Diálogos

Nas ondas de um canudo que ouve

O menino Lobato

O experiente Lobato

“Diálogo” com Monteiro Lobato. Os trechos de autoria do gênio da literatura infantil (que tinha também tantas outras faces igualmente geniais) foram retirados do áudio da última entrevista que Lobato concedeu. A entrevista foi concedida ao radialista Murilo Alves Mendes, da rádio Record, em 02 de Julho de 1948, dois dias antes de Lobato falecer. Está disponível na internet em áudio (dividido em três vídeos do youtube). Como não achei a entrevista transcrita, eu mesma fiz a transcrição (não da entrevista toda, mas da quase totalidade). Para quem quiser ouvir Lobato falando o que está aí transcrito e algo mais, postei os três vídeos que contêm o áudio da entrevista juntos no seguinte link do meu outro blog: http://ahrt84.blogspot.com/2009/07/61-anos-sem-monteiro-lobato-estar-aqui.html

Segue então meu “diálogo” com Lobato – os trechos de minha autoria aparecem em negrito, os de Lobato em itálico:

Monteiro Lobato: Bom, agora eu vou falar aqui, não é? Nesse canudo (referindo-se ao microfone). Eu não tenho prática nenhuma, de maneira que é possível que saia tudo errado.

Eu também não me sinto muito à vontade falando para um grande público, sabe, sou tímida. E tenho impressão que todo o tímido se cobre por uma invisível capa na hora de subir a qualquer palco que a vida lhe imponha. É como se ele se superasse e, naquele momento, não fosse exatamente a pessoa que vive em seu interior. Não há falsidade aí, os dois seres convivem, porque ninguém é só erro, ninguém é só acerto. Mas ainda desconfio que o melhor mesmo é errarmos. Sem erros nada de acertos, não acha?

Monteiro Lobato: Eu toda noite ouço o Zé Caninha, naquele programa “Cartola de protesto”, e gosto imensamente deles por uma coisa, uma descoberta que eles fizeram, ele e o seu companheiro Vasconcelos: eles descobriram que é um grande erro estar renovando o programa, o certo é repetir todas as noites a mesma coisa, porque o público acostuma, gosta e não quer mudança. Eu mesmo fico danado quando eles mudam as pilhérias, gosto de ouvir todas as noites as mesmas pilhérias. E aconselho aos técnicos de rádio que estudem esta descoberta, porque é uma descoberta psicológica interessante e muito importante. Até aqui o rádio era baseado na renovação constante dos programas, novidade em cima de novidade. Pois bem, eles descobriram que isto está errado. Eu até quero que eles mudem um bocadinho, levemente, todo dia, mas quando eles mudam demais eu fico danado e acabo protestando com uma carta.

É engraçado como o ser humano lida com as mudanças. Se elas forem paulatinas, de modo que quase não apareçam, ainda são bem digeridas. Se forem bruscas, a revolta é geral. Tudo é a forma como são conduzidas. Mas o fato é que na vida tudo muda numa velocidade não imaginada por nenhuma roda gigante. E elas são de tal maneira rápidas que é da maneira que o olho humano não as enxerga cotidianamente. Em sua maioria, soam como um correr natural do rio, páginas de um livro que não seria o mesmo sem aquelas reinações, não é? E ainda bem que nosso olhar tem essa limitação, foi a forma que Deus encontrou de nos emprestar alguma perfeição. Afinal, se conseguíssemos sempre enxergar o virar das páginas, que a cada minuto são diferentes, não viveríamos, pois seríamos constantemente invadidos pela vontade de retornar ao nosso passado.

Monteiro Lobato: Você veja aqui o amigo Murilo, que na Espanha era pintor e agora aqui é radiofonista. Ou sei lá como chama isso. Radialista, né? (“Um neologismo que eu não gosto muito”, diz o Murilo). Ele dá-me um canudo que ouve (o microfone…) e eu sou obrigado a falar nesse canudo… E se eu estivesse falando sozinho eu estava muito satisfeito, mas estou aqui com várias testemunhas. O “pintor” Murilo (rindo) e (dentre outros citados) aqui o amigo Armando Pinto, um sonhador… que está procurando um editor e não acha, porque a coisa mais rara que há no mundo hoje é um editor que edite!

