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Sobre abusos e leviandades



Impressiona-me a facilidade com que FHC atribui a Lula adjetivos como “leviano”, “imprudente”, “irresponsável”.Um ex-governante que nega seus oito anos de neoliberalismo, um partido que não sabe onde está a democracia, muito menos a social e que, se dependesse deles, tinham vendido a Petrobras, convenhamos, não podem falar de irresponsabilidade ou imprudência. A um ex-presidente que fala sem pensar ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”? – o que resta?

Por Ana Helena Tavares

“O presidente Lula, às vezes, abusa das palavras. Sabe que, se o presidente do Senado eventualmente renunciasse, haveria uma nova eleição. Eu lamento que o presidente diga coisas tão levianas”. Essa foi uma das últimas declarações públicas de nosso falastrão ex-presidente FHC na última quinta-feira, 02 de Julho. Nem pra comédia pastelão serve.
FHC é de tão triste figura que nem sequer percebe que há muito já perdeu a graça. Até para “abusar das palavras” é preciso coerência, é preciso classe. Uma classe que muitos desfilam pelos quadros da Sorbonne, mas raros são os que saem de lá para aplicá-la nas ruas. Deve ter sido lindo para os alunos de “Monsieur FHCÊ, o príncipe dos sociólogos”, aprenderem nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”). Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.
Aí vem FHC criticar Lula pela defesa de Sarney. Curioso. Durante bom tempo do governo FHC, Sarney servia para ser aliado. Unha e carne. Tenho certeza que, quanto a Sarney, se já não prestava naquela época, pouco mudou de lá pra cá. É absolutamente o mesmo. Ah, só que o jogo político se inverteu. Sarney já não serve mais para FHC e para seus abusos. E, caso a saída dele sirva para desestabilizar o atual governo, ótimo. A que papel FHC tem se prestado nos últimos anos senão a tentativas vãs de criar um descrédito sobre a figura de Lula para ver se alcança uma nesga de esperança de voltar a ter alguma importância na cena política brasileira? Isso é o que eu chamo de pensar no país.
No jogo pesado da política reforçado pela numerosa parcela medíocre da imprensa que se vende a ele, não há altares de pureza, há palanques até embaixo de tapetes. É um jogo de causar inveja ao mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel. Conhece bem os tortuosos túneis da política (ou seriam “passagens secretas”?), aqueles da “arte” do bem encobrir, dos “alguéns” a proteger. Por tudo isso, desconfio sempre muito de “demonizações” exacerbadas, qualquer que sejam elas, ainda que, como é o caso de Sarney, a pessoa não seja flor que se cheire. Isso porque, aqueles que hoje levantam a voz contra ele fazem parte do mesmo jardim.
Ah, como eu queria que o problema se resumisse à queda do presidente do Senado! Seria muito mais fácil, só que, para a coisa ser justa, muitos precisariam cair com ele.
Senão vejamos… Por que será que ninguém ainda parou para assumir de onde se origina a alçada das irregularidades encontradas em contratos, atos administrativos e passagens aéreas no Senado? Tudo isso está (ou deveria estar) sob os olhares atentos da primeira-secretaria que, historicamente, é comandada pelo DEM. A atual gestão está aí para não me deixar mentir. O primeiro-secretário da Mesa Diretora do Senado é Heráclito Fortes (DEM-PI). Ou seja, parece claro que, se há contas a prestar, o DEM também tem que prestá-las. Mas isso não é falado pela imprensa, não é? Pra que?
Leviandades por leviandades… Impressiona-me a facilidade com que FHC atribui a Lula adjetivos como “leviano”, “imprudente”, “irresponsável”. Ora, a declaração de FHC sobre Lula, dada ontem e que aparece no início deste texto, refere-se à fala de Lula de que “o PSDB tenta ganhar no tapetão ao pedir o afastamento de Sarney”. Há alguma mentira aí, “Monsieur FHCÊ”? Aliás, de tapetão o senhor entende, não é? Conte aqui só para a gente… Como foi mesmo que o senhor conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação da sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, é que o senhor sempre distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião, não é?
Um ex-governante que nega seus oito anos de neoliberalismo, um partido que não sabe onde está a democracia, muito menos a social e que, se dependesse deles, tinham vendido a Petrobras, convenhamos, não podem falar de irresponsabilidade ou imprudência. A um ex-presidente que fala sem pensar ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”? – o que resta?
Só merecia mesmo retornar à Sorbonne e perceber que, hoje em dia, os alunos de lá preferem ouvir o Lula.

03 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

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1 resposta »

  1. Menina, isso descríto em seu blog é uma realidade para ser exposta para todos em nosso país Brasil, pq à mídia televisiva é conevente em esconder essas mazelas absurdas que atinge os seus…
    Vc é fantástica nas suas colocações e habilidosa, viu!
    E. Freitas

    Curtir

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