela.

Compartilhar alegria é arte para poucos. Se a alegria for de todos, ótimo, chopp é o que não falta para comemorá-la. Mas e se for de um só? É claro que uma amizade para se dizer amizade tem que misturar riso e lágrima, mas é muito mais fácil dar o ombro para que o outro chore do que alegrar-se com as vitórias alheias. Tragédia causa pena e esta tem a capacidade de causar comoção até em desconhecidos, ou não é verdade? Mas os triunfos alheios, ah, os triunfos alheios… Esses são a causa da tão maléfica inveja humana e com esses só se alegram os verdadeiros amigos. Disso não me resta dúvidas.

Apesar de uma vez eu ter chegado a transformar em prosa uma poesia em que fazia “uma pergunta a Platão”, nunca fui platônica, mas, logo ele, pai de tantos mitos, deu suporte ao que acabo de dizer. Talvez Platão tenha “descoberto a pólvora” quando disse: “Amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro.”

Nesse sentido, uma “amizade profunda”, por exemplo, é coisa inviável e o motivo é bem simples. A amizade não comporta adjetivos de intensidade, ou é amizade ou não é. É igualmente injusto chamar alguém de “melhor amigo”. Não creio que alguém que viva mais de 20 anos tenha um só amigo ao longo da vida e, se teve dois ou mais, estou certa de que cada um teve seu papel indispensável em momentos específicos. A questão é que intensidade é coisa momentânea, já o sentimento do querer bem um ao outro, quando verdadeiro, é o que fica.

Se nem a matemática é uma ciência exata, imaginem a amizade. Nela, o que separa o efetivo do afetivo é muito mais do que uma letra. Podem se misturar – ou não. Afinidades fazem colegas. Só a troca de confiança faz amigos. Peguemos o caso da família como exemplo: todos os familiares que moram com você são verdadeiramente seus amigos? Se forem, “que maravilha viver”. Mas não é regra. Amizade é laço mais forte que o sangüíneo. É amor, ao contrário do eros que, às vezes, não chega nem a ser paixão.

Intimidade. Taí uma palavra perigosa. Dúbia que só ela e mais mal usada no mundo de hoje do que cartão de crédito ilimitado, o que é, afinal, ser íntimo de alguém? Diziam os latinos que é “ter acesso ao interior do outro”. Pronto, resolvido. A intimidade é uma doce utopia. Quiçá realizável?

Mas e a sua irmã, a amizade, será que existe? “Amizade é uma única alma que resolveu habitar dois corpos”, sentenciou Platão. Simples, não? Por esse prisma, pensemos: quantas almas no mundo de hoje têm se mostrado dispostas a buscar motivos para dois corpos sorrirem? Ora, isso dá trabalho… Mas quero crer que há algumas vagando por aí…

06 de Março de 2010,

*Ana Helena Tavares, jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.

Leia também de minha autoria: “Os “traficantes”, os “cobradores” e a banalização da amizade”

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