Algum lugar entre a prosa e a poesia

No bico de um companheiro

Meu mensageiro

Vejo que por aí, neste Brasil que tanto amo, jornalista anda querendo ser mais do que gari. Já imagino o lixo pensando: e daí?

Para o lixo não faz diferença. Quando uma encosta soterra um hotel chique, morre a camareira e o prefeito de Munique.

Por Ana Helena Tavares (escrito para a minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Já estou aqui neste céu há algum tempo. Tudo pacato, nada do que era aí embaixo.

Tento desculpar-me com minha família por não mais poderem me ver, tento fazer sentirem minha presença no dia-a-dia. Numa música, numa brisa, numa flor. Sim, as flores, vivas – e visíveis – nas varandas e jardins, são melhores, bem melhores, que os porta-retratos.

Mas não adianta… Insistem em levar-me rosas no cemitério, para que morram sem eu estar lá – sem ninguém as ver viver nem morrer.

Aqui no céu todos os dias o sol nos brilha majestoso, não sabemos mais o que é chover. Isso para um paulista, como eu, já é muita coisa.

Aqui no céu todos falam com a cara limpa, sem hipocrisias, por isso não conseguimos montar comícios. Até temos política, mas nosso esquema é muito diferente. Andamos nus, sem cuecas nem meias. Talvez, por isso, não vejo muitos políticos por aqui.

Aqui no céu temos o tão falado livre-arbítrio. O cigarro é liberado. Não há problema. Já não temos mais pulmões. A cachaça também rola nos barzinhos. Não se espantem. Não nos sobe à cabeça. Há até roleta para quem quiser se divertir. Dinheiro já não nos serve para nada.

Aqui no céu trabalhamos no que queremos, não mendigamos a nossa chance. Sonhos aqui têm cheiro de jasmim. Cada nuvem é para nós um trampolim.

Mas quero também lhes contar o que vejo aqui de cima. Sou tímido e não quero que esta conversa pare no Youtube. Do Twitter então não posso nem ouvir falar. Tem um pessoal aqui que não larga aquilo… Eu até pensei telefonar, mas vai que eu fosse grampeado? Vejo-me aflito pra poder lhes alertar o quanto o mundo anda virado.

Mandar carta eu preferia. Na minha época, era em cartas que se trocava confidências. Não havia risco de spam. É que já estou aqui há muito tempo. Daí pensei: que coisa démodé! E ainda corro risco de enfrentar greve de carteiro… Então, resolvi traçar estas linhas e colocá-las no bico de um companheiro

Sim, hoje meus companheiros são os pássaros. Nem pensem em tucanos, sim? Escolhi um diamante mandarim.

Não quero com isso motivar nem aumentar recordações, quero apenas compartilhar minhas visões.

Aí na Terra o clima anda meio esquisito… Há quem brinque aqui dizendo que virou o Planeta Fogo. Procurem dar mais atenção à natureza. Do jeito que tem morrido gente em desastres ambientais, a cada dia, está tendo que ser aumentado drasticamente o número de nuvens. É nelas que dormimos, ou melhor flutuamos. Vocês não sabiam? Depois reclamam das chuvas…

Vejo que por aí, neste Brasil que tanto amo, jornalista anda querendo ser mais do que gari. Já imagino o lixo pensando: e daí?

Para o lixo não faz diferença. Quando uma encosta soterra um hotel chique, morre a camareira e o prefeito de Munique.

Na Casa Branca, andam dizendo que a paz gosta de canhão. Esse mundo tá de um jeito que sei não… Tudo o que disseram Madre Teresa, Gandhi, e Gentileza, hoje parece ser em vão, mas continuem acreditando na amizade e em todas as formas de amor. Porque sem cafuné, é bem mais difícil superar a dor.

Sei que vão andando, por coragem e insistência, mas façam sua parte, porque sem alguma arte este mundo logo acaba.

Vejo inocentes serem perseguidos, vejo que o século XXI não erradicou os oprimidos, mas não se esqueçam de refletir, porque sem sensibilidade aí é que esse mundo está perdido.

04 de Janeiro de 2010,

Ana Helena Tavares

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