Ensaios

Fordosofando – As raízes de uma mentalidade

No que ele estaria pensando hoje?

No que ele estaria pensando hoje?

“Pensar é o trabalho mais pesado que há, e talvez seja essa a razão para tão poucos se dedicarem a isso.” (Henry Ford)

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Por Ana Helena Tavares (publicado também na minha coluna na revista “Médio Paraíba”)

Henri Ford é um exemplo de como um ser pensante usou de sua aparente benesse de aumentar salários com o único objetivo de tornar seus empregados cada vez mais dependentes do emprego de “sua” fábrica e vendendo seu trabalho a “seu” dono, como ele mesmo dependia de empregá-los e usar seu trabalho para sua própria riqueza e poder.

Em sua época, serviu de exemplo para outros donos de fábrica que buscavam unir capital a trabalho fortificado pela mutualidade de sua dependência. Trancados em uma fábrica que era ao mesmo tempo um campo de batalha e um lar natural para esperanças e sonhos.

A dependência de capital e trabalho fazia com que cada parte fizesse de tudo para manter a ordem que estava instalada. Uns compravam e vendiam, e os trabalhadores tinham que se manter saudáveis, fortes e capacitados. Cada lado tinha “interesses investidos” em manter o outro lado em forma.

Deste modo, a “remercantilização” do capital e do trabalho torna-se a principal função e ocupação da política e da suprema agência política, o Estado, que estava “além da esquerda e da direita”, esteio sem o qual nem capital nem trabalho poderiam manter-se vivos e saudáveis, quanto mais crescer (estado de bem-estar).

Os trabalhadores se aprisionavam na idéia de trabalho por toda a vida – “estabilidade”. Já os capitalistas se concentravam no intuito de preservar “fortuna familiar”, que duraria para todos, não só os atuais como também os descendentes da família. Esta era a mentalidade de “longo prazo” e de “interesse de todos”.

Após a Segunda Guerra, com o surgimento de sindicatos fortes, garantidores do estado de bem-estar, e corporações de larga escala, produz-se uma era de “estabilidade relativa”, em que continua a idéia de dependência mútua, mas agora através do confronto e teste de força entre as partes. Nenhuma delas podia continuar sozinha e ambos os lados sabiam que sua sobrevivência dependia de encontrar soluções que todos considerassem aceitáveis.

Essa situação mudou a mentalidade de “longo prazo” para a nova mentalidade de “curto prazo”. “Flexibilidade” tornou-se um imperativo, trabalhadores agora sabem que nada é certo e devem estar capacitados para novos desafios.

Muitos patrões, porém, parecem manter ainda uma mentalidade pré-Segunda Guerra. No comando de grandes empresas e fábricas, ainda há muitos seguidores daquilo que poderíamos chamar de “fordosofia”: quando o empregado é enxergado como um produto que produz com prazo de validade pra isso.

“Gosto bastante de trabalhar aqui”, diz o empregado a seus companheiros. “Tenho que rever o sistema, ele é pago para produzir, não para gostar”, imaginem quantos patrões ainda pensam assim por trás do vidro.

Daí a importância de os trabalhadores reconhecerem cada vez mais sua impotência individual, sabendo da necessidade de juntos poder barganhar melhores benefícios para todos, transformando regulamentos em direitos, reformulando-os como limitações impostas à liberdade de manobra dos empregadores.

Hoje em dia os trabalhadores não podem mais se sentir presos àquilo que “seu Ford mandar”.

22 de Outubro de 2009,

Ana Helena Tavares

2 replies »

  1. Sem sombra de dúvidas o Henry Ford foi um dos poucos homens que contribuíram para o bem da humanidade.
    Tão lúcido, lógico, altruísta e bom cidadão que considero a sua maior obra para o bem da humanidade o livro “O Judeu Internacional”. Escrito no início do século passado.

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