Crônicas

Nosso pedaço de vento

Em média, passamos dormindo um terço de nossas vidas. São milhares de horas passadas de olhos fechados. Como seria bom se todos conseguissem preencher os outros dois terços sem fechar os olhos para a vida.

Ouvir uma música bem baixinha – do tipo “trilha sonora do relacionamento” – naquela hora a dois, ouvir música alta compartilhada com o pulsar de inúmeros corações. Fazer uma leitura que abra a mente, ler livros que nos façam mergulhar dentro deles. Sentir o sossego de uma rede balançando no meio do nada, sentir o burburinho das grandes cidades. Ouvir o cantarolar harmônico e maravilhoso de pássaros em revoada, ouvir o assobio desafinado e maravilhoso de quem nos vê passar. Paradoxos que reunidos fazem a vida mais colorida.

Cores… Todos deveriam ter cores pra defender, sejam elas ligadas ao esporte ou à política, mas principalmente as cores de um país, de uma terra natal. Uma pátria para amar, uma cidade para adorar, de certa maneira tudo isso faz com que não nos sintamos à deriva. Não há quem não tenha raízes e mesmo os que se autodenominam “cidadãos do mundo” sentem algo diferente no peito ao retornar às suas origens.

Gostoso também é se dar ao direito de ser uma eterna criança. Sabendo-se a hora certa de fazê-lo, como é maravilhoso brincar em qualquer idade e, claro, receber brincadeiras sadias. E naquele momento em que se pode voltar a ser criança o tempo até parece parar. Ah, o tempo… O grande Santos Dumont, pai da aviação, que me perdoe, mas há certas horas em que o relógio é bom mesmo fora do pulso.

Quando um filme é bom ou qualquer tipo de espetáculo que encante olhares, pra que mesmo que serve um relógio no pulso nessas horas? Geralmente as pessoas nem lembram dele e se lembrarem terão sua atenção desviada. A preocupação exagerada com o tempo é uma das maiores pragas da sociedade atual. Sociedade tão pragmática, tão preocupada com o concreto que acaba por tantas vezes se esquecendo que para se concretizar os computadores um dia precisou existir um sonhador que cismou com a luz elétrica. Seu nome era Thomas Edison e não consta que se importasse muito com relógios.

Edison errou muito antes de acertar, muito mesmo, milhares de vezes… A ele o mundo deve sua insistência, como a Santos Dumont e a tantos outros. Com eles deveríamos aprender ao menos uma coisa, e como é boa essa lição: sim, a vida pode valer à pena. Não precisamos ser geniais como eles, mas se não pecarmos por falta de vontade de viver certamente já estaremos no caminho certo.

A vida é uma eterna lição e não é delicioso quando numa aula se aprende que a aula é a vida? Afinal, de nada adianta ter aula sobre sociopolítica, quando naquele exato momento estão ocorrendo, em local próximo, passeatas, protestos e todo tipo de manifestações de fundamental importância para a história. Onde está a aula? Entre quatro paredes ou na rua?

O ser humano tem cinco sentidos, fora o famoso sexto, que dá um texto à parte. Dos cinco, quantos mais possamos usar em determinada situação certamente maior será nossa percepção dos fatos. Parece claro que estar numa aula sobre um fato é uma coisa, estar no fato é outra. Talvez seja a velha guerra da teoria com a prática. Há momentos em que a teoria é fundamental, não há dúvida, mas em muitos casos a prática ganha de lavada. Diria que é a união da ação com a sensação.

E o que dizer da inenarrável sensação de ombros entrelaçados trazida por uma verdadeira amizade? Fotos e momentos, mais momentos do que fotos. Acha mesmo que a vida vale a pena sem essa sensação, sem essa certeza? Sem aquelas piscadas de olho que só você e seu amigo entendem? Não, por favor, não vivam sem isso. E pra quem ainda tem o privilégio de tê-los ao lado, e mais do que isso – de tê-los como amigos – como descrever um beijo do irmão, um carinho da mãe ou o orgulho estampado nos olhos do pai? Impossível não frisar aqui que o amor em todas as suas formas é o melhor que a vida nos tem a oferecer e, conseqüentemente, é o mais perfeito presente que podemos oferecer aos outros, basta nos entregarmos de verdade a ele.

Para tudo na vida é preciso entrega… Quem é incapaz de se entregar a uma disputa de bolinha de gude, será mesmo capaz de ir até o fim nas disputas tão maiores que a vida nos apresenta? Se cair uma folha em seu cabelo, você pode pensar: “Que chateação, deixa jogar isso fora logo” Quem sabe se aquela pequenina folha só queria alegrar seu dia? Quem ao alto sobe sem valorizar o pequeno, nem sequer sabe onde vai cair. E aquele que encontra a felicidade nas pequenas coisas tem o caminho encurtado para ser feliz nas grandes. Terá mais facilidade, por exemplo, de encontrar uma profissão que o faça livre… Livre de muitas coisas, principalmente de arrependimentos e desgostos, os quais costumam embaçar os olhares diante da vida.

Se você nunca fizer nada que justifique como poderá pegar alguém falando bem de você de surpresa? Uma das mais agradáveis surpresas que se pode ter. E quando seus companheiros lhe surpreendem com uma vitória que alcançaram você explode de alegria ou a alegria alheia o explode? Quanta luz emana um sorriso despreocupado! Deixar-se contagiar por sorrisos, eis uma das melhores coisas da vida.

Não deixe de buscar a parte boa que a vida lhe reserva, o seu pedaço de vento. Ou se olha pro relógio ou se vive. A vida é feita de escolhas… E, enquanto isso, parafraseando Cazuza, o vento não pára.

08 de Setembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Nosso pedaço de vento no Recanto das Letras

Categorias:Crônicas

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1 resposta »

  1. Querida, agora, você escreveu de mão cheia. É um texto que não merece reparos. Uma crônica ritmada, com estilo leve e parágrafos que, sozinhos, já valeriam como um belo escrito. Sem exagero, posso afirmar que cada parágrafo é uma crônica. E sabe quem consegue fazer isso? Apenas os grandes cronistas. Não há o que aperfeiçoar, você está pronta e é certeza de boa leitura. Parabéns!

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