Ensaios

O aflorar do ser – um ensaio para teatro

Livremente inspirado no texto “Apelo aos homens”, de Charles Chaplin.

ROTEIRO: Ana Helena Tavares e Maria Cecília Sousa.

A cena inicia-se com a personagem Carlitos entrando e sentando-se no banco de praça. Sua expressão é triste, pois ele demonstra estar completamente desgostoso da vida. Nitidamente, percebe-se em seu rosto um profundo descontentamento. (Seu pensamento então, é transmitido para o público em off)

Voz em off: – Não entendo. Não consigo e acho que nunca irei compreender o que se passa na cabeça da humanidade. Tenho pena, é verdade. Tenho muita pena do rumo que estamos tomando e me preocupo se haverá tempo para mudá-lo. Sabe, não nasci para governar nem dirigir nada! Este nunca foi um dos meus pedidos. Mas também não nasci para ser adestrado ou domesticado por ninguém. E talvez seja esse o meu grande erro… Ficar sempre com meias palavras, não querer prejudicar ninguém. Ganhei fama! Mas para quê? Não me respeitam como sou e, aliás, nem a si próprios respeitam. Se fosse só comigo… Ah! Não seria o grande problema, essa vida até já me foi generosa. O que me decepciona é ver os homens calarem-se diante de tanta incompreensão! E olha que nem estamos na época do cinema mudo! Se bem que naquela época ainda havia mais expressão. Esses olhos que outrora sonhavam sorrindo, hoje choram diante da triste realidade do mundo.

(CARLITOS PRESENCIA CENAS DE VIOLÊNCIA E DESCASO, QUE OCORREM NA PRAÇA NO MOMENTO EM QUE ELE ESTÁ SENTADO NO BANCO: UM ÔNIBUS QUE NÃO PÁRA AO VER UMA VELHINHA FAZER SINAL; UM ASSALTO; E UMA MENINA QUE VEM LHE PEDIR ESMOLA)

Voz em off (CARLITOS LEVANTA-SE E DIRIGE-SE AO PÚBLICO):
– Chega! Não suporto tamanha dor!
(EM SEGUIDA, DESABA ESMORECIDO SOBRE O BANCO. ENTÃO, SUBITAMENTE A SUA ALMA SE MATERIALIZA EM DUAS PERSONAGENS, QUE EMERGEM POR DETRÁS DO BANCO)

1ª voz: – Veja só, sua malvadeza, o que fez com este homem! Quase o levou ao desvario! Não fosse eu a conduzi-lo pelo caminho certo e você, com certeza, já o teria consumido.

2ª voz: – Não. Não mesmo! Para falar a verdade, boa samaritana, não tenho pressa em dominá-lo. Aliás, qual o prazer que teria uma criança em brincar com todos os brinquedos tão rapidamente? Antes o seu prazer está em desfrutar e se deliciar com a verdadeira alegria que cada brinquedo lhe proporciona. Assim sou eu! Divirto-me muito mais aos pouquinhos, deliciando-me com o efeito de meu veneno. Recebo o meu galardão quando vejo aflorar no pensamento das pessoas a ira e o descaso. Por que esta cara? Não sou tão má assim… Já me cansei dessa vida, agora sou apenas negligente!

1ª voz: – Sinto-me perdida ao dividir o mesmo corpo com você. Mais ainda, em ser a sua outra face. Mas não vou desistir! Aquele que pega no arado e olha para trás, retrocede para a perdição. Não a desprezo, nem a odeio. Todos temos o desejo de nos ajudarmos uns aos outros. E eu quero ajudá-la a livrar-se de tanto ressentimento.

2ª voz: – Pensa que sou maluca? Que estou deitada diante de algum analista?!! Não preciso da sua compreensão. Rejeito seu sentimento de pena! Este mundo não é digno de misericórdia. Pelo contrário, nunca houve melhor momento para as minhas bem-aventuranças. Nunca encontrei em coração humano tamanha liberdade para me expandir como agora. Basta apenas um pequeno descuido seu e então, a vingança, a desconfiança, os maus olhos surgem nas mentes humanas.

1ª voz: – Agora entendo o porquê de tanta violência nesse mundo, o porquê de tanta corrupção e imoralidade. Você governa a mente dessas autoridades que se deixaram corromper pela sua amargura. Não sou como você, que invade a vida dessas pessoas, entrando sem ser convidada. Eu bato à porta e se houver espaço, entro e faço morada proveitosa.

2ª voz (BATENDO PALMAS DE FORMA IRÔNICA): – Vejo que é bem dotada de inteligência! Mas não soube louvar-me como mereço! Não apenas sondo o pensamento dos poderosos, como também a mente de seus dependentes, fazendo com que se voltem uns contra os outros. Ou então, que aceitem passivamente suas imposições, como verdadeiras marionetes!

1ª voz: – Não. Isto nunca! Jamais serei passiva diante de suas atrocidades. (DIRIGE-SE AO PÚBLICO) “Soldados, não vos entregueis a esses brutos… Homens que vos desprezam e vos tratam como escravos, arregimentam as vossas vidas, impondo-vos atos, sentimentos e pensamentos; são eles que vos adestram, obrigam-vos a jejuar, tratam-vos como gado e servem-se de vós como de carne para canhão! Vós não sois carne! Sois homens com alma e matéria.”