Assim como são raros os artistas que produzam arte! Num mundo que já perdeu a noção do que é arte, que já não sabe que ela é um algo a mais, que precisa trazer em si a capacidade de transformar os que tomam contato com ela para só assim poder ser chamada de arte, dizer-se artista é fácil. O difícil é conseguir que suas palavras sejam gravadas em corações de modo a ecoarem décadas e mais décadas depois.

Monteiro Lobato: Bom, eu estou falando e dizem eles que o aparelho (o microfone…) está gravando! E depois vai repetir ao público as minhas bobagens… Eles acham que as minhas bobagens podem interessar… Eu duvido! Eu quero ver para crer!

Bom, nem sempre os gênios conseguem ver em vida o interesse do grande público por sua obra. Mas os verdadeiros artistas são imortais.

Monteiro Lobato: Muito bem. Estou comovido e o Murilo está notando a minha comoção, cujos sinais são visíveis. A primeira dificuldade que eu encontro em falar no rádio é ter o que dizer, é ter assunto. Porque os assuntos são infinitos, mas quando a gente chega na hora de agarrar um não é fácil.

Os assuntos têm que ser agarrados, de preferência, um de cada vez, não é? Podíamos falar sobre a questão do petróleo. Eu não poderia perder essa oportunidade, não acha? Afinal, estou “dialogando” com aquele que foi um dos mais ardorosos defensores da criação da Petrobras, tendo chegado a bater de frente com Vargas por conta disso, o que o levaria a ser preso por duas vezes. Consta ainda que toda sua incessante luta pela nacionalização da extração do petróleo teria sido um dos fatores decisivos que o levaram à pobreza, a problemas sérios de saúde e, enfim, a um profundo desgosto.

Monteiro Lobato: Sobre o petróleo. Bom, é um assunto em que eu era muito versado antigamente. Eu levei dez anos entendendo de petróleo e tirando petróleo, furando a terra, etc… Hoje eu noto que o petróleo fez um grande “progresso” (com tom de ironia). Em vez de estarem furando a terra, tão querendo esmola. Virou mais um pobre. O Brasil tem agora, além de seus pobres habituais, o pobrezinho do petróleo. Aí, eu já vi num lugar um caldeirãozinho com um letreiro: “Pró Petróleo!” São os estudantes que estão tirando dinheiro pra fazer discurso sobre o petróleo. De maneira que o que eu sei do petróleo é isso: que ele “evoluiu” muito desde furar terra, como no meu tempo, uma coisa muito perigosa. Eu fui pro exterior e pra cadeia por causa de andar furando a terra aqui. Por causa de agarrar o leão pela cauda. E eu agora estou contemplando essa “evolução”. Acho até que os brasileiros devem contribuir com seus níqueis no caldeirãozinho do petróleo. Já que o petróleo não sabe dar dinheiro de outra maneira que dê sob forma de esmola. Estaremos, então, com mais um pobrezinho aqui, ao lado de tantos que já temos (sempre com tom de ironia).

Poxa, nesse nosso Brasil do século XXI, definitivamente o senhor precisava estar aqui. Tanto o Brasil como o mundo precisam sempre de pessoas capazes de unir espírito combativo com sensibilidade. “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura jamais”, diria Che. E é isso o que pessoas como o senhor passam a vida fazendo. Lutar, sim, porém sem jamais perder a capacidade de comover-se e comover. Sua vasta obra, com personagens que encantaram e ainda encantarão crianças de várias gerações (e, diria até, crianças de todas as idades), é algo que não me deixa mentir.

Monteiro Lobato: Eu nem me lembro mais como surgiram essas personagens… Faz tanto tempo! Eu lembro que tem a Emília, que é muito engraçadinha, mas não me lembro como que ela surgiu. Tudo isso são águas passadas.

