Crônicas

O obrigada e as convenções lingüístico-sociais

Ou do porquê, nos momentos mais especiais, eu não digo obrigada

É fato que a língua é um fenômeno social. Não conheço a forma como nasceu a palavra obrigado, menos ainda quem primeiro a proferiu. No entanto, sabendo seu significado original, é possível se imaginar o contexto que talvez tenha sido seu berço: uma sociedade pautada pela troca de vantagens.

Ora, vejamos. Obrigado nada mais é do que o particípio do verbo obrigar, estando diretamente ligado, portanto, ao substantivo obrigação. Em outras palavras, quando se diz obrigado a alguém, está se dizendo, com uma única palavra, exatamente isso: “Sinto-me obrigado a retribuir o (favor) que você me fez.”

Esse significado fica claro quando vem o professor de língua portuguesa com a “D. Norma” debaixo do braço, lembrando que “homens dizem obrigado, mulheres obrigada”. Pronto, se a palavra precisa fazer concordância de gênero é porque ela não tem sentido solta; pertence a uma frase com sujeito, verbo e predicado, como manda o figurino. Frase essa que, com o evoluir da língua, ao longo da história, se reduziu a uma única palavra que traz todo aquele significado, mas hoje a grande maioria dos falantes já não mais se dá conta disso. Dizem obrigado(a) no automático, tantas vezes sem saber que estão dizendo: “Eu me sinto obrigado(a) a retribuí-lo.” Quase um fardo…

Como dizer obrigado(a) para quem lhe salvou a vida? Você se sente na obrigação de retribuir a essa pessoa ou fará isso com gosto? E o seu “salvador”, será que quer que você se sinta obrigado a retribuí-lo ou retribuição pra ele é a sua felicidade? Como dizer obrigado(a) pra quem lhe abriu caminhos? Quando você vir essa pessoa caída na estrada você vai levantá-la por obrigação ou por prazer?

É fundamental e bem interessante analisar também o outro lado da questão: o de quem presta determinado favor a alguém. Etimologicamente a palavra favor tem origem nobre. Favoris em latim significa apoio. Curioso que, ao contrário do obrigado – palavra que, com o passar do tempo, ganhou, na boca do povo, um significado de certa maneira diferente e até certo ponto melhor do que o original – a palavra favor parece ter se desvalorizado ao longo da história, adquirindo um sentido muitas vezes pejorativo, totalmente distanciado de sua idéia original. Quando se fala em “troca de favores” hoje em dia, logo se lembra do “tapinha nas costas” com terceiras, quartas e quintas intenções; do “levar vantagem em tudo”. E, quantas vezes, se ouve alguém dizer, com certo desdém: “Ele me fez isso por favor.” Ah, se fosse em Roma…

A grande questão, porém, não está em usar ou não a palavra favor, usar ou não a palavra obrigado(a). Se nossas palavras forem a expressão de nosso pensamento, deveríamos fazer com que nossos atos fossem a concretização de ambos. Uma coerência difícil, mas possível de ser buscada. Ou seja, muito além do uso que se faça dessas duas palavras, ajudar e ser ajudado é, a meu ver, conseqüência natural de uma vida pautada pela troca espontânea de favores (no sentido etimológico da palavra).

A língua, por ser fenômeno social, é mutável; e é extremamente difícil se desprender de convenções tão enraizadas. Entretanto, levando-se em conta o conhecido poder que qualquer palavra traz consigo, é sempre bom estar atento às suas origens.

Alguém já disse que “um sorriso vale mais que mil palavras”. Assino embaixo e arrisco-me a dizer que, para quem faz um favor – ou melhor, oferece apoio – sorrindo, o sorriso do outro vale muito mais que mil obrigados.

25/09/2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

O obrigada e as convenções lingüístico-sociais no Recanto das Letras

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