Algum lugar entre a prosa e a poesia

Uma pergunta para Platão – crônica

Há muitas pessoas querendo abandonar a condição humana, achando possível serem confundidas com Deus.
Vejo isso, olho aos céus, e fico me perguntando se será um engano meu. Mas, quando olho à minha volta, vejo que realmente tem gente que não se importa em nada com as leis da natureza e parece querer ocupar definitivamente o lugar divino.
Esse tipo de pessoa deve pensar que ninguém vê seus erros, que é sempre possível escondê-los do mundo, querendo passar constantemente a imagem de que são melhores que as outras pessoas. Será que eles não vêem as câmeras atrás do muro?
Há até quem ache que ser imortal pode fazer alguém feliz. Não sou capaz de concordar com isso. Afinal, a morte faz parte da vida tanto quanto não há tristeza sem alegria. Tudo o que existe está interligado.
Difícil falar sobre o futuro de uma sociedade plural em que vejo gente sonhando em se coisificar. Em todo o mundo, o ser humano está, cada vez mais, querendo manipular sua própria condição. Não são muitos os que aplaudem o diferente. Muitos são os que se rebelam por acharem-se limitados e, então, querem limitar-se de vez ao tornarem-se perfeitos. Vai entender…
Será que preferem ser bijuteria em vez de pérola? A pérola é uma ferida que a ostra curou, trata-se de uma dor superada. O resumo da história é assim: se corpos estranhos – diferentes – não provocassem machucados nas ostras, jamais se formariam pérolas. Tropeçar na infância, quebrar a cara na juventude e colecionar erros na estrada produz pérolas. Elas têm brilho intenso, são absolutamente lindas e cada uma delas é única. Bijuterias são produzidas em massa, que nem as linhas de produção nas fábricas de Henry Ford.
Aliás, a linha de manipulação genética que visa criar uma geração de “super-bebês” guarda mesmo muita relação com a robótica linha de montagem de uma fábrica. Errar é o oitavo pecado capital. Todos os parafusos têm que estar em seus lugares numa velocidade jamais imaginada por Chaplin. Isso se é que são precisos parafusos.
E, nisso, será que não se permitem a grande magia do baile da vida: perder o passo, sacudir a poeira e retornar ao salão? Nunca conseguirão me convencer de que viver tem alguma graça sem isso.
Então, para que eu iria querer já nascer um robô com o meu código genético todo manuseado pelas mãos da ciência, sabe-se lá com que intenções – imaginem todos os interesses econômicos que esses projetos envolvem – correndo o risco de eu passar a vida sem conseguir dançar? Não, eu não ia querer isso para mim, não quero para meus descendentes e espero que a humanidade perceba a tempo o quanto pode estar indo longe demais em seus anseios insanos.
Nem, tampouco, vejo sentido algum em sair por aí me dizendo perfeita, me achando a tal, quando a graça toda está em ser de carne e osso, e errar. Será possível que a humanidade não enxerga que todos os maiores acertos da história foram erros antes?
Olhe um pouco para o passado. De vez em quando, é bom para tentar entender o presente, ou ao menos para enxergá-lo por outro prisma. Sua vida teria sido a mesma sem toda a dança de emoções, que deixou tantas seqüelas? Você realmente acha que deveria ter sido diferente? E todos os sonhos? É ou não especial suspirá-los na varanda? Como tê-los se o quebra-cabeça já viesse completo?
Ah, meu Deus, muito obrigada por me fazer errônea! Vou vivendo assim até quando o Senhor quiser. Sei que morrer é algo natural e da morte não escapo.
Meu Deus, Platão está aí por perto? Eu adoraria saber se hoje ele queria ser vivo.

17 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

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