2ª voz: – Vão apelo. Tarde demais. Se pelo menos tivesse ensaiado esse textinho na época da bomba atômica, talvez houvesse maior repercussão. Despertar agora com o mundo assolado pelo neoliberalismo, já não tem mais graça. Até a essência da maldade eles conseguiram desmoralizar. Já falei qual é a boa… Não é lucro pra mim criar uma nova bomba como as de Hiroshima e Nagasaki. Essas grandes coisas levam o povo a refletir. Minha glória se desencadeia nas pequenas raposinhas, como por exemplo, nos generosos desfalques cometidos pelas autoridades, nas guerras em alguns países, na fome e deixa-me ver… Ah! A nova diversão agora são os chamados “homens-bomba” ou, melhor, “guerreiros suicidas”! Explodir pizzarias, tacar avião em prédio e ver a coisa pegar fogo… Humm… Isso sim é divertido!!

1ª voz: – Diverte-me, sabia? Nunca me tirará do sério. Chateei-me apenas quando falamos sobre os homens, pois sei que não são de má índole e que são influenciados por você. Mas alegro-me quando vejo que este homem luta contra o seu próprio ego. (REFERINDO-SE AO CARLITOS) Porque se minha causa estivesse perdida, ele não teria chegado ao ponto de nos pôr para fora. E ainda que você tente corromper sua natureza física, estarei a cada dia renovando o seu interior.

2ª voz: – Doce ingenuidade! Vejo que sua vida acadêmica não anda nada bem. Eu falei: decoreba não é mesmo o caminho! Tudo muito bem ensaiadinho, comovente mesmo… (PEGA O JORNAL QUE ESTÁ EM CIMA DO BANCO E ABRE, MOSTRANDO AO PÚBLICO) Extra! Extra! O mundo já não se comove mais como antigamente! (ATIRA O JORNAL PARA TRÁS) Vejo que seus contatos andam mesmo dormindo no ponto… (ENCOSTA-SE NO PONTO DE ÔNIBUS E, IRONICAMENTE, FINGE DORMIR)

1ª voz: – Sua ironia chega a me dar voltas no estômago. Tenho pena de você, muita pena. Mas não posso ajudar quem não quer ser ajudado…

2ª voz: – Fique sabendo que estou muito bem assim! Já disse que se tem algo que não preciso é de sua compaixão. Não me venha novamente com essa!

1ª voz: – O que lamento é esse ódio que a consome. Tire isso de você! Você tem raiva, e somente os que não são amados cultivam esse sentimento. Sim, os que não são amados e os infelizes.

2ª voz: – Acredita que no mundo há mesmo lugar para todos? Eu faço de tudo para que o homem se deleite dos prazeres da vida e o que recebo em troca? A ingratidão humana!!! Desista de querer conscientizar os outros! Só o que se recebe é um pé nas costas…

1ª voz: – Você não sabe o que diz. Se insisto é porque tenho esperança! E não penso em perdê-la! Faço meus os ideais de Policarpo Quaresma: “Luto e até morro pela causa, mas jamais viverei sem razão!” E minhas únicas armas (COMEÇA A RODAR EM VOLTA DA 2ª VOZ) são o amor, a fraternidade, a compreensão, a igualdade, a amizade, o respeito e a paz.

2ª voz: (ENQUANTO A 1ª VOZ RODA EM TORNO DELA, ESTA VAI ENTRANDO EM DESESPERO E, GRADATIVAMENTE, VAI CAINDO AO CHÃO) Não! Não! Nãooooooo!!!!!!!!

(A PERSONAGEM CARLITOS LEVANTA-SE, DIRIGINDO-SE À FRENTE DO PALCO, FORMANDO UMA RODA COM AS DUAS VOZES. INICIA-SE, ENTÃO, A COREOGRAFIA)

Para não dizer que não falei das flores
(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora,
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer

Pelos campos, a fome, em grandes plantações
Pelas ruas, marchando, indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora,…

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis, leis ensinam antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora,…

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais, braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição

(FORMA-SE NOVAMENTE UMA RODA, DE FORMA QUE A 3ª VOZ, QUE ATÉ ESSE MOMENTO ESTAVA ESCONDIDA ATRÁS DO BANCO, ESTEJA EM SEU INTERIOR E SURJA DE DENTRO DELA)

3ª voz: – “Aos que podem compreender-me, direi: Não desespereis. A infelicidade que caiu sobre nós não é mais do que o resultado de um apetite feroz, o azedume de homens que temem a via do progresso humano. O ódio dos homens passará e os ditadores morrerão; o poder que usurparam ao povo, voltará ao povo. E quanto mais os homens souberem morrer, souberem ser humildes, menos a liberdade desaparecerá! Trazeis o amor e a humanidade em vossos corações!” Paz no mundo!!!

(DECLAMAÇÃO EM DIFERENTES LÍNGUAS DA SEGUINTE FRASE: “PAZ NO MUNDO!”)

Somos todos iguais nesta noite
(Ivan Lins)

Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores?

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeira
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos entrar mais uma vez

Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

Roteiro escrito em 2001.

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