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Monteiro Lobato precisava estar aqui

acervo UNICAMP)

Monteiro Lobato na redação da "Revista do Brasil" (Foto: acervo UNICAMP)

Sou estudante de jornalismo. Sim, estudante. É o fato de eu estar na faculdade que me garante esta condição? Não! Todo ser humano tem a capacidade de ser um autodidata, de estudar por sua própria conta – e risco. É claro que há louváveis exceções à regra, sempre há, mas queimar etapas tem seus perigos.

O risco que corre, principalmente no mundo de hoje, alguém que queira entrar para o jornalismo sem a formação adequada e sem o amparo de um diploma é o mesmo que corre alguém que pretenda ser mestre-cuca e já comece longo tentando fazer uma omelete sem nunca ter fritado um ovo. É o risco de amargar bocas.

Matérias de jornal podem causar uma revolução na sociedade. Watergate não me deixa mentir. Textos mal-intencionados têm o poder de amargar multidões. Aí poderão dizer: “Só que não é a faculdade que garante ética a um profissional”. E não é mesmo! Mas, se dentro do ambiente acadêmico a pessoa tiver oportunidade de ir fritando alguns ovos antes de fazer aquela omelete especial, tendo acesso a atividades como, por exemplo, jornais laboratório, certamente chegará ao mercado de trabalho já conhecendo, na prática, o significado, para o bem e para o mal, dessa bela palavra de cinco letras. Aí a escolha é de cada um. Aliás, como sempre.

Da minha parte, digo que já fritei alguns ovos e, mesmo assim, ainda não me sinto preparada para fazer uma omelete. Vocês poderão supor, então, que eu estou querendo dizer que será o diploma que me fará preparada para servir um banquete. Não, porque, no meu caso, morrerei achando que em todos os bolos que eu fiz sempre ficou faltando uma cereja. A perfeição é inalcançável, tenha você ou não um diploma. Mas, se o tiver, você, pelo menos, terá algumas chances a mais de já não cometer, diante de um público de milhares, aquele mesmo erro que cometeu dentro das quatro paredes de uma sala de aula ou de um laboratório de pesquisa universitária. Como bem dizem os verdadeiros mestres, ali é o lugar de errar – e de pensar. Talvez por isso o desespero de Mendes. Um ser pensante é tudo o que menos ele quer ver pela frente.

É totalmente paradoxal ver a decisão de um juiz que crê numa imprensa sob censura, como já deu mostras disso, ser defendida por pessoas que, para tanto, se baseiam na infundada alegação de que a lei que instituiu a obrigatoriedade do diploma teria sido um artifício da ditadura militar para cercear a liberdade de expressão. Visto que, segundo dizem, isso afasta da imprensa os profissionais de outras áreas. Parece-me que há aí dois grandes equívocos.

Primeiro ponto: com relação à obrigatoriedade do diploma entendida como armadilha da ditadura, é um argumento tão sem fundamento que as pessoas nem sequer se lembram que o sistema deles não dependia de uma fórmula assim tão complexa: simplesmente censuravam ou, como ocorreu tantas vezes, prendiam e, se preciso, iam mais longe. Herzog não tinha diploma de jornalista e não foi através da obrigatoriedade do diploma que a ditadura o silenciou. Segundo ponto: advogados e médicos, só para citar duas grandes áreas, nunca foram impedidos de escrever em jornal ou, tampouco, de expressar suas opiniões em qualquer veículo de comunicação, mesmo não tendo o diploma de jornalista nem, muito menos, o registro profissional. Aliás, muito ao contrário, até pela inexistência do curso de jornalismo antigamente, sempre foi farta a quantidade de pessoas sem formação específica ou profissionais formados em outras áreas exercendo normalmente a função de jornalista. Ou seja, cadê a tão falada ameaça à liberdade de expressão relacionada à obrigatoriedade do diploma?

