Releituras

Quando os fins contradizem os meios

Recentemente, FHC só faltou prestar reverência a Gilmar Mendes, o definindo como “um homem de coragem e competência”. No mesmo dia, conseguiu falar sobre o “brilhantismo” de Daniel Dantas, ainda que tenha alegado “conhecê-lo pouco”. É, a idade tem dessas coisas, causa crises seríssimas de amnésia.

Por Ana Helena Tavares

Desde que saiu da presidência, a que papel FHC tem se prestado senão a tentativas vãs de criar um descrédito sobre a figura de Lula para ver se alcança uma nesga de esperança de voltar a ter alguma importância na cena política brasileira? FHC é de tão triste figura que nem sequer percebe que há muito já perdeu a graça.

Ao que parece, há quem consiga fazer da política um jogo de tal maneira contraditório, que é de dar nó na cabeça do mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel. Conhece bem os tortuosos túneis da política (ou seriam “passagens secretas”?), aqueles da “arte” do bem encobrir, dos “alguéns” a proteger.

Como será mesmo que conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação da sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião, não é?

Há quem diga que os opostos se atraem, na vida afetiva pode ser. Mas, no jogo político, talvez o ditado mereça uma inversão. Por mais que haja misturas, uma hora fica claro quem está ao lado de quem. Recentemente, (em entrevista registrada em vídeo) FHC só faltou prestar reverência a Gilmar Mendes, o definindo como “um homem de coragem e competência”. No mesmo dia, conseguiu falar sobre o “brilhantismo” de Daniel Dantas, ainda que tenha alegado “conhecê-lo pouco”. E os encontros que eles tiveram? É, a idade tem dessas coisas, causa crises seríssimas de amnésia.

Faz a pessoa esquecer, por exemplo, qual é mesmo o significado daquela palavra bonita da língua portuguesa chamada coerência. Que o diga Maria Augusta Tibiriçá Miranda, autora do livro “O Petróleo é nosso – a luta contra o entreguismo” que recentemente, em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim (clique aqui para conferir a entrevista), revelou o passado de militante nacionalista do ex-presidente e de sua família, afirmando enfaticamente que ao adotar sua política de privatizações “FHC traiu o tio, o pai e a si próprio”.

Fico imaginando a pose que ele desfilava pelos púlpitos da Sorbonne e chego à conclusão de que, definitivamente, pose não é classe. Para os alunos de Monsieur FHCÊ, “o príncipe dos sociólogos”, deve ter sido o “suprassumo da coerência” aprender nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”). Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.

Talvez ele tenha querido também ser, por assim dizer, “engraçadinho” ao soltar a seguinte “pérola” no início deste ano: “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar” .

Depois dessa, sinceramente acho que só merecia mesmo retornar à Sorbonne e perceber que, hoje em dia, os alunos de lá preferem ouvir o Lula.

11 de Setembro de 2009,

Ana Helena Tavares

Obs: Este texto está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, e é uma adaptação que fiz do meu artigo “Sobre abusos e leviandades“, de modo a focar mais especificamente na figura política de FHC.

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