Bem, a quantidade de informações na mente humana é mesmo absurda. Então, se ela não tivesse esse mecanismo chamado esquecimento, eu creio que a vida seria inviável. Nossa mente já foi criada de modo a peneirar da forma mais sábia possível os arquivos da memória. Certamente, como parece claro, o que fica sempre é o principal. O que nos tocou mais fundo e que representará a peça chave para o entendimento do todo e, conseqüentemente, para que possamos avançar para além das estradas já percorridas. Pena que, às vezes, não consigamos esquecer tudo o que queremos. Todas as mazelas que assolam o mundo e o nosso Brasil, sem dúvida, se nós pudéssemos não as guardaríamos na lembrança. Mas são assuntos que tem ser levantados sempre, não é? No Brasil dos anos 40, por exemplo, dizia-se que “vivíamos no país do suborno”. É até curioso dizer isso pro senhor hoje… Ah, como eu queria que as coisas tivessem melhorado nesse sentido!

Monteiro Lobato: Veja bem, eu tenho medo de me comprometer. Eu já fui pra cadeia e depois disso eu fiquei cauteloso. E, antes de eu emitir uma opinião, eu penso nas conseqüências. Porque há uma pessoa que já me proibiu de voltar à cadeia: minha mulher. E eu respeito muito as opiniões dela. Ela acha que já foi o bastante. E, graças aos seus conselhos, eu me tornei cauteloso. De maneira que eu não vou dizer nada sobre esse negócio de suborno… Mesmo porque não sei o que é suborno. Nunca fui subornado. Não tenho nenhuma experiência pessoal do caso. Agora, ouço dizer que é uma coisa muito “agradável”, que as pessoas conseguem grandes lucros por intermédio do suborno. Mas não vale a pena entrar num assunto que pode desrespeitar pessoas “respeitáveis” aí fora (mais uma vez as aspas ficam por conta de todo o contexto da fala e do visível tom de deboche na voz de Lobato). (…alguns minutos depois, bem sério) Cá entre nós, que ninguém nos ouve, eu não acredito em mais nada. E tenho verificado o seguinte: que só os homens que chegaram a essa filosofia é que são felizes. Porque todos que ainda acreditam em alguma coisa acabam levando na cabeça. Só os céticos absolutos é que acertam. De maneira que, cá entre nós que ninguém nos ouve, eu acho que esta é a verdadeira filosofia: não acreditar em nada! Porque tudo é duvidoso.

Concordo que a dúvida é algo vital. Quem não se dá o direito de duvidar, pára de pensar e, sem se dar conta, deixa de viver. Tirar do homem a dúvida seria tirar seu bem mais precioso e pôr por terra a diversidade de seu conhecimento. No entanto, vou ter que discordar de um ceticismo tão radical. Apesar de eu ter a consciência de que nenhuma verdade é absoluta, acredito ser fundamental para o ser humano criar ilusões proveitosas, escolhendo “meias-verdades” nas quais seja útil confiar. Se a humanidade não acreditasse no seu próprio futuro, onde estaríamos hoje? Com um pouco mais de esperança em soluções que possam viabilizar o bem comum, seriam possíveis até maiores acordos entre nações, não acha?

Monteiro Lobato: Eu acho que um acordo entre as nações será possível no dia em que todas tiverem armas iguais. Quando todas tiverem bombas atômicas de igual força, a harmonia entre elas vai ser absoluta. Porque o que causa diferenças entre os povos é a diferença dos armamentos. Enquanto uma tiver bomba atômica e a outra não, a que tiver bomba atômica usará da sua superioridade. Quem tem força, abusa. Agora, quando falta a força, então todos ficam muito bonzinhos. O que está faltando ao mundo, para o restabelecimento da paz, é apenas isso: bomba atômica para todos! No dia em que chegarmos a isso, todos os problemas estarão resolvidos. E viraremos, então, uns carneirinhos, todos cordeiros (novamente irônico).

Bem, parece que não é exatamente esse o ideal, né? Falemos, então, de idealismo. Essa coisa que faz parte de sua história. Essa coisa que move o mundo. Creio que jovens sem ideais deixam um pouco perdido o sentido da palavra juventude. É nessa época que precisam aflorar motivações que permitam a construção de uma vida. O senhor foi um jovem idealista e não acredito que, sem isso, teria chegado aonde chegou. Mas sei que o idealismo sozinho não basta. Por conta de idealismos ocos, sem estruturas, interna e externa, fortes o suficiente para fazê-los vingar, o mundo já viu muitas mentes jovens e brilhantes se perderem das piores formas. Sei, portanto, que há um algo mais. Um ingrediente que faz com que a pessoa possa romper a barreira entre o idealismo da juventude e uma velhice que lhe confira respeito. Algum palpite?