Só que a grande maioria dessas pessoas que hoje exercem o jornalismo sem diploma e que, segundo afirma a própria ANJ, não são maioria no mercado, vem de outros tempos. Vem de tempos em que redação era celeiro. A redação acolhia e ensinava. Para se ter uma noção, o jovem idealista Monteiro Lobato, saído do interior de São Paulo e formado advogado por imposição do pai, chegou a fundar um pequeno jornal com seus colegas na Faculdade de Direito e foi, por muitos anos, colaborador do “Estado de São Paulo” e da “Revista do Brasil”, publicações do mesmo grupo editorial. Segundo os biógrafos de Lobato, a redação do “Estadão” e também a da “Revista do Brasil” teriam sido os locais onde ele aprendeu a lapidar seu estilo. Hoje em dia, alguém consegue imaginar as redações dos grandes jornais exercendo tal papel? Quando vejo afirmações do tipo – “Há lugar para todos nas redações” – como tenho visto por aí, fico imaginando o jovem Lobato chegando hoje, 2009, à redação do “Estadão”, vindo lá do interior, sem ser conhecido ainda, trazendo na bagagem tão somente muito idealismo e um diploma de advogado. Sem, porém, nenhum preparo para trabalhar com imprensa, apenas a nobre disposição de aprender. Alguém tem dúvidas da recepção “calorosa”?

Vejam, então, como são hipócritas os barões midiáticos que hoje falam em “ganho de diversidade” ao se dizerem satisfeitos com o fim da obrigatoriedade do diploma. A diversidade sempre existiu, o diploma jamais a tolheu, e, dentre tantos outros interesses por trás dessa euforia, está o de que poderão reduzir salários drasticamente. Só que a hipocrisia chega a tal ponto que eu tenho certeza de que esses mesmos barões, que andam soltando seus fogos em editoriais, continuarão dando mais valor a estagiários vindos dos bancos das faculdades de jornalismo e a profissionais diplomados por elas. E, nisso, salvos alguns raros mais espertos, os Lobatos de hoje são engolidos.

Por isso, é claro que as academias sofrerão um forte baque, principalmente aquelas que não se adequarem às novas tendências do Brasil e do mundo, mas, ainda assim, essa decisão, que ainda acredito que possa ser revogada, está longe de significar o fim dos cursos de jornalismo e a derrocada de sua importância. Ao contrário disso, até acho que o que Mendes conseguiu foi o efeito contrário do que desejava.

Setores importantes da sociedade estão discutindo essa questão e, se o congresso resolver entrar nessa briga, ainda há, sim, esperança de que o jornalismo que, pelo menos pra mim é uma missão, consiga voltar a ser entendido como uma profissão, que de fato assegure um amparo a quem a exerce.

Por isso tudo, sou estudante de jornalismo e vou continuar sendo.

21 de Junho de 2009,
Ana Helena Tavares

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Categorias:Artigos, Crônicas

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4 respostas »

  1. Parabéns pelo texto! Só discordo de você, em especial, num ponto: jornalismo continua sendo profissão! O supremo, penso, decidiu o certo com argumentos errados. Tenho um opinião particular. Se quiser, leia o meu blog. Abraços,

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  2. Pois é… Também sou um estudante de jornalismo e continuarei sendo. Mesmo indignado e estupendamente furioso com tal Ministro, o que me resta é seguir de cabeça erguida em busca do meu sonho e mostrar que uma faculdade de jornalismo pode estruturar um aluno e fazer com que ele entenda os mecanismos midiáticos. Ana, amei o texto! Tive mais ânimo ao lê-lo!

    Bjos

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  3. Ana, adorei ler o seu texto. Muito bem pontuado, estrutura de organização de ideias coerente, argumentos marcantes. Sem dúvida, há boa informação diluída em opinião, o que faz de vc uma cronista de muito potencial, mas isso já era esperado. O jornalista é um observador da vida, nem todos fazem isso com grande categoria, é preciso talento. Talento não se aprende na faculdade, isso é um diferencial, mas é nela que o aprimoramos. Sua crôica me deu vontade de escrever um texto para debater com o seu, não é a primeira vez que isso acontece, sobretudo com um material seu. Bons textos são assim, fazem a gente pensar, assossiar ideias, dialogar com o autor formando uma opinião crítica. O jornalista é um formador de opinião. Pensar, é isso que ele faz e incentiva os demais a o fazerem. Não somos os donos da verdade, mas temos o dever de dar instrumentos para que cada um construa sua própria verdade. Parabéns e obrigada por reforçar a nossa luta! Beijo

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