Monteiro Lobato: Crescer e aparecer. Esta é uma condição essencial. Antes que este jovem cresça e apareça, ele não poderá ser nada. Crescendo ele alcançará a maturidade, alcançando a maturidade ele dará tudo de si, ele porá em relevo todas as qualidades latentes que possua. E, se de fato ele tem qualidades, esse jovem aparecerá. Se ele não tem qualidade, a maturidade servirá para revelar isso, e ele não aparecerá. De maneira que o aparecimento de um jovem, em especial no mundo das letras, é uma coisa que depende exclusivamente das qualidades naturais desse jovem. Se ele tiver qualidades boas, ele vencerá. Se ele não tiver qualidades boas, ele fracassará e com muita justiça. É isso o que pensa o velho Lobato com sua vasta experiência acumulada.

Experiência. Uma bela palavra. Acho que estou no mundo para isso mesmo: para experimentar! E, ainda jovem, do que eu mais me arrependo não são daquelas experiências que explodiram na minha frente, mas daquelas que eu não vi explodir pelo medo de tentar. Penso que quem muito quer mudar o passado não deve gostar muito da pessoa que é. Afinal, foi o passado que nos fez como somos, ele é irreversível, e precisamos conviver com o espelho. Gosto de quem sou, por isso eu sou grata a cada tijolo quebrado que ajudou a me construir. Voltaria à adolescência e levaria a mesma falta bem na hora que eu ia chutar ao gol na pelada dos times do CPII. Meu joelho não seria o mesmo sem aquilo. Voltaria à infância e tropeçaria com minha bicicleta naquela mesma pedra que deixou esta marca, quase invisível, logo abaixo do meu nariz. Mas eu sei que ela está lá. E gosto de lembrar o dia em que meus amigos saíram correndo para avisar minha avó que eu estava desacordada na calçada. E o sorriso deles depois ao ver que eu estava bem? E se eu não tivesse caído, como teria a lembrança daqueles olhares? Voltaria a engatinhar só para dar com a testa na mesma quina de porta. Uso franja pra esconder a pequena cicatriz. Pensam que é charme… É, definitivamente, eu faria tudo de novo sem medo de ser feliz, porque tudo foi como tinha que ser. E as coisas boas então? Ahhhhhhh!!!!! Faria tudo de novo!

Monteiro Lobato: Bem, eu talvez voltasse à mesma profissão. Porque há nela uma coisa que me seduz muito: o interesse que as crianças revelaram por uma parte da minha obra, a parte infantil. O grande número de cartas de crianças que eu recebo, a sinceridade do que elas dizem, e o fato de virem não só do Brasil como de outros países, sobretudo dos países de língua espanhola, me fazem crer que se eu voltasse, se eu fosse viver de novo a minha vida, eu ia entrar pelo mesmo caminho. Porque não creio que em qualquer outro setor fosse possível eu ter as mesmas compensações que tenho com as crianças. Ainda agora recebi aqui a mãe da Lilidet. Essa Lilidet é uma menina encantadora, que prometeu me visitar. Eu estou ansiosamente à espera da visita da Lilidet. Eu considero uma visitinha da Lilidet um prêmio. Ora, são inúmeras as crianças que me visitam. Eu considero cada uma delas um prêmio. De maneira que eu sou um sujeito muito premiado. E um sujeito que se acostumou a ser muito premiado numa vida, se voltar outra vez ao mundo ele quer continuar a ser.

Sabe que, às vezes, eu desejo voltar a ser criança? Ainda que eu nunca tenha deixado de ser… Mas era só para voltar a ouvir as histórias de um certo “Sítio do Pica-pau Amarelo” antes de dormir…

Monteiro Lobato (rindo): O meu maior desejo neste momento seria ver este locutor pelas costas e eu já lá em cima no meu apartamento – e na cama – para descansar dessa sova que levei hoje!

07 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

Categorias:Diálogos, Proseando

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